Que bom que você veio!

Obrigado pela visita, deixe uma mensagem de sua passagem por aqui.

3.11.08

Não quero ser nenhum dos heróis da Bíblia.


Quando observo a riqueza literária da Bíblia com seus poemas, histórias, epopéias, metáforas e outras e também quando leio os diálogos de Jesus e me coloco a ouvi-los, percebo
suas parábolas instigando a imaginação e criatividade de seus ouvintes. Vejo que comunicar o reino de Deus é muito mais profundo do que reproduzir letras.

Percebo que a Palavra de Deus não é como um tipógrafo que apenas carimbou uma história como se repetisse um vicioso círculo. Mas um convite para o uso da imaginação e de toda riqueza da linguagem humana para que se penetre no mundo das palavras e nelas se descubra o tesouro da Palavra de Deus.

Tentar reviver a experiência dos heróis da Bíblia, querer conquistar as mesmas coisas que eles conquistaram, demonstra uma pobreza espiritual que sacrifica a individualidade e contraria todo o esforço de Jesus em revelar a possibilidade de experiência pessoal com Deus.
A possibilidade de escrever uma história singular a partir de si mesmo na companhia de Deus.

Para uma pessoa andar com Deus e ter experiências com Ele, não precisa deixar de ser quem se é. Não é necessário ser um Moisés e ir para um deserto encontrar uma sarça e nem mesmo subir a um monte.
O que Deus pede de cada um se resume à plenitude de si mesmo, revelando somente aquela pessoa que Ele autenticou com sua própria imagem.
Ser a si mesmo com inteireza.

Por isso, eu não quero passar minha vida copiando o jejum de Daniel, a conquista de Gideão, a fé de Abraão, mas desejo ter as minhas próprias experiências com Deus, com tudo aquilo que sei, com o que não sei, com tudo o que tenho e o que não tenho.
Ser como sou pela graça de Deus, e nisto o conhecer.
Os heróis da fé não descobriram a maneira de vencer espiritualmente, eles simplesmente tiveram suas próprias experiências com Deus.
Que bom perceber que Deus aceitou cada um deles, e que graça maravilhosa saber que ele também me recebe.
O jejum de Daniel, os sacrifícios de Davi, a ousadia de Sansão serviram para suas vidas e espiritualidade, mas eles não foram mais amados por Deus.
Eles não obtiveram de Deus a única maneira aceitável. Também não está na Bíblia como uma receita para se dar bem no mundo.
Cada um deles propôs em seu coração servir a Deus e agiu diante das circunstâncias em que se encontrava com aquilo que compreendia da vida e de seus relacionamentos com o Deus da Torá.

O que desejo aprender com cada um dos heróis bíblicos não é convencer Deus e nem vencer o inimigo. Quero aprender a ser inteiro, intenso, dedicado, honrar minha aliança com Deus e levar isto até as últimas consequências.
Quero com eles saber agir diante das circunstâncias com sabedoria, sem precisar fazer de suas experiências a minha receita, mas ter as minhas próprias experiências.

Minha história é válida e tão importante que a levarei para a eternidade.
Lá serei recebido entre amigos, apresentando minhas ações e avaliado pelo meu caráter.
Com tudo o que vivi e vivo, pretendo construir uma eternidade bonita.
Diante de Deus serei plenamente quem sou: Imago Dei.

Não quero ser nenhum dos heróis da Bíblia, estou satisfeito comigo mesmo, apesar de todas as minhas fraquezas, sei que Deus me quer bem e para mim isto basta.


Eliel Batista

27.10.08

Quem Não For Idólatra, Atire A Primeira Pedra




Ninguém está completamente convertido dos falsos deuses ao Deus verdadeiro. Todos ainda estamos atendendo diariamente ao chamado profético: - “convertam-se a Deus”.

A história Bíblica não só propõe, mas aposta que o Deus revelado em sua mensagem, apesar de estar muito além das palavras, descrições e imaginação humana, pode ser experimentado. É o Deus experiencial que desde sempre interage com o ser humano, não sob seu comando, mas numa relação íntegra, verdadeira e livre.
Ninguém teria capacidade de criá-lo, pois ele escapa das possibilidades humanas. Nem tampouco moldá-lo, pois está para além de definições. Não é possível dar-lhe um nome pois não cabe em palavras. É livre e poderoso, mas se amarrou à história humana.

Existe um conflito entre Deus não ser como se imagina e a necessidade humana de ter pelo menos uma idéia para se relacionar. Não falamos de um relacionamento com o vazio, mas com uma pessoa.
Inicia-se aqui a difícil tarefa da conversão dos diversos deuses - fruto da imaginação humana, para o Único Deus – para além de toda criação.
Lutamos entre a insegurança de adorar um Deus inimaginável, e a segurança de adorar um deus correspondente à imaginação humana.

Adorar ao Deus que é, ou ao deus que se pensa?
Deus só é conhecido por interpretação, mas toda interpretação do Deus incriado formula uma imagem que por definição falha.
Se tudo o que temos de Deus são imagens e toda imagem de Deus é idolatria, inseguros perguntamo-nos, se adorar o deus de nossa interpretação é adorar o Deus verdadeiro?!

Reconhecendo isto passei a propor a mim mesmo algumas coisas:

Não posso defender que o Deus da minha interpretação seja de fato o Deus verdadeiro.
Isto gera o sectarismo, dogmatismo e fundamentalismo religioso. Na prática o resultado final desta afirmação, apesar de expressar piedade e conversão completa, torna-se naquilo que é altamente condenado nas escrituras como adoração falsa a um falso deus. (Is 1 e 58)

Não posso dizer que o Deus da minha interpretação seja falso.
Assumir de fato que tudo o que consegui compreender de Deus são idolatrias, beira o panteismo e inviabiliza um relacionamento real com Deus, além de confessar com isto, que não reconheço o Deus verdadeiro. Afirmaria a vida de fé como falsa.

Não posso dizer que todas as interpretações são verdadeiras.
Diante de tantas interpretações e muitas delas contraditórias, jamais saberíamos o que dizer de Deus, e nem tampouco poderíamos nos distinguir numa relação com Ele e com a nossa missão.

Como resolver o drama?
Somente pela fé e tento a solução da seguinte maneira:
Como um um bom começo me dispus a não ter um Deus completamente definido, captado pelos estudos e investigações. Admiti que a teologia é provisória e sempre aperfeiçoando. - Deus não é o que a doutrina diz, está para além das definições.

Depois abri mão de querer servir às minhas projeções como a um Deus. - Deus não é quem eu gostaria que ele fosse.

