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7.8.14

DEPOIS DO "FIM DO MUNDO"


Há alguns anos Eliel Batista se propôs a escrever uma série de três livros intitulados Porque pensar não é pecado. Cada volume traz intuições, propostas e discussões nascidas de seus estudos e das aulas de Teologia Bíblica ministradas no Instituto Cristão de estudos Contemporâneos (ICEC). Recentemente foi lançado o terceiro e último volume, que trata da leitura e interpretação do Apocalipse. De caso pensado, o último volume é sobre o fim.
               
                Tradicionalmente os semestres de estudos do ICEC têm como abertura um simpósio, o Módulo de Abertura. O último – “Fim do Mundo: sinais, mitos e falso profetismo” – foi ministrado por Eliel a respeito de seu livro. Tive a honra de prefaciar o livro e também de participar do Módulo. Após o fim de nossa semana de conversas, aprendizado, propostas e novas experiências, é bom apontar a direção dos caminhos que foram abertos.

A interpretação

                Trabalhamos nesse tempo em função de limpar o terreno das leituras tradicionais[1] do livro do Apocalipse e encontrar as luzes que Eliel acendeu nos corredores da interpretação bíblica. O movimento do livro não termina nele mesmo. O livro não procura explicar o passado, esmiuçar o futuro e muito menos tem pretensão de “palavra final”. Surpreendentemente, o livro que fala sobre o fim não acaba em seu próprio final, mas nos convida a retornar ao Apocalipse e lermos com nossos próprios olhos, interpretarmos a partir de nossas experiências cotidianas e de fé.

                A disputa pelo passado é uma guerra ideológica: quem propõe uma boa justificativa para o que aconteceu “vence a batalha” e instaura uma nova ordem, a “melhor” ideologia[2]. Eliel foge dessa proposta. O resgate histórico que faz é de nos ajudar a desatar os nós do passado, a não nos tornarmos reféns da história, mas seus parceiros – assim como um terapeuta e seu paciente. Quem antecipa e “sabe do futuro” ganha o poder de homem livre frente aos escravos: sei seu destino e não há como você sair de seu estado, já que nasceu escravo e morrerá escravo. Contente-se com as determinações e espere por elas. Longe, muito longe disso, também não somos guiados por essa trilha: ele não tenta ser futurólogo, apenas acendedor de luz. Como o próprio Eliel adverte em seu livro, nem no passado e nem no futuro há vida, então vivamos a experiência presente, cotidiana. É a partir dela que devemos interpretar o Apocalipse.
               
                O deslocamento da leitura do Apocalipse como uma previsão do futuro para a possibilidade de uma interpretação que parta do hoje, de nossas experiências próximas, é inovadora e fruto de propostas teológicas recentes e emergentes. A crítica de RudolfBultmann à interpretação teológico-acadêmica que se prende ao historicismo[3] (seja do passado ou do futuro já determinado), por exemplo, não tinha encontrado em solo brasileiro um comentário do Apocalipse que a correspondesse. Bultmann, uma “vaca sagrada” da teologia protestante contemporânea, critica a exegese que anula a experiência do sujeito leitor, que tem preferência pela história e não àquele que fala a mim hoje, ao Autor e ao sujeito que se relaciona com Ele.

                Para mais além, num tema implícito na obra de Eliel, essa possibilidade de interpretação livre da necessidade de dominação da história, confiando na experiência de fé cristã e no intermédio do Espírito, também converge com uma das últimas propostas de Paul Ricoeur. O próprio texto das Escrituras pode agir como sujeito, se inovando, renovando, nascendo de novo e nos convidando para uma conversa[4]. O texto fala conosco, nós falamos com e para o texto, discutimos, crescemos, nos tornamos mais íntimos e renovamos nossa esperança. Uma conversa longa e para sempre...

                “O que é conversão?” – perguntou Frei Carlos Mesters em uma palestra no ICEC. “Conversão é uma conversa bem grande...” – o português permite um trocadilho que nos ensina muito. Frei Carlos com simplicidade nos ensina que conversão é constante e necessita da liberdade da conversa, de sujeitos que se relacionam. Se o texto bíblico, seja Gênesis ou Apocalipse, está fechado, enquadrado e impedido de se libertar da história, do passado e do presente – de ser eterno –, não há transformação, mudança de mente, mudança de mundo.

