24.6.09

Haja luz e fiquem as trevas.


Estes dias me interessei em reler o Gênesis. Qual não foi minha surpresa encontrar logo nos três primeiros versículos uma verdade chocante e até então imperceptível.

Estava ali todo o tempo, mas tão acostumado com a idéia do pecado original que não enxergava.

Confesso que a disciplina em ler contos judaicos me ajudou.

O texto descreve Deus criando a ordem no contexto do caos. Ele não elimina as trevas para que permaneça a luz, apenas distingue-a.

A luz que Ele chama para se apresentar no caos, emana dEle, mas não é Ele.

Não existe uma ordem que elimina o caos. Mas uma que brota, nasce ou floresce nele.

Tal qual no verso da separação das águas. A porção seca surge num espaço ou ambiente das águas. A água não é eliminada para que surja a porção seca. Assim o caos é o contexto onde se manifesta a ordem.


Que interessante isto!


As trevas não existem como fruto do pecado, mas como um anteparo da Realidade Deus. A criação não pode ser plena diante do Deus pleno, exceto se Ele abrir espaço, se Ele se esconder e nos deixar percebê-lo apenas pelas sombras, isto é, pela fé.


Deus se torna tão discreto na criação que é possível negá-lo.

As ações de Deus são tão humanas que o incrédulo pode dizer que Deus não existe, mas tão reais que o crente as vê.

Se Deus se manifestasse absoluto na criação, nada existiria, pois o Absoluto a tudo enche. Mas caso algo ainda conseguisse existir, estaria obrigado a Ele sem qualquer opção de negá-lo.

Mas Deus para deixar a criação livre, se esconde. A criação por natureza tem sombras, como um véu que nos protege da luz de Deus. E quem quiser se aproximar dEle é preciso crer...


No uso de nossa liberdade sabemos distinguir as trevas da luz e somos chamados para sermos filhos da luz. Chamados a uma existência que denuncia as trevas, que se opõe a ela.

As trevas estão aí. Dói, assustam e causam pavor, mas não nos destroem, porque ainda que andemos por um vale de sombra e morte Ele está conosco.


Deus não elimina o caos.

A cruz revela como Deus age neste mundo. Assume totalmente nossa humanidade, sem eliminar as dores ou na metáfora utilizada, as sombras.


Podemos concluir que a idéia de que Deus tenha feito um mundo sem caos, não corresponde à realidade. O mundo é e sempre foi assim, exceto pela maldade humana que no mal uso da consciência ama mais as trevas do que a luz.

10.6.09

Será que é Bíblico?


Recentemente li um artigo bastante radical contra as novas heresias humanistas da igreja. Neste artigo, reservo-me o direito de não mencionar o articulista, pois meu objetivo aqui é outro, ele afirmava que às pessoas não deveria ser dado o direito de lerem a Bíblia perguntando:
-"o que isto quer dizer para mim?".
Isto porque no argumento dele, o que o texto diz, não é o que o leitor entende. Como se para ler a Bíblia necessitasse de um “leitor oficial”, ou aquilo que os versados dizem ser. Mas por ironia encerrava o artigo aconselhando os crentes que quando quisessem escolher uma igreja para congregar deveriam verificar na Bíblia, se aquela igreja era bíblica.

Com isto apóio meu “reaciocínio”. Fazer a pergunta: “É bíblico?”, é uma fundamentação muito sem fundamento.
Normalmente quando alguém pede um fundamento bíblico para alguma afirmação, ele está querendo um versículo, mesmo que fora de propósito.
Mas existem aqueles que querem um texto, "- mas com contexto", dizem.
Como se contexto fosse os versículos anteriores e posteriores. De maneira geral, ninguém se importa com o tipo de texto, ou literário, mas apenas com o literalismo.

O grande problema é que esta lógica de ser bíblico, tem uma aparência piedosa, mas trata-se apenas de uma falácia que lida com a superfície de pseudo-verdades.
Se todos dizem: -“é bíblico”, mas se contradizem, alguma coisa está errada com a lógica.
O calvinista e o arminiano, o protestante e o pentecostal, o ortodoxo e o neo-ortodoxo, o tradicional e o neo-pentecostal. O pré-milenista e o amilenista, o pré, meso e pós-tribulacionista. Enfim, todos dizem: “Minha verdade é bíblica”.

