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9.5.12

Não inventamos nada, testemunhamos.



De que adianta um profundo conhecimento teológico se a vida daqueles que ouvem uma mensagem não experimenta Deus?

Quando alguém se volta para a igreja, deseja avidamente suprir suas carências, aliás, anelo legítimo, válido e que deve ser buscado. O problema surge no descompasso entre a crença na possibilidade de se concretizar a idealização da vida e, de fato, a realidade da vida tal qual se apresenta.

Uma igreja não é o que ela propõe, mas aquilo que as pessoas vivem enquanto igreja
Talvez um bom caminho para equacionar um pouco a tensão entre a “proposta de uma igreja” e a “vida da igreja” seria o de além dos conteúdos das mensagens, pensar sobre a intenção e os objetivos das mesmas frente aos anelos pessoais e comunitários dos ouvintes.

Olhando para as pessoas que freqüentam as igrejas, percebi uma distância entre Igreja Ideal e Igreja Idealizada. 
Considero Igreja Ideal aquela cuja proposta corresponde a determinados parâmetros evangélicos comuns que mantém certa estabilidade, comodidade e que seja motivadora - a chamada “igreja boa”. E chamo de Igreja Idealizada aquela em que, por preencher os requisitos da Igreja Ideal, a pessoa acredita que todos os seus anseios particulares serão por ela supridos.

A união conjugal como um excelente símbolo da igreja, ajuda a perceber este anelo e expectativa de suprimento de carências e realizações e o compromisso pessoal.
Casamentos são mantidos não por causa da verdade, mas do pacto. 
Todos têm segredos individuais, verdades omitidas, para que o pacto permaneça.

O que leva uma pessoa a permanecer em uma igreja não é a verdade, mas o que ela busca para se conectar - seu pacto. 
Se a verdade fosse suficiente, algumas igrejas abarrotadas de pessoas estariam vazias e outras vazias estariam cheias.
Por sua vez, o pacto está diretamente ligado à percepção daquilo que a pessoa entende como fator solucionador de sua carência. 
Aquilo que ela compreende como concretizador de sua felicidade convoca-a a firmar uma aliança.

Neste critério que propus, entre a Igreja Ideal e a Igreja Idealizada existe a Igreja Real. Pessoas sedentas em função de seus anelos e em busca de se conectar ou assumir um compromisso com uma igreja.

O pastor que não levar em conta os anseios particulares e considerar que estas pessoas serão tocadas apenas por falar a verdade, terá que lidar com a frustração de não contar com um compromisso mais intenso das pessoas. 
Por se tratar de uma Igreja Ideal os ouvidos estarão atentos, mas por não corresponder à Igreja Idealizada o coração se dispersará. 
Fica um contrapé entre os anseios pessoais e a mensagem. E como só nos comprometemos com aquilo pelo qual o nosso coração pulsa mais forte, a Igreja Real experimenta uma espécie de apatia.

Existem muitas propostas de igrejas, assim como existem diferentes posturas diante da vida.

As pessoas exaustas das lutas diárias, carentes de alívios em um mundo sofrido, angustiam-se e podem assumir algumas posturas que dificultam um desenvolvimento sadio da fé.
Elas podem desejar transformar a esperança do Reino - responsabilidade do fiel, em trabalho divino - uma concretização imediata, mágica, do Reino.
Com esta expectativa, tornam-se presas fáceis da religião que instrumentaliza a fé. 
Por desejarem uma intervenção divina aqui e agora, se iludem com um tipo de mensagem que promete para este mundo uma vida sem dor, e mais ainda, que promete consertar todas as circunstâncias ruins. 
Desejar mudanças e acontecimentos radicais transformadores não é ruim, mas esta mensagem espasmódica que conserta tudo, alegra momentaneamente gerando uma falsa esperança e adoecendo a alma, porque enquanto no mundo experimentaremos aflições.

Uma mensagem que promete corrigir todos os problemas leva o crente a negar a vida como ela é, aumenta a dor.
A esperança cristã não se firma na concretização mágica dos sonhos, mas na convicção de uma glória por vir.

