Que bom que você veio!

Obrigado pela visita, deixe uma mensagem de sua passagem por aqui.

24.12.11

APENAS MAIS UM TEXTO SOBRE O FIM DE ANO

Quando o ano se finda, o clima de festa anima a vida e “adrenalinam” os dias que nos remetem a muitas reflexões.

Um "quê" de encantamento no encerramento do ano é ser uma das poucas coisas cujo fim se deseja ansiosamente e marcado por alegria. 
Um fim alegremente esperado?


Acredito que isto aconteça por duas questões. 
Uma, o fato de o final do ano ser antecipado pelo Natal que nos convida à celebração da amizade e lembranças de nossos relacionamentos e outra, a certeza garantida pelo ciclo do tempo, de que ao acabar um ano, estamos diante de um Novo Ano.


Esplêndido este encaixe no calendário de um fim antecipado por um começo que marca um recomeço. O Natal – começo que marca o recomeço, antecipa o fim de ano que comunica uma nova possibilidade.


Para a espiritualidade cristã que delineia uma conexão “real com a realidade” três elementos são essenciais.

, ESPERANÇA e AMOR.


Quando enfrentamos nossos dias lutamos pela sobrevivência, lidamos com vales escuros e nos deparamos com montanhas enormes e às vezes intransponíveis.
Esta dureza nos leva a almejar que seja apenas um ciclo, tal qual o dos anos, que termine e possibilite uma novidade. Mas antes disto, paramos no Natal para nos lembrar da companhia de Deus
.

Nisto se entranha o que de melhor faz a vida dinâmica e mobiliza-a em direção ao novo: a , a ESPERANÇA e o AMOR.


A é aquele elemento que não se impressiona com o tamanho da montanha, ela sempre nos leva a enfrentá-la. Por maior que seja a montanha, basta um pequeno grão de mostarda de fé para que aceitemos o desafio e a encaremos. A fé nos dispõe.


A ESPERANÇA é aquele elemento que, apesar da montanha impedir a visão, sabe que também há planícies e vale a pena lutar. A esperança nos leva a jamais desistirmos.


E o AMOR é aquele elemento que de fato faz a vida, pois ele nos leva a perceber que a vida não se constitui de remoções de montanhas, mas de relacionamentos. O amor não permite nos tornarmos técnicos em pavimentação, em aplainamento, mas sim afetuosos.

Sem o amor, hábeis em enfrentar montanhas, podemos nos tornar insensíveis, valorizarmos mais o sucesso que a fidelidade, mais as habilidades que os afetos.


Para a vida, portanto, precisamos destes elementos da espiritualidade cristã.


Manifestemos nossos dons, saibamos aplicá-los, desenvolvamos nossas habilidades, mas que tudo seja banhado no amor. 
Priorizemos nossas relações de maneira saudável. Construamos nossa vida a partir do mais profundo de nosso ser, é de lá que o amor brota.


Um novo ano se anuncia, tenhamos esperança de que assim como chegamos até aqui, iremos também até lá, que por mais imponente que ele seja aceitemos o desafio, pois viver vale a pena, desde que imerso naquilo que é mais profundo na vida, o amor.


O Natal nos chama para a lembrança de que Deus está conosco para sempre, o fim do ano de que as coisas velhas ficam para trás e, o novo ano de que temos uma nova oportunidade.


Celebre com graça, semeando paz e experimentando o amor, lembrando que a experiência do amor acontece na dádiva. Amar é doação.

Silencie sua alma para perceber o quanto de amor há na sua interioridade, pegue e despeje-o com intensidade para o outro. Some a isto fé e esperança e sua caminhada do novo ano será uma excelente viagem cuja vida brilhará acima dos heróis.

Eliel Batista

2.12.11

CREDO DA LIBERDADE

Não vou desistir da Igreja por causa dos religiosos que a deturpam, e fazem dela fonte de chacota e de lucro e de sacerdotes que vendem ilusões.
Mas também não quero pertencer a uma igreja que não comunica a verdade libertadora, não defende a vida e se contenta em impor dogmas, e valoriza mais a letra da lei do que a pessoa humana.

Quero lutar para que o respeito ao humano, o direito à liberdade e à justiça prevaleça. 
Por deslumbrar uma comunidade onde as pessoas não sejam obrigadas, mas desafiadas a viverem uma fé pertinente ao mundo que vivemos e não esteja presa a uma cultura que não nos pertence, pronuncio o esboço de um credo que acredito satisfazer pelo menos aos primeiros passos da fé cristã:

  •  Creio em Jesus de Nazaré como o Cristo Filho de Deus, Senhor e salvador de todos, expressão legítima de Deus e parâmetro de vida e fé.

