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2.1.16

Reflexões de um quase avô antes de chegar à velhice


Ainda não sei direito como é essa história de ser avô. Um pouco menos ainda, ser idoso.
Mas se tudo correr bem, dentro em pouco, abraçarei ambos os fatos, lembrando que eles não são diretamente dependentes um do outro.
Saberei mesmo como será conforme ocorrer cada um.

Não são coisas que se saibam por antecipação ou teoria.
Ouso dizer algo pelo que já vivi e pelo privilégio de lidar com aqueles que me antecedem. 

Não trato desse assunto por causa do medo da velhice e menos ainda por achar que seja verdadeiro o status quo imposto pela sociedade, na qual se associa idoso ao inútil, mas, pelo fato em si, de que o tempo desperta a consciência pessoal de que ele é voraz.
Nessa condição reflito algumas coisas, as quais sei que enfrentarei muito em breve.

Isso mesmo! 
Começo a falar sobre velhice.
Só por que me torno avô?
Também; mas não!

Muito mais por admitir que não se torna avô na "flor-da-idade"; sim na maturidade.
A um cinquentão não se diz: "eis aí um jovem", mas inexoravelmente: "eis aí um senhor".
Há quem leia isso e diga: "Cinquenta anos? 
Novo ainda.
Não! Não é uma verdade absoluta.
Tomo meu pai como exemplo. Ele morreu aos 73 anos. Alguns ao saberem disso reagem imediatamente afirmando ele ter morrido novo.
Aqui há uma diferença a se considerar.
Ele não precisaria ter morrido nessa idade, porém, não morreu novo.
Não morreu de velhice. O câncer lhe foi mais cruel que o tempo.

Voltando à minha reflexão.
O que espero caso nenhuma realidade cruenta e sanguinária seja mais ágil e forte que o tempo?

Quando de cabelos brancos e/ou calvície se impuserem, rugas pesadas dominarem meu rosto, a pele manchada for chamativa, a lentidão for o padrão dos movimentos, o olhar profundo embaçando, uma sonolência incomodativa nas horas mais impróprias ocorrer. Quando eu estiver dando trabalho àqueles que consideram a velhice um atrapalho à vida e tornar-me silente para não criar mais incômodos do que dizem incomodar, espero que olhem para mim e não vejam um "velho que quase não vive e não nos deixa viver".

Percebam que ali, diante deles, não está um velho.

Ali reside uma criança extremamente criativa que nasceu pobre, há algumas dezenas de décadas, teve uma infância solitária, mas resiliente  inventou um jeito para ser uma criança feliz.

Há ali também um jovem cheio de vitalidade que descobriu a paixão, enamorou-se como num romance cinematográfico, casou-se e viveu a louca aventura do amor perene.

Por baixo dessa casca que mirra pelo tempo, está um homem feito, que lutou para educar os filhos, não mediu esforços para ensiná-los na trilha do viver, trabalhou incansavelmente para sustentá-los e mais ainda, tentar ser um exemplo de quem tem fé, esperança e gana de viver.

Velho? Sim e não.

Dentro de mais uns dias avô, mais um breve tempo um velho, mas mais do que isso, essa caixa-de-carne pálida, que homens e mulheres que vivem ocupam no tempo, sempre é símbolo e soma de tudo o que se é. Não do que se foi, mas de alguém que continua a aventura de ser. 
Verdade. Justiça seja feita, vive de outro modo.

Para alguns, pode até ser que essa caixa-de-carne lutando contra o tempo, tenha apenas uma pequena fresta pela qual ainda/somente respira, mas para a realidade da vida e na intimidade da consciência, sei que ali haverá, como há em todos os idosos, um complexo mundo existencial de quem viveu com intensidade aquilo que é comum aos mortais e para onde todos caminham.

Quando lá estiver, só gostaria que os jovens aprendessem a lição que eu aprendi antes de chegar lá: não olhem para mim com os olhos impostos por uma sociedade utilitarista de que eu seja um velho.