E como terceiro passo, me propus não servir a Deus por me maravilhar por sua capacidade ou estado de superação humana. - Deus não é um homem com um plus do impossível.
Servir a um Deus, somente porque ele é um ser maior, considero pequeno e acredito ser um dos aspectos condenados pelo primeiro e segundo mandamento.
O devoto ao imaginar um Deus maior do que a si, como a um super homem, o reduz a uma obra-prima, por isso com prazer o cultua, pois satisfaz a si mesmo superando-o.


Ao compreender a Bíblia como Palavra de Deus em palavras humanas, percebi para os nossos dias que a Bíblia faz referência a dois tipos de deuses:

1- Um Deus esculpido em definições, defendido em tese.
Por ser obra-prima humana, como toda arte, é intocável. Assim como as belas artes estão blindadas nos museus, este Deus está super protegido por uma excelente doutrina. Seus criadores não admitem sua destruição. Para preservá-lo em sua posição de superação o homem é capaz de destruir, matar e cometer as loucuras que a história das religiões revelam.
Este deus imaginado pelos mais laborosos estudos, idéias e filosofias e dotado da função de realizar os impossiveis humanos é passível de ser acusado como fruto das projeções humanas. É o super homem, que responde a tudo o que não se consegue explicar, e realiza tudo o que os homens não são capazes. Ele se torna a resposta para os medos de viver a vida.
Para deixá-lo na categoria de Deus damos lhe diversos nomes como por exemplo médico dos médicos.
A respeito deste Deus não se admite dizer algo diferente do que se imaginou para ele.
Aquele que deseja servir a este Deus, não pode conversar com um ateu, pois existe grande possibilidade de tornar-se incrédulo.
Que tipo de deus pode ser destruído quando se pensa?
Um deus pequeno demais que não se sustenta fora da doutrina que fizemos para ele, não é digno de ser adorado.

2- Um Deus percebido na história e experimentado na vida.
Outro Deus é aquele que sem aspirações de superação, se apresenta em uma linguagem e simplicidade tal que muitos o recusam. Um Deus que interage. Chora com os que choram, se insere na criação e no tempo, não se apresenta dentro das imagens de superação humana. Um Deus desprotegido da doutrina e que defendê-lo na linguagem de Paulo é vergonhoso, mas não se deve envergonhar, pois Ele é.
Este Deus não faz questão de se apresentar como tal. Não realiza atos sobrenaturais que comprovem sua superioridade. Prefere se fazer presente na criação e até mesmo servi-la.
Detém-se em diálogos pouco convencionais, toca pessoas na dimensão em que elas se encontram. Não exige, mas se dá.
O seu “sobrenatural” é no mínimo constrangedor: ouve quem não fala, fala a quem não ouve, se mostra para quem não consegue ver, toca quem não sente, caminha com quem não anda, dorme com os insones e ama quem peca.
Este Deus se revela Santo e demonstra isto no meio do pecado. Não se mantém distante no trono, se faz povo. Um Deus que qualquer homem pode superar, mas apesar de sua fragilidade ninguém jamais o superou.

Quando olhamos para Jesus de Nazaré, o carpinteiro, constatamos que jamais alguém construiria um Deus tão pequeno, mas ele de fato é a exata expressão do Pai.




Eliel Batista

18.9.08

Carta Confessional De Um Pastor


A religião me matou, mas avisa os meus irmãos que ressuscitei.

Descobri que a própria religião, estabelecida para produzir vida, na verdade produziu morte. (Paráfrase de Rm 7:10)

Sei que esta carta ficou longa e nem todos se dedicarão a lê-la. Penso que aqueles que melhor me conhecem, arriscarão matar a curiosidade ou de fato me honrarem.
Caso você não tenha paciência com longos textos, mas mesmo assim insista, agradeço. Sentirei-me honrado e espero alcançar o objetivo de demonstrar o conflito entre os processos de morte produzidos pela religião e a vida dada por Cristo. Tentarei facilitar a leitura dando uma dinâmica que torne-a leve. Em dez acontecimentos narrarei cinco de uma religião que mata e cinco de Cristo que ressuscita os mortos.

Hoje completo mais um ano de existência neste mundão de meu Deus.
Evidentemente em função do número de anos, penso sobre minha história de vida e desta vez dedico este pensar à fé.
Não tenho uma memória privilegiada de conseguir traçar toda uma linha histórica, mas daquilo que me lembro, tenho sinais suficientes para responder porque apesar de ter sido assassinado em minha infância pela religião, insisto na fé cristã.

Dizem os especialistas que toda a estruturação de um ser está em sua infância. Depois disto, são adaptações, avaliações e reconduções.
Em minha vivência, cada qual tem a sua, não posso testemunhar que o ambiente religioso tenha produzido vida ou me conduzido a uma experiência libertadora com Cristo.

Primeiro Quadro na religião:

A chamada Santa Ceia, se realizava em um ambiente privado e de acesso restrito aos membros adultos, mediante a apresentação do cartão de membresia rigorosamente em dia. Minha curiosidade infantil aguçava-se pela aura do mistério. Principalmente porque todas as crianças iam do portão direto para uma sala qualquer. Com os pensamentos no mundo da lua, tentava adivinhar o super segredo da fé, proibido para crianças. Ouvir dizer que naquela hora se daria a íntima comunhão com Cristo e não poder participar me matava. Na sala com as crianças minhas fantasias eram interrompidas gradativamente pelo especial e imprescindível ensino dos nove dons espirituais dados por uma monótona moça. Pela parede podia ouvir mesmo que abafado, o som de alegria dos adultos em encontrarem-se secretamente com aquele que aprendi a cantar: “Jesus ama as criancinhas do Brasil e do Japão..Jesus as ama como são ”.
Mas o grande dia revelador chegara. As portas principais do templo se abririam a todo o público. Minha alegria transbordante em finalmente desvendar o misterioso encontro com Jesus, murchou como um balão de festas na hora do parabéns. Não havia absolutamente nada de extraordinário ou empolgante na reunião secreta. Um ambiente recalcado e intransigente em que após algumas pessoas exporem fraquezas íntimas, recebiam a chancela de perdoados e aptos à comunhão, podendo junto com os demais beberem suco de uva num único copo. – Argh!