Como pode?
Como as pessoas ainda exigem que algo seja bíblico, se isto suscita um poço sem fundo de tantas variáveis e correntes, em que nada pode ser afirmado e tudo pode ser defendido?

Esta lógica tem a pretensão de ser racional, mas é altamente irracional.
Por isso quando alguém quer saber se minha afirmação é bíblica, estou quase dizendo:
"- graças a Deus não".
Por que se a questão é ter um versículo, isto nada significa.
Esta pergunta para valer alguma coisa precisaria de um complemento:
- “É bíblico de que seita?
Por que cada uma tem a sua "verdade" que diz com todas as letras ser bíblica.

Podem dizer o que quiserem, mas em se tratando de vida com Deus não existe uma doutrina oficial, o que existe são interpretações investidas de cultura, interesses e pré-conceitos normatizados na academia os quais muitos deles, para não dizer todos, nada dizem à práxis.
Antes de a Bíblia registrar e os teólogos catalogarem as doutrinas, pessoas nos mais diferentes contextos já haviam experimentado que Deus as quer bem e é bom.
Podemos dizer como Judas em sua carta, que o que existe é a fé que foi entregue aos santos, pela qual devemos trabalhar.

Hoje quando alguém questiona minhas aulas com a retórica:
- “Quero saber o que a Bíblia diz”.
Eu simplesmente respondo:
- “Ela diz muitas coisas, mas o mais importante de tudo é para onde ela aponta”.

- Ó Bendito Jesus, Palavra Viva, cujas Escrituras testemunham a seu respeito.

Quando tentamos mostrar para um animal algum objeto apontando com o dedo, ele permanece olhando para o nosso dedo. Não consegue ver que estamos mostrando outra coisa.
Hoje perguntar se é bíblico é como o animal que olha para o dedo. Procura um texto, mais nada.

Olhar para a bíblia e ver a Palavra é de fato agir como disse Jesus ser um mestre instruído na lei e versado no Reino dos céus: "este sabe diferenciar seu tesouro novo e velho".

2.6.09

Ensaio sobre dogmas.


Parece que temos dificuldade em olhar para a vida que nos cerca e com ela aprender sobre Deus.
Soa esquisito para alguns, que a maneira de conhecê-lo se dá através de coisas e eventos naturais, pois as celestiais por se tratarem de outra dimensão não nos comunicam adequadamente. Esquecemo-nos do que disse Jesus a Nicodemos. O Deus presente e perceptível ao nosso redor, não se manifesta nos ares celestiais, mas nos eventos e ambiência terrena.

Porque dogmas ganham status de verdade inquestionável?
Existe sim, a necessidade de se estabelecer o que se crê, mas isto é estanque? Quanto mais velho um conceito mais verdadeiro?

Evoluímos é certo. Verdades absolutas do passado ruíram e ao mesmo tempo lidamos com o conceito de que a “Palavra de Deus jamais passará”.
Mas o que seria a Palavra de Deus imutável e permanente, a vida que ela transmite ou a interpretação que lhe damos?

Cristo a Palavra de Deus. Aquilo que os homens entenderam a respeito de Deus foi revisitado por Cristo, e este é o único Deus que conhecemos de fato.
Podemos elaborar sobre a grandiosidade de Deus e até tentar contê-lo em doutrinas, mas ainda assim o que conhecemos do Deus invisível é Cristo.

Não me canso em dizer: “A Palavra de Deus é boa-notícia, porém só boa, se comunicar com a geração que a ouve”.
Hoje não é uma boa-notícia a verdade absoluta e inquestionável. Defender a verdade com ares imperialistas, não dialógicos deixa de ser uma visitação de Deus e passa a ser um demônio desejoso de roubar a vida em nome da verdade. Já ensinava o apóstolo Paulo que sem o amor, a verdade é uma bitola demoníaca.