Façam isto não só por mim, mas por vocês mesmos e pelo bom futuro de nossa sociedade. 
Olhem para mim como de fato serei e não como querem determinar que eu seja.
Não serei, como não são todos de avançada idade: "velhos inúteis".
Sempre serei eu: somatória da Vida de um ser-que-vive.

Eu tenho nome, sou uma história e de uma ou outra forma, entre erros e acertos, dei prosseguimento à vida.

Por isso, desde já me esforço para deixar marcas tais, para que aqueles, após mim, não desejem me empurrar para fora da existência, mas queiram me ouvir, buscando saber de quem viveu o bastante, como é existir no mundo.

Eliel Batista

18.9.15

PERCEPÇÕES DE MEIO SÉCULO DE VIDA



Passados meio século de vida, compreendi que a gente consegue saber pouca coisa para uma vida verdadeira e aprende muita coisa, de pouca utilidade, que serve muito mais para mostrar que sabe, e, no final das contas não tem um valor muito efetivo no modo de viver.

Percebi que o maior prêmio da vida, ocorre quando as pessoas ao conviverem com você, se tornam melhores pessoas e mais gratas.

Aprendi, que não é possível compreender nada do mundo em que vivemos, se não abandonarmos a hierarquia do saber e abraçarmos aqueles que, diante de nós, estão sentindo na pele as demandas da vida.

Compreendi que os mais velhos nos influenciam e os mais novos nos dão sabedoria. Isso porque os mais velhos depositam em nós princípios ou revelam o "como não fazer” e os mais novos requerem de nós a aplicação prática daquilo que dizemos saber.

Atentei para o fato de que a disputa pela verdade é uma grande mentira e uma verdadeira cilada contra a fé cristã, pois se pretende acima do valor humano ao dar poder e honra àquele mais ágil com a lógica e também ao que melhor organiza o discurso e nunca ao mais amoroso.

Também pude ver que os verdadeiros mestres não são necessariamente os mais venerados por sua inteligência, mas aqueles que melhor sabem viver, pois afinal, o que de fato importa na vida é como se vive e não como se entende.

Pude ver também, que mais importante do que ter filho é ser pai e, no casamento, mais importante do que ter uma esposa é ser marido, mais importante do que ser amado é amar, mais importante do que estar certo é buscar compreender o outro.

A felicidade só existe no equilíbrio entre usufruir a vida e saber usá-la para o bem, sabendo acolher a única vida que a gente possui que é essa do momento presente. Por isso, é inútil gastar a vida com aquilo que ainda não chegou, com aquilo que não se tem e permanecer preso ao que não mais é.
Isso me levou a entender que há limites para se desejar outra vida: desde que a insatisfação não lhe furte de viver o presente.
Ele, o presente, é a vida que nos foi possível, com as condições e oportunidades que nos foram proporcionados.

Descobri ainda que a felicidade se torna perene, quando os sonhos, as realizações pessoais e a maneira de ser partem da premissa de serem a sua contribuição, no e para o mundo, e não ensimesmados, contemplando apenas desejos individualistas e egocêntricos. E vale a pena viver por esse parâmetro, que é o que nos enche do fôlego da vida.

Quanto à culpa, jamais se culpe por não ter sido mais esperto, mais especial, mais ágil ou mais sábio.
Não se culpe por não ter conseguido, por não ter tirado uma nota boa na escola da vida.
Se é para sentir-se culpado, que seja por ter tentado ser quem nunca foi, tentado viver uma vida que não tinha e por isso não amou como deveria ter amado e deixou de fazer o bem que deveria ter feito; sendo que poderia.

Aprendi que a gratidão é o melhor remédio para o coração e por isso tenho que agradecer algumas pessoas que muito me ajudaram:

Numa fase importante de minha vida, minha mãe com uma sabedoria ímpar deixou registrado em meu coração valores, princípios e a mais imperiosa necessidade humana de ser um eterno aprendiz.
Mãe, estou tentando, apesar das muitas tentações para achar que já sei e por isso poderia sentar na cadeira de mestre e limitar-me a ensinar.