Por outro lado, simplesmente pregar a verdade de que o mundo é assim mesmo, não supre os anelos da alma. 
Neste ponto, penso eu, quem está cansado de lutar não quer forças para enfrentar as dificuldades próprias da vida, mas deseja ser poupado, ainda mais se associar proteção como prova de acolhimento ou amor. 
A lei do menor esforço e maior benefício influencia muito crer em facilitações divinas. Assim, a pregação que livra de tudo é mais bem aceita, por mais que não tenha consistência diante da vida.
Este desejo, ser poupado, pode levar o fiel, apesar de toda sinceridade, a alienar-se da vida, adoecendo sua alma cada vez mais.

A igreja deve ser o espaço de cura, o lugar do milagre de Deus, e consequentemente da Palavra como semente que possibilita a vida em meio ao caos.
Lugar de cura diferente de um centro espiritualista que promete solucionar todos os problemas com trabalhos, vigílias ou cirurgias espirituais. Nem como um seminário apologético que possui a resposta certa para tudo. Muito menos a mediadora de Deus e/ou manipuladora da graça.


Porém, vejo que a igreja tem mais possibilidades para ser este espaço terapêutico no comungar das igualdades da vida.

Quando cada pessoa perceber que ela não é desfavorecida de Deus porque vive aflições, que ela não é a única que está com a alma dilacerada. Que ela não está pagando uma conta eterna diante de Deus.
Quando cada um puder ouvir as histórias que comprovam a identificação entre todos, com as mesmas dificuldades da vida neste mundo, haverá libertação das algemas ilusórias da religiosidade que nega a vida. 
Cada um perceberá que pode ser ele mesmo e ter problemas sem ser o “patinho feio” da família divina.
Também se tornará mais saudável e a pessoa desfrutará da liberdade e de crescimento espiritual quando ao sair de sua igreja, após aquele tempo maravilhoso de culto, estiver consciente e firme para lidar com o mesmo mundo de quando ela entrou. 
Mas isto não é feito pelo discurso apenas, mas pela mutualidade.

Penso que a igreja, em seu modus operandi e sua mensagem, deve priorizar as pessoas se abrirem para a vida. 
Conceder espaço para que na mutualidade tome-se ciência de que apesar de suas fragilidades, limitações, e da volúpia do mundo injusto, cada um é amado por Deus e conta com sua presença de amor.

Que todos percebam como é de fato a realidade da vida e em função da identificação com o outro, se sintam desafiados a continuarem lutando contra um mundo inseguro e de morte. Como nos ensina Pedro "para isto fomos chamados, pois também Cristo sofreu".

Será que também não  seria isto que Jesus quis dizer quando afirmou que seus discípulos testemunhariam?

Parafraseando João e Pedro: "Tudo o que experimentamos é o que falamos, não inventamos nada a respeito da vida".

Eliel Batista

21.3.12

A Razão De Tomé


Há na opinião popular, mais conhecida como senso comum, a crença na incredulidade de Tomé.
À primeira vista quando se pensa em Tomé, pensa-se que ele não creu na ressurreição, antes duvidou e assim Jesus o advertiu de que jamais deveria duvidar, antes, ser um crente.
Com isto associa-se de pronto que o contrário de fé é dúvida. Duvidar, neste caso, é igual a  descrer. Considero importante lembrar que o Movimento da Fé enfatizou este senso comum e praticamente afunilou os raciocínios para que de maneira geral se confundisse fé com confissão positiva. Não é preciso muito para convencer qualquer crente de que a fé cristã não é confissão positiva, mas no dia-a-dia, muito se pratica o pensamento positivo como se fosse fé.

Voltando ao nosso personagem, Tomé o Dídimo.