Segundo Quadro:

Uma de minhas tias sofria pesarosamente de epilepsia. Vez por outra convulsionava na hora dos cultos, deixando notório o constrangimento e vergonha dos familiares. Sempre os adultos procuravam me impedir de ver o momento de seus ataques epilépticos. Mas a incansável curiosidade me possibilitou furar o cerco e num breve instante assisti a uma cena que seria perturbadora. Ninguém jamais me esclareceu de que se tratava. Como o desconhecido muitas vezes assombra, apossou violentamente de meu coração dúvidas não esclarecidas e um “grande medo”.
Mas um dia uma devota senhora muito me auxiliou, ao tocar no cerne de minha mais temerosa gaveta de alma. Permita-me contar-lhe.
Surgiu não sabia de onde, um adolescente no momento do culto. Ele saltava como jamais se vira, espumava pela boca e soltava grunhidos assustadores. Possuido de uma força descomunal quatro adultos não o seguravam. Finalmente dominado pela força bruta de oito homens, foi retirado do templo para uma sala ao lado. Minha mente tentando encontrar respostas, rapidamente conectou-se com a cena que vira de minha tia, mas não conseguira dar sentido aos fatos. Com os olhos estatelados e o coração disparado ao ouvir a palavra demônio, o regurgitar do medo contido dirigiu-me em busca de alguma resposta, a uma senhora que me transmitiu segurança. Ainda sei dizer o tamanho daquele dedo enorme em direção ao meu nariz, contribuindo com a mais tétrica coroa de meu sepulcro:
- “Está vendo? É isto que acontece com crianças que aprontam e não se comportam nos cultos.”
Que vida-morte a partir de então! Anos mais tarde, por volta dos meus doze anos, uma vizinha procurou minha mãe e solicitou-lhe que me levasse ao médico, pois para ela, o caso não se tratava de uma criança normal. Por que ela constatou isto? Talvez porque eu não brincasse com bola, não ia para piscina, não subia em árvores, não empinava pipas, não fazia travessuras, mas tinha uma leitura maravilhosa. Enfim, ela percebera que a criança que conhecia tão bem a Bíblia estava morta.

Terceiro Quadro:

Depois disto, pareceu-me coerente o tal do irmão que ficava na porta do templo para recepcionar a todos, me dar a impressão de ser um antropófago infantil. Cenho franzido, palavras embrutecidas e o terno com gravata compunham o currículo do bedel da igreja que fiscalizava até mesmo as vestimentas das irmãs. Meu irmão chegou a dizer que entregaria minha mãe ao pastor, por cortar a franja do meu cabelo de indiozinho. Hoje provoca risos, mas naquela época...

Quarto Quadro:

Por outro lado, algo jamais se transformou em humor.
Assisti por algumas vezes, meu pai em um templo repleto de pessoas, pedir perdão por alguma coisa que eu desconhecia. Cabisbaixo, num silêncio constrangedor para os murmúrios de minha mãe, ouvia ecoar as vozes dos guardiões da reta doutrina, que proibiam a todos que efetivassem o dito perdão. Depois de palavras ásperas em tom ofensivo e de total ausência de afeto, causava-me estranheza na seqüência o discurso sobre o grande amor perdoador de Deus e a graça salvadora. Era o preâmbulo da ceia. Novamente voltávamos para casa sob olhares de repulsa e reprovação, como se todos tivéssemos cometido o ato mais deplorável, em acompanhar meu pai ou pertencermos à sua família.

Quinto Quadro:

No dia do meu batismo, uma verdadeira festa para todos. Ansioso corri para a igreja para uma entrevista com o pastor. Deveria falar sobre a minha experiência com Cristo. Pensei em minha história, não encontrei fatos importantes, mas o intenso desejo de reviver e acreditando que o ato batismal anunciava a nova vida, ensaiei os jargões que me recomendariam ao batismo. Ofegante me sentei à frente da mais alta autoridade espiritual na terra, o pastor. Parece-me possível ainda ouvir suas palavras e até o tom de sua voz, que jamais me permitiram falar qualquer coisa:
- “Você está de camiseta. Será batizado, mas não poderá mais usá-la aqui na igreja. Entre naquela sala e se troque”.

Apesar de falar bem de Jesus, o ambiente religioso não me apresentou a ele. Ali minha infância morreu. O que consegui captar em minha vivência com o ambiente religioso somente matara. Matou a criança, a alegria, a liberdade, a comunhão e a possibilidade de conhecer Jesus. Enfim, experimentei que ser eu mesmo era proibido.
Mas como o evangelho não termina na morte, e de fato Jesus ama as criancinhas, posso testemunhar que do lado de fora, sem nenhuma pretensão religiosa eu revivi.

Primeira Cena da Vida:

Diante das dificuldades que a família enfrentou de repulsa e reprovação da igreja, também de falta de alimento, outra vez de uma cama para dormirmos e até mesmo de uma simples pedra de sabão para lavar roupas, a primeira frase das orações em casa me impressionavam. Minha mãe dizia:
- “Jesus eu te louvo, não tenho coragem de pedir-te qualquer coisa, mas tu conheces o meu coração...”.
E a profunda convicção impulsionava meu pai a iniciar as orações assim:
- “Bendito Deus e Eterno Pai, nesta hora de dor...
Nunca ouvi uma murmuração. Nunca ouvi palavras que ofendessem nem mesmo os ofensores e jamais os vi desconfiarem do amor de Deus.

Segunda Cena:

Pude ver por entre as frestas de um matuto, de palavras mal pronunciadas e poucos gestos de carinho, a ternura de Jesus. O semblante de poucos sorrisos de meu pai, ao falar sobre o amor de Deus ou a graça salvadora, se transformava num afeto resplandecente. Todas as vezes, sem exceção sua voz embargava, seus olhos marejavam e manifestava uma afeição calorosa.
Sua paixão por Jesus o levava a demonstrar ternura onde pouco se perceberia. O vi atender um cliente em seu comércio e depois de alguns minutos num canto de conversa, levá-lo para um lugar privativo nos fundos e ao chegar ali, assisti uma linda cena de amor e ternura. Um homem desconhecido de joelhos chorando e meu pai o acolhendo em orações e lágrimas.

Terceira Cena:

Depois de anos da nossa família marginalizada pelo ambiente religioso, sob suspeitas de algum pecado que parecia contagioso, assisti o pastor-juiz que dera o veredicto de proscrito do sagrado ao meu pai, solicitar a presença de todos os filhos. Numa cena inesquecível na sala de nossa casa, um homenzarrão aos prantos se ajoelhara diante do meu pequeno pai. Beijou-lhe as mãos e aos seus pés pediu-nos perdão pela injusta condenação e perseguição cometida. Apontou para meu pai, voltou-se para mim e disse:
- “Filho este homem é digno, vocês têm um pai que merece ser honrado e muito amado”.