  • Creio na Bíblia como livro sagrado porque revela Cristo, a Palavra Viva.

  • Creio em Deus como Criador ativo na história por meio do Espírito Santo que glorifica a Cristo, e por isso não-intervencionista.

  • Creio que as coisas que acontecem na criação, boas e ruins provém da liberdade e nela o homem tem a possibilidade de revelar Deus, agindo como Jesus.

  • Creio na salvação como uma dádiva divina que se concretiza na história pela resposta humana ao chamado de Deus para encarnar o reino.

  • Creio na oração não como um meio de convencer Deus aos nossos interesses, mas como os interesses de Deus são legítimos, verdadeiros e a máxima expressão de vida e amor, a oração nos converte a esta vontade.

  • Creio que o pecado é de responsabilidade pessoal. Pecamos e experimentamos o mal em virtude de sermos criaturas. Só Deus não peca.

  • Creio que a fé cristã nos desafia a lutarmos contra todo o tipo de morte e seus processos.

  • Creio que a boa teologia brota da vida e não da letra e se renova constantemente no pensar sobre Deus.

  • Creio que os milagres registrados na Bíblia não estão para provar que Deus tem poder, mas sim para sinalizar o Reino de Deus, demonstrar que Deus é contra o mal e nos desafiar à mesma postura divina.

  • Creio que a pregação do evangelho é um chamado para a Vida.

  • Creio na graça e no amor de Deus e que ele não faz acepção de pessoas e não tem um grupo seleto, mas é sobre todos e para todos de igual forma.

  • Creio que todos somos pecadores e chamados para experimentarmos a graça, através do único meio possível, na caminhada.

  • Creio que nem a oração, nem a fé são instrumentos de coação contra Deus.

  • Creio que Pai, Filho e Espírito Santo formam uma unidade perfeita em amor, sendo um só Deus, e, portanto, Jesus como mediador não está contra os interesses do Pai e, nem ele, nem o Espírito Santo intercedem por nós como se o Pai fosse resistente em nos abençoar.

  • Creio que não há uma distância entre Deus e a humanidade que precisa ser superada, mas que Ele é o Emanuel desde sempre.

  • Creio que o culto não é uma prestação de serviços a Deus e nem tampouco serve para conquistar o coração de Deus ou chamar sua atenção, mas é uma celebração de vida com Deus.

  • Creio que a fé cristã não é uma vantagem ganha, mas o privilégio de um compromisso sério, profundo e eterno com Deus.

  • Creio que Revelação só o é pela capacidade de ser renovável e contemplar o presente. Revelação congelada no tempo perdeu sua essência.

  • Creio que a piedade cristã legítima é aquela que se desenvolve com contentamento e não por sacrifícios e penitências.

Há muito mais coisas ainda para se colocar, mas aqui estão as primeiras linhas que me motivam a continuar na caminha cristã.

Se você concorda com meu credo sigamos na caminhada. Se não concorda e mais ainda, acredita que é um desvio da fé cristã, só peço que se comporte com dignidade e use de cordialidade. Não precisa agredir; apenas me ignore e eu entenderei o recado.

Quero seguir em paz com minha consciência e não se preocupe, não tenho nenhum receio em comparecer diante do tribunal de Cristo. A ele e à sua justiça me submeto.

Não serei prisioneiro de qualquer conceito que se imponha com apenas a possibilidade de repeti-lo e nunca questioná-lo. Sou livre e quero viver a liberdade para a qual Cristo me libertou.
Respeito você crer diferente, e peço o mesmo.

Diria o seguinte: 
Desligo-me da igreja congelada no tempo que apenas repete doutrinas.
Reafirmo meu compromisso com a Igreja, esta que procura Revelar Deus encarnando a verdade de Cristo; promovendo a vida.

Sou feliz pela minha comunidade da fé!
Eliel Batista

10.11.11

SEM IGREJA OU COM IGREJA?


Apesar do IBOPE recentemente ter apresentado uma pesquisa de que a igreja ainda é uma das instituições mais bem cotadas no quesito de confiança social, acredito que haja hoje em dia uma desconfiança crescente em relação a Igrejas Evangélicas e certo ceticismo em relação aos sacerdotes das mesmas.