                Nesse sentido, as propostas de Eliel renovam e reanimam a esperança. Com a liberdade de interpretação, há liberdade para que o mundo mude. Além disso, ao tirar da história e dos estudos fechados, determinantes e deterministas, Eliel faz com que o Apocalipse retorne às mãos dos fiéis – ou como falaria Frei Carlos Mesters: a Bíblia do Povo retornaria ao Povo[5]. Como protestantes, deveríamos nos apegar ao “sacerdócio universal de todos os santos” e não permitir que as cadeias dos senhores donos da verdade nos façam seus escravos.

                Paulo já ensinou: “a letra mata, mas o Espírito vivifica”. Isso não deve nos distanciar dos estudos – muito pelo contrário! – mas deve nos ensinar a não nos apegarmos aos literalismos, legalismos e falsos profetismos que se prendem nas palavras e não na experiência de fé. Aliás, devemos continuar os estudos mais do que nunca para não nos permitirmos acomodar, não nos acostumarmos com as letras que temos. A vida é muito grande para nos prendermos aos pontos.

O tempo

                Eliel apresenta o Apocalipse como um livro que recebe esse nome por se propor a um estilo de literatura com um propósito muito específico: assumir do fim e apelar para a fidelidade. Seria como um “sim, vai acabar e não há o que fazer, mas, ainda assim, seja fiel”. É o “contudo” de Rubem Alves[6]. A profecia denuncia a injustiça e nos convida para uma mudança de rumo, abre a possibilidade de transformação. O discurso apocalíptico, por sua vez, assumiria a catástrofe como inevitável, mas ainda convida à fidelidade mesmo no dia mal. É tempo do fim...

                Não era objetivo do livro, claro, pois é um convite à releitura do Apocalipse, a nos livrarmos de correntes e passearmos em outra condição pelo campo agora, e não um exercício de filosofia, mas um ponto que é comentado durante todo o texto e tocado apenas de maneira pressuposta é o “tempo”. Eliel faz uma proposta linda sobre a eternidade e a trabalharmos o tempo de Deus como presença, e não na cronologia comum. Para quem já experienciou a fé e o amor, sabe do que estamos falando. Mas, filosoficamente, num trabalho de fundamentação, ressignificação e justificação do discurso, não há uma abordagem que considero necessária: que sentido daremos ao tempo? “Onde o colocaremos?”

                Cabe a Henri Bergson a crítica ao tempo em obras extensas e absurdamente fantásticas. Convergindo em certo sentido com Eliel, numa explicação bem simplista de minha parte, Bergson demonstra que o que chamamos de “tempo” na verdade não é “tempo”, mas espaço[7]. Quando marcamos o movimento de um objeto em determinado espaço e “marcamos o tempo” entre o ponto inicial e o final, na verdade nosso relógio age como se colocássemos estacas na estrada: não marcamos o tempo, mas os vários pequenos espaços percorridos naquele espaço total que delimitamos. O tempo seria outra experiência, uma experiência mais profunda, que Bergson chama de “duração”.

                Eliel se aproxima e muito provavelmente fala dessa experiência profunda quando fala do “tempo do fim”, quando coloca a experiência da eternidade como a presença de Deus, quando propõe a analogia com o amor: não vemos o “tempo” passar quando estamos apaixonados, por exemplo. A duração é diferente, outra, impossível de ser medida. Nosso calendário, nosso relógio, nosso “passado-presente-futuro” não são o tempo, mas medidas do espaço e das mudanças espaciais.

                Porque dizemos que o futuro está tão “distante”? Espaço. Se pensássemos bem, quando fazemos uma previsão (“colocarei o despertador para tocar às 7:00 da manhã”), já sabemos e determinamos o amanhã, ou seja, ele já é presente, não futuro, pois o tempo não se mede e o verdadeiro futuro vem sem sabermos dele, sem termos o controle. Quando ocorre o inesperado, sentimos o efeito do tempo: o futuro chega, o passado assombra, vivemos intensamente o presente. Seja uma catástrofe, morte, acidente, o gol inesperado do time mais fraco, um presente surpresa, uma carta de amor que simplesmente chega.

                Como diz Emmanuel Levinás, Bergson nos libertou de um mundo sem novidades, em que tudo é premeditado pela ciência e está sob nosso controle[8]. O descontrole nos lembra de nossa condição de vivos e viventes. Como diz o Eclesiastes: “mais vale um cão vivo que um leão morto”. Levinás também fala do tempo, se diz discípulo de Bergson, mas aprofunda ainda mais a proposta (e é aqui que eu queria chegar): o futuro vem a mim e não de mim (como comentava o professor Benedito Eliseu Cintra).