Preciso continuar contando que conheci Jesus.

Quarta Cena:

Durante anos em todas as madrugadas ouvia minha mãe chorando, por um filho que não nascera de seu útero. Como a dor de quem perdera um pedaço do coração, ela pronunciava palavras e gemidos que me causavam a impressão de morte:
- “Jesus eu te louvo, mas isto parte o meu coração, tem misericórdia de mim”.
O que tanto lhe doía era o tipo de vida que escolhera meu meio-irmão, mas para ela um pleno filho. Diante da escolha de meu irmão por uma vida toda atrapalhada e destrutiva, aprendi que tamanha dor sofrida por uma mãe, só poderia ser fruto de um grande amor. Alguém amado desta maneira, deveria se perceber muito privilegiado. Sei que por mim lágrimas também se derramaram, não tantas pois não precisou. Reconheceria um coração que ama sem precisar vê-lo sofrer para constatar.

Quinta Cena:

Constantemente minha mãe lia a Bíblia e falava com Jesus que me espantava. Vez por outra a ouvia dizer:
- “Jesus maravilhoso olha isto!! Sempre li a tua palavra, mas isto aqui parece que eu nunca tinha visto. Como a tua palavra é viva!
Conheci fora dos ambientes religiosos, um Jesus que pacificava as brigas entre os irmãos, amava intensamente cuidando, chorando e nos ensinando as palavras eternas. Nunca conheci alguém com tal capacidade de servir e sempre cantarolando.

Eu tenho muitas histórias para contar, mas quero apenas relatar o meu encontro com a vida de Jesus. De fato não se deu em ambientes religiosos, estes por si só não me apresentaram-no, apenas falaram bem dele. E nem poderia ter conhecido Jesus em um ambiente religioso, porque no meu caso, ele se revelou bem diferente do Jesus da religião.
Tenho certeza que conheci Jesus. Ele usou saia, cantou o dia inteiro, me chamou de filho. Chorou minhas lágrimas, sentiu minhas dores. Ele se apresentou a mim desde que abri os olhos pela primeira vez e se chama Jandira.

Talvez alguém ao ler isto considere que estou cometendo um grande pecado, porém eu só tenho Jesus Cristo, o Filho de Deus como o meu Senhor e Salvador, porque pude vê-lo em minha mãe. Para alívio dos mais ortodoxos, eu sei que minha mãe não é Jesus, mas também sei que na minha vida Jesus não seria, sem minha mãe.

Por que depois de ter sido assassinado traumaticamente no ambiente religioso, não só o frequento como sou pastor?
Porque depois de ter conhecido Jesus em casa, encontrei um lugar de misericórdia, que me ajudou a desvencilhar das cascas religiosas, a lidar com os conflitos e a identificar quem é o Cristo. Hoje consigo identificar Jesus de longe.
Corri um sério risco de depois de conhecer Jesus tão de perto, submeter-me à insanidade religiosa, e apagar o Cristo vivo da minha história e encobri-lo dos olhos das pessoas com discursos piedosos ou mesmo me afastar definitivamente dele, por causa dos religiosos.
Hoje adulto, a Betesda me ajudou a reconhecer quem é o Cristo, a servi-lo livremente e tentar com todo o meu ser, também ser um Jesus para alguém, para além da religião.

Obrigado mãe por Jesus. Obrigado Ricardo pela cura. Ao meu falecido pai, já lhe fiz as honras.
Posso afirmar como o poeta: “Sou de Jesus, herdeiro de Deus”.

“Eu desejo oh Deus, em Jesus habitar,
pois minha alma suspira por ti.
De valor em valor e na fé aumentar,
para que vejam Cristo em mim”.


Obrigado a você que gastou seu tempo lendo-me. Este para mim é um belo presente de aniversário.

Eliel Batista

27.8.08

MENSAGEM DA CRUZ PARA A GERAÇÃO “GREENPEACE”.


A Palavra de Deus permanece para sempre, não por ser fixista. Ela possui uma propriedade peculiar de renovar-se a cada dia, comunicando sempre com a mesma intensidade a sua mensagem, através de percepções adequadas para cada época.
Em diferentes períodos da história, a compreensão teológica apresentou um modelo que respondeu ao contexto de sua geração.

Na época da ascensão da classe burguesa outrora excluída do papacesarismo - ingerência da igreja no estado, a teologia tipificou Deus como o Soberano que governa por decretos eternos e fixa todas as coisas.
Uma boa analogia, mas a meu ver própria apenas para seu tempo.

Vivemos um tempo de exigências revolucionárias.
Preocupações socio-ambientais, de defesa da vida, de sustentabilidade e contra toda forma de discriminação.
Os diversos modelos teológicos do cristianismo, encontram dificuldade em comunicar a fé para a atual geração. Requer-se a busca de novos.

Por exemplo, o modelo da mensagem da cruz.
A ênfase em um sacrifício inocente como exigência divina para salvar, seria o modelo com mais propriedades para comunicar a fé cristã, para esta geração “greenpeace”?

Usando de franqueza, percebemos que existe um certo conflito entre a mensagem que proclamamos e as pessoas que a ouvem.
A busca por mudanças na fundamental mensagem cristã, suscita diversas perguntas. Entre tantas, se a mudança de modelo não configuraria a negociação do valor da mensagem a fim de “coçar” os ouvidos do público. Semelhante a esta, a idéia de que o evangelho tem que confrontar os pecadores e não acomodá-los.

Para responder às diversas perguntas, necessitamos saber se existe a possibilidade de mudar um paradigma teológico para outro, e continuar comunicando Deus plenamente à esta nova geração, sem comprometer a fé bíblica que tanto defendemos.
Acredito que sim, pois o próprio Senhor Jesus fez isto.
Até mesmo sua tradicional fórmula: - ‘Está escrito, eu porém vos digo”, demonstrava uma radical mudança.

Mais importante de tudo é saber que o evangelho, é uma boa notícia justamente para os que estão perecendo, por isso precisa ser comunicado com clareza e carregado de compaixão.
Paulo, entendendo que a mensagem da cruz é loucura para os que perecem, não procurava anunciá-la com palavras, por mais sábias que fossem, pois contrariaria seu objetivo.
Ao se referir a cruz ele se ocupava em demonstrá-la em si mesmo.

– “Vivo crucificado...”, dizia ele.