Porém, quando falo de desconfiança não o faço a partir da mesma base da pesquisa, mas de impressões internas, nascidas de encontros e diálogos religiosos. 
Não pretendo que este texto tenha validade científica, apenas reflito.

A população pode dar um crédito positivo, mas parece que cada vez mais os próprios crentes não confiam em suas instituições. 
Não há uma desistência da fé, mas há um abandono e aversão às instituições.

Não acredito que a causa do desencanto com a igreja seja teológica. A teologia, como justificativa para o afastamento é usada como uma espécie de racionalização da dor. 
A natureza da causa é mais de cunho emocional, fruto de relacionamentos conflituosos, mas como é comum buscar racionalizar as dores como um meio de alívio, teologiza-se.
Evidentemente, este afastamento causado por um alto índice de insatisfação traz consigo sentimentos negativos.

Temos como exemplo midiático o da Carol Celico, esposa do jogador Kaká, que falou sobre seu desligamento da igreja: “Olhando as atitudes dos meus líderes, percebi situações em que a palavra não condizia com a atitude”. (1) E num talk show disse "a igreja de Cristo está em qualquer um (...) hoje minha igreja é minha casa". (2)

Neste exemplo, está implícita uma dor (frustração) e a justificativa teológica que autentica o afastamento não da instituição que causou a dor, mas das instituições.

Não culpo ninguém e seria injusto culpar alguém ferido, pelos seus sentimentos negativos em relação à uma igreja e seus líderes, principalmente aquelas pessoas que abusadas e extorquidas sentiram-imbecilizadas e encontram-se feridas e empobrecidas. 
Chamo a atenção para o perigo das generalizações e seus preconceitos. 
Segundo Gordon Willard Allport (1954) – em “A natureza do preconceito”, o preconceito existe como resultado das frustrações das pessoas que em determinadas circunstâncias, podem se transformar em raiva e hostilidade. 
Portanto, uma pessoa num ambiente pretensamente cristão sendo abusada em sua boa fé, e inibida por esta mesma fé em demonstrar esta raiva e hostilidade, pode na tentativa de não cometer pecado contra o próximo, projetar para a instituição e, para diluir mais ainda a possibilidade do pecado, projetá-las por meio de uma generalização – todas as instituições são com esta. 
Desta maneira, cabem estigmas do tipo: “todo pastor é aproveitador e as igrejas são negócios”.

O fato de ter sido abusado, o que é grave, não deve furtar a capacidade de respeitar as individualidades e de conhecer as coisas como realmente são. 
Uma classe ou um grupo não fazem um indivíduo. Não podemos esquecer que apesar de existirem aqueles que consideram a igreja como uma instituição falida, semelhante discurso já se fez e faz a respeito do casamento. 
Talvez pudéssemos dizer que o modelo existente não comporta mais, mas não necessariamente que a instituição enquanto tal, não deva existir.

Para ilustrar que somos convenientemente seletivos nas generalizações, podemos comparar esta questão com o trânsito automobilístico. 
A cada 40 minutos uma pessoa morre num acidente numa rodovia e a cada hora 17 são feridas. (3)
Apesar deste número alarmante não existe uma generalização e nem preconceito contra os motoristas e seus automóveis, do tipo: "todo motorista é perigoso" ou "automóvel não presta". 
Isto, talvez, porque em cada família há pelo menos um que dirige não necessariamente habilitado, mas dirige. Obviamente que quando se está implicado na situação a própria pessoa rejeita generalizações: - "existem motoristas e motoristas".

Compreendo que uma adolescente, filha de um pai violento que tenha sido abusada, interprete que os homens não valham nada, mas o fato de compreender não me leva concordar com tal afirmação.
Por outro lado, é verdade, não consigo compreender porque uma pessoa em nome de Deus abusa daqueles que confiaram suas vidas às suas mãos.

Infelizmente muito do que se vê na TV, audível nas rádios e as experiências negativas experimentadas por alguns em algumas igrejas sugestionam a uma boa probabilidade de estigmatizar, isto é, a rotular pastores e suas igrejas.
Mas estes sentimentos negativos, a insatisfação e a frustração apontam uma tendência que, a meu ver, pode se tornar um grande problema. 
Quando somos feridos e não temos como exigir justiça tendemos a nos afastar daquilo que nos feriu. 
O preconceito, normalmente estereotipado, é uma forma de se estabelecer um tipo de distanciamento ressaltando aquilo que é negativo e predispondo-se a sentir, pensar e comportar-se a partir do negativo. 
E mais ainda, influenciar outros na tentativa de preveni-los do possível perigo.