                Cada um de nós vive em um tempo, dura de uma maneira diferente: o tempo de minha vida, minhas experiências e como assinto, tudo isso é diferente do tempo e duração de Eliel. Quando me encontro com Eliel[9] e me relaciono com ele com sinceridade, de “peito aberto”, o tempo dele vem a mim e não de mim. O inesperado acontece, o tempo do Outro chega e me bagunça. Com essa experiência Levinás ensina: o futuro é o Outro. O tempo é uma experiência surgida na relação com o Próximo, é uma relação ética. Quando estabelecemos um tempo “único” ou uma medida (mediação) do tempo, perdemos essa relação com o Outro, essa experiência do tempo Próximo, com o Próximo. Nos distanciamos da experiência de vida fundante e primeira: Eu e o Próximo.

                Devemos amar o Próximo: o tempo do amor, como Eliel propõe, é o tempo de Deus. Tendo o tempo como essa experiência surgida da relação Eu e o Próximo, o sentido da proposta de caminhada de Eliel ganha um brilho diferente, talvez mais intenso. Além disso, sabendo que o futuro é uma experiência relacional, o tempo do Próximo, interpretarmos “o fim está próximo” precisa ganhar novas possibilidades...

O apocalíptico

                Aqui chegamos à importância do Apocalipse e do apocalíptico: colocados a uma distância segura, eles não se relacionam com nossa vida e não nos fazem responsáveis por sua interpretação e experiência. Mas, em outro sentido, trazidos à experiência cotidiana, aos encontros com o Próximo, ao “face-a-face” (termo de Levinás) o Apocalipse ganha vida e o tempo apocalítico uma necessidade ética.

                O Apocalipse, nessa possibilidade, não fala de um espaço determinado para onde estamos indo, mas deve ser lido e interpretado como enraizado hoje nas nossas experiências diárias, comuns. Tempos catastróficos de destruição em nossas relações acontecem. A esperança deve ser anunciada e a salvação vivida. Sem a teologia corrente, uma teologia relacional nasce.

                O apocalíptico – o tempo do fim em que abraçamos a inevitabilidade do desastre[10] permanecendo, ainda assim, fiéis – é fundamental para nossas relações contemporâneas. O tempo com nosso Próximo é apocalíptico: ele vai acabar. Em breve não estaremos face-a-face, a escuridão preencherá o vazio dos olhos e a relação terá fim. Por isso, devemos permanecer fiéis, amantes, esperançosos e fortes em nossas relações. O futuro, o tempo do Outro, o Próximo, está comprometido. Precisa ser cuidado, amado, precisa receber de um outro tempo(o meu tempo) um alento, uma esperança. A possibilidade de novo céu e nova terra precisa surgir em cada encontro, cada olhar, cada instante que dura. Somos mensageiros do Reino, representantes de Cristo. O futuro vislumbra a justiça de Deus em nossas relações próximas, uns com os outros, olho no olho, a cada instante. O instante tem a palavra final.

                Esse deveria ser nosso ponto de partida para a Ética. É dessa experiência que responderemos às necessidades urgentes de nossa época. A água está acabando, as matas sendo destruídas, a humanidade correndo o risco de se destruir. O fim está próximo e todos os que estão vigiando e mantém os olhos atentos clamam por uma nova possibilidade, por novas posturas e propostas éticas. Seja Cristo nossa esperança, a salvação do mundo.

                Sigamos o convite de Eliel a reinterpretarmos o Apocalipse, trabalhemos os propósitos, sentidos, símbolos e significados. Precisamos nos libertar das correntes de escravidão: seja na interpretação bíblica, seja nas propostas e posturas éticas. Livres, nos responsabilizando por nossas experiências de fé e de vida, mantemos vivo o sonho de justiça, a utopia do Reino de Deus. Utopia que não é inalcançável, mas que se abre como possível a cada encontro, a cada olho no olho, a cada instante com o Próximo. O instante tem a palavra final. Vivamos o hoje! Encarnemos o Reino.

Vivemos na esperança...