Em se tratando da pregação, ele ensinava que sem ressurreição ela seria inútil

Quando a Bíblia diz que Jesus morreu pelos nossos pecados, podemos interpretar a morte da cruz como uma manifestação da maldade humana e não como uma exigência ou satisfação divina.
O Pai Bondoso não se transformaria em um carrasco do Filho ou alguém que encomendaria aos homens que o assassinassem, muito menos por causa do pecado.
Alguma coisa levaria Deus a castigar ou matar um inocente, ainda mais em se tratando do Filho amado?

Seu amor permitiria ou o pecado o tentaria?

Podemos ver na cruz, a denúncia de que justos sofrem e inocentes são perseguidos por causa do mau uso da liberdade humana e não por causa do castigo divino.
A liberdade humana pode condenar Jesus e soltar Barrabás.
O pecado e não Deus assassinou o Senhor da Glória.
A resposta de Deus para esta tão cruel maldade, foi a ressurreição.

O evangelho anuncia que a exaltação de Cristo atrai a todos e quem a ele vai tem vida.
O ápice da exaltação é a ressurreição. A morte de cruz é o extremo da vergonha e humilhação.
Se a boa nova chama as pessoas e a elas leva a vida, somente a ressurreição cumpre este papel. Ela que proclamará a esta geração anti-morte e que luta pelo bem, que Jesus é o caminho, a verdade e a vida.

A resposta de Deus a um mundo que mata, se encaminha para o colapso, que sofre por causa do mal, que se defronta com a destruição iminente foi a ressurreição.
A resposta do mundo ao Deus que ama e quer o bem foi o assassinato na cruz.
Deus ao ver o quadro da cruz poderia cobrar com justiça, mas a incontemplável crueldade daquele sangue derramado, suscitou nele um amor que fez daquele sangue uma aliança de perdão: “Não haverá mais morte”.
Para esperança da fé, ele transformou um fato humano - o funeral, em um ato divino - a celebração da vida com pão e vinho.
A cruz, ininteligível a quem perece, denuncia horror da morte e a ressurreição anuncia a graça. Ele nos deu vida com Cristo.
Levemos vida ao mundo perdido, a melhor e mais bela resposta para as mortes.

A todo aquele que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo – Gn 9:5

"Portanto, que todo o Israel fique certo disto: Este Jesus, a quem vocês crucificaram, Deus o fez Senhor e Cristo". At 2:36;

Eliel Batista

31.7.08

JESUS JÁ VIVEU A NOSSA VIDA



Agora é a nossa vez de vivermos neste mundo como filhos de Deus.

A posição de Jesus como intercessor (Romanos 8:34) e promessa de presença contínua (Mateus 28:20b) afirma que Ele já viveu de uma vez por todas o que vivemos e não poderá fazê-lo novamente. Cumpre a cada um assumir sua responsabilidade de viver a vida como ela é contando com a graça de Cristo (2 Coríntios 12:9-10).

Jesus experimentou integralmente a nossa vida terrena e conhece por vivência nossos sofrimentos e limitações.
Se fez fraco e pobre identificando-se integralmente com a humanidade , mas sem pecado.
O Pai o entregou a esta vida, não o poupou.
Quando Cristo entrou no mundo, o Pai deu ordem aos anjos que não se intimidassem com sua forma tão humana deixando de adorá-lo (Hebreus 1:6) e enviou o Espírito Santo para que testificasse sua filiação (Mateus 3:16-17 e Romanos 8:14-16).

Assim como o Pai deu autoridade de vida ao Filho (João 5:26), Ele dá a vida para cada um de nós (João 5:21b).
Vida esta, com uma singularidade ímpar, pois a cada um ele conhece pelo próprio nome (João 10:27).
Esta vida dada precisa ser vivida em sua totalidade, pois por ela seremos julgados (2 coríntios 5:10).
Para este projeto de viver, Jesus que experimentou nosso sofrimento intercede junto ao Pai, o Espírito Santo junto de nós e os anjos ministrando-nos para que o cumpramos cabalmente.

Jesus o intercessor, abriu definitivamente o acesso para o Pai, mas ele não irá viver em nosso lugar. Ele sabe de todas as dificuldades, mas a vida que cada um tem deve ser vivida por cada um.
O Deus Emanuel, Jesus Cristo não poderá viver em nosso lugar, porque já cumpriu cabalmente com o propósito do Pai vivendo aqui, mas sempre estará conosco, nos sustentará, e segurará nossa mão.

Portanto, as tribulações e provações que você experimenta são suas e devem ser enfrentadas por você. E a maneira como você as enfrenta determinam sua fé, maturidade e nível de intimidade com Cristo. E tudo isto comporá a prestação de contas diante do Senhor.
Por isso, jamais recue diante das circunstâncias sejam quais forem, mas seja fiel até o fim.

Hebreus 10: 37-39 pois em breve, muito em breve "Aquele que vem virá, e não demorará.
Mas o meu justo viverá pela fé. E, se retroceder, não me agradarei dele".
Nós, porém, não somos dos que retrocedem e são destruídos, mas dos que crêem e são salvos.

25.6.08

A submissão é medieval?


Submissão é muito mais do que um consentimento calado. Não se trata de subserviência. É uma postura interior que coloca em prática os valores do Reino de Deus.

Alguém com esta virtude em seu coração sabe com mais intensidade o valor da vida em comunidade e sua sensibilidade espiritual é muito mais apurada, pois compreende o que significa ter o Espírito de Cristo e consegue olhar com bons olhos para o outro considerando-o importante. É por esta razão que a submissão permeia toda a vida cristã, como diz a Bíblia:
- "Sujeitai-vos uns aos outros em amor".
- "Sujeitem-se aos vossos líderes",
- "Sejam submissos às vossas autoridades
(governamentais)",
- "Submetam-se aos vossos pastores, pois velam pelas vossas almas",
- "Filhos sejam submissos aos vossos pais".

A submissão Bíblica não existe por razões hierárquicas, mas sim em função de valores nobres de reconhecimento e também espirituais, pois salvaguarda as relações em sociedade. A submissão parte de um coração doce que olha para o outro e o vê com dignidade, ela nasceu no coração de Deus, "que a si mesmo se esvaziou e tornou-se servo"....
Diferente disto e que causa muita discórdia está a subordinação. O soldado está debaixo de ordens de seus superiores.

Uma pessoa insubmissa tem em si uma aspereza que dificulta o desenvolvimento e crescimento do grupo em que está inserida, seja família, amigos, igreja, ou líder em qualquer dimensão. A Bíblia aponta para o fato de que a insubmissão começou com um homicida desde o princípio, o pai da mentira, a antiga serpente, que desconsidera o outro a ponto de desejar apenas destruir.
Uma pessoa assim se torna altiva, controladora e pensa de si mesmo mais do que convém, achando-se sempre com a razão. Mas alguém assim, com certeza sofre muito, e acaba caindo naquilo que a Bíblia diz: "A altivez precede a ruína". Sua alma esta preste a ruir.