Há uma generalização que paira no ar em se pensar pastores e igrejas dentro de uma categoria ou características negativas do tipo: inútil, desnecessário, interesseiro, mercantilista e de abuso.
Não custa lembrar aos sem igreja, que cada vez mais aumentam em número, de que este tipo de generalização levou à prática de crimes de discriminação étnica, tanto de escravatura como de genocídio, como foi o caso dos africanos, dos índios, dos ciganos ou dos judeus. E sempre com o discurso de se desejar um mundo melhor.

Evidentemente que neste ponto da história a raiva ou hostilidade concretizada em atitudes altamente destrutivas são impensáveis, porém, não impossíveis. 
Há que se cuidar.

Ao ler diversas frases e ouvir diversas expressões que rotulam genericamente pastores e igrejas percebo conteúdos que formulam uma discriminação. 
O porta-voz do tema coloca-se em uma condição superior. Há sempre um “que” de que aquele que ainda está filiado a uma igreja seria inferior a ele que se livrou das tais.

Assim como o gênero masculino se considerou superior ao feminino e o branco superior ao negro, aqueles que desistiram das igrejas correm o perigo de transmitirem um pensamento de que aqueles ainda participam de igrejas são “fracos e inferiores”.
Não é para menos, já que a história religiosa revela que a cristianização do império ou a imperialização do cristianismo fez com que a fé fosse beligerante e os sem igreja seriam o pior tipo de pessoa, filhos do demônio. Porém, não é preciso inverter os polos. 
Quem é vítima de preconceito, de estigmatização deve sempre lembrar que pisotear o outro, considerá-lo inferior é terrível.

Não quero com isto defender os maus, nem acobertar os erros, mas desejo apenas que a Paz reine, a liberdade de pertencer ou não a uma igreja seja fruto da experiência de cada um e não de um estigma, preconceito ou generalização.

A história da fé religiosa é igual a qualquer outro aspecto da história, têm suas feridas e curas, saúde e doença, bons e maus.

O papel de qualquer um ou melhor, de todos, deve ser o de escrever a parte dos bons.

Nem toda igreja é Igreja e nem todo pastor é Pastor, mas isto somente a vivência e convivência podem demonstrar. 
Há sim, é sempre bom lembrar que nem todo o sem-igreja é sem-igreja.

Eliel Batista

3.11.11

PARÁBOLA DA VIDA

A vida da gente é semelhante a uma casa no campo.
Rodeada de cores naturais pintadas sem pincel.
O campo é a Vida de tudo o que vive, mas a casa, uma dádiva de Deus que nós construímos incrustada no meio de tudo o que vive.

Nela cultivamos um jardim. Sem intenções de capitalizar. Não o fazemos por ser terapêutico, por exemplo, mas fazemos porque na imitação do Criador que fez o Grande Jardim em que todos vivem, também queremos produzir o belo e o bom.
Rodeamo-lo de uma pequena cerca, cujo objetivo é apenas proteger para que os animais não o destruam. Por isso não fazemos um muro. Não queremos nossa casa e nem o nosso jardim isolado, distante, mas participante.

Todas as manhãs, antes de irmos trabalhar o jardim, abrimos as janelas da casa. Queremos que a brisa que revigora a vida lá fora areje a vida aqui dentro. Deixamos as janelas abertas e assim aqui de dentro vemos tudo lá fora, e lá fora participa de tudo aqui dentro. Apesar da casa e do jardim serem obras nossas, tudo se integra. Tudo se torna vida.

É verdade que quando plantamos nosso jardim nem tudo é comestível, existem plantas que apesar de bonitas podem até serem venenosas. Mas assim é a vida. Ambígua, dependentes de contextos para avaliarmos se é bom ou ruim, amargo ou doce.

A casa é nossa vida, o jardim nossos atos, as janelas nossas orações e a brisa é o vento do Espírito que renova.

Interessante que ao abrirmos as janelas nos integremos com toda a realidade de fora, nossa vida lida com o real. Vemos os pássaros, as flores, os insetos, o tempo bom ou o tempo sombrio. Mas jamais deixamos de perceber a vida como ela é.