Jesus ressuscitou, apareceu para os discípulos que, deslumbrados, entre alegria e medo, testemunharam o inacreditável, porém Tomé não estava presente e, mesmo conhecendo bem seus amigos, disse que isto seria impossível, que não daria nenhum crédito ao testemunho se não pudesse constatar pessoalmente, de forma concreta que de fato, aquele personagem que aparecera aos seus amigos, era Jesus de Nazaré. 
Nas palavras da NVI o registro ficou: 
Os outros discípulos lhe disseram: "Vimos o Senhor!" Mas ele lhes disse: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei" (João 20:25ss)

Noutra feita, de igual forma, Jesus apareceu, porém desta vez Tomé estava presente e antes mesmo de se pronunciar Jesus se antecipou e convidou-o a tocar em suas feridas e constatar por si mesmo e concretamente que aquele que estava diante de todos e falando é o mesmo que fora assassinado cruelmente.
Tomé rapidamente desistiu de exigir as provas, se jogou ao chão, e adorou a Jesus.
Por sua vez Jesus lhe lançou um segundo convite: ... “Pare de duvidar e creia".

Apesar de a narrativa problematizar a dúvida, podemos ter um olhar mais acurado e nos perguntarmos se o problema seria a dúvida em si mesma, ou o tipo de dúvida que Tomé apresentou. Dito de outra forma: O pré-requisito exigido por Tomé para crer não serve para a fé.

Vejamos com mais detalhes.

Se você, amigo leitor, disser para mim que meu falecido pai deixou uma fortuna depositada num banco qualquer em meu nome, não basta eu dizer ao gerente, vim buscar meu dinheiro. Faz-se necessário verificar todos os registros que comprovem que há uma conta naquele banco aberta em meu nome e o quanto de dinheiro lá estaria depositado.
Sem as provas, ninguém, nem o presidente do banco me dariam um real sequer.
Isto significa o seguinte: tanto eu como o banco precisamos de provas para dar crédito àquilo que se diz ser verdadeiro.
Mas depois de verificar todos os comprovantes, ver a conta e o extrato, não é preciso crer, os fatos dizem o que é. 
Acreditar naquilo que se tem comprovações factíveis, concretas e irrefutáveis não é fé, mas constatação. Tomé queria constatar concretamente a ressurreição, e Jesus lhe ensina que crer está para além da idéia de constatar fatos.

Não preciso ter fé para acreditar que estou neste exato momento escrevendo este texto, porque afinal, estou escrevendo este texto. Não é preciso ter fé para constatar que hoje podemos viajar longas distancias por vias aéreas.

Quando falamos de verdade de fé, a apreciação não é o toque, a vista, a comprovação científica, mas sim uma apreensão de alma, espiritual, um jeito de sei que sei, mas não sei como sei.

Jesus estaria dizendo a Tomé que a ressurreição foi real, que ele poderia checar com seus instrumentos de verificação, mas que esta exigência de provas para crer, diante do que de fato significa fé, não era fé. 
Se Tomé entendesse isto seria mais bem-aventurado, mas enquanto ele exigisse comprovações, certezas empíricas para aceitar, ele ainda não havia experimentado o que de fato é fé.

Não podemos falar de verdades profundas com averiguações rasas. Ao medir uma curta distância posso fazê-lo com o metro, mas ao medir as distâncias estelares preciso usar a luz.
Assim, ao avaliar as coisas que existem no mundo material posso e consigo fazê-lo empiricamente, mas ao avaliar as coisas espirituais ou divinas estes métodos são inadequados, incapazes e inviáveis. 

Se você quiser se aproximar de Deus, não exija provas de que Ele existe, porque quem quer se aproximar de Deus precisa crer. Sem fé é impossível uma relação genuína com Deus.
Tomé não foi um incrédulo por que não creu na ressurreição, mas sim porque considerou que a ressurreição e outros elementos espirituais para terem sua validade precisam de comprovações empíricas.

A fé, subjetiva, depende de abstração, tal qual Nicodemos que não conseguia entender que apesar de Jesus falar em nascer de novo, não estava falando de nascer de novo. Mas a linguagem de Jesus era apenas uma maneira de fazer com que aquilo que Nicodemos sabia fosse o meio para que ele apreendesse aquilo que não alcançava, mas desejava – uma verdade espiritual.