O evangelho hoje precisa ser mais que uma verdade, precisa ser uma realidade.
Uma verdade absoluta que não responde à realidade da vida perde o sentido de verdade.
• É verdade que Deus tem poder para cura, mas é a realidade que curas são exceções.
• É verdade que Deus pode livrar da fornalha, mas comparando com a realidade podemos ver a ênfase de que isto não é para se esperar. (Dúvidas? Releia o relato Dn 3:18)
• É verdade que Cristo é a ressurreição e a vida, mas é uma realidade que milhões de “convertidos” morrem.
• É verdade que Jesus é o único caminho, mas é uma realidade que não é propriedade evangélica.
Enfim, é verdade que Deus tem todo o poder, mas é uma realidade que ele não faz uso disto para se relacionar com a criatura.

Antes eu afirmava que para ser verdade precisaria estar contido nas escrituras, hoje me pergunto em como as Escrituras produzem vida e alimentam a realidade que me rodeia?

Falamos da cegueira espiritual produzida pelo inimigo e não percebemos que ela pode vir através da verdade. Uma verdade não relacional, sem amor, é instrumento de cegueira espiritual.
Basta lembrar dos fariseus condenados por Jesus. Tão rigorosos na verdade, porém distantes da realidade. Não eram capazes de associar a verdade que conheciam com a vida das pessoas. Razão pela qual foram chamados de raça de víboras, pois tal qual a antiga serpente, se utiliza da verdade para anular o ser.

Como diferenciar verdade de realidade?
Nossa dificuldade vem da maneira como aprendemos, de que só pode ser considerada realidade, aquilo que se prove como verdade.
De fato, existem leis mecânicas no universo que regem diversos fatores do macrocosmo, mas é realidade que esta é a menor parte da existência.
Por isso, não podemos reduzir a realidade a uma verdade apenas.

A cosmovisão passou por diferentes percepções metafóricas:
O mundo como um mistério dos deuses, depois como um relógio e Deus o relojoeiro. Tivemos recentemente o mundo como uma máquina parando, entregue por decretos divinos aos projetos do diabo por causa do pecado humano.

Chegamos a um novo limiar, pois o desenvolvimento dos diversos saberes dá ao mundo uma nova metáfora: o mundo é evolutivo. Hoje a percepção de uma história aberta, não determinista nos leva a ver o mundo dinâmico, se descobrindo, se desenvolvendo. Na contramão dos decretos determinísticos newtonianos.

Cristo ao entrar na história anuncia que Deus ama, sempre amou. O amor só decreta amar, não amarra na obrigação e nem no dever, apenas ama.
Então olho para tudo o que significa Jesus, contemplo a realidade tão diversa, inovadora, inconsistente, frágil e dinâmica e leio a narrativa do Éden que passa a transmitir a constatação de que Adão traduz o ser humano que se lança à grande aventura de viver fora do Jardim. A realidade humana é fora do Paraíso onde se pode viver a humanidade com intensidade. O Paraíso por sua vez é a realidade do Reino: Viver no deserto construindo Jardins de Deus.
Gosto da percepção do salmista quando diz que: “os peregrinos que encontram força no Senhor, ao passarem pelo vale seco, fazem dele um manancial”. (Sl 84:6).
Portanto, podemos dizer que Deus não está cobrando uma dívida de Adão na humanidade.
Paro por aqui com os fios que deixo para serem puxados, a fim de que cada um faça sua a teia teológica.

Eliel Batista

12.5.09

Symbolos e Transcendência


O ser humano é religioso por natureza. Ele busca.

Aliás, todo ser vivo está biologicamente constituído para buscar a transcendência.

Neste processo um átomo passa a molécula, que por sua vez origina uma célula, um tecido e um órgão e assim vai.

O ser humano dotado de consciência transforma a transcendência física em espiritual. Nisto temos a religião, como uma busca.

Não há problema algum em ser religioso, mas a história demonstra as terríveis conseqüências que podem ocorrer, como fruto de uma religiosidade adoecida, ou do mau uso da consciência.

A transcendência espiritual depende da soma de todos os elementos que constituem o ser humano. Os afetos, emoções, corpo, sentidos e razão.