Quando as janelas estão abertas pode entrar em casa um beija-flor. Um beija-flor lá fora no jardim ou no campo é tão natural que quem mora no mato nem se deslumbra. Mas mesmo para aqueles acostumados a vê-los, quando entram em casa causam espanto, admiração, êxtase. Esta visita inesperada daquilo que é natural, podemos considerar como os milagres. As visitações de Deus. Não é algo de outro mundo, nem miraculoso por si mesmo, mas o inusitado nos faz perceber a maravilha da vida do mundo invadindo a nossa vida. Sinaliza-nos que o Deus presente e atuante no mundo é presente em nós.
Ninguém abre as janelas para entrar pássaros e nem faz de sua casa uma gaiola para pássaros, mas apenas abre-as para integração.

A casa é nossa vida, o jardim nossos atos, as janelas nossas orações, a brisa o Espírito, e o beija-flor o milagre.
Nada programado, tudo construído, tudo integrado: o mundo, nossa vida e Deus.

Bem aventurados os que fazem o bem, cultivam o belo e oram não para alcançarem benefícios, mas para fazerem de suas vidas, uma vida que vale a pena ser vivida.

Eliel Batista.

E para quem quiser ouvir uma bela música click no link:  -  Paz e Comunhão

4.10.11

PERCEPÇÕES DE UMA IGREJA PARA HOJE



Ninguém expressa espiritualidade sem a materialidade. Ninguém demonstra materialidade, sem espiritualidade alguma.
Mas diante dos absurdos, das manipulações, da religiosidade falsa e opressora que objetiva o lucro, ficamos confusos em compreender como uma igreja que simboliza o corpo de Cristo pode ter alguns adjetivos nada cristãos? 
Para melhor justificar o contrassenso entre a os fatos e o ideal, dividimos a realidade e falamos em igreja visível e igreja invisível. Uma tentativa de comprovar a possibilidade de uma igreja imaculada.
A questão é que a igreja é o que é.

Temos um distanciamento entre aquilo que compreendemos de igreja e a maneira como expressamos isto e, consequentemente quais as ferramentas que utilizamos para que ela exista.
Uma igreja espiritual que não se vê não existe.

O que existe é uma única igreja, porém como tudo o que tange ao humano, uma igreja complexa. Não podemos acreditar na possibilidade de uma igreja inumana, só existe a humana. Se humana, temos tudo que o humano apresenta: bondade e maldade permeada.
Portanto, o grande desafio para a igreja hoje, é torná-la mais próxima possível daquilo que se pensa sobre como deve ser uma igreja que segue a Cristo. Não trabalhar estas questões é condená-la à falência.
Para nada serve uma igreja que faz o discurso de igreja celestial, que exige de seus membros que se adéquem a este discurso, mas que não o torna possível à realidade terrena, não tange o humano.

Falar em santidade e perfeição, no sentido de impecabilidade, inculpável e sem erros e descrever isto como a única realidade aceita para os salvos, é condená-los a uma vida impossível e excluir a todos da igreja.

Devemos reconhecer e admitir-nos e seguir em busca de um crescimento e maturidade espiritual, mas de uma legítima e verdadeira expressão de quem somos e como estamos. Nisto, perceber o grande amor de Deus, trabalhando em nós pelo seu espírito, para que vivamos uma vida justa, sóbria e piedosa. Mas conscientes de que não existe uma igreja desencarnada. Igreja como espaço para ser gente. Não um espaço que exige desumanização.

Diante disto, pensei em algumas questões que diferentes campos do saber têm refletido, e que são pertinentes ao tempo em que vivemos e capazes de nos ajudar.
Como uma igreja pode melhor harmonizar aquilo que se entende como igreja, com aquilo que se é como tal. Uma instituição, mais adequada à realidade?

 - A igreja precisa de constantes reformas.
Aqueles paradigmas que se arrastam pelo tempo, aos quais se exige que as pessoas os aceitem, para que se configure uma igreja, precisam ser abandonados e hoje, ela precisa provocar mudanças nas estruturas teológicas e de paradigmas. Ela não pode considerar-se detentora da verdade e de um projeto perfeito, no qual todos se sujeitem. A verdade não pode ser uma ditadura e a igreja não pode achar que sabe o suficiente para a vida das pessoas e tem todas as respostas. Deve sempre estar em busca, nunca chegar a um patamar de conclusão de si mesmo.