Noutro ponto de minha história, um tempo rico na cidade de Lavras, MG, quando precisava lidar com pessoas e ter uma comunidade cheia de vida e celebração, entrei em contato com o educador, imortal Paulo Freire e sua pedagogia. Tempo precioso em que experimentei a inesquecível possibilidade de escrever uma história bonita e marcante.

Bruno, meu filho, nos últimos anos tem sido, o meu melhor mestre.
Tem aberto minha mente para uma atualidade linda, aberto minha visão para contemplar um futuro promissor, ajudado a rever minha fé e solidificá-la de forma madura desafiando minha esperança em um mundo cheio de Deus.

Gabi, minha filha, me apresenta um mundo cheio de cores ao qual preciso a cada dia me tornar uma melhor pessoa, mais cheio de ternura e que devo alargar meu coração e expandir minha mente para compreender que "existe vida lá fora".
Sou grato a você que sempre teve um olhar como duas bolinhas brilhantes que me tiram sorrisos contidos e fazem bem à minha alma.

E não poderia deixar de honrar a mais extraordinária das mulheres!

Bendita hora que desejei ter você pra sempre comigo.
Naquela hora, os céus disseram amém e me consideraram um aventurado.
Com isso, aprendi diversas coisas.
Entre elas, que uma pessoa pode levar a outra ao bem, ao amor, à sabedoria e ao amadurecimento com beleza.
Que a cumplicidade lúcida alimenta o amor.
Que relacionar-se desarmado e confiar-se às mãos de quem se ama torna o casamento leve e duradouro.

Descobri, também que toques descomprometidos, mesmo depois de mais de 30 anos juntos, ainda liberam a química que entrelaça os corações e faz os corpos queimarem de desejo.
Que palavras acompanhadas de gestos demonstram confiança.
Que o amor não se ressente com o confronto, antes empreende todos os esforços para que de forma pacífica, amorosa e bondosa o outro seja melhor.

Obrigado, querida Gi, meus 50 anos são coroados de alegrias e infindáveis suspiros de um coração que deseja.
E por estar com você, pelos filhos que recebemos de presente, posso saborear uma vida passageira como se fosse eterna.

Por fim, aos meus amigos, a todos que entrecruzaram minha história e por isso, me formaram e hoje, ao olhar como me compreendo, gosto de quem sou e como vivo: minha gratidão.
Sem essa humanidade diversa eu não seria.
Com ela, estou conseguindo seguir uma trilha para ser e tenho gostado dessa aventura de viver.

Beijos!
Eliel Batista

5.6.15

A MAIS POLÊMICA MARCHA PRA JESUS



Havia muita tensão naqueles dias.
A pressão dos líderes religiosos para ter o controle sobre o povo e a sede de poder os levavam a tentar mostrar ao governo sua força.

Os líderes religiosos, de forma orquestrada e calculada, juntavam multidões e fornecia um alto capital monetário e político para si mesmos.
A imensa necessidade social e econômica do povo e sua sede de Deus, facilitava a manipulação inescrupulosa por parte dos líderes religiosos e garantia o sucesso de venda das bugigangas em nome de Deus.

No entanto, aquela tarde prometia.
Depois do surgimento do Nazareno, vivendo e andando na periferia entre os desafortunados, perdoava sem a necessidade de pagar absolutamente nada, realizava milagres gratuitamente, multiplicava o pão sem cobrar um centavo, demonstrava o amor de Deus, apenas cuidando dos feridos e necessitados, os pensamentos sobre Deus foram reformulados e a alegria da fé reavivada.

Sem nenhuma chancela dos líderes, sem autorizacão oficial dos doutores da lei, contrariando os poderes instituídos entra em Jerusalém um herege!
Sem banda, nenhum cantor de sucesso, nada de show orquestrado e nenhum religioso famoso inicia-se a primeira Marcha pra Jesus.

