Partículas da Graça
Teologia para mim, é a arte de descrever o infinito visto por uma pequena janela.
11.8.10
FIDELIDADE POR UM FIO
Os votos desta canção muito cantada pelos evangélicos precisam ser mais bem definidos. Interessante como nossa compreensão do evangelho foi cada vez mais se estruturando na doutrina e cada vez menos na vida.
Para muitos de nós, ser fiel a Deus é de alguma maneira se encaixar aos textos ou as interpretações bíblicas.
O fiel não é aquele que se encontra amarrado por grossas cordas como as de âncora de navio. É mais parecido com um pássaro que constrói seu ninho, portanto confia sua existência a um frágil galho. O fiel é como o equilibrista na corda bamba, constantemente desafiado pela gravidade, pelo vento e pelo medo da queda. A fidelidade é frágil, e sobrevive em meio às dúvidas. Por outro lado, é extremamente resistente e capaz de sustentar a vida mesmo face à morte.
Quando Jesus convoca aos seus seguidores à fidelidade, não acredito que passava pela sua mente que eles se submetessem a um conjunto doutrinário. Isto seria a própria negação da fé.
Com isto estou querendo chamar a atenção para nossa prática de fidelidade.
Muitos imaginam um cristianismo pronto em todos os seus detalhes, com regras que preenchem todos os fatos da vida e trazem todas as respostas meticulosamente elaboradas. Quer dizer, ser fiel seria participar de uma verdade pétrea, absoluta, imutável e intransigente. Quem não obedecer ao livro, às doutrinas é infiel, e quem desobedecer é desviado.
Ao ver a luta de Jesus contra o legalismo e contra as estruturas religiosas, as quais as pessoas deveriam se subjugar para serem aceitas por Deus, para se sentirem amadas e participarem da comunhão com o Pai Celestial, não é possível acreditar que sua delegação de autoridade para fazermos discípulos no mundo todo, se desse justamente pelo viés daquilo que ele combateu até a morte.
Ao observar o convite de Jesus de que quem quisesse segui-lo deveria tomar a cruz, enfrentar os vendavais da vida, às aflições do mundo, às perseguições religiosas, se sujeitar a uma vida sem ter até mesmo um travesseiro para reclinar a cabeça, não se torna consistente imaginar a possibilidade de se ser fiel a uma estrutura estável, pronta ou de conformismo.
A vida cristã é instável, incerta, mutante e de inconformismos. Pois é uma vida de conversões.
Ser fiel é estar disposto a mudar todos os dias. O convite de Cristo é para uma transformação diária, e, portanto a impossibilidade de absolutizar alguma coisa.
Gosto do teólogo Carlos Mesters quando diz que a grande verdade do evangelho provoca conversão, pois se trata de uma nova vida, que leva a um novo comportamento moral e que na reflexão sobre esta vida descobre-se a doutrina, que registrada produz o livro e celebrada dá surgimento ao culto.
Quer dizer, a verdade cristã não é um livro, o livro é apenas o resultado desta verdade que caminhou na história produzindo vida, transformando vidas. O cristão fiel não é aquele que adota um livro, no caso a Bíblia, mas aquele que anda conforme a vida de Cristo que é transformadora a cada dia. A Bíblia é recebida como o livro que nos introduz ao Cristo.
Eliel Batista
30.6.10
Acústico Bruno Reikdal - E eu um pai coruja
11.5.10
Angústia...
- “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste”.
Semelhante suspiro todo crente já gemeu. Temos aqui uma encruzilhada teológica. Dialética entre constatação - é fato que sofremos, e frustração - não deveríamos sofrer.
Parece-me que o caminho percorrido pela teologia nos últimos séculos, tenta de alguma maneira estabelecer uma resposta fixista que apela para o decreto imperial divino, chamado de vontade de Deus e que devemos aceitá-lo em última instância como fator causal do sofrimento, mesmo injusto. Como se fosse possível sermos mais amorosos e bondosos do que Deus, pois vemos o sofrimento humano, nos compadecemos, mas Deus por alguma razão misteriosa não age em favor da vítima.