Em função disto, ela se mobiliza nos seguintes fatores:

- Mudar sua compreensão pedagógica.
 A igreja não detém todo o saber, por isso não pode arrogar-se o direito de ser uma instituição que ensina, mas humildemente colocar-se como uma instituição discípula, quer dizer, sempre aprendendo.
Uma instituição que ensina, pressupõe possuir todos os conteúdos pelos quais seus membros devem viver e trilhar, o problema é que normalmente os conteúdos são fixistas e a vida não. Em um dado momento, aqueles conteúdos para nada mais servirão, a não ser compor uma estante empoeirada de gabinetes pastorais.
A vida é a matéria-prima de uma igreja. As pessoas são os livros teológicos, por isso aquilo que acontece com a vida de seus membros ensina-la-á quanto ao que deve colocar em seu ensino. Jesus disse que poderíamos aprender com os filhos das trevas, com o mordomo infiel, e o sábio da antiguidade nos alerta que podemos aprender até com as formigas, abelhas e aranhas.
Não deve mais ser um projeto pronto e conduzir as pessoas a aderi-lo, mas deve a partir das próprias pessoas construir um projeto. Se a igreja não for construída coletivamente, ela produz a alienação de seus membros e dependência infantil

- A igreja precisa focar seu objetivo na busca pela autonomia das pessoas.
A nova aliança nos informa que as pessoas teriam a verdade de Deus em seus corações. Cada um saberia o que precisaria fazer e ser. A igreja deve então, se somar ao Espírito Santo confiando de que Ele de fato escreveu a Lei Áurea nos corações das pessoas e portanto elas podem amadurecerem e serem autônomas.
Não temos problema em conhecer o que é certo e errado, bom e ruim, todas as pessoas sabem. O problema está na autonomia, isto é, colocarmos em prática aquilo que sabemos.

- A igreja deve reconhecer as diversidades e diferenças.
Existem diferenças conceituais e modelos mentais, que originam as diferentes interpretações da vida e fazem da vida o que ela é. A vida é diversa e complexa. Ela não se resume em escolher a alternativa correta entre duas opções.
A igreja não pode se colocar como dona da verdade e única opção entre tantas coisas no mundo.
- Ser transparente quanto às suas realizações.
Ela precisa saber deixar claro o que está fazendo, pensando e objetivando como igreja.
Deixar claro o objetivo da igreja, e os valores que a norteiam, desenvolvendo e estimulando cada vez mais a comunhão, e as realizações conjuntas. Esta é a principal ferramenta do evangelho.

- Ser crítica de si mesma a partir do todo.
A autocrítica é muito volúvel ao grau de autoestima, por isso ser crítica é aprender a ouvir a partir de onde a vida acontece.
Ser motivo de piadas e chacotas por pessoas de fora é um fator norteador para uma crítica de si mesmo. Se numa sociedade, as pessoas ao lidarem com a vida, veem a necessidade da igreja como irrelevante, ou a última opção dentre muitas alternativas, este é um fator a ser considerado para criticar a si mesma a partir do todo.

- Verificar sua dinâmica de relacionamentos
As relações que mobilizam a igreja devem ser por influência (relações de amor) e não por hierarquia quer de cargo, função ou de saber. Para isso se requer transparência, honestidade, abertura de mente, confiança, bom senso e principalmente humildade. No máximo a hierarquia deve ser utilizada para distribuir responsabilidades e não separar ou discriminar pessoas. O uso do poder para conduzir processos, sempre implica a anulação do outro. A hierarquia desequilibra as relações.

- Pronta para ouvir e tardia para falar.
Precisa ouvir seus membros para saber se, como igreja, está fazendo diferença na vida das pessoas. Esta é a retroalimentação da igreja. Sem isto, ela não justifica sua própria existência.
A igreja do século XXI se dispõe a aproveitar a inteligência, o conhecimento de seus membros para a construção de uma identidade pertinente ao lugar onde está inserida. Ela respeita a vida e concilia-a com os anseios e necessidades existenciais de cada um. Deve ser conciliadora entre o bem comum e os interesses individuais. Ela não decreta a verdade, produz. Não exige submissão aos conteúdos, ela dialoga, convence.

A igreja para hoje, deve penetrar na realidade humana viva e a partir dali ver como o evangelho se aplica.

Uma igreja que ouve os anelos de seus membros, pode melhor atender seus anseios e ajudá-los a superar seus problemas e com isto elevar o grau de satisfação com a própria igreja.
Quando falo em ouvir seus membros, alguns logo pensam em assembleias, votos e coisas semelhantes. Ouvir, não é um método ou uma técnica, mas um acolhimento da realidade. Ouvir os dilemas, as lutas, as alegrias. Ouvir quais são os enfrentamentos cotidianos e quais as ferramentas disponíveis para lidar com eles.

Enfim, estas questões, fazem muito sentido para meu olhar para o mundo. Se são possíveis, praticáveis ou devaneios, saberemos um dia.

Eliel Batista.