Deus em sua infinita sabedoria colocou a submissão permeando todos os âmbitos sociais: da família (nascimento) ao céu (eternidade).
É ela que é a força capaz de inibir o surgimento de alguns do tipo Hitler.

A guerra contra o Iraque veio de um sujeito que não sabe o que é se submeter ao grupo social dos países, e justamente acusando o outro de não se comportar de acordo (submeter às normas) com o mundo em que vive.
Este é um bom exemplo de que o insubmisso se supervaloriza, proclama e ataca os erros dos outros sejam quais forem, justos ou não, mas seu ataque não é por questão de justiça, mas sim por causa de um coração duro, insensível.

Na expressão submissão está implícito a existência de uma missão.
Exemplo: Na Bíblia o casamento é uma missão que revela os valores do Reino de Deus: "Assim como a Igreja se submete à Cristo".
Na missão casamento a esposa deve ser submissa ao marido, porém ambos receberam uma missão e devem ser os guardiões dela.
Na prática: um marido que oprime sua esposa e cercea-lhe a liberdade de ser e desempenhar o seu papel está sendo insubmisso à missão de revelar Cristo através do casamento. Neste caso a insubordinação da esposa não necessariamente será "crime", mas luta pela liberdade: direito inalienável universal.
Vale lembrar que nos valores cristãos, Jesus deixa o princípio de que é melhor assumir os prejuízos do que causar uma guerra e ainda que a liberdade é o objetivo da mensagem. Ao conhecer a verdade a pessoa encontra a liberdade.
O papel da submissão é preservar os relacionamentos e o bem comum, por isso a Bíblia revela como algo positivo, bom.

O marido não dá ordens à esposa, mas possibilita-lhe a liberdade de interagir para que ambos cumpram a missão de demonstrar na construção de suas vidas e lar a pessoa de Cristo.

Quanto às autoridades nós devemos nos submeter ao governo , mas o governante por sua vez também é submisso ao mesmo governo, que no nosso país é exercido pela vontade do povo (democracia), por isso um protesto não necessariamente é insubmissão, mas defesa da missão (direito do povo de organizar sua sociedade).

Um submisso ao outro é o freio social com valor espiritual que tem a função de expurgar o individualismo em prol do bem comum.

A submissão não é cega nem burra, mas cooperante com a missão e cada qual é responsável pelo seu papel (lider e liderados).
Por exemplo: temos uma comunidade que é a Igreja, se cada um que tiver uma idéia e começar a coloca-la em prática sem levar em conta o outro, o resultado será uma comunidade dividida e esfacelada e um reino dividido disse Jesus: não subsiste

Com um ar de "espirituais" existem alguns que dizem: "Eu devo satisfação a Deus não aos homens". Quem assim age não conhece o Deus revelado em Jesus, na verdade esconde debaixo de uma capa religiosa o pecado da insubmissão e ainda faz uso de textos bíblicos para "fazer o que parece certo, mas apenas agrada ao ego", como nos dias caóticos dos Juízes em Israel (Jz 21:25), promovendo assim facções na igreja, por isso Paulo é duro ao dizer em Tito 3:10, que esta pessoa "depois de advertida duas vezes deve ser rejeitada", pois afinal ela se perverteu e por si mesma se condenou. Ela não consegue valorizar o o outro, respeitar o próximo, enfim não cumpre o maior mandamento de amar como Cristo amou.
Ela mesma se excluiu do bem comum. Deve-se tentar resgatá-la com todos os esforços.


Eliel Batista

3.6.08

Conflito Teológico


Quero pensar na Teologia como exercício humano para rabiscar interpretações sobre Deus.
E em Antropopatia como a experiência divina em se revelar “legível”. Ou quem sabe como disse João, uma espécie de braile: “tocamos a Palavra”.

Constrangedoramente a tensão existente entre Jesus, o Deus encarnado, e os escribas e fariseus era de ordem Teológica.
Interessante observar a história bíblica demonstrando constantemente, a interpretação humana dada a Deus em choque com as ações divinas.
Habacuque, Jeremias, e outros, em admirável surpresa testemunham isto.

A interpretação que fazemos do divino na Bíblia, temos como Lógica de Deus.
E Deus?

Apesar de ser conhecido apenas por interpretação, paradoxalmente não se interpreta, Ele é; se revela.
Neste conflito entre Deus versus Lógica de Deus, o homem teimosamente defendeu a sua Teologia como mais verdadeira do que o próprio Deus revelado: Jesus Cristo. A crucificação que o diga.
Uma tensão milenar entre o que se pensa dEle e o que Deus faz.
Nós “Teologizamos” e Deus “Antropopatiza-se”.
Codificamos como Deus é e Ele se manifesta nos surpreendendo e chamando para amadurecermos nossas percepções.

Talvez o grande embate se resuma em:

O homem querer ver através da Lógica aquilo que Deus mostra na Empatia com sua Imagem e Semelhança.

A Teologia proíbe diminuir Deus a uma criatura.
Na Antropopatia Deus não só se fez homem como o serviu
.

A Teologia afirma Deus como o inacessível invisível.
Na Antropopatia Deus se mostrou acessível a todos e vimos a exata expressão de seu ser; toda a sua plenitude em um homem.


A Teologia não permite fazer nada que represente Deus.
Na Antropopatia Deus se representou em sua criação.

Em uma das diversas Teologias, as inseguranças para lidar com a vida reivindicam certezas doutrinárias inegociáveis.
Na Antropopatia, as inseguranças reivindicam fé. O paradoxo: certeza do que não se alcançou e a convicção do que não se vê.

O credo em uma das Teologias diz que, para se governar tão intrincado sistema, somente através de poderosos decretos.
Sabemos que um Poderoso Soberano no Trono do Universo é imprescindível, mas claramente a antropopatia revela o Deus que se esvazia. Não faz uso do cetro ou do trono e governa.

Na Antropopatia Deus apaixonadamente revela seu desejo de ser Deus na forma humana e ordena que a verdadeira Teologia o confesse assim.
Tememos diminuir o Criador Todo-Poderoso, mas Ele mesmo não tem medo de ser criatura.


Qualquer interpretação que tenha medo de encarar o Deus homem, dará ênfase ao Deus deus e não conhecerá a revelação exata de seu ser: Jesus de Nazaré.