Bruno Reikdal Lima




[1] Em seu livro, Eliel comenta que escatologia, além de “estudo do fim”, também poderia ser entendido como falar “das fezes”. Limpar o excesso da teologia corrente na leitura do Apocalipse poderia ironicamente ser entendido, também, nesse sentido: estamos colando as fezes teológicas em seu devido lugar.
[2]SlavojZizek trabalha isso no capítulo I “É a ideologia, estúpido!”, em sua obra Primeiro como tragédia, depois como farsa (São Paulo: Boitempo, 2011).
[3] BULTMANN, R. History and Eschatology, The Presence of Eternity, New York: Harper and Row, 1962.
[4] RICOEUR, Paul. Amor e Justiça, São Paulo: Martins Fontes, 2012.
[5] Uma indicação de leitura de Frei Carlos Mesters é trás Por trás das palavras, Um estudo sobre a porta de entrada no Mundo da Bíblia, Petrópolis: Editora Vozes.
[6] Rubem Alves tem a conhecida afirmação de que “Deus mora no contudo”.
[7] Tive a oportunidade de estudar com a professora Marinê de Souza Pereira o Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, de Henri Bergson. O que me possibilitou ler e trabalhar o autor com gosto e encanto. Amigos como Leonardo Magalde e Michelle Mendes continuaram seus estudos e pesquisas com Bergson, produzindo conteúdos novos.
[8] A leitura, interpretação e interesse por Levinás surgiu nas aulas do professor Benedito Eliseu Cintra. Ao invés de citar as obras do autor, citarei aqui a introdução ao pensamento do filósofo escrita pelo professor Cintra: Pensar com Emmanuel Levinas, São Paulo: Paulus, 2009. E o link de um artigo introdutório a Levinás escrito também por Cintra: Emmanuel Levinás e a ideia do Infinito - http://www.pucsp.br/margem/pdf/m16bc.pdf
[9] Sou filho dele. O encontro constantemente...
[10]SlavojZizek se apropria da proposta de Dupuy de “tempo de um projeto”, em que devemos aceitar a catástrofe como destino par alterar nosso modo de viver hoje (projetando num circuito fechado o que acontecerá de catastrófico, imaginamos o que faríamos de diferente para que não acontecesse isso, no sentido de nos imaginarmos no futuro dizendo “se não tivéssemos feito aquilo, não resultaria nisto”). Na piada sobre Hegel que se conta, o filósofo teria em uma aula afirmado que as hipóteses deveriam ser aquelas apresentadas por ele porque “os fatos são estes”. Um aluno pediu a palavra e disse: “mas estes não são os fatos”. Hegel, olhou para o aluno seriamente e retrucou: “então, mude os fatos”.

26.6.14

QUASE DEZ MIL DIAS CASADO!


Aprendi algumas lições no casamento e em função disso até arrisco dizer que quem leva o casamento muito a sério perde a leveza de viver. Quem vive o casamento na brincadeira não experimenta a intimidade do ser. Quem vive em parceria trabalhando em uma construção mútua de sua própria frágil vida, aprende a amar.

27 anos se passaram. Sim, quase 10 mil dias desde quando nos casamos. Éramos jovens aventureiros cheios de medos do futuro, mas nenhum receio em viver com intensidade rumo ao incógnito amanhã.
Muitos frutos agradáveis nesse tempo.
Dois filhos inspiradores cuja existência nos dizem constantemente que valeu e tem valido a pena.
Estamos mais maduros, mais corajosos e, por incrível que pareça, com as mesmas esperanças de que podemos viver para sempre juntos.

O que é o amor para mim?
Amar não é apenas dizer é traduzir.
O amor não pode ser descrito, só pode ser narrado.
Por isso, para mim, ama aquele que após trilhar uma estrada ao lado de alguém, olha para tudo o que se passou e está disposto a fazer de novo desde que com a mesma pessoa.
Mas com você, querida Gi, não só isso. Vou mais longe!
Sua amabilidade, doçura e sensibilidade me desafiam a cada dia a crer na beleza da vida, na concretude da alegria.

Não consigo usar outra palavra para interpretar a nossa história.
Nossa história é a narrativa de uma vida vivida a dois que se exprime no mais alto anseio humano: o amor.
E essa riqueza toda, além de me dispor a viver de novo, me leva a ter um ânimo tal que quase me iludo pensando ainda ter 20 e poucos anos de idade com dias infinitos pela frente.

Seu perfume me desperta. Sua presença me silencia, porque tenho a sensação de que as palavras se tornam inadequadas. E assim, diante do sagrado - não tem nada mais sagrado que o amor - calo aquilo que me perturba para perceber mais acuradamente o som do seu coração que traz tranquilidade ao meu e faz o bem-estar-juntos.

Que venham outros muitos 10 mil dias. Quero devorá-los todos com a volúpia de quem quer viver muito só para desfrutar de sua companhia de amor.

Não são as circunstâncias, quer boas ou ruins, que enchem a vida de vigor. É a companhia amada.
Obrigado pela sua vida compartilhada comigo. Obrigado por ser a extensão de meu coração. Obrigado por corresponder ao amor e ser a mão que me afaga.

Beijos Mil.

15.3.14

PUGNA THEOLOGICA 1

Fazer um curso de Teologia pode ser desconcertante. Há ofertas cujo valor teológico é tanto quanto o de um livro de receitas. É evidente que existem instituições sérias, comprometidas com o ensino e aprendizado e com a fidelidade e/ou conteúdo acadêmico idôneo ao oferecer um Bacharel em Teologia.