Dentro desta lógica, não é permitido ao barro questionar o oleiro, pois não entende os desígnios secretos de Deus. Qualifica-se o humano como responsável pelo sofrimento, mas Deus o salvador não é obrigado a salvar ninguém, mas escolhe alguns para proteger ou outros para sofrer a fim de servir de algum exemplo para os demais. Um Deus sigiloso, sem clareza nos desígnios, com intenções excusas e ações que julgamos nada convencionais a quem se diz salvador amoroso e poderoso. Um Deus mesquinho que faz acepção de pessoas, que ajuda mais os que podem alguma coisa neste mundo do que os que não podem Que maquina por detrás da saga humana abusando do fato de ser Deus. Que não deve a ninguém satisfação de seus atos, mesmo aqueles atos que contrariam o mínimo de bondade e justiça.
O Deus revelado em Cristo Jesus corresponde a esta descrição?
A busca por uma resposta definitiva nos deixa intrigados e instáveis quanto à paz de alma, apesar de paradoxalmente nos parecer o caminho mais plausível para se trilhar.
Nesta trilha, a fé moderna como uma possibilidade de responder, tem se demonstrado incongruente ao falar em um Deus poderoso que ama e mesmo assim nos deixa sofrer, ou incoerente por apresentar um Deus intervencionista, mas que não intervém na hora mais necessária e para os mais necessitados. Mesmo os esquemas que respondem através da perspectiva filosófica de paradoxo, solapam diante da realidade do sofrimento muito mais imponente e verdadeira do que as soluções apresentadas com este esquema de fé.
Atrevo-me numa retórica e me pergunto se ao lidar com o sofrimento, o caminho mais sensato seria o das perguntas. O escritor de Eclesiastes seguindo as pistas das respostas, mesmo que com certo grau de realismo, se deparou mais com um pessimismo, do que com uma esperança viva. Ele não encontrou muito sentido, exceto o de se viver enquanto pode. Seria a fé um caminho realista que leva ao pessimismo ou fatalismo do comamos e bebamos que amanhã morreremos? Ou a fé seria um desafio para se construir outro tipo de realidade?
Sei que tentar esboçar este tema, tentando tirá-lo do escopo filosófico, tem certo teor de contra-senso, mas que caminho me caberia?
Arrisco-me a serviço da fé, para que, de alguma maneira ao lidar com a realidade da vida, me sinta desafiado e não péssimo. Esperançoso e não iludido.
Deus meu, Deus meu, certamente anuncia ausência. Deus não está. Este nó na garganta existencial já encontrou caminhos como o da negação de Deus, da eliminação da religião, e chegou na modernidade à conclusão da morte de Deus e que hoje entre o vácuo deixado pela teologia com péssimas respostas e a dura experiência humana, infiltra no coração humano a indiferença em relação a Deus. A indiferença é mais cruel, porque ela antinomiza o amor. Deus é amor e toda experiência com Deus é uma experiência de amor, mas a indiferença inviabiliza experimentar Deus.
Ao olharmos a vida, em certo sentido temos que reconhecer a ausência de Deus. Se não do mundo, pelo menos em diversas experiências humanas, pois praticamente todos já experienciaram este nó: “Deus meu porque me desamparaste?”.
Se levarmos até a última instância as respostas fundamentalistas e letristas sobre o sofrimento humano, ou ausência de Deus, acabamos por ter que admitir que de fato ou Deus morreu ou não existe!
Mas que tal, pensarmos na possibilidade de que Ele nunca esteve presente da maneira como o descrevemos? Um intervencionista.
Antes, conforme revelado na cruz, se apresenta também como um Deus que experimenta a vida humana com tudo o que ela possui, inclusive sofrendo, porque a vida é assim. Não é vontade permissiva, nem vontade objetiva, são as limitações de uma criação livre.
Que tal considerarmos que Deus fez um mundo com o potencial da vida, para que existisse autonomamente? Desta maneira, para que assim se suceda, Ele precisa sim, de certa forma, ausentar-se, ou a vida jamais se desenrolaria com autonomia, mas sob cabresto.