A razão sozinha não possibilita ao indivíduo se lançar ao infinito. Neste quadro, a religiosidade pode desempenhar um papel extremamente salutar.

Jesus em seus ensinos, sempre utilizava de imagens visuais ou lingüísticas que representassem o conteúdo do ensino, mas acima de tudo para levar seus discípulos a transcenderem-se a si mesmos em direção ao outro, à sociedade e a Deus.

É mais do que sabido que a fé cristã é concretizada com a vida e não com eventos religiosos. Mas não podemos abandonar as experiências da devoção religiosa - os símbolos, as parábolas vivas.

Todos os que estudam a psique humana, são unânimes em afirmarem a importância dos símbolos para o desenvolvimento e amadurecimento sadio do ser.

Nesta perspectiva, a fé é prioritariamente simbólica, pois não se fala de Deus de forma não simbólica.

Por isso, a maneira como organizamos nossos cultos, como procedemos as atividades religiosas e a elaboração litúrgica devem simbolizar os conteúdos da fé.

Somente a razão não basta para a experiência de fé.

A organização dos cultos tornam visíveis em símbolos, aquilo que a razão não consegue experienciar somente com as palavras.

Todos os componentes de um culto, oração, coordenação e ordem musical,disposição litúrgica, tudo deve ser elaborado criteriosamente para “tornar visível” a experiência da fé diante do ser comunitário.

Nos reunimos e alimentamos a razão com sermões, mas precisamos dos recursos simbólicos, para que a transcendência se torne palatável.

O culto para mim é uma poesia comunitária, ou ainda uma sinfonia.

Os interesses do Céu se unem ao desejo da Terra e se fundem num Tempo Sagrado.

O divino amante satisfeito com a criatura amada. Ambos extasiados. O ser humano transcendendo-se a si mesmo e penetrando no divino num enlace santo, enchendo o ambiente da Glória de Deus.

Tudo isto só é possível através da soma de todo o ser e com a riqueza dos símbolos que nos leva a criatividade imaginativa.

Abandonarmo-nos inseguros com confiança ao mistérium infinitum requer muito mais plenitude do que os raciocínios lógicos podem oferecer. Talvez as experiências pentecostais transformadas num mergulho espiritual no secreto divino, pudessem ajudar neste caminho.

O silêncio, a música suave instrumental, a poesia declamada, o abraço afetuoso, a ceia, a oração silenciosa, a leitura responsiva, a cruz, o pão, o teatro, a mímica, a contação de histórias e outras coisas mais, pudessem pertencer à liturgia instigando a imaginação e convidando à transcendência.

11.5.09

Entre o Mythos e o Logos




Quase sempre vivemos a vida sem prestarmos atenção de onde saímos – como coletividade – e a razão de onde estamos, isto falando sobre a totalidade do ser – ações, pensamentos, posturas e compreensões.

Pensando sobre isto, me sobrevém a maneira como interpretamos ou compreendemos a Bíblia.


É muito comum no nosso Brasil evangélico, falarmos sobre arrebatamento, catástrofes apocalípticas, a responsabilidade de Adão que ocasionou a queda e na qual somos culpados quase que por genética.

Será que a comunidade da fé tanto hebraica como cristã, sempre entendeu a vida ou o mundo assim?

Dados historiográficos e a própria leitura do Antigo Testamento, nos revelam que não.

A leitura literal da Bíblia entrou em cena no período oitocentista. Destaco dois grandes personagens deste período: John Nelson Darby (1800-1882) dando ao livro do Apocalipse o status de verdade literal. E C.I. Scofield, que popularizou esta idéia no meio cristão protestante com sua Bíblia de referência, que se tornou um best-seller.


Com estes poucos dados dá para argumentarmos que até a Idade Moderna, a Bíblia – hebraica e cristã – era entendida como mythos. Toda a sua leitura partia da impossibilidade das razões humanas falarem sobre Deus, e que este poderia ser descrito apenas de maneira simbólica.