O povo, vindo da periferia para o centro, marchou para Jesus.
O final da Marcha era no Templo.
Jesus foi para lá e ao chegar, expulsou os que vendiam e os que compravam os "favores celestiais" e deixou claro o que ali ocorria ao dizer:
"Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração, mas vocês estão fazendo dela um covil de ladrões".

O lugar em que todas as pessoas poderiam ir e encontrar-se com Deus na pureza do coração, na beleza da fé, estava sendo usado para ocultar a gatunagem.

Líderes religiosos, que incluíam pastores, profetas e teólogos, fizeram um conluio e usando de engano e malandragem, mantinham o povo longe de Deus e cobravam para facilitar o acesso.
Forçavam a venda de bugigangas religiosas como instrumento de benção divina, levavam os fiéis a relativizarem o próprio sustento e a pensarem que qualquer outra coisa não aconselhada por eles era maldita.
Assim transferiam o suado salário do povo para seus próprios bolsos e se ocultavam por detrás da fachada de fazerem a "obra de Deus".

Jesus fez sua denúncia:
O templo escondia o roubo. Aquilo que oculta o ladrão é seu esconderijo e esconderijo de ladrão é covil.

Desta forma, a primeira Marcha Pra Jesus foi uma verdadeira denúncia contra...(?)

1.1.15

PARA UM NOVO ANO.


Mais um ano se inicia e as reflexões sobre planos, projetos e sonhos se intensificam, realizando uma espécie de breque na voluptuosidade das correrias, que por vezes sugam as energias de um viver saudável e que vale a pena.

Me perdoem os mais céticos, mas nessas horas não se deve deixar de lado o pensar em Deus ou no mínimo na sua efetiva participação na Vida. Não porque ele seria uma espécie de muletas para se caminhar na existência, mas porque ele habita no mais profundo de nossa humanidade.
Ele é um convite para se pensar nas qualidades dos relacionamentos, não a partir do próximo, mas a partir daquilo que a gente mesmo oferece para que nossos relacionamentos sejam mais fiéis e maduros possíveis, apesar de nossas fraquezas e limitações.

Pensarmos sobre o quanto contribuímos para um mundo melhor, o quanto investimos naquilo que consideramos essencial. Isso mesmo, essencial! Há quem julgue a qualidade da existência por aquilo que é prioritário.
Devemos lembrar que por vezes a prioridade não é essencial para um viver leve, bonito e amoroso.

O maior desafio para o ser humano no desenvolvimento de sua plena humanidade é amar, porque só o amor pode nos fazer mais verdadeiramente vivos do que nunca.

O que eu poderia sugerir para que o ano novo seja um Novo Ano?

Queira uma vida cheia de Vida, cheia de graça.
Tenho algumas pistas para tal:


  •  Seja pacificador. 

Um pacificador se esforça pela qualidade de seus relacionamentos. Quando faz isso com dedicação é acolhido pelo seu próximo como irmão formando uma grande família humana e portanto, acolhido como filho de Deus. Filho de Deus tem uma vida divina!


  •  Cultive mais o amor do que a mágoa. 

A mágoa nos afasta um dos outros e com o passar do tempo tende a ganhar em nosso coração o espaço destinado à mais elevada vocação humana: amar.


  •  Não carregue culpa. 

A culpa deve permanecer por um breve momento e única função: despertar a consciência para melhorarmos e construirmos caminhos mais bonitos. Portanto, sempre canalize a energia da culpa para ser uma força de transformação de erros em maturidade.


  •  Valorize a vida adequadamente. 

Valorize-a pelo fato de ser a única vida que você possui e não por conquistas ou méritos. A vida não consiste dos bens que se possui, mas de como se vive a vida.


  • Estabeleça um bom critério para suas decisões. 

Não tome decisões pelo critério do pode ou não pode, mas sim, se você quer os desdobramentos e consequências de seus atos e decisões.

E por último eu diria:


  •  Não corra atrás da felicidade, produza-a. 

A gente produz a felicidade vivendo com inteireza aquilo que constitui a própria existência: alegrias e tristezas. Então, celebre as alegrias e chore as tristezas, sempre partilhando com seus amigos, pois ao dividir essas coisas você estará abrindo seu coração, compartilhando a vida. E a vida só é vida quando dividida, pois ao dividi-la ela é multiplicada, gerando mais vida.