Porém, é público e notório que, basta entrar na web pagando algumas dezenas de reais para receber em casa um certificado de Teólogo e até mesmo de Doutor em Divindade.

Existem instituições que oferecem um curso reconhecido, válido, porém em termos de Teologia se dedicam a formarem replicadores de uma confissão doutrinária. Quer dizer, ensinam a doutrina de seu próprio arraial. Tanto que não permitem professores de outras confissões, pois a prioridade é perpetuar sua própria denominação. Não que isso por si só invalide a seriedade de tal Instituição ou mesmo da Teologia que defendem, porém, a meu ver deixam a desejar em termos acadêmicos.

Há aquelas instituições que laboram teologicamente com esmero, enfrentam os debates e as contradições teológicas sem receio algum. Que de fato dedicam-se às reflexões teológicas.

Porém, independente do tipo de Instituição, há que se considerar também a qualidade dos alunos. Avaliar conhecimento, todos os pedagogos e profissionais da área de educação sabem que não é fácil. Sendo assim, alguém esboçar um diploma de qualquer coisa não significa que ele domine aquilo no qual se diplomou.

E aqui talvez surja o nó do problema.

Uma das dificuldades em ensinar Teologia para protestantes evangélicos vem do fato de receberem uma boa educação cristã, evidentemente doutrinária confessional. Ao cursarem Teologia esperam que o curso lhes aprofundem em seus dogmas e doutrinas. Diferente de qualquer outra graduação em que o estudante se gradua no aprendizado, na Teologia entram para “aprofundar”. Inscrevem-se para estudarem algo que julgam saber.

Assim estudantes formados em instituições ruins, péssimos estudantes, replicadores de doutrinas criam ondas quase que normativas doutrinárias com o selo de teologia, que acaba dando o direito a qualquer pensamento ou opinião bíblica como se fosse a Verdade Divina. Tal qual, temos em nosso país mais de 200 milhões de técnicos de futebol e críticos políticos, temos toda a parcela protestante evangélica como teólogos e apologistas.

Blogs defendendo a sã doutrina, elegendo hereges, acusando os falsos pregadores a partir do senso comum doutrinário. Textos que caçam as bruxas cibernéticas e os anticristos que estão roubando as ovelhas.

Todo esse emaranhado de questões apontam para uma origem comum que chamam de didaquê, mas para mim, no meio evangélico está mais para katecheo.
Um excelente trabalho, porém sem a preocupação com a liberdade do pensamento.

Os adeptos de uma denominação não são ensinados através do questionamento e análise livre do pensamento elaborarem premissas e conclusões, antes são doutrinados a repetirem dogmas e a decorarem respostas prontas com algum versículo bíblico que as validem. Infelizmente é pecado pensar.

Aqueles que não se comportarem são ameaçados com ideias bíblicas do tipo, “Deus resiste aos soberbos e a incredulidade desperta a ira de Deus” e se persistirem serão cassados.
Metaforicamente eu diria que são doutrinados a se prepararem para abrir a porta quando uma TJ bater e enquanto não estiverem com tudo decorado a não abrirem a porta e pior, fazem disso uma verdade absoluta e pensam se tratar de Teologia.

Podemos constatar isso ao perceber que qualquer crente ao falar sobre a Onisciência de Deus cita o Salmo 139, ao falar sobre a preordenação do Cristo, cita Gênesis 3:15 “a semente da mulher”. Pensar sobre a teodicéia traz à lume a queda radical causada pela “desobediência adâmica”.

Interessante como entra década e sai década e é recorrente encontrar prosélitos perguntando sobre o casamento de Caim.
Herdaram junto com o dogma sobre as Escrituras a crença de que uma verdade bíblica se faz com literalidade textual.
Isso ocorre dentro da imposição de que um “verdadeiro cristão” obrigatoriamente tem que acreditar no princípio da não contradição e montar toda sua fé sobre essa pedra. Caso ele constate que existe uma contradição, deve negar sua capacidade intelectual, considerar-se um incapaz de compreender verdades espirituais. Não deve questionar, pois isso demonstraria fraqueza de fé (eu diria ou de inteligência?), mas um dia lhe será esclarecido, pois afinal, “as coisas ocultas pertencem a Deus” e não a um “vaso de barro roto” qualquer. Tudo isso com um lembrete: “de Deus não se zomba”.

Alguém pode perguntar: - mas de onde se tiraria a teologia cristã se não da Bíblia?

