
Para o cristão, Jesus é a imagem do Deus invisível e nele habita toda a plenitude divina.
Isto por si só, já nos posiciona a contrastar tudo o que se pensa ou pensava sobre Deus à luz de Cristo.
Se Jesus não veio mudar a lei, mas de fato cumpri-la, então, nas ações de Jesus vemos como os filhos de Deus devem viver segundo a Lei. Podemos nisto saber o que de fato Deus intentou durante todo o tempo com seu povo.
Como exemplo, vemos na Lei a ordenança de Moisés de olho por olho, mas com Jesus observamos que isto não tem a ver com Deus, mas com o homem.
Levítico 24: 19-20 Se alguém ferir seu próximo, deixando-o defeituoso, assim como fez lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. Assim como feriu o outro, deixando-o defeituoso, assim também será ferido.
Mateus 5: 38-39 "Vocês ouviram o que foi dito: 'Olho por olho e dente por dente'.
Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.
Alguém poderia argumentar que em Levítico está escrito “disse o Senhor a Moisés”, e Deus não muda.
Quanto a isto, encontramos Jesus interpretando a Lei de uma maneira completamente diferente. Mesmo escrito a frase “disse o Senhor”, Jesus considera um escrito humano. Nossa fé nos dá a convicção de que Jesus não contrariou o Pai e nem mudou Deus.
Como Cristo vê as Escrituras:
Quando Jesus faz referência ao Antigo Testamento ele cita com as seguintes expressões: “Na lei de vocês está escrito”, ou “na Lei que Moisés lhes deu está escrito”.
Quando faz referência usando a expressão “Escritura”, ele valida o sentido do texto e não o texto em si.
Por isso ele diz: “Está escrito, eu porém vos digo”. Isto significa que Jesus a exata expressão de Deus, que revela toda a vontade do Pai e não faz nada de si mesmo, dá a verdadeira intenção das escrituras.
Observamos no Antigo Testamento um conflito entre dois ministérios. O sacerdotal e o profético. Os sacerdotes são os codificadores da Lei. Mantém-na, interpretam-na e exigem seu cumprimento. Os profetas questionam isto e trazem uma aplicação diferente. Sempre acusando os sacerdotes de desviarem-se de Deus e convocando-os a retornarem de seus maus caminhos.
Por isso Jeremias diz algo contrário à Lei sacerdotal:
Jeremias 7: 22-23 Quando tirei do Egito os seus antepassados, nada lhes falei nem lhes ordenei quanto a holocaustos e sacrifícios. Dei-lhes, entretanto, esta ordem: Obedeçam-me, e eu serei o seu Deus e vocês serão o meu povo. Vocês andarão em todo o caminho que eu lhes ordenar, para que tudo lhes vá bem.
Assim temos diversos textos que denunciam o culto sacerdotal como sendo contrários a Deus. Veja que Isaías diz que Deus não faz questão, não deseja e é até mesmo contra sacrifícios.
Isaías 1: 11 "Para que me oferecem tantos sacrifícios?", pergunta o SENHOR. "Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos. Não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes!
Diante da experiência do pecado, o salmista percebe que todo o culto sacerdotal, por mais piedoso que seja e carrega o nome de Deus, não responde à vida:
Salmo 51: 16 Não te deleitas em sacrifícios nem te agradas em holocaustos, se não eu os traria.
A imagem sanguinolenta de Deus não corresponde ao grito do profeta que diz que Ele não se agrada na morte, nem mesmo do ímpio.
Ezequiel 18: 23 Teria eu algum prazer na morte do ímpio? Palavra do Soberano, o SENHOR. Ao contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver?
Ezequiel 33: 11 Diga-lhes: Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam. Voltem! Voltem-se dos seus maus caminhos! Por que o seu povo haveria de morrer, ó nação de Israel?
Dado ao fato de que Israel foi chamado para se converter dos falsos deuses para o Deus verdadeiro, toda sua expressão e compreensão religiosa precisa ser interpretada à luz de sua própria época. O fato de Israel ser escolhido por Deus como povo, não o isenta de ter uma religiosidade que interpreta Deus, segundo sua cultura, segundo o meio em que vive.
De um lado o cânon das escrituras resultado de um estudo minucioso, e de outro o Cristo a expressão do Pai. Se o relato do texto conflita com a pessoa de Cristo, mesmo o texto dizendo ser Deus, o que de fato revela Deus é a pessoa de Jesus, por isso a fé cristã escolhe Jesus e não o texto.