Em outras palavras, Tomé entendia que só poderia crer naquilo que ele pudesse provar. Jesus o corrige para que cresse. Simples assim? É uma loucura doida, dizer que a salvação é crer e ponto. Mas assim se faz a fé.


Eliel Batista

24.12.11

APENAS MAIS UM TEXTO SOBRE O FIM DE ANO

Quando o ano se finda, o clima de festa anima a vida e “adrenalinam” os dias que nos remetem a muitas reflexões.

Um "quê" de encantamento no encerramento do ano é ser uma das poucas coisas cujo fim se deseja ansiosamente e marcado por alegria. 
Um fim alegremente esperado?


Acredito que isto aconteça por duas questões. 
Uma, o fato de o final do ano ser antecipado pelo Natal que nos convida à celebração da amizade e lembranças de nossos relacionamentos e outra, a certeza garantida pelo ciclo do tempo, de que ao acabar um ano, estamos diante de um Novo Ano.


Esplêndido este encaixe no calendário de um fim antecipado por um começo que marca um recomeço. O Natal – começo que marca o recomeço, antecipa o fim de ano que comunica uma nova possibilidade.


Para a espiritualidade cristã que delineia uma conexão “real com a realidade” três elementos são essenciais.

, ESPERANÇA e AMOR.


Quando enfrentamos nossos dias lutamos pela sobrevivência, lidamos com vales escuros e nos deparamos com montanhas enormes e às vezes intransponíveis.
Esta dureza nos leva a almejar que seja apenas um ciclo, tal qual o dos anos, que termine e possibilite uma novidade. Mas antes disto, paramos no Natal para nos lembrar da companhia de Deus
.

Nisto se entranha o que de melhor faz a vida dinâmica e mobiliza-a em direção ao novo: a , a ESPERANÇA e o AMOR.


A é aquele elemento que não se impressiona com o tamanho da montanha, ela sempre nos leva a enfrentá-la. Por maior que seja a montanha, basta um pequeno grão de mostarda de fé para que aceitemos o desafio e a encaremos. A fé nos dispõe.


A ESPERANÇA é aquele elemento que, apesar da montanha impedir a visão, sabe que também há planícies e vale a pena lutar. A esperança nos leva a jamais desistirmos.


E o AMOR é aquele elemento que de fato faz a vida, pois ele nos leva a perceber que a vida não se constitui de remoções de montanhas, mas de relacionamentos. O amor não permite nos tornarmos técnicos em pavimentação, em aplainamento, mas sim afetuosos.

Sem o amor, hábeis em enfrentar montanhas, podemos nos tornar insensíveis, valorizarmos mais o sucesso que a fidelidade, mais as habilidades que os afetos.


Para a vida, portanto, precisamos destes elementos da espiritualidade cristã.


Manifestemos nossos dons, saibamos aplicá-los, desenvolvamos nossas habilidades, mas que tudo seja banhado no amor. 
Priorizemos nossas relações de maneira saudável. Construamos nossa vida a partir do mais profundo de nosso ser, é de lá que o amor brota.


Um novo ano se anuncia, tenhamos esperança de que assim como chegamos até aqui, iremos também até lá, que por mais imponente que ele seja aceitemos o desafio, pois viver vale a pena, desde que imerso naquilo que é mais profundo na vida, o amor.


O Natal nos chama para a lembrança de que Deus está conosco para sempre, o fim do ano de que as coisas velhas ficam para trás e, o novo ano de que temos uma nova oportunidade.


Celebre com graça, semeando paz e experimentando o amor, lembrando que a experiência do amor acontece na dádiva. Amar é doação.

Silencie sua alma para perceber o quanto de amor há na sua interioridade, pegue e despeje-o com intensidade para o outro. Some a isto fé e esperança e sua caminhada do novo ano será uma excelente viagem cuja vida brilhará acima dos heróis.