Sendo assim, o sofrimento não vem de Deus e Ele é contra, mas também não é uma questão de indiferença, impotência ou desprezível abandono por parte dEle, mas licença para a liberdade. Se onde está o Espírito do Senhor há liberdade e é impossível conseguir fugir da presença do Espírito, toda a criação gestada e sustentada pelo Espírito existe e se desenvolve nesta liberdade, e assim como a criação geme, o Espírito de igual forma tem gemidos inexprimíveis, aguardando a manifestação do Deus ausente.
Crer num Deus ausente?
A angústia na dor que leva ao grito que reclama da ausência de Deus está anos-luz de ser de alguém que não se importa ou não tem fé em Deus, pelo contrário é um grito de quem ama. Reclama da ausência quem experimentou e sente falta da presença. Por isso reclamar da ausência é crer para além de tudo.
Como a experiência com Deus se dá pela fé, justamente a sua ausência é um desafio de fé para a mais profunda experiência com Deus. Com isto, sua ausência além de provar a sua existência, demonstra que Ele se encontra “mais vivo do que nunca”!
Não estranhe a ausência de Deus, antes absorva-a para sair do outro lado mais enraizado, envolvido e acolhido por aquele que ama. Ele bebeu o cálice e nos convoca de tal maneira a sorvê-lo com integridade e na força do Espírito.
Nossa geração vive em busca de eliminar a angústia e muitos crentes acreditam na possibilidade de uma resposta bíblica que a elimine. Mas esta não é a maneira como a Bíblia descreve a angústia. Antes a admite como parte da natureza humana e Deus aquele que participa desta limitação. Portanto, o grito de Jesus descreve um Deus que não realiza nenhuma obra para eliminá-la, antes também a absorve.
Viver com Cristo é a experiência da cruz. Experimentar a cruz é ir fundo na ausência de Deus.
Quem experimenta a cruz, experimenta a ressurreição. Pois se com ele morremos, com ele viveremos.
Eliel Batista
8.4.10
Quem intercede por nós?
Atrevo-me mais uma vez a tentar pensar sobre oração. Aliás, para não correr risco de tentar racionalizar o mistério, prefiro iniciar meu pensamento naquilo que antecede a oração.
Se entendermos a oração como uma comunicação entre Criador e criatura, a imagem que fazemos ou temos de Deus influencia diretamente na maneira como oramos.
Se para o fiel Deus é um severo juiz, estar na presença dEle causa medo e deixa-o inseguro. E assim por diante.
Para uma fé trinitariana, acredito que dentre todas as imagens, a da Trindade é a que mais precisa ser resgatada nas nossas orações, principalmente porque nos dedicamos mais a orar petições e intercessões e nisto está implícito a relação existente entre Pai, Filho e Espírito Santo e como nos comportamos neste meio, pois orar consiste em participar desta comunhão.
Jesus nos diz que sua unidade com o Pai é indissolúvel. Ele não veio por si mesmo,(Jo 5:44; 8:42) não falou suas próprias palavras (Jo 7:16) e não agiu de sua própria cabeça (Jo 8:28), mas tudo é do Pai (Jo 13:3).
O Espírito Santo não fala, não revela e não age por si mesmo, mas sim em função do Filho (Jo 16).
O Pai exalta, glorifica e revela o Filho.
Assim, há um só pensamento e um só Deus. Entre eles não há discórdia, desajustes, desencontros e resistência. Tudo de um é do outro. Se há um só Deus e Senhor sobre todos, há um só pensar, uma só intenção para com todos (Jo 12:50).
Isto muda completamente, muito daquela imagem que comumente se tem ao orar. Entendemos que pedir ao Pai em nome do Filho com a ajuda do Espírito Santo é resolver um problema de distância ou de resistência do Pai em relação a nós. Jesus se uniria ao Espírito Santo para formar um pára-raios ou pára-choques na relação de Deus para com os homens.
Um texto bastante conhecido é aquele que Paulo escreveu aos Romanos que encontra-se registrado em 8:26-27 “Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus”.
Neste texto é muito comum imaginarmos os fiéis tentando comunicar alguma coisa para Deus e Ele sem entender do que se trata ou pior ainda com resistências para atender porque trata-se de ralés criaturas, só cede se o Espírito Santo e o filho entrarem na conversa.