Há outras coisas, porém deixo para você completar a lista com as suas.

Tenha um ano Novo.

Eliel Batista

7.8.14

DEPOIS DO "FIM DO MUNDO"


Há alguns anos Eliel Batista se propôs a escrever uma série de três livros intitulados Porque pensar não é pecado. Cada volume traz intuições, propostas e discussões nascidas de seus estudos e das aulas de Teologia Bíblica ministradas no Instituto Cristão de estudos Contemporâneos (ICEC). Recentemente foi lançado o terceiro e último volume, que trata da leitura e interpretação do Apocalipse. De caso pensado, o último volume é sobre o fim.
               
                Tradicionalmente os semestres de estudos do ICEC têm como abertura um simpósio, o Módulo de Abertura. O último – “Fim do Mundo: sinais, mitos e falso profetismo” – foi ministrado por Eliel a respeito de seu livro. Tive a honra de prefaciar o livro e também de participar do Módulo. Após o fim de nossa semana de conversas, aprendizado, propostas e novas experiências, é bom apontar a direção dos caminhos que foram abertos.

A interpretação

                Trabalhamos nesse tempo em função de limpar o terreno das leituras tradicionais[1] do livro do Apocalipse e encontrar as luzes que Eliel acendeu nos corredores da interpretação bíblica. O movimento do livro não termina nele mesmo. O livro não procura explicar o passado, esmiuçar o futuro e muito menos tem pretensão de “palavra final”. Surpreendentemente, o livro que fala sobre o fim não acaba em seu próprio final, mas nos convida a retornar ao Apocalipse e lermos com nossos próprios olhos, interpretarmos a partir de nossas experiências cotidianas e de fé.

                A disputa pelo passado é uma guerra ideológica: quem propõe uma boa justificativa para o que aconteceu “vence a batalha” e instaura uma nova ordem, a “melhor” ideologia[2]. Eliel foge dessa proposta. O resgate histórico que faz é de nos ajudar a desatar os nós do passado, a não nos tornarmos reféns da história, mas seus parceiros – assim como um terapeuta e seu paciente. Quem antecipa e “sabe do futuro” ganha o poder de homem livre frente aos escravos: sei seu destino e não há como você sair de seu estado, já que nasceu escravo e morrerá escravo. Contente-se com as determinações e espere por elas. Longe, muito longe disso, também não somos guiados por essa trilha: ele não tenta ser futurólogo, apenas acendedor de luz. Como o próprio Eliel adverte em seu livro, nem no passado e nem no futuro há vida, então vivamos a experiência presente, cotidiana. É a partir dela que devemos interpretar o Apocalipse.
               
                O deslocamento da leitura do Apocalipse como uma previsão do futuro para a possibilidade de uma interpretação que parta do hoje, de nossas experiências próximas, é inovadora e fruto de propostas teológicas recentes e emergentes. A crítica de RudolfBultmann à interpretação teológico-acadêmica que se prende ao historicismo[3] (seja do passado ou do futuro já determinado), por exemplo, não tinha encontrado em solo brasileiro um comentário do Apocalipse que a correspondesse. Bultmann, uma “vaca sagrada” da teologia protestante contemporânea, critica a exegese que anula a experiência do sujeito leitor, que tem preferência pela história e não àquele que fala a mim hoje, ao Autor e ao sujeito que se relaciona com Ele.

                Para mais além, num tema implícito na obra de Eliel, essa possibilidade de interpretação livre da necessidade de dominação da história, confiando na experiência de fé cristã e no intermédio do Espírito, também converge com uma das últimas propostas de Paul Ricoeur. O próprio texto das Escrituras pode agir como sujeito, se inovando, renovando, nascendo de novo e nos convidando para uma conversa[4]. O texto fala conosco, nós falamos com e para o texto, discutimos, crescemos, nos tornamos mais íntimos e renovamos nossa esperança. Uma conversa longa e para sempre...