Mas como no final do século XIX ciência e racionalismo ditavam o conhecimento, a religião precisava ser racional para ser levada a sério. A fé a partir de então passou a demonstrar-se lógica, cientificamente válida, objetiva e literal.

A interpretação bíblica deixou de lidar com o texto como mythos e passou a considerá-lo como logos.

Isto levou os protestantes a lerem valorizando a letra dando à Bíblia o status de verdade factual e para que se validasse este raciocínio, usou-se a lógica circular. Única maneira de sustentar a Bíblia como verdade racionalista, ou a idéia comum de inerrância.


O evangelista João pode ajudar a nós cristãos a refazermos a leitura bíblica.

Em seu evangelho ele abre da seguinte maneira:

No princípio era aquele que é a Palavra (logos). Ele estava com Deus, e era Deus”.


O logos para o cristão não é o texto, mas uma pessoa divina – Cristo. O texto deve continuar sendo lido como o mythos que nos faz compreender com mais amplitude o logos sem confiná-lo à matéria. O logos é um ser biológico, mas não está confinado ao mundo material, por isso precisa da linguagem do mythos.

Quando João diz “era aquele que é” e “estava com”, remete qualquer leitor à linguagem do tetragrama YHWH, que expressa-se absurdamente com mythos e não com o logos. Este é um Nome constantemente se revelando.


ADENDO - (Esta expressão YHWH, possui o radical do verbo ser e como no hebraico não se declina o verbo, parece ser uma mistura verbal entre será, foi e é e ainda associado ao gerúndio do mesmo verbo. Como para a língua hebraica o verbo ser e o estar são o mesmo, João nos ajuda a compreender o Logos como uma Existência-ambiente divina que se instaura no Tempo. Loucura? Pois é, o racionalismo não é suficiente.

O gerúndio nos dá a idéia de existindo continuamente. E como estamos falando não apenas de um tempo que se estica, mas de um ambiente que permanece, tudo o que pensarmos sobre Deus, em função de nossa deficiência lingüística, precisa da linguagem que sempre foi usada pelos hebreus e cristãos até a Idade Moderna: o mythos).


Se admitirmos isto, abandonamos a leitura literal de Adão, tornando irrelevante sua existência factual como alguém de carne e osso que ocasionou a destruição do planeta perfeito de Deus pecando. Não existe pecado original e nem a queda, pois o texto não é logos, mas mythos. Pecado original é o meu e aquilo que se chama de queda é a descrição de nossa humanidade: somos assim; limitados e aventureiros. Nos foi dado a vida, num contexto em que certamente se morre. Poder-se-ia até dizer que viver pela fé é saber morrer.


Se quisermos dar à Bíblia o valor de científica teremos que incoerentemente definir Deus, valorizar a letra matando o espírito, ignorar os conhecimentos humanos, defender uma lógica circular e não dialogar com absolutamente nada que esteja fora do contexto religioso. Penso que se assim fizermos, contrariamos o sentido missiológico e negamos a fé em Cristo, pois colocamos em seu lugar a Bíblia, qualificando-a como o Logos.


Com isto resta uma pergunta:

Seríamos cristãos se qualificarmos outra coisa qualquer como Logos que não o Cristo?

16.2.09

Evangelização em um mundo assim...


Preciso deixar claro ao leitor deste texto que não sou universalista e que este texto nasceu fruto de diversos escritores; tais como: Andres T. Queiruga, Pannenberg, Eduardo Arens, Leonardo Boff, Hans Urs Von Balthasar, Paulo R Gomes e Roger Haight.


A evangelização foi entendida como conversão das pessoas para o cristianismo e a cristianização da sociedade e cultura. Para tal o método mais comum foi o estabelecimento de igrejas em outros lugares.
A chamada Grande Comissão objetivava o encerramento escatológico apocalíptico e para tal anunciava a salvação como convocação ou aviso aos pecadores para livrarem-se das mãos de um Deus irado, submetendo-se à uma interpretação teológica.
Na verdade, uma evangelização centrada na igreja.

Este tipo de mensagem torna-se cada vez mais inócua para o mundo atual.