Quando ouço Jesus falando algumas coisas fico pensando sobre esta lógica, se faz sentido...
Mt 6:8 o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.
Mt 6:3-32 Portanto, não se preocupem, dizendo: 'Que vamos comer?' ou 'Que vamos beber?' ou 'Que vamos vestir?' Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas.
Deus sabe tudo a nosso respeito, conhece nossas necessidades, nossas palavras antes de proferirmos e até mesmo as intenções com que as dizemos. Ele também nos ama, cuida de nós e exerce sua graça estendendo suas renovadas misericórdias sem fim a cada dia.
Disto surgem muitas perguntas:
Cada componente da trindade tem um pensamento diferente a nosso respeito?
Qual o papel do Espírito Santo?
Deus não nos entende?
Ele não sabe o que precisamos?
Deus precisa ser convencido? Deus tem intenções a nosso respeito diferente do Espírito Santo?
O Espírito Santo teria o jeitinho brasileiro para convencer Deus?
Se Deus nos entende, sabe o que precisamos e não precisa ser convencido. Se Deus pensa a mesma coisa que o Espírito Santo e este têm a mente de Deus, percebo que a intercessão do Espírito não serve para convencer Deus ao nosso querer, mas nos convencer ao querer de Deus. Nós é quem precisamos ser convertidos aos interesses de Deus, mas parece que usamos a intercessão e a ajuda do Espírito Santo para converter Deus aos nossos interesses.
Nosso coração que precisa ser quebrado, pois o de Deus já se enterneceu por nós de tal maneira, que quando éramos seus inimigos nos deu o seu único Filho. Servimos a um Deus rico em compaixão e que nos ama com profundo amor.
Por isso leio o texto sob esta outra lógica:
Portanto, quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz e se hoje ouvirmos a sua voz não endureçamos o coração, pois Ele intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus.
A oração deve nos levar a um quebrantamento tal, que saímos dela dispostos a cumprir com o desejo de Deus: sermos filhos amados que brilham na escuridão.
Eliel Batista
1.4.10
DEUS PERFEITO

Não conhecemos o Deus perfeito como da descrição dos gregos.
Só conhecemos o Deus da e na história.
O Deus perfeito é um deus do mundo das idéias. Evidentemente uma imagem que melhor se adéqua à descrição de alteridade - de um Deus para além de nós. Isto é muito importante para reconhecermos Deus em sua “complexa” singularidade. Mas nossa fé apregoa uma vida a ser vivida com o Deus vivo e real. Por isso para a nossa fé, interessa o Deus da e em nossa realidade. Este que homens e mulheres podem testemunhar porque o percebem em suas vidas e ao redor.
Logo na abertura da Bíblia encontramos Deus perguntando: Adão onde estás? Esta narrativa demonstra uma imperfeição de alguém que não sabe e não está ou estivera presente.
Este é o Deus que as Escrituras revelam. Um Deus inserido e adequado à nossa realidade que muda (Jr 18:8-10); que às vezes não sabe ao certo o que os homens farão (Jr 26:2-3; Dt 8:2); e até mesmo o que fazem (Gn 18:20-21).
Não discuto o fato de Deus ser perfeito, assim creio. Apenas coloco que o Deus acessível se manifestou a nós, se revelou dentro de nossa capacidade de constatação e se fez adequado à nossa intelectualidade, portanto imperfeito.
Nosso Deus só pode ser descrito como perfeito, na dimensão do amor. Não conhecemos e nunca vimos o Deus perfeito grego. Mas a Bíblia nos insere a um Deus amoroso e bom. Sendo amor é pertinente à nossa sensibilidade e compreensibilidade, mas para as definições gregas, imperfeito. Para amar chegou ao extremo de se fazer igual e assumir todo o sofrimento humano. Este Deus encarnado é o único que conhecemos.