Caso Deus se apresente fora da Lógica estabelecida, existe conteúdo Teológico suficiente para eliminá-lo.

O que fazer com o Deus visível esvaziado (antropopatia)?
– “Melhor crucificá-lo, antes que ele desfaça as petrificadas e verdadeiras interpretações sobre Deus invisível Poderoso (teologia)”.

Espero jamais crer na minha teologia a tal ponto de rejeitar Deus.

21.4.08

Arriscando a Pensar Sobre a Dureza Da Vida


“E Deus viu tudo o que havia feito, e tudo havia ficado muito bom”. Gênesis 1:31

Tentar relacionar um Deus bom com um mundo mal, pode levar a inúmeras conclusões, inclusive a uma das premissas do ateísmo em deduzir que Deus não existe.
Ao pensar sobre a dureza da vida, não me atreveria considerar possuir uma resposta.
Apenas arrisco-me a compartilhar alguns pensamentos que satisfizeram minha alma, acalmaram meu coração e me desafiaram a crer com maior vigor em um Deus que ama.

Como compreender que Deus se deu por satisfeito com a criação, se constantemente acontecem coisas ruins em nosso mundo?
Se Deus é o autor da vida, e tudo acontece por sua vontade por que nascem bebês com deficiências graves?
Estes e outros questionamentos da mesma natureza permeiam o pensamento humano, principalmente daqueles que como Jó, sofrem.

A realidade.

Não existe possibilidade de se criar alguma coisa eterna. Se algo passou a existir por natureza é limitado, pois teve um começo. Deus trouxe à existência toda uma realidade física e biológica finita. A física, a história, a biologia e a Bíblia confirmam e afirmam que a vida é frágil e se desfaz.
A ordem de Deus “não matarás”, deixa bem claro que a realidade da criação se finda e pode contrariá-lo.
No eterno não há morte, mas toda a criação distinta, portanto livre, pode ter existência e experiências à parte dele. A vida por si só gera vida e pode ser exterminada.
A vida criada morre de forma natural, incidental, acidental ou dolosa. Mas a incriada jamais morre.
A morte coloca o homem frente a frente com uma experiência contrária a Deus.
O homem pode praticar o mal, uma particularidade desconhecida de Deus.

A criação.

Quando uma pessoa cria alguma coisa, se satisfaz com o resultado de sua criação por desmonstrar através dela superação. Ou ela sente que se superou ou que superou o que existe.
Se o bom de Deus ao criar fosse uma avaliação, de que conseguira superar o que existe, teria que admitir que trouxe à existência, algo maior do que a si mesmo. E por natureza Deus não pode fazer alguma coisa que o supere.


Podemos afirmar duas coisas:

Deus não fez um mundo maior que sua capacidade.
Deus não pratica o mal. Atribuir a Ele a desgraça deste mundo é afirmar que ao criar Ele superou a si mesmo. Não podendo realizar coisas terríveis como estas que acontecem conosco, constituiu um mundo mal que fizesse por Ele.
Teria desejos em causar o sofrimento, mas incapaz providenciou uma existência que proporcionasse a concretização destes desejos. Neste caso a criação seria um verdugo e Deus um caprichoso que gosta de assistir o sofrimento alheio.

...Deus não pode ser tentado, e a ninguém tenta pelo mal. – Tiago 1:13

Deus não fez um mundo anti-Deus.
Deus é bom. Dizer que Ele criou o mundo para fazer o mal, é afirmar que o mundo subsiste à revelia, e foi projetado para realizar maldades com requintes. Deus teria desejos de sofrer, pois trouxe à existência algo que o atinge no âmago e também teria prazer em fazer sofrer o seu Filho.

Admitindo estes valores:
Deus não fez um mundo maior que sua capacidade;
Deus não fez um mundo anti-Deus;
O mal é uma realidade do mundo contrária a Ele;
Deus se satisfez com sua criação.

Resta considerar que esta satisfação, vem da identificação da essência do Criador com a obra-prima.
A criação não é obra de projeção nem de superação divina.

Deus poderia realizar coisas horrendas, porém por uma livre escolha, decidiu jamais praticar o mal. Sua escolha pelo bem se sustenta em sua própria natureza. “Ele permanece fiel para sempre, pois não pode negar a si mesmo”. – 2 Timóteo 2:13.
O homem também pode praticar coisas terríveis, mas diferente de Deus, possui limitações que o tornam suscetível. Deus não é tentado pelo mal, mas o homem sim.

Deus incriado e bom, não precisa de nada além de si. Nele há tudo o que ele mesmo necessita para que sempre pratique o bem. Esta é uma, dentre outras, que o faz Deus.
Diferindo de Deus, o homem não possui em si mesmo compleição suficiente.
A árvore do conhecimento do bem e do mal, ensina que o homem não possui bondade perfeita capaz de inviabilizar o mal. Se ele tentar permanecer fiel buscando em si mesmo o necessário, se tornará infiel.
Por outro lado, apesar de não ter em si a bondade perfeita que o impeça de ser tentado, a árvore também demonstra que Deus não colocou o mal no homem, mas deu-lhe liberdade inclusive para contrariá-lo.
Em Deus só há o bem, do contrário ele seria o tentador. Nele não há maldade, injustiça, morte e nem sombra destas coisas.O mal existe somente fora dele. O homem a cada dia precisa se deparar com a árvore e fazer sua escolha.

Se Deus é bom porque acontecem coisas ruins no mundo?
Por que Deus fez o mundo livre.
E viu Deus que era tudo muito bom. Não a prática do mal, nem as dores próprias da limitação da criação, mas um ambiente livre em que o amor pode florescer por causa de livre-escolha. Deus viu que não existe nada melhor do que amar e ser amado. E que a dor pode ser um ingrediente eficaz para revelar o amor verdadeiro e puro.
Deus provou o seu amor por nós, se unindo à nossa limitação e não acabando com ela e nem retirando a liberdade da criatura.

Eliel Batista

10.1.08

OUTRA LITURGIA PARA OUTRA CULTURA


Todas as sociedades primitivas possuíam cerimônias especiais conhecidas como ritos de iniciação ou de passagem. Mais do que uma transição individual, os ritos representavam a sua aceitação e participação na sociedade.

Compreeder os ritos em sua essência, ajuda o ser humano a lidar bem com as mudanças da vida e a assumir novas responsabilidades. Ajuda também, a dar melhor historicidade e firmar valores pessoais.
Os rituais costumavam pontuar desprendimento, fechando um ciclo existencial e dando inicio a outro. O indivíduo deixava para trás coisas velhas para assumir outras novas.