Eliel Batista

2.12.11

CREDO DA LIBERDADE

Não vou desistir da Igreja por causa dos religiosos que a deturpam, e fazem dela fonte de chacota e de lucro e de sacerdotes que vendem ilusões.
Mas também não quero pertencer a uma igreja que não comunica a verdade libertadora, não defende a vida e se contenta em impor dogmas, e valoriza mais a letra da lei do que a pessoa humana.

Quero lutar para que o respeito ao humano, o direito à liberdade e à justiça prevaleça. 
Por deslumbrar uma comunidade onde as pessoas não sejam obrigadas, mas desafiadas a viverem uma fé pertinente ao mundo que vivemos e não esteja presa a uma cultura que não nos pertence, pronuncio o esboço de um credo que acredito satisfazer pelo menos aos primeiros passos da fé cristã:

  •  Creio em Jesus de Nazaré como o Cristo Filho de Deus, Senhor e salvador de todos, expressão legítima de Deus e parâmetro de vida e fé.

  • Creio na Bíblia como livro sagrado porque revela Cristo, a Palavra Viva.

  • Creio em Deus como Criador ativo na história por meio do Espírito Santo que glorifica a Cristo, e por isso não-intervencionista.

  • Creio que as coisas que acontecem na criação, boas e ruins provém da liberdade e nela o homem tem a possibilidade de revelar Deus, agindo como Jesus.

  • Creio na salvação como uma dádiva divina que se concretiza na história pela resposta humana ao chamado de Deus para encarnar o reino.

  • Creio na oração não como um meio de convencer Deus aos nossos interesses, mas como os interesses de Deus são legítimos, verdadeiros e a máxima expressão de vida e amor, a oração nos converte a esta vontade.

  • Creio que o pecado é de responsabilidade pessoal. Pecamos e experimentamos o mal em virtude de sermos criaturas. Só Deus não peca.

  • Creio que a fé cristã nos desafia a lutarmos contra todo o tipo de morte e seus processos.

  • Creio que a boa teologia brota da vida e não da letra e se renova constantemente no pensar sobre Deus.

  • Creio que os milagres registrados na Bíblia não estão para provar que Deus tem poder, mas sim para sinalizar o Reino de Deus, demonstrar que Deus é contra o mal e nos desafiar à mesma postura divina.

  • Creio que a pregação do evangelho é um chamado para a Vida.

  • Creio na graça e no amor de Deus e que ele não faz acepção de pessoas e não tem um grupo seleto, mas é sobre todos e para todos de igual forma.

  • Creio que todos somos pecadores e chamados para experimentarmos a graça, através do único meio possível, na caminhada.

  • Creio que nem a oração, nem a fé são instrumentos de coação contra Deus.

  • Creio que Pai, Filho e Espírito Santo formam uma unidade perfeita em amor, sendo um só Deus, e, portanto, Jesus como mediador não está contra os interesses do Pai e, nem ele, nem o Espírito Santo intercedem por nós como se o Pai fosse resistente em nos abençoar.

  • Creio que não há uma distância entre Deus e a humanidade que precisa ser superada, mas que Ele é o Emanuel desde sempre.

  • Creio que o culto não é uma prestação de serviços a Deus e nem tampouco serve para conquistar o coração de Deus ou chamar sua atenção, mas é uma celebração de vida com Deus.

  • Creio que a fé cristã não é uma vantagem ganha, mas o privilégio de um compromisso sério, profundo e eterno com Deus.

  • Creio que Revelação só o é pela capacidade de ser renovável e contemplar o presente. Revelação congelada no tempo perdeu sua essência.

  • Creio que a piedade cristã legítima é aquela que se desenvolve com contentamento e não por sacrifícios e penitências.

Há muito mais coisas ainda para se colocar, mas aqui estão as primeiras linhas que me motivam a continuar na caminha cristã.

Se você concorda com meu credo sigamos na caminhada. Se não concorda e mais ainda, acredita que é um desvio da fé cristã, só peço que se comporte com dignidade e use de cordialidade. Não precisa agredir; apenas me ignore e eu entenderei o recado.