Um mundo em que os valores humanos são defendidos e a opinião de todos é importante e aceita, a mensagem de uma igreja marcada na história como imperialista, e que somente nela se encontra a salvação correta, não encontrará eco e muito menos conversões.
Em uma sociedade que se prega a tolerância, a mensagem de uma única religião verdadeira é vista como intolerante.

De que adianta pregar se não se têm os ouvidos para ouvir?

A igreja conseguirá êxito em sua missão, se alguns princípios e elementos de nossa época forem observados e aplicados. Na verdade, precisamos de uma revisão teológica hermenêutica.

Levanto alguns pontos:

1- Percepção da Graça de Cristo.
Qualquer cristão com a Bíblia em mãos deveria perceber que Deus age amorosa e livremente na história humana.
Todo aquele que defende o Antigo Testamento como Palavra de Deus e nele vê Deus presente, percebe sua atuação à parte do cristianismo ou ainda de Jesus de Nazaré. Este deve com toda certeza defender também que Deus se manifesta para além de qualquer preceito ou contexto religioso.

A graça não é mérito e nem exclusividade do cristianismo, mas dádiva de Deus ao mundo todo e revelada em toda sua plenitude em Jesus de Nazaré.
Cristo como único mediador deve representar para nós a revelação de Deus ao mundo e jamais ser uma propriedade religiosa do cristianismo. Ele está para todos e consumou uma obra universal.

O cristão deve entender como perfeitamente natural, a existência em outros contextos fora de sua religiosidade, uma verdade universalmente relevante. Isto porque em Jesus temos a revelação ao mundo da graça e verdade. Verdade fora do contexto cristão deve ser vista como verdade de Cristo e jamais como uma mentira, verdade inútil ou ainda trapo de imundície.

A centralidade e universalidade de Cristo comunicam por meio de Jesus para nós os cristãos, o que Deus está realizando no mundo todo.
Vemos em todo o Antigo Testamento as “diversas formas humanas” que Deus assume, até se revelar plenamente em Jesus de Nazaré. Para quem lê que o imperador Ciro é ungido de Deus, não é de se estranhar tal situação.

2- Demonstração do evangelho.
A vida e ministério de Jesus deve ser o referencial missiológico e não as doutrinas cristãs.
Aquilo pelo qual Jesus dedicou sua vida até a morte e a maneira como ele lidou com as pessoas deve ser visto como a verdadeira missão. Dar continuidade a causa de Cristo é mais importante do que convencer pessoas a adotarem a doutrina de Cristo. Ser corpo de Cristo é representá-lo. É encarná-lo.
A compreensão dogmática de Jesus Cristo, não deve ser o alicerce para a evangelização, mas a vida de Cristo.
Sendo mais específico. A compreensão da Trindade é uma percepção de fé posterior à vida de Jesus. Pregar a Trindade é dar a interpretação de fé. Pedro quando proclama o evangelho diz: “Aquele que foi crucificado, Deus o tornou Senhor e Cristo”. De outra maneira seria: “Este Jesus histórico que causa espanto, é o Cristo”.

3- Salvação.
Para um mundo cada vez mais convencido de uma existência do planeta e da espécie em evolução, haverá pouco ou nenhum espaço para se anunciar a criação, a queda e o resgate como sustentadores da soteriologia (Doutrina da Salvação).
Não podemos proclamar a salvação a partir do pecado e nem do inferno. Mas a partir de Deus e seu amor.
A doutrina da criação proclama que não existe uma distância entre o criador e a criatura que necessita ser superada. Deus criou e entrou, por assim dizer, na criação. Ele a sustenta.

A existência humana desenvolve-se neste mundo com a tarefa de resistir ao sofrimento e superá-lo. Observamos isto na vida, morte e ressurreição de Jesus.
Ao observarmos a criação e a inserção do criador percebemos que a salvação não é um evento que aconteceu uma vez para sempre, mas um processo que vem acontecendo desde o início de tudo.