Minha resposta: da Bíblia, mas não com parâmetros unívocos.

A questão não é a Bíblia, mas como se faz teologia. Enfileirar versículos Bíblicos para se ter uma verdade, não se tem a verdade. A Bíblia seria um livro de revelações divinas como alectoromancia? Ou trata-se da história religiosa de Israel?

Não podemos recortar a Bíblia e dizer que temos uma verdade sobre Deus. Versículos sobrepostos não fazem uma verdade.

Tenho para mim, a partir da própria Bíblia que ela não se propõe a dar definições de Deus, mas a apontar caminhos que revelem Deus. Encontramos a Revelação de Deus na Vida e essa, para o cristão, se manifestou plenamente em Cristo.
Não temos em nenhum lugar na Bíblia o exercício para provar que Deus existe, logo ela não propõe revelar a existência de Deus. Ela instrui àqueles que creem em Deus a encontrarem Deus em suas próprias vidas e história.

O encontro com um Deus Vivo e Real tem que ser em uma experiência viva com o Espírito de Cristo e não em um texto. Afinal, a letra mata.
Sistematizar um texto pode até resultar em um conjunto de ideias sobre a verdade, mas não resulta na Verdade.
Para quê a Bíblia? Para refletirmos sobre nossa real possibilidade de um encontro verdadeiro com Deus. Aqueles homens com todas as suas fraquezas tiveram seu encontro com Deus. Cada um de nós também pode.

5.12.13

MEU MUNDO RELIGIOSO RUIU.

ENTRE MEDO, FÉ E AMOR!

Fui doutrinado a ter medo de Nietzsche, assim como de bruxas, demônios, inferno e pessoas de outras expressões religiosas, principalmente espiritualistas de origem africana. 
Agora imaginem de quem fui ensinado a ter muito medo?

Tenho nítido em minha memória desde a infância Mateus 10:28Não tenham medo dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, tenham medo daquele que pode destruir tanto a alma como o corpo no inferno”.

Interessante observar que ateus, mágicos, espíritas e demônios para alguns crentes estão do mesmo lado e devem ser evitados e temidos, por causa do maior temor de todos: Deus. 
Se associar àqueles terríveis significa cair nas mãos desse mais terrível: o único que pode destruir alma e corpo no inferno.

Treinado a combater quem pensava diferente, e a ter medo disso, era pecado pensar por outras vias. Ironia do destino estar escrevendo uma série intitulada “Porque Pensar Não É Pecado” ou seria uma maneira de me vingar?

Deixar o pensamento livremente divagar pelo mundo do conhecimento e das informações, aventurar-se em terras estranhas era raríssimo em meu ambiente principalmente o religioso. Outra ironia era uma pequena biblioteca de meu pai cuja maioria dos livros era de outras expressões religiosas que não a nossa.

Ninguém que quisesse ser querido e admirado deveria se atrever a estudar, ler e conhecer o que os “estranhos” pensavam e diziam. Eram reconhecidos como estudados e inteligentes aqueles que dominavam bem os rótulos, tanto para criá-los como para combatê-los. 
Hoje percebo que aqueles que eram considerados os grandes teólogos na verdade eram organizadores de rótulos tanto internos (destrinchar a doutrina), quanto externos (organizar o pensamento oposto sistematicamente e elaborar os argumentos que desfariam esse sistema).

Passado o tempo, enfrentado ironias da vida, ocorreu mais uma quando parei numa igreja cujo principal líder instiga pensar além, rasgar pensamentos, romper idéias, explorar novos mundos.
Foi então que vi minha estrutura mental como uma noz que desde a infância aguardava ser quebrada para vir à tona o fruto. Fascinante! Falta-me muito nessa estrada, mas me sinto bem vivo caminhando por ela.

Olho para trás e vejo naquele ambiente:
  •         Considerava-se inteligente quem sabia respostas decor e melhor brincasse com elas para encurralar os supostos adversários.
  •          Não era fiel quem amasse a Deus, mas quem conseguisse se submeter intelectualmente a um conjunto de normas religiosas.
  •          A base para a fidelidade era o medo.


Hoje tenho que confessar: 
Não tenho medo do inferno, do diabo, de demônios, de pensamentos diferentes aos meus. 
Não tenho medo de enfrentar pensamentos opostos e ficar sem respostas, isso não me afeta e nem me faz perder a fé. 
Nenhuma expressão religiosa me causa pavor, exceto as maldades realizadas em nome de Deus, essas sim, tenho verdadeiro horror. 
Para crer não preciso ter razão, nem saber responder tudo e nem tampouco ter uma religião completa e mais perfeita. 
O mais lindo? Não tenho medo de Deus. 
E pasmem, Nietzsche era um gênio; uma mente brilhante e que junto com Dostoiévski me ajudou a organizar a fé.