Quero seguir em paz com minha consciência e não se preocupe, não tenho nenhum receio em comparecer diante do tribunal de Cristo. A ele e à sua justiça me submeto.

Não serei prisioneiro de qualquer conceito que se imponha com apenas a possibilidade de repeti-lo e nunca questioná-lo. Sou livre e quero viver a liberdade para a qual Cristo me libertou.
Respeito você crer diferente, e peço o mesmo.

Diria o seguinte: 
Desligo-me da igreja congelada no tempo que apenas repete doutrinas.
Reafirmo meu compromisso com a Igreja, esta que procura Revelar Deus encarnando a verdade de Cristo; promovendo a vida.

Sou feliz pela minha comunidade da fé!
Eliel Batista

10.11.11

SEM IGREJA OU COM IGREJA?


Apesar do IBOPE recentemente ter apresentado uma pesquisa de que a igreja ainda é uma das instituições mais bem cotadas no quesito de confiança social, acredito que haja hoje em dia uma desconfiança crescente em relação a Igrejas Evangélicas e certo ceticismo em relação aos sacerdotes das mesmas.

Porém, quando falo de desconfiança não o faço a partir da mesma base da pesquisa, mas de impressões internas, nascidas de encontros e diálogos religiosos. 
Não pretendo que este texto tenha validade científica, apenas reflito.

A população pode dar um crédito positivo, mas parece que cada vez mais os próprios crentes não confiam em suas instituições. 
Não há uma desistência da fé, mas há um abandono e aversão às instituições.

Não acredito que a causa do desencanto com a igreja seja teológica. A teologia, como justificativa para o afastamento é usada como uma espécie de racionalização da dor. 
A natureza da causa é mais de cunho emocional, fruto de relacionamentos conflituosos, mas como é comum buscar racionalizar as dores como um meio de alívio, teologiza-se.
Evidentemente, este afastamento causado por um alto índice de insatisfação traz consigo sentimentos negativos.

Temos como exemplo midiático o da Carol Celico, esposa do jogador Kaká, que falou sobre seu desligamento da igreja: “Olhando as atitudes dos meus líderes, percebi situações em que a palavra não condizia com a atitude”. (1) E num talk show disse "a igreja de Cristo está em qualquer um (...) hoje minha igreja é minha casa". (2)

Neste exemplo, está implícita uma dor (frustração) e a justificativa teológica que autentica o afastamento não da instituição que causou a dor, mas das instituições.

Não culpo ninguém e seria injusto culpar alguém ferido, pelos seus sentimentos negativos em relação à uma igreja e seus líderes, principalmente aquelas pessoas que abusadas e extorquidas sentiram-imbecilizadas e encontram-se feridas e empobrecidas. 
Chamo a atenção para o perigo das generalizações e seus preconceitos. 
Segundo Gordon Willard Allport (1954) – em “A natureza do preconceito”, o preconceito existe como resultado das frustrações das pessoas que em determinadas circunstâncias, podem se transformar em raiva e hostilidade. 
Portanto, uma pessoa num ambiente pretensamente cristão sendo abusada em sua boa fé, e inibida por esta mesma fé em demonstrar esta raiva e hostilidade, pode na tentativa de não cometer pecado contra o próximo, projetar para a instituição e, para diluir mais ainda a possibilidade do pecado, projetá-las por meio de uma generalização – todas as instituições são com esta. 
Desta maneira, cabem estigmas do tipo: “todo pastor é aproveitador e as igrejas são negócios”.

O fato de ter sido abusado, o que é grave, não deve furtar a capacidade de respeitar as individualidades e de conhecer as coisas como realmente são. 
Uma classe ou um grupo não fazem um indivíduo. Não podemos esquecer que apesar de existirem aqueles que consideram a igreja como uma instituição falida, semelhante discurso já se fez e faz a respeito do casamento. 
Talvez pudéssemos dizer que o modelo existente não comporta mais, mas não necessariamente que a instituição enquanto tal, não deva existir.