                “O que é conversão?” – perguntou Frei Carlos Mesters em uma palestra no ICEC. “Conversão é uma conversa bem grande...” – o português permite um trocadilho que nos ensina muito. Frei Carlos com simplicidade nos ensina que conversão é constante e necessita da liberdade da conversa, de sujeitos que se relacionam. Se o texto bíblico, seja Gênesis ou Apocalipse, está fechado, enquadrado e impedido de se libertar da história, do passado e do presente – de ser eterno –, não há transformação, mudança de mente, mudança de mundo.

                Nesse sentido, as propostas de Eliel renovam e reanimam a esperança. Com a liberdade de interpretação, há liberdade para que o mundo mude. Além disso, ao tirar da história e dos estudos fechados, determinantes e deterministas, Eliel faz com que o Apocalipse retorne às mãos dos fiéis – ou como falaria Frei Carlos Mesters: a Bíblia do Povo retornaria ao Povo[5]. Como protestantes, deveríamos nos apegar ao “sacerdócio universal de todos os santos” e não permitir que as cadeias dos senhores donos da verdade nos façam seus escravos.

                Paulo já ensinou: “a letra mata, mas o Espírito vivifica”. Isso não deve nos distanciar dos estudos – muito pelo contrário! – mas deve nos ensinar a não nos apegarmos aos literalismos, legalismos e falsos profetismos que se prendem nas palavras e não na experiência de fé. Aliás, devemos continuar os estudos mais do que nunca para não nos permitirmos acomodar, não nos acostumarmos com as letras que temos. A vida é muito grande para nos prendermos aos pontos.

O tempo

                Eliel apresenta o Apocalipse como um livro que recebe esse nome por se propor a um estilo de literatura com um propósito muito específico: assumir do fim e apelar para a fidelidade. Seria como um “sim, vai acabar e não há o que fazer, mas, ainda assim, seja fiel”. É o “contudo” de Rubem Alves[6]. A profecia denuncia a injustiça e nos convida para uma mudança de rumo, abre a possibilidade de transformação. O discurso apocalíptico, por sua vez, assumiria a catástrofe como inevitável, mas ainda convida à fidelidade mesmo no dia mal. É tempo do fim...

                Não era objetivo do livro, claro, pois é um convite à releitura do Apocalipse, a nos livrarmos de correntes e passearmos em outra condição pelo campo agora, e não um exercício de filosofia, mas um ponto que é comentado durante todo o texto e tocado apenas de maneira pressuposta é o “tempo”. Eliel faz uma proposta linda sobre a eternidade e a trabalharmos o tempo de Deus como presença, e não na cronologia comum. Para quem já experienciou a fé e o amor, sabe do que estamos falando. Mas, filosoficamente, num trabalho de fundamentação, ressignificação e justificação do discurso, não há uma abordagem que considero necessária: que sentido daremos ao tempo? “Onde o colocaremos?”

                Cabe a Henri Bergson a crítica ao tempo em obras extensas e absurdamente fantásticas. Convergindo em certo sentido com Eliel, numa explicação bem simplista de minha parte, Bergson demonstra que o que chamamos de “tempo” na verdade não é “tempo”, mas espaço[7]. Quando marcamos o movimento de um objeto em determinado espaço e “marcamos o tempo” entre o ponto inicial e o final, na verdade nosso relógio age como se colocássemos estacas na estrada: não marcamos o tempo, mas os vários pequenos espaços percorridos naquele espaço total que delimitamos. O tempo seria outra experiência, uma experiência mais profunda, que Bergson chama de “duração”.

                Eliel se aproxima e muito provavelmente fala dessa experiência profunda quando fala do “tempo do fim”, quando coloca a experiência da eternidade como a presença de Deus, quando propõe a analogia com o amor: não vemos o “tempo” passar quando estamos apaixonados, por exemplo. A duração é diferente, outra, impossível de ser medida. Nosso calendário, nosso relógio, nosso “passado-presente-futuro” não são o tempo, mas medidas do espaço e das mudanças espaciais.