Se fizermos o caminho das definições, até mesmo quando pensamos no nada, para nós trata-se de alguma coisa, porém negada. O nada acaba não existindo como descrição. Isto nos leva a perceber como apenas interpretamos nossa existência. O referencial que temos para descrever qualquer coisa é este. A perfeição descrita por nós é aquela que nega nossa realidade. Sendo assim se insistirmos em definir Deus a partir da perfeição o negamos e contradizemos nossa fé, pois a revelação de Deus se dá na afirmação e não negação da realidade. Se não me falha a memória foi Tomás de Aquino que disse que “só conhecemos Deus pela negação”. Isto é verdadeiro se o tomamos como perfeito, mas se compreendemos a encarnação, podemos conhecê-lo em toda sua plenitude aqui neste mundo.
Definir Deus como perfeito e defendê-lo dentro desta categoria é idealizá-lo. O problema é que de nada vale servir a um Deus idealizado, porque este não participa da nossa imperfeita realidade, mas apenas da teoria. Este Deus perfeito não fala conosco, nem toca a nossa vida. Somente o Deus amor. Idealizado até conseguimos tê-lo como alvo de fé, mas não como o Emanuel que nos acompanha e está inserido na nossa história.
O Deus perfeito só participa como um Deus para além de nós. O Deus Emanuel já chegou e sempre está. Hoje é dia de salvação. Hoje devemos ouvir sua voz. Sendo assim, vivamos o Emanuel inserido na nossa realidade. Esta é a firme âncora das nossas almas, Jesus Cristo, que nos assegura para dentro de onde ainda não chegamos: ao encontro do Deus invisível, mas real.
Eliel Batista
18.2.10
O Tribunal Da Graça - Aliança de Amor

Paulo em sua carta aos Romanos usa uma linguagem forense. Ele elabora os pressupostos do significado da morte de Jesus a partir dos aspectos legais romanos.
Para ele Jesus é o Filho de Deus por direito e os crentes por nomeação, que ele denomina de chamado. Para os romanos estas questões de cidadania e adoção só se resolviam por aspectos legais, razão do uso deste tipo de linguagem, principalmente para um ministro cujo lema “faz de tudo para com todos”.
O drama a ser resolvido consistia em dirimir a impossibilidade de um escravo receber a cidadania, pois sua condição existencial jamais lhe permitiria. Para eles somente o imperador era filho de Deus, portanto, todos os demais jamais poderiam receber tal qualificação.
Evidente que para se montar a cena de um tribunal não pode faltar a linguagem da punição, pois qualquer execução da lei trata-se exatamente de punir os erros. Mas ao mesmo tempo Paulo precisa demonstrar a sabedoria de Deus em revelar Cristo como o seu amor. Um exercício hermenêutico nada fácil para se elaborar.
No início de sua carta ele proclama este chamado de Deus aos homens para filiação, mas apresenta aspectos legais que impossibilitam a concretização disto. Mesma razão usada para justificar porque ninguém pode julgar seu próximo.
Mas é interessante como ele recheia o aspecto forense com amor:
- “Deus derrama seu amor por nós”.
- “Deus demonstra seu amor por nós”.
- “Nada pode nos separar do amor de Deus”.
- “O amor é o cumprimento da Lei”.
Expressões usadas abundantemente em sua carta.
Lendo alguns comentários sobre Romanos, fui levado a refazer a leitura tentando compreender alguns aspectos importantes na teologia. Um destes comentários foi do filósofo russo Nikolai A.Berdyaev que disse: “as crenças religiosas passaram a refletir o estado decaído do homem, e o modo como eram concebidas as relações entre Deus e o homem logo assumiram a forma de um processo criminal [...] amor lícito ou legal é um amor que morreu”[1].
Podemos perceber a inversão completa da lógica da Lei quando Paulo diz que por um pecado veio o julgamento que trouxe condenação – Lei –, mas que a dádiva é incomparável, pois dos muitos pecados se manifestou a justificação – Graça (Rm 5:16-17).
A Lei nunca apresenta o perdão, mas apenas a punição e somente depois do cumprimento do castigo pode-se falar em justiça. No caso da Nova Aliança, não se entra com o castigo, mas com o perdão para a justificação.
Podemos afirmar que o que salva da ira de Deus, é o fato de Deus mesmo tendo direito, não tratar do pecado com castigo, mas com amor.
