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9.5.12

A IGREJA DEVE SER...



De que adianta um profundo conhecimento teológico se a vida daqueles que ouvem uma mensagem não experimenta Deus?

Quando alguém se volta para a igreja, deseja avidamente suprir suas carências, aliás, anelo legítimo, válido e que deve ser buscado. O problema surge no descompasso entre a crença na possibilidade de se concretizar a idealização da vida e, de fato, a realidade da vida tal qual se apresenta.

Uma igreja não é o que ela propõe, mas aquilo que as pessoas vivem enquanto igreja
Talvez um bom caminho para equacionar um pouco a tensão entre a “proposta de uma igreja” e a “vida da igreja” seria o de além dos conteúdos das mensagens, pensar sobre a intenção e os objetivos das mesmas frente aos anelos pessoais e comunitários dos ouvintes.

Olhando para as pessoas que freqüentam as igrejas, percebi uma distância entre Igreja Ideal e Igreja Idealizada. 
Considero Igreja Ideal aquela cuja proposta corresponde a determinados parâmetros evangélicos comuns que mantém certa estabilidade, comodidade e que seja motivadora - a chamada “igreja boa”. E chamo de Igreja Idealizada aquela em que, por preencher os requisitos da Igreja Ideal, a pessoa acredita que todos os seus anseios particulares serão por ela supridos.

A união conjugal como um excelente símbolo da igreja, ajuda a perceber este anelo e expectativa de suprimento de carências e realizações e o compromisso pessoal.
Casamentos são mantidos não por causa da verdade, mas do pacto. 
Todos têm segredos individuais, verdades omitidas, para que o pacto permaneça.

O que leva uma pessoa a permanecer em uma igreja não é a verdade, mas o que ela busca para se conectar - seu pacto. 
Se a verdade fosse suficiente, algumas igrejas abarrotadas de pessoas estariam vazias e outras vazias estariam cheias.
Por sua vez, o pacto está diretamente ligado à percepção daquilo que a pessoa entende como fator solucionador de sua carência. 
Aquilo que ela compreende como concretizador de sua felicidade convoca-a a firmar uma aliança.

Neste critério que propus, entre a Igreja Ideal e a Igreja Idealizada existe a Igreja Real. Pessoas sedentas em função de seus anelos e em busca de se conectar ou assumir um compromisso com uma igreja.

O pastor que não levar em conta os anseios particulares e considerar que estas pessoas serão tocadas apenas por falar a verdade, terá que lidar com a frustração de não contar com um compromisso mais intenso das pessoas. 
Por se tratar de uma Igreja Ideal os ouvidos estarão atentos, mas por não corresponder à Igreja Idealizada o coração se dispersará. 
Fica um contrapé entre os anseios pessoais e a mensagem. E como só nos comprometemos com aquilo pelo qual o nosso coração pulsa mais forte, a Igreja Real experimenta uma espécie de apatia.

Existem muitas propostas de igrejas, assim como existem diferentes posturas diante da vida.

As pessoas exaustas das lutas diárias, carentes de alívios em um mundo sofrido, angustiam-se e podem assumir algumas posturas que dificultam um desenvolvimento sadio da fé.
Elas podem desejar transformar a esperança do Reino - responsabilidade do fiel, em trabalho divino - uma concretização imediata, mágica, do Reino.
Com esta expectativa, tornam-se presas fáceis da religião que instrumentaliza a fé. 
Por desejarem uma intervenção divina aqui e agora, se iludem com um tipo de mensagem que promete para este mundo uma vida sem dor, e mais ainda, que promete consertar todas as circunstâncias ruins. 
Desejar mudanças e acontecimentos radicais transformadores não é ruim, mas esta mensagem espasmódica que conserta tudo, alegra momentaneamente gerando uma falsa esperança e adoecendo a alma, porque enquanto no mundo experimentaremos aflições.

Uma mensagem que promete corrigir todos os problemas leva o crente a negar a vida como ela é, aumenta a dor.
A esperança cristã não se firma na concretização mágica dos sonhos, mas na convicção de uma glória por vir.

Por outro lado, simplesmente pregar a verdade de que o mundo é assim mesmo, não supre os anelos da alma. 
Neste ponto, penso eu, quem está cansado de lutar não quer forças para enfrentar as dificuldades próprias da vida, mas deseja ser poupado, ainda mais se associar proteção como prova de acolhimento ou amor. 
A lei do menor esforço e maior benefício influencia muito crer em facilitações divinas. Assim, a pregação que livra de tudo é mais bem aceita, por mais que não tenha consistência diante da vida.
Este desejo, ser poupado, pode levar o fiel, apesar de toda sinceridade, a alienar-se da vida, adoecendo sua alma cada vez mais.

A igreja deve ser o espaço de cura, o lugar do milagre de Deus, e consequentemente da Palavra como semente que possibilita a vida em meio ao caos.
Lugar de cura diferente de um centro espiritualista que promete solucionar todos os problemas com trabalhos, vigílias ou cirurgias espirituais. Nem como um seminário apologético que possui a resposta certa para tudo. Muito menos a mediadora de Deus e/ou manipuladora da graça.


Porém, vejo que a igreja tem mais possibilidades para ser este espaço terapêutico no comungar das igualdades da vida.

Quando cada pessoa perceber que ela não é desfavorecida de Deus porque vive aflições, que ela não é a única que está com a alma dilacerada. Que ela não está pagando uma conta eterna diante de Deus.
Quando cada um puder ouvir as histórias que comprovam a identificação entre todos, com as mesmas dificuldades da vida neste mundo, haverá libertação das algemas ilusórias da religiosidade que nega a vida. 
Cada um perceberá que pode ser ele mesmo e ter problemas sem ser o “patinho feio” da família divina.
Também se tornará mais saudável e a pessoa desfrutará da liberdade e de crescimento espiritual quando ao sair de sua igreja, após aquele tempo maravilhoso de culto, estiver consciente e firme para lidar com o mesmo mundo de quando ela entrou. 
Mas isto não é feito pelo discurso apenas, mas pela mutualidade.

Penso que a igreja, em seu modus operandi e sua mensagem, deve priorizar as pessoas se abrirem para a vida. 
Conceder espaço para que na mutualidade tome-se ciência de que apesar de suas fragilidades, limitações, e da volúpia do mundo injusto, cada um é amado por Deus e conta com sua presença de amor.

Que todos percebam como é de fato a realidade da vida e em função da identificação com o outro, se sintam desafiados a continuarem lutando contra um mundo inseguro e de morte. Como nos ensina Pedro "para isto fomos chamados, pois também Cristo sofreu".

Será que também não  seria isto que Jesus quis dizer quando afirmou que seus discípulos testemunhariam?

Parafraseando João e Pedro: "Tudo o que experimentamos é o que falamos, não inventamos nada a respeito da vida".

Eliel Batista

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