De que adianta um profundo conhecimento teológico se a vida
daqueles que ouvem uma mensagem não experimenta Deus?
Quando alguém se volta para a igreja, deseja avidamente
suprir suas carências, aliás, anelo legítimo, válido e que deve ser buscado. O
problema surge no descompasso entre a crença na possibilidade de se concretizar
a idealização da vida e, de fato, a realidade da vida tal qual se apresenta.
Uma igreja não é o que ela propõe, mas aquilo que as
pessoas vivem enquanto igreja
Talvez um bom caminho para equacionar um pouco a tensão
entre a “proposta de uma igreja” e a “vida da igreja” seria o de além dos
conteúdos das mensagens, pensar sobre a intenção e os objetivos das mesmas
frente aos anelos pessoais e comunitários dos ouvintes.
Olhando para as pessoas que freqüentam as igrejas,
percebi uma distância entre Igreja Ideal e Igreja Idealizada.
Considero Igreja
Ideal aquela cuja proposta corresponde a determinados parâmetros evangélicos
comuns que mantém certa estabilidade, comodidade e que seja motivadora - a
chamada “igreja boa”. E chamo de Igreja Idealizada aquela em que, por preencher
os requisitos da Igreja Ideal, a pessoa acredita que todos os seus anseios
particulares serão por ela supridos.
A união conjugal como um excelente símbolo da igreja,
ajuda a perceber este anelo e expectativa de suprimento de carências e
realizações e o compromisso pessoal.
Casamentos são mantidos não por causa da verdade, mas do
pacto.
Todos têm segredos individuais, verdades omitidas, para que o pacto
permaneça.
O que leva uma pessoa a permanecer em uma igreja não é a
verdade, mas o que ela busca para se conectar - seu pacto.
Se a verdade fosse
suficiente, algumas igrejas abarrotadas de pessoas estariam vazias e outras
vazias estariam cheias.
Por sua vez, o pacto está diretamente ligado à percepção
daquilo que a pessoa entende como fator solucionador de sua carência.
Aquilo
que ela compreende como concretizador de sua felicidade convoca-a a firmar uma
aliança.
Neste critério que propus, entre a Igreja Ideal e a
Igreja Idealizada existe a Igreja Real. Pessoas sedentas em função de seus
anelos e em busca de se conectar ou assumir um compromisso com uma igreja.
O pastor que não levar em conta os anseios particulares e
considerar que estas pessoas serão tocadas apenas por falar a verdade, terá que
lidar com a frustração de não contar com um compromisso mais intenso das
pessoas.
Por se tratar de uma Igreja Ideal os ouvidos estarão atentos, mas por não
corresponder à Igreja Idealizada o coração se dispersará.
Fica um contrapé
entre os anseios pessoais e a mensagem. E como só nos comprometemos com aquilo
pelo qual o nosso coração pulsa mais forte, a Igreja Real experimenta uma espécie
de apatia.
Existem muitas propostas de igrejas, assim como existem
diferentes posturas diante da vida.
As pessoas exaustas das lutas diárias, carentes de
alívios em um mundo sofrido, angustiam-se e podem assumir algumas posturas que dificultam um desenvolvimento sadio da fé.
Elas podem desejar transformar a esperança do Reino -
responsabilidade do fiel, em trabalho divino - uma concretização imediata,
mágica, do Reino.
Com esta expectativa, tornam-se presas fáceis da religião
que instrumentaliza a fé.
Por desejarem uma intervenção divina aqui e agora, se
iludem com um tipo de mensagem que promete para este mundo uma vida sem dor, e
mais ainda, que promete consertar todas as circunstâncias ruins.
Desejar
mudanças e acontecimentos radicais transformadores não é ruim, mas esta
mensagem espasmódica que conserta tudo, alegra momentaneamente gerando uma
falsa esperança e adoecendo a alma, porque enquanto no mundo experimentaremos aflições.
Uma mensagem que promete corrigir todos os problemas leva
o crente a negar a vida como ela é, aumenta a dor.
A esperança cristã não se firma na concretização mágica
dos sonhos, mas na convicção de uma glória por vir.
Por outro lado, simplesmente pregar a verdade de que o
mundo é assim mesmo, não supre os anelos da alma.
Neste ponto, penso eu, quem
está cansado de lutar não quer forças para enfrentar as dificuldades próprias
da vida, mas deseja ser poupado, ainda mais se associar proteção como prova de
acolhimento ou amor.
A lei do menor esforço e maior benefício influencia muito
crer em facilitações divinas. Assim, a pregação que livra de tudo é mais bem
aceita, por mais que não tenha consistência diante da vida.
Este desejo, ser poupado, pode levar o fiel, apesar de
toda sinceridade, a alienar-se da vida, adoecendo sua alma cada vez mais.
A igreja deve ser o espaço de cura, o lugar do milagre de
Deus, e consequentemente da Palavra como semente que possibilita a vida em meio
ao caos.
Lugar de cura diferente de um centro espiritualista que
promete solucionar todos os problemas com trabalhos, vigílias ou cirurgias
espirituais. Nem como um seminário apologético que possui a resposta certa para
tudo. Muito menos a mediadora de Deus e/ou manipuladora da graça.
Porém, vejo que a igreja tem mais possibilidades para ser
este espaço terapêutico no comungar das igualdades da vida.
Quando cada pessoa perceber que ela não é desfavorecida
de Deus porque vive aflições, que ela não é a única que está com a alma
dilacerada. Que ela não está pagando uma conta eterna diante de Deus.
Quando cada um puder ouvir as histórias que comprovam a
identificação entre todos, com as mesmas dificuldades da vida neste mundo,
haverá libertação das algemas ilusórias da religiosidade que nega a vida.
Cada
um perceberá que pode ser ele mesmo e ter problemas sem ser o “patinho feio” da
família divina.
Também se tornará mais saudável e a pessoa desfrutará da
liberdade e de crescimento espiritual quando ao sair de sua igreja, após aquele
tempo maravilhoso de culto, estiver consciente e firme para lidar com o mesmo
mundo de quando ela entrou.
Mas isto não é feito pelo discurso apenas, mas pela
mutualidade.
Penso que a igreja, em seu modus operandi e sua mensagem, deve priorizar as pessoas se
abrirem para a vida.
Conceder espaço para que na mutualidade tome-se ciência de
que apesar de suas fragilidades, limitações, e da volúpia do mundo injusto,
cada um é amado por Deus e conta com sua presença de amor.
Que todos percebam como é de fato a realidade da vida e
em função da identificação com o outro, se sintam desafiados a continuarem
lutando contra um mundo inseguro e de morte. Como nos ensina Pedro "para
isto fomos chamados, pois também Cristo sofreu".
Será que também não
seria isto que Jesus quis dizer quando afirmou que seus discípulos testemunhariam?
Parafraseando João e Pedro: "Tudo o que
experimentamos é o que falamos, não inventamos nada a respeito da vida".
Eliel Batista