Para ilustrar que somos convenientemente seletivos nas generalizações, podemos comparar esta questão com o trânsito automobilístico. 
A cada 40 minutos uma pessoa morre num acidente numa rodovia e a cada hora 17 são feridas. (3)
Apesar deste número alarmante não existe uma generalização e nem preconceito contra os motoristas e seus automóveis, do tipo: "todo motorista é perigoso" ou "automóvel não presta". 
Isto, talvez, porque em cada família há pelo menos um que dirige não necessariamente habilitado, mas dirige. Obviamente que quando se está implicado na situação a própria pessoa rejeita generalizações: - "existem motoristas e motoristas".

Compreendo que uma adolescente, filha de um pai violento que tenha sido abusada, interprete que os homens não valham nada, mas o fato de compreender não me leva concordar com tal afirmação.
Por outro lado, é verdade, não consigo compreender porque uma pessoa em nome de Deus abusa daqueles que confiaram suas vidas às suas mãos.

Infelizmente muito do que se vê na TV, audível nas rádios e as experiências negativas experimentadas por alguns em algumas igrejas sugestionam a uma boa probabilidade de estigmatizar, isto é, a rotular pastores e suas igrejas.
Mas estes sentimentos negativos, a insatisfação e a frustração apontam uma tendência que, a meu ver, pode se tornar um grande problema. 
Quando somos feridos e não temos como exigir justiça tendemos a nos afastar daquilo que nos feriu. 
O preconceito, normalmente estereotipado, é uma forma de se estabelecer um tipo de distanciamento ressaltando aquilo que é negativo e predispondo-se a sentir, pensar e comportar-se a partir do negativo. 
E mais ainda, influenciar outros na tentativa de preveni-los do possível perigo.

Há uma generalização que paira no ar em se pensar pastores e igrejas dentro de uma categoria ou características negativas do tipo: inútil, desnecessário, interesseiro, mercantilista e de abuso.
Não custa lembrar aos sem igreja, que cada vez mais aumentam em número, de que este tipo de generalização levou à prática de crimes de discriminação étnica, tanto de escravatura como de genocídio, como foi o caso dos africanos, dos índios, dos ciganos ou dos judeus. E sempre com o discurso de se desejar um mundo melhor.

Evidentemente que neste ponto da história a raiva ou hostilidade concretizada em atitudes altamente destrutivas são impensáveis, porém, não impossíveis. 
Há que se cuidar.

Ao ler diversas frases e ouvir diversas expressões que rotulam genericamente pastores e igrejas percebo conteúdos que formulam uma discriminação. 
O porta-voz do tema coloca-se em uma condição superior. Há sempre um “que” de que aquele que ainda está filiado a uma igreja seria inferior a ele que se livrou das tais.

Assim como o gênero masculino se considerou superior ao feminino e o branco superior ao negro, aqueles que desistiram das igrejas correm o perigo de transmitirem um pensamento de que aqueles ainda participam de igrejas são “fracos e inferiores”.
Não é para menos, já que a história religiosa revela que a cristianização do império ou a imperialização do cristianismo fez com que a fé fosse beligerante e os sem igreja seriam o pior tipo de pessoa, filhos do demônio. Porém, não é preciso inverter os polos. 
Quem é vítima de preconceito, de estigmatização deve sempre lembrar que pisotear o outro, considerá-lo inferior é terrível.

Não quero com isto defender os maus, nem acobertar os erros, mas desejo apenas que a Paz reine, a liberdade de pertencer ou não a uma igreja seja fruto da experiência de cada um e não de um estigma, preconceito ou generalização.

A história da fé religiosa é igual a qualquer outro aspecto da história, têm suas feridas e curas, saúde e doença, bons e maus.

O papel de qualquer um ou melhor, de todos, deve ser o de escrever a parte dos bons.

Nem toda igreja é Igreja e nem todo pastor é Pastor, mas isto somente a vivência e convivência podem demonstrar. 
Há sim, é sempre bom lembrar que nem todo o sem-igreja é sem-igreja.

Eliel Batista