Aprendi que dá medo ter medo e nesse pavor nos tornamos prisioneiros de fantasmas que nós mesmos criamos. O medo afasta pessoas, produz vítimas de opressão, nos torna agressivos, intolerantes e soberbos e portanto, nada disso tem liga com a fé cristã. 
Aliás, aprendi que o maior inimigo da fé não é a incredulidade, mas o medo. 
O mais triste para mim é saber que normalmente aqueles que se livram desses medos impostos pela religiosidade são tidos como hereges a serem temidos ou insanos a serem isolados.

De tudo o que aprendi uma das mais maravilhosas lições veio de João em sua carta quando abertamente escreve: “o amor lança fora o medo”.
Decidi então amar, não só para cumprir um mandamento, isso para mim é pouco, mas para livrar-me daquilo que me esvazia de Deus, o medo. Dessa maneira e somente assim, posso me encher de Deus.


Amar é a maior das libertações humanas e talvez a que cause mais medo naqueles que organizam sua fé no medo.

Eliel Batista

9.10.13

CUIDADO COM DEUS

NÃO O TIRE DO SÉRIO!


O apóstolo Paulo se referiu ao cristão como “embaixador” e também como "carta de Cristo". Aquele que manifesta Deus no mundo.

Através de sua maneira de viver, ele coloca seus observadores em contato com o significado de Deus e como deve ser esse Deus.
Não é de se estranhar o porquê muitos resistem em crer ou desconfiam desse Deus revelado no ethos de considerável número de crentes.

Tudo na fé do crente testemunha a respeito de Deus:
Aquilo que possibilita os cultos e viabilizam as marchas e concentrações, o que faz uma pessoa contribuir, participar de vigílias, subir montes à noite, jejuar, ler a Bíblia e "defender" o evangelho revelam as características de Deus.
A partir dessa observação, de como se comportam os crentes, além de conhecermos suas crenças, podemos traçar um perfil desse Deus ao qual se cultua.
Não que Deus seja objetivamente de tal forma, porém se assim se relacionam com Ele, isso demonstra como Ele é compreendido e recebido.

O ethos gospel, manifestado por esse país afora, leva a perceber que no divã de Freud, dentre as muitas possibilidades, esse deus tem um alterego: o diabo.

Diante de algumas declarações de fé, defesas doutrinárias, frases clichês, jargões gospels, citações de textos bíblicos a esmo e propagandas de cultos parece que Deus deve ter algum fascínio pelo diabo.
Sem dizer que desse modo, se os servos de Deus têm necessidade e precisam se reunir para fazer frente ao diabo, sem ele, Deus perde sua função.
Em última instância, o diabo acaba sendo a necessidade de subsistência divina, tal qual o superhomem, se não existir um vilão ele é desnecessário. Sem o diabo deus parece não fazer sentido.
 (não vejo Deus como uma função ou uma utilidade, mas dada a questão parece que sua existência estaria assim condicionada).

Afirmar a existência do diabo é outra questão, não proposta aqui, mas sim como se dá a crença nesse diabo. Por isso, imaginando que nesse ponto alguém diria: "o diabo não existe é uma artimanha do diabo para destruir eternamente as pessoas”, pergunto:

Crer no diabo passa a ser imprescindível para que as pessoas sejam salvas?

Outra coisa: se o diabo não existir há disposição e razão para uma pessoa continuar servindo a Deus, sendo fiel, guardando-se do pecado?
Se a conclusão é que os crentes não seriam mais crentes, o diabo é o principal personagem da fé e Deus depende dele.

Dessa forma também poderíamos dizer que Deus não destrói o diabo de vez porque estaria relegado a um eterno tédio de inutilidade:

- Sem a necessidade de proteger as pessoas de salvá-las das artimanhas malignas em quê ele poderia atuar?

- Pessoas sem medo do diabo procurariam Deus?

Nessa condição, os crentes estariam enganados em serem antidiabo, afinal ele é quem dá uma sobrevida a esse deus.

Sem o diabo, existiria bondade no mundo?

Diante desse tema, diferente do que possam discursar como fé, a maneira como muitos se comportam demonstra que sem o diabo o mundo estaria perdido. Por quê?  Porque parece que o diabo seria aquele que restringiria uma pessoa de ser má. As pessoas estariam livres, entregues a si mesmos e seria “bandalheira total”.
Não correndo o risco de ser eternamente atormentada, pensa-se que ninguém mais precisaria ser bom, fiel e ético.