Para nós os cristãos, a salvação consiste em um encontro com Deus salvador em Jesus. Jesus salva ao revelar e tornar Deus presente, o Emanuel.
Uma antropologia religiosa nos encaminha a pensar que a luta do ser humano em ser e se opor radicalmente ao não-ser e ainda a permanecer em um mundo em que se morre, a permanência no ser se apresenta como salvação.
Isto nos leva a conduzir o outro à dignidade, ao seu valor intrínseco e também para Deus o criador, que ama e o convida para uma eternidade existencial.

Por mais que a gente insista em ser mais e melhor, temos duas limitações comprovadas: uma é a incapacidade de fazer sempre o certo, mesmo que tenhamos as melhores das intenções e outra e a incapacidade de existir para sempre, a auto-permanência.
A partir disto podemos pensar numa salvação em que a intimidade com o Espírito Santo não se aposse de nós, mas nos leve a sermos livres e conserve-nos existencialmente em Deus.
A salvação pode ser vista como o processo pelo qual o homem é livre para ser o mais plenamente humano possível.

4- Prática dialógica
A missão da igreja não pode apenas falar.
Precisamos ir para além de anunciar e ensinar. Nenhum conjunto de doutrinas ou verdades religiosas, por serem humanas, é capaz de comportar o conhecimento de Deus.
A transcendência de Deus não pode ser retratada adequadamente por nenhuma exclusividade humana.
Precisamos adquirir o senso de dar e receber. Ouvir aquilo que Deus está realizando para além dos muros religiosos.

Se compreendermos por meio de Jesus, que Deus está para além dos muros religiosos, devemos compreender o pluralismo religioso. Se Deus deu o que lhe era mais precioso, não usaria diferentes formas?
Aliás, o próprio Novo Testamento apresenta diferentes formas de salvação.
Se para nós Deus deseja a salvação de todas as pessoas e que a salvação não é apenas para o tempo do fim, mas uma revelação do Deus presente que preserva a vida e a ativa, é de se imaginar que quando se tem a consciência desta ação divina, ela assuma alguma forma religiosa.


5- A cruz
Começo perguntando: Se entendermos a cruz como um decreto divino, não estaríamos afirmando que Deus usa o mal para o bem?
A cruz por mais que tentemos suavizá-la é uma maldade intensa e possui uma crueza em que jamais poderemos aceitar a morte de um inocente como algo bom, mesmo para Deus que tudo pode.
Compreendendo Deus na face de Jesus, concluímos que ele não desejaria, quereria ou planejaria para seu Filho tal sorte. Ao ver tudo o que Jesus fala do Pai e confrontar com o que aconteceu na cruz, afirmar que esta era da vontade de Deus, poderia até se dizer que aquele a quem Jesus apresentou como o Pai que ama, ou o traiu, ou Jesus não entendeu nada.

Deus usa o mal? Deus aprova a morte de inocentes?
Em Jesus a resposta será sempre um não.

A morte de Deus não trouxe uma resposta para o mal. O que aconteceu?
A morte de cruz apenas constatou o grande mal.
A resposta de Deus para o mal está na ressurreição.

Podemos elucidar melhor ao reconhecer que quem é pendurado em um madeiro está debaixo da maldição de Deus. (Dt 21:23). Que tipo de resposta Deus dá a um maldito?
O ressuscita, lhe concede a vida.
Neste sentido, podemos ver o amor de Deus na cruz, mas não na crueldade.

Leonardo Boff em uma palestra sobre o meio-ambiente e o fim do eco sistema, disse que o homem pode destruir a terra por diversas vezes, mas ainda assim a maior maldade não seria esta, pois sua maior maldade ele cometeu matando o criador na cruz.

A cruz revela o clímax da maldade humana, a ressurreição a resposta divina.
Se admitirmos a cruz como projeto eterno de Deus, teremos que afirmar que Deus usa o mal para promover o bem.
Nisto diríamos que a morte de seis milhões de judeus, e entre eles crianças inocentes sendo lançadas vivas na fogueira, tiveram por objetivo ensinar algo para alguém.
Que uma mãe que perde seu filho em um atropelamento por um motorista (ir)responsável bêbado teria o objetivo de dar uma lição?
Além da dificuldade teológica em Deus ser tentado pelo mal ou tentar com o mal, seria extremante incompreensível Deus castigar severamente uma pessoa para dar uma aula de teologia.