Declarava-se no rito uma mudança de atitude e até mesmo de alteração de um grupo de relacionamento pessoal.

Vez por outra, o indivíduo chegava a trocar de nome o que representava uma radical mudança, uma declaração de ser uma nova pessoa a partir daquele instante.

Apesar do esvaziamento do significado original, alguns ritos ainda subsistem. Hoje em dia, as comemorações de 15 anos representam muito mais um evento social, do que o marco de uma nova fase na vida da mulher.

O batismo cristão serve como exemplo, de como com o passar do tempo, os ritos podem perder a força de seu real sentido. Visto apenas como uma pró-forma da religião, percebe-se por parte de um bom número de indivíduos, uma certa indiferença quanto ao compromisso de realmente cumprir a promessa feita diante da comunidade da fé. De igual forma, o casamento, mesmo diante de diversas testemunhas e documentos assinados, não inibe a facilidade de sua dissolução. Nas sociedades primitivas, a mudança ou promessa de um rito, era além de desejável, inquestionável, sagrada e uma obrigação impossível de se quebrar. Romper colocava em risco a sobrevivência da sociedade.

A prática de um mesmo rito difere de uma cultura para outra. Trote do vestibular, casamento, funeral e enterro, formatura, bodas, noivado, e diversos outros.
Cada um tem seu fundamento e serve para ratificar valores de uma sociedade. Por isso sua prática, a liturgia, precisa comunicar bem o propósito de sua existência. Sua execução precisa adaptar-se ao seu contexto cultural, para não perder o seu mais profundo significado.
Deveríamos como cristãos diante de nossa atual sociedade, nos perguntar se nossos rituais transmitem a mensagem de seu real símbolo?

A Ceia como exemplo:

Para uma cultura festiva em que comer junto significava a celebração da fraternidade, da vida, a abertura do privado para o outro, a ceia transmitia bem a mensagem de “koinonia”. Palavra normalmente traduzida por comunhão, mas cujo significado envolve muito mais, pois ela contém os conceitos de serviço, solidariedade, justiça, igualdade, fraternidade e mutualidade.

Em uma sociedade monárquica, com classes sociais distintamente extremadas entre nobres e plebe, não haveria melhor maneira de demostrar a maravilha do reino de amor e justiça, do que através de um ritual em que o soberano servisse o vassalo.

Que significado teria a mesma ação em uma sociedade que se propõe igualitária?
Se nesta sociedade se valoriza mais o indivíduo do que a vida comunitária, e se sua cultura alimenta o egocentrismo, e o cidadão/consumidor tem seus direitos inalienáveis, o governante tem a obrigação de servir e é direito do governado ser servido.
Em nossa atual cultura o ritual da ceia transmite o significado de koinonia?

O amor para preservar sua essência precisa ser compartilhado ou deixa de ser amor. A ceia é um rito que simboliza o mais profundo amor.
Que tipo de significado tem para nossa sociedade um rito de doação, cuja prática em si transmite uma mensagem de recebimento?

Numa sociedade que luta pelos direitos individuais, como se deveria realizar um rito de caráter comunitário que significa doação e compartilhamento?

De maneira geral no atual ritual da ceia, cada crente permanece sentado em seu próprio lugar. Sem praticamente nenhuma interação com o outro, toma dos elementos das mãos de um único. Fecha seus olhos e numa postura isolada se concentra numa espiritualidade individual. A mensagem oral de comunhão é contraditada pela mensagem transmitida na prática do rito. Cada um é levado a se comportar individualmente como expectador da celebração.
Ela superestima a relação individual com Deus e subestima a relação comunitária com Deus. E uma não existe sem a outra. A ceia como parábola viva, deve revelar em seu ato, a verdade espiritual.
Se retirasse as palavras da ceia o que a liturgia transmitiria?

Penso a mensagem mais significativa da ceia como Corpo e Aliança.
Assim como Cristo se deu por nós devemos nos dar pelo outro, por isso a ceia transmite uma mensagem de um para com o outro: “este é o meu corpo dado a você” e de igual maneira “esta é a aliança que tenho com você”. Minha vida é sua e a sua é minha. Mensagem de pertencimento, pois há somente um pão e os que dele participam formam um só corpo. (1 Jo 3:16; 1 Cor 10:17)

Se toda nossa liturgia levar as pessoas a um comportamento de platéia, público, auditório e expectadores e somado a isto, se os figurais como púlpito, pregação, ministro de louvor, a disposição das cadeiras e o programa transmitirem uma mensagem de que alguns servem (ministram) e outros assistem, o tipo de envolvimento conseguido dos membros desta comunidade será apenas de expectadores.
Porque o rito e o ambiente promovendo mais o programa do que a vida comunitária e do que as relações interpessoais, num contexto que não compreende o programa como um serviço ou obrigação a Deus, pode-se acabar ressaltando no desenvolvimento social desta comunidade, um individualismo e descompromissado para com o outro.

A igreja precisa de um ambiente possível para que cada pessoa perceba que ela é única, mas não exclusiva.
Que cada crente ao sair de sua igreja, após aquele tempo maravilhoso de culto, esteja consciente de que pertence a um corpo, tem co-responsabilidades.
Penso que a mensagem oral e litúrgica da igreja deva desafiar as pessoas para que se abram para a vida e para o outro. Torne-as gente que crê apesar de suas fragilidades, limitações, e da volúpia do mundo injusto.
A graça é garantia suficiente do amor de Deus e se revela indiscutivelmente nas relações de fraternidade; de carinho.

Como penso a igreja do futuro (?).
- Um espaço de oportunidades para todos se compartilharem.

- O mestre aquele que desperta a vida de Cristo no discípulo e menos preocupado em passar conhecimento.

- O apologeta aquele que defende prioritariamente a vida e o amor, e com habilidade em colocar a doutrina a serviço dos homens. Que considere heresia o desprezo pela vida.

- Crente ou salvo aquele que torne em seu viver a realidade de Cristo e não aquele confessa um credo.

- O culto uma celebração da vida e contemplação de Cristo no outro.

- A confissão pública uma declaração de amor e comprometimento com Cristo e não um assentimento intelectual de uma declaração de fé.

- O pastor hábil na arte de acolher, menos orador e mais ouvinte.

- Ministro de louvor alguém com mais alma de poeta do que profissional da música.

Enfim, enquanto não desfrutamos do novo céu e nova terra onde habita justiça, vivamos cada dia com graça e esperança, produzindo paz e gerando vida.


Eliel Batista