Sendo assim, estaria o diabo no final das contas causando um bem e levando as pessoas a amarem?

Nesse caso, Deus mesmo, em última análise, é o diabo e não Deus, porque se o próprio Deus depende dele para ser Deus na vida das pessoas, e é a razão pela qual elas cumprem o mandamento divino, ele, o diabo, é a causa de tudo e não Deus.
E não diga que "Deus usa o diabo para isso". Não é digno de confiança um Deus que como um sequestrador coage através do medo e ameaças de morte.
Se alguém for bom para não ser "pego" pelo diabo esse alguém não é bom, mas hipócrita. É mal e reprime toda a maldade pelo medo do diabo e não porque sua alma aspira por tudo o que é de Deus.

Se o diabo e o inferno formam a razão de uma pessoa ser boa, ética, honesta, servir a Deus e amá-lo, essa pessoa é controlada por aquilo que o diabo oferece: o medo. Contrário a Deus cujo amor libertador lança fora o medo.

Há quem diga: "Cuidado com Deus".
Mas afinal, se fizermos o mal Deus ou o diabo quem nos “pega”?
Nessa lógica tanto faz, pois ego e alterego divino fazem o jogo e a situação só piora, pois nessa condição se confirmaria esse Transtorno Dissociativo de Identidade tal qual com Bruce Banner, que ao ser provocado, se torna no Incrível Hulk.

Ousaria dizer que se uma pessoa usa Deus como forma de ameaça para que a outra obedeça, o diabo é um mal contido no seu próprio coração, pois é a quem ela quer dar vazão. E ainda nesse caso ela obedece a ele, pois considera a opressão e até mesmo a aniquilação do próximo como algo correto, ético e divino a acontecer.

Fazer isso, mesmo que, em nome da justiça não é de Deus.
Ameaçar alguém com Deus, querendo ou não, é anunciar Deus como destruidor, um homicida.
Certa vez Jesus disse em João 8:44  “Vocês pertencem ao pai de vocês, o Diabo, e querem realizar o desejo dele. Ele foi homicida desde o princípio...".

Outra vez Jesus disse que alguns achavam que destruindo o outro estariam fazendo um serviço a Deus. Tal qual Paulo que ao perseguir e desfazer daqueles que criam diferente de sua fé acreditava que estaria do lado de Deus, cumprindo um mandato divino. Descobriu por fim que dessa forma, em vez de santo, era "o pior dos pecadores".

Quem serve a Deus por medo tira Ele de sua própria vida.
Usar Deus para impingir medo nas pessoas é ser contra Deus.
“Jogar” o diabo contra o próximo, o amedrontando, contraria o evangelho que anuncia a destruição do diabo e suas obras malignas.

Recordando o já dito: “o amor lança fora o medo”. “Deus é amor”.

Sei, claro que sei, que sempre aparece alguém para por uma vírgula depois do amor e dizer: “mas é justiça”.
De fato, porém justiça conforme revelada em Jesus Cristo.
Gl 3:21 ...se a justiça vem pela Lei, Cristo morreu inutilmente!

Is 42:3Não quebrará o caniço rachado, e não apagará o pavio fumegante. Com fidelidade fará justiça”.

Para Deus, derramar sangue e causar aflição não é justiça. Justiça para Ele promove paz e confiança:
Is 5:7Ele esperava justiça, mas houve derramamento de sangue; esperava retidão, mas ouviu gritos de aflição”.

Is 32:17O fruto da justiça será paz; o resultado da justiça será tranqüilidade e confiança para sempre”.

A justiça divina não destrói; produz vida. Se fosse segundo alguns que acreditam ser destrutiva, nem eles mesmos escapariam, mas insistem em querer a destruição daqueles a quem Deus ama e pelos quais deu o seu Filho.

João 3:17Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que este fosse salvo por meio dele”.
Anunciar uma mensagem diferente dessas palavras de Jesus é discordar do próprio Jesus, além de correr o risco de, como embaixador de Cristo, demonstrar com seu testemunho de vida um diabo como o alterego de Deus, nesse caso estaria certo o alerta, “cuidado com Deus, não o tire do sério!

Mas se Deus é conforme revelado em Cristo Jesus, podemos dizer:

Corram para Cristo, rendam-se a Ele, pois ele anulou o poder da morte. Ele é a ressurreição e a vida. 
Não precisam tomar cuidado com Deus, ele os quer bem. 
Podem confiar completamente nele, porque Ele sim é que tem cuidado de cada um como filho.

Eliel Batista