Conforme ele mesmo nos ensinou:
João 5:39 Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito;
O cristão não tem uma experiência com Deus por causa da Bíblia, mas por causa de Cristo. Vamos as escrituras por causa da razão maior, a pessoa, a mensagem encarnada.
Podemos analisar a questão da mortandade que Israel causou em nome de Deus. O fato de um Pai (Deus) amar o seu filho (Israel), não significa que ele seja conivente com seus erros. Deus é desde o princípio contra o assassinato. Vemos isto quando Caim matou Abel e quis implicar Deus no assassinato, pois se Deus é responsável pelo bem de todos, por que não guardou Abel? E Jesus denuncia isto como grave.
Os detalhes dos textos nos mostram conflitos de interesses. Às vezes, encontramos a ordem para todos serem assassinados e outras vezes somente os guerreiros. Afinal, quando deve ocorrer uma ou outra coisa na guerra? Veja a diferença, do que deveria acontecer e o que de fato aconteceu a Jericó:
Deuteronômio 20:10-14 "Quando vocês avançarem para atacar uma cidade, enviem-lhe primeiro uma proposta de paz. Se os seus habitantes aceitarem e abrirem suas portas, serão seus escravos e se sujeitarão a trabalhos forçados. Mas se eles recusarem a paz e entrarem em guerra contra vocês, sitiem a cidade. Quando o SENHOR, o seu Deus, entregá-la em suas mãos, matem ao fio da espada todos os homens que nela houver. Mas as mulheres, as crianças, os rebanhos e tudo o que acharem na cidade, será de vocês; vocês poderão ficar com os despojos dos seus inimigos dados pelo SENHOR, o seu Deus.
Afinal a expulsão das nações era através do assassinato? Ou isto tudo tem a ver com as conflitantes interpretações religiosas da época?
Êxodo 23: 27-30 "Mandarei adiante de vocês o meu terror, que porá em confusão todas as nações que vocês encontrarem. Farei que todos os seus inimigos virem as costas e fujam. Causarei pânico entre os heveus, os cananeus e os hititas para expulsá-los de diante de vocês. Não os expulsarei num só ano, pois a terra se tornaria desolada e os animais selvagens se multiplicariam, ameaçando vocês. 30 Eu os expulsarei aos poucos, até que vocês sejam numerosos o suficiente para tomarem posse da terra.
Quando olho para Jesus, até mesmo na razão que Ele diz da existência do Templo, percebo que o desejo de Deus era estabelecer Israel como uma nação para todas as nações, ser benção para todos, e não destruir ou matar.
Uma coisa é Deus entregar uma questão, uma responsabilidade nas mãos dos homens, outra é considerar o que os homens pensam disto, ou como agem diante disto.
Ao mesmo tempo em que se matava no Antigo Testamento, temos uma lei ordenando tratar bem os prisioneiros de guerra e respeitar os estrangeiros.
O objetivo de dizer olho por olho, não era estabelecer um assassinato legalizado, mas uma maneira cultural de conter a violência.
Gn 9:5-6 A todo aquele que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo. "Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado.
Quando Josué vai invadir a palestina, ele ordena que matem todos. Os profetas se levantam e atestam que o povo de Deus é ávido para derramar sangue, e portanto são pecadores.
Inclusive esta foi uma das razões porque Davi não pode construir o templo, pois o nome de Deus não poderia estar envolvido com pessoas sanguinárias.
1 Crônicas 22: 8 Mas veio a mim esta palavra do SENHOR: 'Você matou muita gente e empreendeu muitas guerras. Por isso não construirá um templo em honra ao meu nome, pois derramou muito sangue na terra, diante de mim.
Sabendo que Israel conhecia a vontade de Deus por Urim e Tumim, e convivendo em um tempo que guerra era uma questão de sobrevivência, concluímos que a religião judaica sempre interpretou Deus como um guerreiro, o Deus dos deuses que guerreava por seu povo e por isso imbatível, por ser o mais forte e que apoiava as batalhas.
Jesus revela que este tipo de compreensão não subsiste à realidade da vida.
Deus que é doador da vida, contra a morte, o Deus que é a ressurreição e a vida, que ordenou não matarás, cujo propósito desde a fundação do mundo é salvar, não participa dos absurdos humanos por mais que usem o nome dEle.
Lucas 9:54-55...os discípulos Tiago e João perguntaram: "Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los?" Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu, dizendo: "Vocês não sabem de que espécie de espírito vocês são.
Pessoas divididas, confusas e que não entenderam que Deus é salvador desde sempre e salva dando vida e não oferecendo morte.
Romanos 5:10 Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida!