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5.6.15

A MAIS POLÊMICA MARCHA PRA JESUS



Havia muita tensão naqueles dias.
A pressão dos líderes religiosos para ter o controle sobre o povo e a sede de poder os levavam a tentar mostrar ao governo sua força.

Os líderes religiosos, de forma orquestrada e calculada, juntavam multidões e fornecia um alto capital monetário e político para si mesmos.
A imensa necessidade social e econômica do povo e sua sede de Deus, facilitava a manipulação inescrupulosa por parte dos líderes religiosos e garantia o sucesso de venda das bugigangas em nome de Deus.

No entanto, aquela tarde prometia.
Depois do surgimento do Nazareno, vivendo e andando na periferia entre os desafortunados, perdoava sem a necessidade de pagar absolutamente nada, realizava milagres gratuitamente, multiplicava o pão sem cobrar um centavo, demonstrava o amor de Deus, apenas cuidando dos feridos e necessitados, os pensamentos sobre Deus foram reformulados e a alegria da fé reavivada.

Sem nenhuma chancela dos líderes, sem autorizacão oficial dos doutores da lei, contrariando os poderes instituídos entra em Jerusalém um herege!
Sem banda, nenhum cantor de sucesso, nada de show orquestrado e nenhum religioso famoso inicia-se a primeira Marcha pra Jesus.

O povo, vindo da periferia para o centro, marchou para Jesus.
O final da Marcha era no Templo.
Jesus foi para lá e ao chegar, expulsou os que vendiam e os que compravam os "favores celestiais" e deixou claro o que ali ocorria ao dizer:
"Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração, mas vocês estão fazendo dela um covil de ladrões".

O lugar em que todas as pessoas poderiam ir e encontrar-se com Deus na pureza do coração, na beleza da fé, estava sendo usado para ocultar a gatunagem.

Líderes religiosos, que incluíam pastores, profetas e teólogos, fizeram um conluio e usando de engano e malandragem, mantinham o povo longe de Deus e cobravam para facilitar o acesso.
Forçavam a venda de bugigangas religiosas como instrumento de benção divina, levavam os fiéis a relativizarem o próprio sustento e a pensarem que qualquer outra coisa não aconselhada por eles era maldita.
Assim transferiam o suado salário do povo para seus próprios bolsos e se ocultavam por detrás da fachada de fazerem a "obra de Deus".

Jesus fez sua denúncia:
O templo escondia o roubo. Aquilo que oculta o ladrão é seu esconderijo e esconderijo de ladrão é covil.

Desta forma, a primeira Marcha Pra Jesus foi uma verdadeira denúncia contra...(?)

1.1.15

PARA UM NOVO ANO.


Mais um ano se inicia e as reflexões sobre planos, projetos e sonhos se intensificam, realizando uma espécie de breque na voluptuosidade das correrias, que por vezes sugam as energias de um viver saudável e que vale a pena.

Me perdoem os mais céticos, mas nessas horas não se deve deixar de lado o pensar em Deus ou no mínimo na sua efetiva participação na Vida. Não porque ele seria uma espécie de muletas para se caminhar na existência, mas porque ele habita no mais profundo de nossa humanidade.
Ele é um convite para se pensar nas qualidades dos relacionamentos, não a partir do próximo, mas a partir daquilo que a gente mesmo oferece para que nossos relacionamentos sejam mais fiéis e maduros possíveis, apesar de nossas fraquezas e limitações.

Pensarmos sobre o quanto contribuímos para um mundo melhor, o quanto investimos naquilo que consideramos essencial. Isso mesmo, essencial! Há quem julgue a qualidade da existência por aquilo que é prioritário.
Devemos lembrar que por vezes a prioridade não é essencial para um viver leve, bonito e amoroso.

O maior desafio para o ser humano no desenvolvimento de sua plena humanidade é amar, porque só o amor pode nos fazer mais verdadeiramente vivos do que nunca.

O que eu poderia sugerir para que o ano novo seja um Novo Ano?

Queira uma vida cheia de Vida, cheia de graça.
Tenho algumas pistas para tal:


  •  Seja pacificador. 

Um pacificador se esforça pela qualidade de seus relacionamentos. Quando faz isso com dedicação é acolhido pelo seu próximo como irmão formando uma grande família humana e portanto, acolhido como filho de Deus. Filho de Deus tem uma vida divina!


  •  Cultive mais o amor do que a mágoa. 

A mágoa nos afasta um dos outros e com o passar do tempo tende a ganhar em nosso coração o espaço destinado à mais elevada vocação humana: amar.


  •  Não carregue culpa. 

A culpa deve permanecer por um breve momento e única função: despertar a consciência para melhorarmos e construirmos caminhos mais bonitos. Portanto, sempre canalize a energia da culpa para ser uma força de transformação de erros em maturidade.


  •  Valorize a vida adequadamente. 

Valorize-a pelo fato de ser a única vida que você possui e não por conquistas ou méritos. A vida não consiste dos bens que se possui, mas de como se vive a vida.


  • Estabeleça um bom critério para suas decisões. 

Não tome decisões pelo critério do pode ou não pode, mas sim, se você quer os desdobramentos e consequências de seus atos e decisões.

E por último eu diria:


  •  Não corra atrás da felicidade, produza-a. 

A gente produz a felicidade vivendo com inteireza aquilo que constitui a própria existência: alegrias e tristezas. Então, celebre as alegrias e chore as tristezas, sempre partilhando com seus amigos, pois ao dividir essas coisas você estará abrindo seu coração, compartilhando a vida. E a vida só é vida quando dividida, pois ao dividi-la ela é multiplicada, gerando mais vida.

Há outras coisas, porém deixo para você completar a lista com as suas.

Tenha um ano Novo.

Eliel Batista

7.8.14

DEPOIS DO "FIM DO MUNDO"


Há alguns anos Eliel Batista se propôs a escrever uma série de três livros intitulados Porque pensar não é pecado. Cada volume traz intuições, propostas e discussões nascidas de seus estudos e das aulas de Teologia Bíblica ministradas no Instituto Cristão de estudos Contemporâneos (ICEC). Recentemente foi lançado o terceiro e último volume, que trata da leitura e interpretação do Apocalipse. De caso pensado, o último volume é sobre o fim.
               
                Tradicionalmente os semestres de estudos do ICEC têm como abertura um simpósio, o Módulo de Abertura. O último – “Fim do Mundo: sinais, mitos e falso profetismo” – foi ministrado por Eliel a respeito de seu livro. Tive a honra de prefaciar o livro e também de participar do Módulo. Após o fim de nossa semana de conversas, aprendizado, propostas e novas experiências, é bom apontar a direção dos caminhos que foram abertos.

A interpretação

                Trabalhamos nesse tempo em função de limpar o terreno das leituras tradicionais[1] do livro do Apocalipse e encontrar as luzes que Eliel acendeu nos corredores da interpretação bíblica. O movimento do livro não termina nele mesmo. O livro não procura explicar o passado, esmiuçar o futuro e muito menos tem pretensão de “palavra final”. Surpreendentemente, o livro que fala sobre o fim não acaba em seu próprio final, mas nos convida a retornar ao Apocalipse e lermos com nossos próprios olhos, interpretarmos a partir de nossas experiências cotidianas e de fé.

                A disputa pelo passado é uma guerra ideológica: quem propõe uma boa justificativa para o que aconteceu “vence a batalha” e instaura uma nova ordem, a “melhor” ideologia[2]. Eliel foge dessa proposta. O resgate histórico que faz é de nos ajudar a desatar os nós do passado, a não nos tornarmos reféns da história, mas seus parceiros – assim como um terapeuta e seu paciente. Quem antecipa e “sabe do futuro” ganha o poder de homem livre frente aos escravos: sei seu destino e não há como você sair de seu estado, já que nasceu escravo e morrerá escravo. Contente-se com as determinações e espere por elas. Longe, muito longe disso, também não somos guiados por essa trilha: ele não tenta ser futurólogo, apenas acendedor de luz. Como o próprio Eliel adverte em seu livro, nem no passado e nem no futuro há vida, então vivamos a experiência presente, cotidiana. É a partir dela que devemos interpretar o Apocalipse.
               
                O deslocamento da leitura do Apocalipse como uma previsão do futuro para a possibilidade de uma interpretação que parta do hoje, de nossas experiências próximas, é inovadora e fruto de propostas teológicas recentes e emergentes. A crítica de RudolfBultmann à interpretação teológico-acadêmica que se prende ao historicismo[3] (seja do passado ou do futuro já determinado), por exemplo, não tinha encontrado em solo brasileiro um comentário do Apocalipse que a correspondesse. Bultmann, uma “vaca sagrada” da teologia protestante contemporânea, critica a exegese que anula a experiência do sujeito leitor, que tem preferência pela história e não àquele que fala a mim hoje, ao Autor e ao sujeito que se relaciona com Ele.

                Para mais além, num tema implícito na obra de Eliel, essa possibilidade de interpretação livre da necessidade de dominação da história, confiando na experiência de fé cristã e no intermédio do Espírito, também converge com uma das últimas propostas de Paul Ricoeur. O próprio texto das Escrituras pode agir como sujeito, se inovando, renovando, nascendo de novo e nos convidando para uma conversa[4]. O texto fala conosco, nós falamos com e para o texto, discutimos, crescemos, nos tornamos mais íntimos e renovamos nossa esperança. Uma conversa longa e para sempre...

                “O que é conversão?” – perguntou Frei Carlos Mesters em uma palestra no ICEC. “Conversão é uma conversa bem grande...” – o português permite um trocadilho que nos ensina muito. Frei Carlos com simplicidade nos ensina que conversão é constante e necessita da liberdade da conversa, de sujeitos que se relacionam. Se o texto bíblico, seja Gênesis ou Apocalipse, está fechado, enquadrado e impedido de se libertar da história, do passado e do presente – de ser eterno –, não há transformação, mudança de mente, mudança de mundo.

                Nesse sentido, as propostas de Eliel renovam e reanimam a esperança. Com a liberdade de interpretação, há liberdade para que o mundo mude. Além disso, ao tirar da história e dos estudos fechados, determinantes e deterministas, Eliel faz com que o Apocalipse retorne às mãos dos fiéis – ou como falaria Frei Carlos Mesters: a Bíblia do Povo retornaria ao Povo[5]. Como protestantes, deveríamos nos apegar ao “sacerdócio universal de todos os santos” e não permitir que as cadeias dos senhores donos da verdade nos façam seus escravos.

                Paulo já ensinou: “a letra mata, mas o Espírito vivifica”. Isso não deve nos distanciar dos estudos – muito pelo contrário! – mas deve nos ensinar a não nos apegarmos aos literalismos, legalismos e falsos profetismos que se prendem nas palavras e não na experiência de fé. Aliás, devemos continuar os estudos mais do que nunca para não nos permitirmos acomodar, não nos acostumarmos com as letras que temos. A vida é muito grande para nos prendermos aos pontos.

O tempo

                Eliel apresenta o Apocalipse como um livro que recebe esse nome por se propor a um estilo de literatura com um propósito muito específico: assumir do fim e apelar para a fidelidade. Seria como um “sim, vai acabar e não há o que fazer, mas, ainda assim, seja fiel”. É o “contudo” de Rubem Alves[6]. A profecia denuncia a injustiça e nos convida para uma mudança de rumo, abre a possibilidade de transformação. O discurso apocalíptico, por sua vez, assumiria a catástrofe como inevitável, mas ainda convida à fidelidade mesmo no dia mal. É tempo do fim...

                Não era objetivo do livro, claro, pois é um convite à releitura do Apocalipse, a nos livrarmos de correntes e passearmos em outra condição pelo campo agora, e não um exercício de filosofia, mas um ponto que é comentado durante todo o texto e tocado apenas de maneira pressuposta é o “tempo”. Eliel faz uma proposta linda sobre a eternidade e a trabalharmos o tempo de Deus como presença, e não na cronologia comum. Para quem já experienciou a fé e o amor, sabe do que estamos falando. Mas, filosoficamente, num trabalho de fundamentação, ressignificação e justificação do discurso, não há uma abordagem que considero necessária: que sentido daremos ao tempo? “Onde o colocaremos?”

                Cabe a Henri Bergson a crítica ao tempo em obras extensas e absurdamente fantásticas. Convergindo em certo sentido com Eliel, numa explicação bem simplista de minha parte, Bergson demonstra que o que chamamos de “tempo” na verdade não é “tempo”, mas espaço[7]. Quando marcamos o movimento de um objeto em determinado espaço e “marcamos o tempo” entre o ponto inicial e o final, na verdade nosso relógio age como se colocássemos estacas na estrada: não marcamos o tempo, mas os vários pequenos espaços percorridos naquele espaço total que delimitamos. O tempo seria outra experiência, uma experiência mais profunda, que Bergson chama de “duração”.

                Eliel se aproxima e muito provavelmente fala dessa experiência profunda quando fala do “tempo do fim”, quando coloca a experiência da eternidade como a presença de Deus, quando propõe a analogia com o amor: não vemos o “tempo” passar quando estamos apaixonados, por exemplo. A duração é diferente, outra, impossível de ser medida. Nosso calendário, nosso relógio, nosso “passado-presente-futuro” não são o tempo, mas medidas do espaço e das mudanças espaciais.

                Porque dizemos que o futuro está tão “distante”? Espaço. Se pensássemos bem, quando fazemos uma previsão (“colocarei o despertador para tocar às 7:00 da manhã”), já sabemos e determinamos o amanhã, ou seja, ele já é presente, não futuro, pois o tempo não se mede e o verdadeiro futuro vem sem sabermos dele, sem termos o controle. Quando ocorre o inesperado, sentimos o efeito do tempo: o futuro chega, o passado assombra, vivemos intensamente o presente. Seja uma catástrofe, morte, acidente, o gol inesperado do time mais fraco, um presente surpresa, uma carta de amor que simplesmente chega.

                Como diz Emmanuel Levinás, Bergson nos libertou de um mundo sem novidades, em que tudo é premeditado pela ciência e está sob nosso controle[8]. O descontrole nos lembra de nossa condição de vivos e viventes. Como diz o Eclesiastes: “mais vale um cão vivo que um leão morto”. Levinás também fala do tempo, se diz discípulo de Bergson, mas aprofunda ainda mais a proposta (e é aqui que eu queria chegar): o futuro vem a mim e não de mim (como comentava o professor Benedito Eliseu Cintra).

                Cada um de nós vive em um tempo, dura de uma maneira diferente: o tempo de minha vida, minhas experiências e como assinto, tudo isso é diferente do tempo e duração de Eliel. Quando me encontro com Eliel[9] e me relaciono com ele com sinceridade, de “peito aberto”, o tempo dele vem a mim e não de mim. O inesperado acontece, o tempo do Outro chega e me bagunça. Com essa experiência Levinás ensina: o futuro é o Outro. O tempo é uma experiência surgida na relação com o Próximo, é uma relação ética. Quando estabelecemos um tempo “único” ou uma medida (mediação) do tempo, perdemos essa relação com o Outro, essa experiência do tempo Próximo, com o Próximo. Nos distanciamos da experiência de vida fundante e primeira: Eu e o Próximo.

                Devemos amar o Próximo: o tempo do amor, como Eliel propõe, é o tempo de Deus. Tendo o tempo como essa experiência surgida da relação Eu e o Próximo, o sentido da proposta de caminhada de Eliel ganha um brilho diferente, talvez mais intenso. Além disso, sabendo que o futuro é uma experiência relacional, o tempo do Próximo, interpretarmos “o fim está próximo” precisa ganhar novas possibilidades...

O apocalíptico

                Aqui chegamos à importância do Apocalipse e do apocalíptico: colocados a uma distância segura, eles não se relacionam com nossa vida e não nos fazem responsáveis por sua interpretação e experiência. Mas, em outro sentido, trazidos à experiência cotidiana, aos encontros com o Próximo, ao “face-a-face” (termo de Levinás) o Apocalipse ganha vida e o tempo apocalítico uma necessidade ética.

                O Apocalipse, nessa possibilidade, não fala de um espaço determinado para onde estamos indo, mas deve ser lido e interpretado como enraizado hoje nas nossas experiências diárias, comuns. Tempos catastróficos de destruição em nossas relações acontecem. A esperança deve ser anunciada e a salvação vivida. Sem a teologia corrente, uma teologia relacional nasce.

                O apocalíptico – o tempo do fim em que abraçamos a inevitabilidade do desastre[10] permanecendo, ainda assim, fiéis – é fundamental para nossas relações contemporâneas. O tempo com nosso Próximo é apocalíptico: ele vai acabar. Em breve não estaremos face-a-face, a escuridão preencherá o vazio dos olhos e a relação terá fim. Por isso, devemos permanecer fiéis, amantes, esperançosos e fortes em nossas relações. O futuro, o tempo do Outro, o Próximo, está comprometido. Precisa ser cuidado, amado, precisa receber de um outro tempo(o meu tempo) um alento, uma esperança. A possibilidade de novo céu e nova terra precisa surgir em cada encontro, cada olhar, cada instante que dura. Somos mensageiros do Reino, representantes de Cristo. O futuro vislumbra a justiça de Deus em nossas relações próximas, uns com os outros, olho no olho, a cada instante. O instante tem a palavra final.

                Esse deveria ser nosso ponto de partida para a Ética. É dessa experiência que responderemos às necessidades urgentes de nossa época. A água está acabando, as matas sendo destruídas, a humanidade correndo o risco de se destruir. O fim está próximo e todos os que estão vigiando e mantém os olhos atentos clamam por uma nova possibilidade, por novas posturas e propostas éticas. Seja Cristo nossa esperança, a salvação do mundo.

                Sigamos o convite de Eliel a reinterpretarmos o Apocalipse, trabalhemos os propósitos, sentidos, símbolos e significados. Precisamos nos libertar das correntes de escravidão: seja na interpretação bíblica, seja nas propostas e posturas éticas. Livres, nos responsabilizando por nossas experiências de fé e de vida, mantemos vivo o sonho de justiça, a utopia do Reino de Deus. Utopia que não é inalcançável, mas que se abre como possível a cada encontro, a cada olho no olho, a cada instante com o Próximo. O instante tem a palavra final. Vivamos o hoje! Encarnemos o Reino.

Vivemos na esperança...


Bruno Reikdal Lima




[1] Em seu livro, Eliel comenta que escatologia, além de “estudo do fim”, também poderia ser entendido como falar “das fezes”. Limpar o excesso da teologia corrente na leitura do Apocalipse poderia ironicamente ser entendido, também, nesse sentido: estamos colando as fezes teológicas em seu devido lugar.
[2]SlavojZizek trabalha isso no capítulo I “É a ideologia, estúpido!”, em sua obra Primeiro como tragédia, depois como farsa (São Paulo: Boitempo, 2011).
[3] BULTMANN, R. History and Eschatology, The Presence of Eternity, New York: Harper and Row, 1962.
[4] RICOEUR, Paul. Amor e Justiça, São Paulo: Martins Fontes, 2012.
[5] Uma indicação de leitura de Frei Carlos Mesters é trás Por trás das palavras, Um estudo sobre a porta de entrada no Mundo da Bíblia, Petrópolis: Editora Vozes.
[6] Rubem Alves tem a conhecida afirmação de que “Deus mora no contudo”.
[7] Tive a oportunidade de estudar com a professora Marinê de Souza Pereira o Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, de Henri Bergson. O que me possibilitou ler e trabalhar o autor com gosto e encanto. Amigos como Leonardo Magalde e Michelle Mendes continuaram seus estudos e pesquisas com Bergson, produzindo conteúdos novos.
[8] A leitura, interpretação e interesse por Levinás surgiu nas aulas do professor Benedito Eliseu Cintra. Ao invés de citar as obras do autor, citarei aqui a introdução ao pensamento do filósofo escrita pelo professor Cintra: Pensar com Emmanuel Levinas, São Paulo: Paulus, 2009. E o link de um artigo introdutório a Levinás escrito também por Cintra: Emmanuel Levinás e a ideia do Infinito - http://www.pucsp.br/margem/pdf/m16bc.pdf
[9] Sou filho dele. O encontro constantemente...
[10]SlavojZizek se apropria da proposta de Dupuy de “tempo de um projeto”, em que devemos aceitar a catástrofe como destino par alterar nosso modo de viver hoje (projetando num circuito fechado o que acontecerá de catastrófico, imaginamos o que faríamos de diferente para que não acontecesse isso, no sentido de nos imaginarmos no futuro dizendo “se não tivéssemos feito aquilo, não resultaria nisto”). Na piada sobre Hegel que se conta, o filósofo teria em uma aula afirmado que as hipóteses deveriam ser aquelas apresentadas por ele porque “os fatos são estes”. Um aluno pediu a palavra e disse: “mas estes não são os fatos”. Hegel, olhou para o aluno seriamente e retrucou: “então, mude os fatos”.

26.6.14

QUASE DEZ MIL DIAS CASADO!


Aprendi algumas lições no casamento e em função disso até arrisco dizer que quem leva o casamento muito a sério perde a leveza de viver. Quem vive o casamento na brincadeira não experimenta a intimidade do ser. Quem vive em parceria trabalhando em uma construção mútua de sua própria frágil vida, aprende a amar.

27 anos se passaram. Sim, quase 10 mil dias desde quando nos casamos. Éramos jovens aventureiros cheios de medos do futuro, mas nenhum receio em viver com intensidade rumo ao incógnito amanhã.
Muitos frutos agradáveis nesse tempo.
Dois filhos inspiradores cuja existência nos dizem constantemente que valeu e tem valido a pena.
Estamos mais maduros, mais corajosos e, por incrível que pareça, com as mesmas esperanças de que podemos viver para sempre juntos.

O que é o amor para mim?
Amar não é apenas dizer é traduzir.
O amor não pode ser descrito, só pode ser narrado.
Por isso, para mim, ama aquele que após trilhar uma estrada ao lado de alguém, olha para tudo o que se passou e está disposto a fazer de novo desde que com a mesma pessoa.
Mas com você, querida Gi, não só isso. Vou mais longe!
Sua amabilidade, doçura e sensibilidade me desafiam a cada dia a crer na beleza da vida, na concretude da alegria.

Não consigo usar outra palavra para interpretar a nossa história.
Nossa história é a narrativa de uma vida vivida a dois que se exprime no mais alto anseio humano: o amor.
E essa riqueza toda, além de me dispor a viver de novo, me leva a ter um ânimo tal que quase me iludo pensando ainda ter 20 e poucos anos de idade com dias infinitos pela frente.

Seu perfume me desperta. Sua presença me silencia, porque tenho a sensação de que as palavras se tornam inadequadas. E assim, diante do sagrado - não tem nada mais sagrado que o amor - calo aquilo que me perturba para perceber mais acuradamente o som do seu coração que traz tranquilidade ao meu e faz o bem-estar-juntos.

Que venham outros muitos 10 mil dias. Quero devorá-los todos com a volúpia de quem quer viver muito só para desfrutar de sua companhia de amor.

Não são as circunstâncias, quer boas ou ruins, que enchem a vida de vigor. É a companhia amada.
Obrigado pela sua vida compartilhada comigo. Obrigado por ser a extensão de meu coração. Obrigado por corresponder ao amor e ser a mão que me afaga.

Beijos Mil.

15.3.14

PUGNA THEOLOGICA 1

Fazer um curso de Teologia pode ser desconcertante. Há ofertas cujo valor teológico é tanto quanto o de um livro de receitas. É evidente que existem instituições sérias, comprometidas com o ensino e aprendizado e com a fidelidade e/ou conteúdo acadêmico idôneo ao oferecer um Bacharel em Teologia.

Porém, é público e notório que, basta entrar na web pagando algumas dezenas de reais para receber em casa um certificado de Teólogo e até mesmo de Doutor em Divindade.

Existem instituições que oferecem um curso reconhecido, válido, porém em termos de Teologia se dedicam a formarem replicadores de uma confissão doutrinária. Quer dizer, ensinam a doutrina de seu próprio arraial. Tanto que não permitem professores de outras confissões, pois a prioridade é perpetuar sua própria denominação. Não que isso por si só invalide a seriedade de tal Instituição ou mesmo da Teologia que defendem, porém, a meu ver deixam a desejar em termos acadêmicos.

Há aquelas instituições que laboram teologicamente com esmero, enfrentam os debates e as contradições teológicas sem receio algum. Que de fato dedicam-se às reflexões teológicas.

Porém, independente do tipo de Instituição, há que se considerar também a qualidade dos alunos. Avaliar conhecimento, todos os pedagogos e profissionais da área de educação sabem que não é fácil. Sendo assim, alguém esboçar um diploma de qualquer coisa não significa que ele domine aquilo no qual se diplomou.

E aqui talvez surja o nó do problema.

Uma das dificuldades em ensinar Teologia para protestantes evangélicos vem do fato de receberem uma boa educação cristã, evidentemente doutrinária confessional. Ao cursarem Teologia esperam que o curso lhes aprofundem em seus dogmas e doutrinas. Diferente de qualquer outra graduação em que o estudante se gradua no aprendizado, na Teologia entram para “aprofundar”. Inscrevem-se para estudarem algo que julgam saber.

Assim estudantes formados em instituições ruins, péssimos estudantes, replicadores de doutrinas criam ondas quase que normativas doutrinárias com o selo de teologia, que acaba dando o direito a qualquer pensamento ou opinião bíblica como se fosse a Verdade Divina. Tal qual, temos em nosso país mais de 200 milhões de técnicos de futebol e críticos políticos, temos toda a parcela protestante evangélica como teólogos e apologistas.

Blogs defendendo a sã doutrina, elegendo hereges, acusando os falsos pregadores a partir do senso comum doutrinário. Textos que caçam as bruxas cibernéticas e os anticristos que estão roubando as ovelhas.

Todo esse emaranhado de questões apontam para uma origem comum que chamam de didaquê, mas para mim, no meio evangélico está mais para katecheo.
Um excelente trabalho, porém sem a preocupação com a liberdade do pensamento.

Os adeptos de uma denominação não são ensinados através do questionamento e análise livre do pensamento elaborarem premissas e conclusões, antes são doutrinados a repetirem dogmas e a decorarem respostas prontas com algum versículo bíblico que as validem. Infelizmente é pecado pensar.

Aqueles que não se comportarem são ameaçados com ideias bíblicas do tipo, “Deus resiste aos soberbos e a incredulidade desperta a ira de Deus” e se persistirem serão cassados.
Metaforicamente eu diria que são doutrinados a se prepararem para abrir a porta quando uma TJ bater e enquanto não estiverem com tudo decorado a não abrirem a porta e pior, fazem disso uma verdade absoluta e pensam se tratar de Teologia.

Podemos constatar isso ao perceber que qualquer crente ao falar sobre a Onisciência de Deus cita o Salmo 139, ao falar sobre a preordenação do Cristo, cita Gênesis 3:15 “a semente da mulher”. Pensar sobre a teodicéia traz à lume a queda radical causada pela “desobediência adâmica”.

Interessante como entra década e sai década e é recorrente encontrar prosélitos perguntando sobre o casamento de Caim.
Herdaram junto com o dogma sobre as Escrituras a crença de que uma verdade bíblica se faz com literalidade textual.
Isso ocorre dentro da imposição de que um “verdadeiro cristão” obrigatoriamente tem que acreditar no princípio da não contradição e montar toda sua fé sobre essa pedra. Caso ele constate que existe uma contradição, deve negar sua capacidade intelectual, considerar-se um incapaz de compreender verdades espirituais. Não deve questionar, pois isso demonstraria fraqueza de fé (eu diria ou de inteligência?), mas um dia lhe será esclarecido, pois afinal, “as coisas ocultas pertencem a Deus” e não a um “vaso de barro roto” qualquer. Tudo isso com um lembrete: “de Deus não se zomba”.

Alguém pode perguntar: - mas de onde se tiraria a teologia cristã se não da Bíblia?

Minha resposta: da Bíblia, mas não com parâmetros unívocos.

A questão não é a Bíblia, mas como se faz teologia. Enfileirar versículos Bíblicos para se ter uma verdade, não se tem a verdade. A Bíblia seria um livro de revelações divinas como alectoromancia? Ou trata-se da história religiosa de Israel?

Não podemos recortar a Bíblia e dizer que temos uma verdade sobre Deus. Versículos sobrepostos não fazem uma verdade.

Tenho para mim, a partir da própria Bíblia que ela não se propõe a dar definições de Deus, mas a apontar caminhos que revelem Deus. Encontramos a Revelação de Deus na Vida e essa, para o cristão, se manifestou plenamente em Cristo.
Não temos em nenhum lugar na Bíblia o exercício para provar que Deus existe, logo ela não propõe revelar a existência de Deus. Ela instrui àqueles que creem em Deus a encontrarem Deus em suas próprias vidas e história.

O encontro com um Deus Vivo e Real tem que ser em uma experiência viva com o Espírito de Cristo e não em um texto. Afinal, a letra mata.
Sistematizar um texto pode até resultar em um conjunto de ideias sobre a verdade, mas não resulta na Verdade.
Para quê a Bíblia? Para refletirmos sobre nossa real possibilidade de um encontro verdadeiro com Deus. Aqueles homens com todas as suas fraquezas tiveram seu encontro com Deus. Cada um de nós também pode.