                Porque dizemos que o futuro está tão “distante”? Espaço. Se pensássemos bem, quando fazemos uma previsão (“colocarei o despertador para tocar às 7:00 da manhã”), já sabemos e determinamos o amanhã, ou seja, ele já é presente, não futuro, pois o tempo não se mede e o verdadeiro futuro vem sem sabermos dele, sem termos o controle. Quando ocorre o inesperado, sentimos o efeito do tempo: o futuro chega, o passado assombra, vivemos intensamente o presente. Seja uma catástrofe, morte, acidente, o gol inesperado do time mais fraco, um presente surpresa, uma carta de amor que simplesmente chega.

                Como diz Emmanuel Levinás, Bergson nos libertou de um mundo sem novidades, em que tudo é premeditado pela ciência e está sob nosso controle[8]. O descontrole nos lembra de nossa condição de vivos e viventes. Como diz o Eclesiastes: “mais vale um cão vivo que um leão morto”. Levinás também fala do tempo, se diz discípulo de Bergson, mas aprofunda ainda mais a proposta (e é aqui que eu queria chegar): o futuro vem a mim e não de mim (como comentava o professor Benedito Eliseu Cintra).

                Cada um de nós vive em um tempo, dura de uma maneira diferente: o tempo de minha vida, minhas experiências e como assinto, tudo isso é diferente do tempo e duração de Eliel. Quando me encontro com Eliel[9] e me relaciono com ele com sinceridade, de “peito aberto”, o tempo dele vem a mim e não de mim. O inesperado acontece, o tempo do Outro chega e me bagunça. Com essa experiência Levinás ensina: o futuro é o Outro. O tempo é uma experiência surgida na relação com o Próximo, é uma relação ética. Quando estabelecemos um tempo “único” ou uma medida (mediação) do tempo, perdemos essa relação com o Outro, essa experiência do tempo Próximo, com o Próximo. Nos distanciamos da experiência de vida fundante e primeira: Eu e o Próximo.

                Devemos amar o Próximo: o tempo do amor, como Eliel propõe, é o tempo de Deus. Tendo o tempo como essa experiência surgida da relação Eu e o Próximo, o sentido da proposta de caminhada de Eliel ganha um brilho diferente, talvez mais intenso. Além disso, sabendo que o futuro é uma experiência relacional, o tempo do Próximo, interpretarmos “o fim está próximo” precisa ganhar novas possibilidades...

O apocalíptico

                Aqui chegamos à importância do Apocalipse e do apocalíptico: colocados a uma distância segura, eles não se relacionam com nossa vida e não nos fazem responsáveis por sua interpretação e experiência. Mas, em outro sentido, trazidos à experiência cotidiana, aos encontros com o Próximo, ao “face-a-face” (termo de Levinás) o Apocalipse ganha vida e o tempo apocalítico uma necessidade ética.

                O Apocalipse, nessa possibilidade, não fala de um espaço determinado para onde estamos indo, mas deve ser lido e interpretado como enraizado hoje nas nossas experiências diárias, comuns. Tempos catastróficos de destruição em nossas relações acontecem. A esperança deve ser anunciada e a salvação vivida. Sem a teologia corrente, uma teologia relacional nasce.

                O apocalíptico – o tempo do fim em que abraçamos a inevitabilidade do desastre[10] permanecendo, ainda assim, fiéis – é fundamental para nossas relações contemporâneas. O tempo com nosso Próximo é apocalíptico: ele vai acabar. Em breve não estaremos face-a-face, a escuridão preencherá o vazio dos olhos e a relação terá fim. Por isso, devemos permanecer fiéis, amantes, esperançosos e fortes em nossas relações. O futuro, o tempo do Outro, o Próximo, está comprometido. Precisa ser cuidado, amado, precisa receber de um outro tempo(o meu tempo) um alento, uma esperança. A possibilidade de novo céu e nova terra precisa surgir em cada encontro, cada olhar, cada instante que dura. Somos mensageiros do Reino, representantes de Cristo. O futuro vislumbra a justiça de Deus em nossas relações próximas, uns com os outros, olho no olho, a cada instante. O instante tem a palavra final.