Ser salvo da ira de Deus, não precisa ser um conceito pensado somente dentro da idéia de se ter Jesus como alguém que aplaca a ira de Deus, até porque sendo assim colocaríamos uma divisão na Trindade. O pai contra os homens e o Filho a favor dos homens. Se Jesus só falou as palavras do Pai, fez suas obras e obedeceu em tudo ao Pai, quando nos salva não tenta segurar o Pai para não nos destruir, mas encarna o que o Pai sempre desejou.
Isto corrobora por exemplo com a mensagem de Isaías 54: 8-10:
“Num impulso de indignação escondi de você por um instante o meu rosto, mas com bondade eterna terei compaixão de você", diz o SENHOR, o seu Redentor. "Para mim isso é como os dias de Noé, quando jurei que as águas de Noé nunca mais tornariam a cobrir a terra. De modo que agora jurei não ficar irado contra você, nem tornar a repreendê-la. Embora os montes sejam sacudidos e as colinas sejam removidas, ainda assim a minha fidelidade para com você não será abalada, nem será removida a minha aliança de paz", diz o SENHOR, que tem compaixão de você”.
Podemos compreender porque Paulo apesar de introduzir sua carta falando da ira de Deus, apela para o fato de não ignorarmos que a bondade de Deus é que leva ao arrependimento (Rm 2:4).
Ele nos amou sendo nós pecadores e este amor nos constrange. De fato, Deus tem misericórdia de quem ele quer (Rm 9:18), e isto é confortante, porque ele tem misericórdia de todos os pecadores (Rm 11:32), portanto de todos nós. Aqui vemos a antiga lógica de pecador recebendo o castigo para se arrepender, mudando para a nova lógica do pecador sendo amado e se arrependendo.
Parakletos é uma expressão que identifica um amigo chamado para estar ao lado e ajudar. Jesus quando faz menção do outro consolador – parakletos – faz distinção e unidade entre ele e o Espírito Santo, referindo-se à missão continuada de Deus na terra. Quer dizer, Jesus se revela e se apresenta como alguém que está ao nosso lado para nos ajudar e não contra Deus. Esta expressão faz parte da linguagem forense, mas não é de promotoria, mas sim de defensoria. Conforme o pensamento de Berdyaev , nós enfatizamos esta figura de amigo no seu aspecto simplesmente jurídico e para validá-lo, fizemos do pecado um crime. O pecado não é um crime, mas sim um afastamento, um distanciamento ou quebra da relação de amor com Deus. E Deus demonstra que nos ama, enviou seu Filho para isto, não para nos defender de si mesmo, mas para nos ajudar a nos aproximarmos dele sem medos e receios, pois ele não quer castigar. Ele ama.
[1] O destino do homem -1937- Ed. Charles Scribner's Sons Nova York pg, 348, citado pelos irmãos Linn
11.1.10
A Bíblia, a Verdade e a Existência de Deus

Perguntou Pilatos: - O que é a verdade?
Interessante como muitos de nós lemos a Bíblia como um livro de comprovações da existência de Deus.
Neste critério de leitura, quando se quer provar tal coisa, apresentam-se os textos passíveis de confirmação pelo saber humano, tais como o peso do ar no livro de Jó ou a redondeza da Terra em Isaías, além de outros.
Por outro lado, nada se fala sobre os outros inúmeros textos que além de não se poder comprová-los, ainda nos fazem corar de vergonha, pois chegam a ser contraditórios ao saber humano.
Nesta situação é comum tentar desqualificar a ciência, quando não os cientistas, enfatizando suas contradições.
Mas algumas vezes, se esboça a tentativa de um mínimo diálogo entre ciência e religião torcendo o texto bíblico. A partir de uma falácia de que os erros são “aparentes contradições”, se dá ao texto impossível de comprovação o crédito de linguagem simbólica, ou o status de mistério. Quer dizer, em função dos poucos comprovados, exige-se acreditar que os não comprovados também sejam factuais.
Os que assim defendem a Bíblia, não permitem que a ciência faça uso desta mesma regra.
Uma fé que para prevalecer precisa demonizar os opositores, algo muito comum no fanatismo religioso.
Partindo do pressuposto de que os textos bíblicos não podem ter erros, uma das maneiras utilizadas para solucionar o problema é usar o percentual comprovável para validar o todo.
Isto é, temos uma leitura de fé conveniente, não necessariamente lúcida.
Passemos ao texto bíblico:
Logo nas primeiras páginas da Bíblia encontramos uma cobra falante.
Se este texto não estivesse em um Livro Sagrado, seria tomado por fábula pelo simples fato de animais não falarem, nunca se viu tal coisa, não é possível se verificar e trata-se de algo improvável para não dizer impossível.
Mas ao reivindicar o livro como verdadeiro pelo critério do cientificismo empírico, torna-se necessário afirmar em nome deste tipo de fé, que em idos tempos o mundo já foi assim: cobras falavam e possuíam pés sobre os quais andavam.
Isto é tomado por história verídica em função desta lógica e ainda se usa detalhes factíveis como os rios Tigres e Eufrates para afirmar a veracidade.
Aos que assim lêem, restam duas alternativas: credulidade infantil ou fanatismo.
Cobras precisam falar para que a Bíblia seja verdadeira?
Os profetas bíblicos por diversas vezes foram incumbidos de transmitirem a mensagem de Deus, através de histórias inexistentes ou fábulas. Jotão filho de Gideão, profetizando contra Abimeleque conta a fábula de uma reunião das árvores para eleger quem governaria a floresta, e desta forma transmite sua mensagem.
Há outros exemplos como o Leão de Judá ou o Cordeiro que foi morto. Nenhum lugar registra que se trata de uma figura de linguagem, mas não questionamos isto.
Os querubins relatados por Ezequiel com corpo de gente e cabeça de animal, fora do texto bíblico são figuras mitológicas.
Têm-se medo de fazer tal afirmação, mas como para a interpretação do texto não se toma estes seres como literais, são seres mitológicos, servem apenas como símbolos da fé.
A Bíblia é um documento histórico legítimo, independente de seus registros serem factuais e isto por si só já a torna verdadeira.
Façamos um paralelo com a Ilíada de Homero.
A referência a situações específicas não torna o relato factual, mas por outro lado, a criatividade e inventividade sobre as sagas dos deuses, não invalidam o relato como um documento histórico, ou verdadeiro - legítimo.
Isto ajuda a demonstrar que algo pode ser legítimo, sem ser um fato verídico.
Quer dizer que um texto não pode ser validado ou invalidado, pelo critério de seu relato ser ou não verificável. Pode se tratar de uma ilustração, metáfora, epopéia, lenda, fábula ou parábola cujo principal objetivo é transmitir uma mensagem verdadeira e não registrar fatos verdadeiros.
Outra questão: É possível falar a um intelectual de nosso mundo científico que a Bíblia é verdadeira, afirmando-se categoricamente que cobras falavam, ou que pelo menos uma falou porque Deus quis?
Lógico que não! Uma das coisas importantes na fé cristã é não roubar a razão. Servir a Deus é racional.
Mas se admitirmos que cobras não falam e que o objetivo principal do texto não é provar este tipo de coisa, mas transmitir uma verdade de fé - a mensagem de Deus - a verdade transmitida pelo texto será comunicada com muito mais valor e credibilidade.
Aliás, o Apocalipse admite que a serpente do Gênesis, não era uma serpente, mas símbolo de Satanás que João simboliza como o Grande Dragão (Ap 12:9). Vale lembrar que dragão é um animal lendário.
Há um exemplo em Gênesis que pode nos ajudar a enxergar melhor, que ler a Bíblia como factual, ou de forma literalista é complicado até mesmo para aquilo que entendemos na fé cristã sobre Deus.
DEUS DISSE para Abraão que OUVIU DIZER que os pecados de Sodoma e Gomorra eram tão graves que ele ESTAVA DUVIDANDO que fosse possível, por isso FARIA UMA CHECAGEM para AVERIGUAR A VERACIDADE daquilo que ouvira.
(Disse-lhe, pois, o SENHOR: "As acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Se não, eu saberei" Gn 18:20-21).
Uma leitura direta e objetiva que olha o texto como factual, terá que realizar uma manobra considerável para compreender Deus.
- - Deus não sabia?
- - Alguém precisou lhe contar?
