
Parece que temos dificuldade em olhar para a vida que nos cerca e com ela aprender sobre Deus.
Soa esquisito para alguns, que a maneira de conhecê-lo se dá através de coisas e eventos naturais, pois as celestiais por se tratarem de outra dimensão não nos comunicam adequadamente. Esquecemo-nos do que disse Jesus a Nicodemos. O Deus presente e perceptível ao nosso redor, não se manifesta nos ares celestiais, mas nos eventos e ambiência terrena.
Porque dogmas ganham status de verdade inquestionável?Existe sim, a necessidade de se estabelecer o que se crê, mas isto é estanque? Quanto mais velho um conceito mais verdadeiro?
Evoluímos é certo. Verdades absolutas do passado ruíram e ao mesmo tempo lidamos com o conceito de que a “Palavra de Deus jamais passará”.
Mas o que seria a Palavra de Deus imutável e permanente, a vida que ela transmite ou a interpretação que lhe damos?
Cristo a Palavra de Deus. Aquilo que os homens entenderam a respeito de Deus foi revisitado por Cristo, e este é o único Deus que conhecemos de fato.
Podemos elaborar sobre a grandiosidade de Deus e até tentar contê-lo em doutrinas, mas ainda assim o que conhecemos do Deus invisível é Cristo.
Não me canso em dizer: “
A Palavra de Deus é boa-notícia, porém só boa, se comunicar com a geração que a ouve”.
Hoje não é uma boa-notícia a verdade absoluta e inquestionável. Defender a verdade com ares imperialistas, não dialógicos deixa de ser uma visitação de Deus e passa a ser um demônio desejoso de roubar a vida em nome da verdade. Já ensinava o apóstolo Paulo que sem o amor, a verdade é uma bitola demoníaca.
O evangelho hoje precisa ser mais que uma verdade, precisa ser uma realidade.
Uma verdade absoluta que não responde à realidade da vida perde o sentido de verdade.
• É verdade que Deus tem poder para cura, mas é a realidade que curas são exceções.
• É verdade que Deus pode livrar da fornalha, mas comparando com a realidade podemos ver a ênfase de que isto não é para se esperar. (Dúvidas? Releia o relato Dn 3:18)
• É verdade que Cristo é a ressurreição e a vida, mas é uma realidade que milhões de “convertidos” morrem.
• É verdade que Jesus é o único caminho, mas é uma realidade que não é propriedade evangélica.
Enfim, é verdade que Deus tem todo o poder, mas é uma realidade que ele não faz uso disto para se relacionar com a criatura.
Antes eu afirmava que para ser verdade precisaria estar contido nas escrituras, hoje me pergunto em como as Escrituras produzem vida e alimentam a realidade que me rodeia?
Falamos da cegueira espiritual produzida pelo inimigo e não percebemos que ela pode vir através da verdade. Uma verdade não relacional, sem amor, é instrumento de cegueira espiritual.
Basta lembrar dos fariseus condenados por Jesus. Tão rigorosos na verdade, porém distantes da realidade. Não eram capazes de associar a verdade que conheciam com a vida das pessoas. Razão pela qual foram chamados de raça de víboras, pois tal qual a antiga serpente, se utiliza da verdade para anular o ser.
Como diferenciar verdade de realidade?
Nossa dificuldade vem da maneira como aprendemos, de que só pode ser considerada realidade, aquilo que se prove como verdade.
De fato, existem leis mecânicas no universo que regem diversos fatores do macrocosmo, mas é realidade que esta é a menor parte da existência.
Por isso, não podemos reduzir a realidade a uma verdade apenas.
A cosmovisão passou por diferentes percepções metafóricas: O mundo como um mistério dos deuses, depois como um relógio e Deus o relojoeiro. Tivemos recentemente o mundo como uma máquina parando, entregue por decretos divinos aos projetos do diabo por causa do pecado humano.
Chegamos a um novo limiar, pois o desenvolvimento dos diversos saberes dá ao mundo uma nova metáfora: o mundo é evolutivo. Hoje a percepção de uma história aberta, não determinista nos leva a ver o mundo dinâmico, se descobrindo, se desenvolvendo. Na contramão dos decretos determinísticos newtonianos.
Cristo ao entrar na história anuncia que Deus ama, sempre amou. O amor só decreta amar, não amarra na obrigação e nem no dever, apenas ama.
Então olho para tudo o que significa Jesus, contemplo a realidade tão diversa, inovadora, inconsistente, frágil e dinâmica e leio a narrativa do Éden que passa a transmitir a constatação de que Adão traduz o ser humano que se lança à grande aventura de viver fora do Jardim. A realidade humana é fora do Paraíso onde se pode viver a humanidade com intensidade. O Paraíso por sua vez é a realidade do Reino: Viver no deserto construindo Jardins de Deus.
Gosto da percepção do salmista quando diz que: “os peregrinos que encontram força no Senhor, ao passarem pelo vale seco, fazem dele um manancial”. (Sl 84:6).
Portanto, podemos dizer que Deus não está cobrando uma dívida de Adão na humanidade.
Paro por aqui com os fios que deixo para serem puxados, a fim de que cada um faça sua a teia teológica.
Eliel Batista