Por outro lado, numa questão dialética podemos observar no Antigo Testamento que Deus não sofreu pelos pecados a primeira vez na cruz. Diversos textos antes de Jesus anunciam o sofrimento de Deus por causa do pecado.

O sofrimento no mundo precisa ser visto como contingência e não como decretos divinos ou vontade permissiva, o que para mim neste caso seria muito mais uma permissividade.
Deus se aborrece do mal em todas as suas formas.
Seu maior desejo é que aquele que é a sua imagem e semelhança se aborreça da mesma forma e se oponha ao mal.


6- Salvação levada a cabo.
A salvação é uma obra divina. Deus salva em Cristo pela ação eficaz do seu Espírito.
Infelizmente confiamos muito mais nas nossas obras que na a;cão do Espírito Santo.
Quando falamos em viver o evangelho e isto é suficiente, as pessoas logo perguntam sobre como as pessoas poderão ser salvas.
Confiamos muito mais na nossa prática de levar a doutrina de Cristo do que na ação do Espírito Santo.
Acreditamos que Deus tem menos interesse em salvar do que nós.
Damos mais força ao pecado, ao diabo e a incredulidade, do que a ação e amor de Deus.
Precisamos rever estes valores.

RESUMO:

- Deus não é conivente com o mal e não planejou a morte de seu Filho.


- Salvação é o homem ser inteiramente livre, para ser plenamente IMAGO DEI.


- Cristo é a graça de Deus revelada ao mundo.


- O evangelho é para ser vivido e não ensinado em forma de doutrina.


- A salvação é efetuada por Deus na ação do seu espírito e não por adoção de doutrinas cristãs.

4.2.09

DESISTI DO MILAGRE




Dediquei parte de meu tempo nos últimos meses para tentar entender o milagre. Aqui mesmo tenho alguns textos sobre o assunto. Encontrei percepções desde a que tudo é milagre até a que afirma não existirem milagres.
Diante disto, assumi uma postura que para muitos talvez soe como simplista. Eu entendo como abandono.
Não no sentido do desespero, mas no sentido do assombro, admiração e contemplação.

O milagre para mim hoje, tanto pode ser uma reação natural como uma ação sobrenatural. Tanto um efeito como uma causa. Uma intervenção divina, como um re-arranjo da criação.
Em outras palavras, o milagre não deve ser visto a partir de sua causa, mas para onde ele aponta. Dentro desta perspectiva é um elemento exclusivo da fé.

A pergunta que um cristão deve fazer diante de um evento, versa sobre o tipo de revelação que se desvenda diante de seus olhos.
Portanto, para mim milagre é tudo aquilo que me coloca diante do assombro divino. Pode ser uma chuva comum, como uma cura radicalmente inexplicável.
Diria então, que milagre é o componente essencial da vida e proporciona as transformações. Assim como uma lagarta experimenta sua metamorfose para ser uma borboleta, todos os eventos naturais ou sobrenaturais que cooperam para a transformação pessoal e para o desenvolvimento da vida com certeza é um milagre.
Pois vencer os pecados para desfrutar da vida abundante, somente por uma graça divina, um milagre.

Apesar de ter este conceito, jamais posso anular a consciência e o intelecto. Entender algo como milagre apenas pelo fato de ser inexplicável ou misterioso, para mim é muito pouco. Me tornaria um inocente e infantil crédulo, com o risco de perder o bom senso.
Pode ocorrer o mais espetacular dos eventos, intrínseca ou extrinsecamente misterioso, se não me colocar em melhores condições para a vida e como pessoa alguém mais maduro, maleável, ensinável, digno e mais humano, não faço questão nenhuma de classificar como milagre.

Enfim, milagre para mim é tudo aquilo que me coloca no caminho, diante de Deus e me torna mais pleno naquilo que Deus deseja.
Vejo o milagre como um sinal do reino de Deus, em mim e no mundo. E torno-me responsável com filho do Reino, em deixar estes sinais por onde passar, para que aqueles que estiverem atrás de mim percebam Deus.

Eliel Batista