                Esse deveria ser nosso ponto de partida para a Ética. É dessa experiência que responderemos às necessidades urgentes de nossa época. A água está acabando, as matas sendo destruídas, a humanidade correndo o risco de se destruir. O fim está próximo e todos os que estão vigiando e mantém os olhos atentos clamam por uma nova possibilidade, por novas posturas e propostas éticas. Seja Cristo nossa esperança, a salvação do mundo.

                Sigamos o convite de Eliel a reinterpretarmos o Apocalipse, trabalhemos os propósitos, sentidos, símbolos e significados. Precisamos nos libertar das correntes de escravidão: seja na interpretação bíblica, seja nas propostas e posturas éticas. Livres, nos responsabilizando por nossas experiências de fé e de vida, mantemos vivo o sonho de justiça, a utopia do Reino de Deus. Utopia que não é inalcançável, mas que se abre como possível a cada encontro, a cada olho no olho, a cada instante com o Próximo. O instante tem a palavra final. Vivamos o hoje! Encarnemos o Reino.

Vivemos na esperança...


Bruno Reikdal Lima




[1] Em seu livro, Eliel comenta que escatologia, além de “estudo do fim”, também poderia ser entendido como falar “das fezes”. Limpar o excesso da teologia corrente na leitura do Apocalipse poderia ironicamente ser entendido, também, nesse sentido: estamos colando as fezes teológicas em seu devido lugar.
[2]SlavojZizek trabalha isso no capítulo I “É a ideologia, estúpido!”, em sua obra Primeiro como tragédia, depois como farsa (São Paulo: Boitempo, 2011).
[3] BULTMANN, R. History and Eschatology, The Presence of Eternity, New York: Harper and Row, 1962.
[4] RICOEUR, Paul. Amor e Justiça, São Paulo: Martins Fontes, 2012.
[5] Uma indicação de leitura de Frei Carlos Mesters é trás Por trás das palavras, Um estudo sobre a porta de entrada no Mundo da Bíblia, Petrópolis: Editora Vozes.
[6] Rubem Alves tem a conhecida afirmação de que “Deus mora no contudo”.
[7] Tive a oportunidade de estudar com a professora Marinê de Souza Pereira o Ensaio sobre os dados imediatos da consciência, de Henri Bergson. O que me possibilitou ler e trabalhar o autor com gosto e encanto. Amigos como Leonardo Magalde e Michelle Mendes continuaram seus estudos e pesquisas com Bergson, produzindo conteúdos novos.
[8] A leitura, interpretação e interesse por Levinás surgiu nas aulas do professor Benedito Eliseu Cintra. Ao invés de citar as obras do autor, citarei aqui a introdução ao pensamento do filósofo escrita pelo professor Cintra: Pensar com Emmanuel Levinas, São Paulo: Paulus, 2009. E o link de um artigo introdutório a Levinás escrito também por Cintra: Emmanuel Levinás e a ideia do Infinito - http://www.pucsp.br/margem/pdf/m16bc.pdf
[9] Sou filho dele. O encontro constantemente...
[10]SlavojZizek se apropria da proposta de Dupuy de “tempo de um projeto”, em que devemos aceitar a catástrofe como destino par alterar nosso modo de viver hoje (projetando num circuito fechado o que acontecerá de catastrófico, imaginamos o que faríamos de diferente para que não acontecesse isso, no sentido de nos imaginarmos no futuro dizendo “se não tivéssemos feito aquilo, não resultaria nisto”). Na piada sobre Hegel que se conta, o filósofo teria em uma aula afirmado que as hipóteses deveriam ser aquelas apresentadas por ele porque “os fatos são estes”. Um aluno pediu a palavra e disse: “mas estes não são os fatos”. Hegel, olhou para o aluno seriamente e retrucou: “então, mude os fatos”.