- - Ele não acreditou no que disseram a ele?
- - Deus mentiu?
- - Deus blefou para testar Abraão?
- - Deus fingiu algo para alcançar seus intentos?
Mas se para este texto dermos o crédito de linguagem antropomórfica, então levantaremos a questão sobre qual o critério para estabelecer, quais textos são e quais não são figuras de linguagem.
Talvez o maior problema seja, fazer as perguntas erradas para os textos bíblicos.
Podemos por outro lado, entender que os registros bíblicos não foram realizados para provar os fatos, mas para transmitir uma mensagem, desta forma, melhor captaremos a Bíblia como a Palavra de Deus em palavras humanas. Isto é, todas as palavras e expressões humanas sempre serão figuras de linguagem para falar sobre Deus.
Outro exemplo para avaliar é o de Jonas engolido pelo grande peixe.
Alguns protestantes fundamentalistas por lerem com a lógica de que a Bíblia só é verdadeira se for factual, vasculham a terra e os oceanos em busca de uma espécie de peixe ou pelo menos um fóssil capaz de engolir um homem inteiro sem esmagá-lo.
Por que este tipo de busca se torna importante?
Para satisfazer a idéia de que a Bíblia só será verdadeira se provada com eventos verificáveis, e que somente assim pode-se requerer que se creia nela.
O interessante é que Jesus quando se refere a Jonas, não reivindica ao relato ser um fato verossímil, mas apenas um símbolo. Quer dizer, para Jesus indifere se ocorreu ou não, o mais importante é que se trata de um sinal.
O relato aponta para uma verdade. No critério de Jesus o relato de Jonas aponta para algo muito maior, mais importante. O que vale no relato é o seu propósito e não a possibilidade de se verificar.
A partir deste exemplo, podemos afirmar que aquilo que a Bíblia diz sobre Deus, não está registrado para dar provas de verdades empíricas, mas para desafiar a fé em Deus. Afinal, a fé vem pelo ouvir da Palavra e não pelo comprovar os fatos.
Quer dizer, a Bíblia não busca provar nada, nem mesmo que Deus existe, ela desafia as pessoas a crerem. Aquele que quer se aproximar de Deus não busca provas, apenas crê.
Provar que Deus existe, além de perda de tempo é filosoficamente impossível, isto porque algumas coisas seriam necessárias:
Para que pudéssemos provar que Deus existe requereria sua materialização. Se Deus é Espírito e a tudo enche, em sua materialização não haveria espaço para as demais coisas - as coisas criadas - isto é, deixaríamos de existir.
Por outro lado, sua materialização o colocaria limitado - dentro de uma finitude- o que por natureza o faria deixar de ser Deus. Quer dizer que, mesmo que isto ocorresse, não poderíamos provar que aquele finito que testemunhamos seria de fato o Deus Infinito.
Por isso, mesmo a kenosis – esvaziamento – de Deus na encarnação, requer fé. Este para mim é o maior milagre: “sendo Deus esvaziou a si mesmo”.
De outra forma, se Deus quisesse se auto-provar às coisas existentes que Ele mesmo existe, teria que tirar toda e qualquer liberdade da criação, pois não há possibilidade da permanência livre da criatura se o in-criado prevalecer.
Assim, para que as coisas existam e haja liberdade, Deus precisa ser discreto. Tão discreto que se torna possível negá-lo. Por isso, sem fé a relação com Deus é impossível. A fé se torna o desafio que Deus lança ao ser humano para existir e ser livre. “Aquele que mesmo não tendo visto amamos”(1Pe 1:8).
Só existe possibilidade de se negar Deus porque ele não é impositivo e porque todas as suas ações são divinamente humanas. Deus age de maneira tão discreta, que aquele que não tem fé conseguirá explicar tudo sem Deus, mas aquele que crê, não conseguirá respirar sem desfrutar de sua presença.
O desafio maior do cristão não é provar que Deus existe, mas é existir em Deus, isto é, viver pela fé.
Não é provar que tudo o que contém na Bíblia pode ser verificado cientificamente, mas crer na sua mensagem que nos desvela o Deus em Cristo.
Disse Jesus: “E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida”. (João 5).


