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4.4.16

A Ditadura e Eu



Eu não fui vítima direta do golpe de 64. 
Ninguém da minha família e nem mesmo conhecido, que eu saiba, foi torturado.
Minha igreja, minha escola, meus professores, minha cidade, minha família, concordava com os posicionamentos oficiais do governo.
O Marechal de Messejana, fazendo uma “esterilização política” era um organizador nacional que estava colocando a casa em ordem.

Comunista era terrorista, violento e contra o bem-estar da sociedade. 
Um anticristão ferrenho, ateu, opositor dos bons costumes, por isso deveria ser resistido, mesmo que pertencente à família deveria ser entregue ao Estado para que tomasse as devidas providências.
Eles, os comunistas, eram orientados diretamente pelo demo. Não demo que significa povo, mas demo abreviatura de demônio.

Mas não parava por aí: nordestino, vítima da seca e mais grave ainda, oprimido pela indústria da seca gerenciada por políticos inescrupulosos, tiranizados pelo coronelismo, passava fome porque não queria trabalhar, afinal, quem quer faz. Em vez de fazer alguma coisa, ficava esperando esmolas. 
Ser pobre era possível, passar fome era preguiça. 
Negro poderia até ser boa gente, mas sempre seria limitado intelectualmente.

Comunista - esse vagabundo, pobre faminto – esse preguiçoso, precisavam de surra para aprenderem a boa educação. Nada melhor do que a polícia para educá-los, afinal, a polícia foi feita para os maus, e esses deveriam ter medo. Nós não. Estávamos do lado do bem. Da Ordem e do Progresso.

A formação política na escola era através de duas matérias: a Educação Moral e Cívica e a Organização Social, Política Brasileira. Antes de entrar para as aulas, todos perfilados, cantando hino da escola, da pátria, da bandeira, da independência. Dia 07 de setembro, com parada militar, era o grande evento e nós desfilávamos também com as bandas marciais das escolas públicas.
Tenho fotos disso.

Precisava decorar a tabuada, que eu achava que se chamava assim, porque se não soubesse levava uma “tabuada” – uma régua de madeira gigante, que na aula como régua, servia somente para alcançar à distância o aluno. Quer dizer, o aprendizado não significava criar, mas apenas repetir os conteúdos impostos. Nada novo a se aprender; só doutrinação.

Com esse descritivo, dá para perceber que, por outro lado, fui sim um tipo de vítima da ditadura militar. 
Não há como se comparar com quem perdeu seus bens, seus entes queridos e sua vida. Nem tampouco, que agora, as verdadeiras vítimas, oprimidas pelo Estado, teriam que olhar para mim como se eu fosse um oprimido e violentado e sentirem dó de mim; jamais. 
Faço essa referência, com muito cuidado, apenas para demonstrar que num sistema assim, todos os cidadãos são cartas de um jogo em que todos são tolhidos. 
Coibidos a concordar com o sistema e no meu caso, considerar opressão como algo útil e para o bem.

Fui doutrinado a pensar horrores de meus irmãos, de meus compatriotas, de meus pares humanos. Apesar de não impingir, fui levado a considerar “correto” querer o sofrimento de opositores. Também, como num regime tribal primitivo selvagem, considerar como inimigo aquele que pensa e fala diferente. 
Olho ao redor e imagino se para muitos ainda não continua essa estrutura mental.

Sinto horror de tudo isso
Não! Não fui culpado direto pelas torturas, pelas prisões arbitrárias, pelo desaparecimento de gente que também queria o bem dos cidadãos. Eu não tinha maturidade para pensar outra coisa, que dirá, ser responsável. Mas sim, por outro lado mesmo sem saber, engrossei o caldo para que isso se fortalecesse.

Tenho vergonha de um dia ter pensado assim
Mais horroroso ainda é lembrar que um dia tive esses sentimentos funestos. 
Medo de pensar que determinados sentimentos tão fortes, podem ser semeados no coração de alguém e se tornam tão reais que parecem legítimos, possuidores de verdades absolutas e são capazes de levar uma pessoa de boa vontade a pensar e até mesmo a cometer atrocidades. 
Mesmo não tendo praticado nenhuma atrocidade, mas somente o fato de não considerar insano, desumano, anticristão, inumano que tais coisas sejam executadas, me assusto porque percebo a vileza que pode habitar o obscuro do coração.
Hoje compreendo que isso acende dentro de si mesmo uma fogueira infernal em honra àquilo que é maligno; diabólico.

Não tenho como corrigir o passado
Tenho como não permitir a continuidade da opressão e lutar para jamais tornar a acontecer. 
Tenho como olhar para meu próximo como irmão, percebê-lo como meu semelhante e acolher as diferenças, minhas e dele e enriquecer essa nossa “igualdade” para que habite em nós um Novo Humano. Posso pedir que meus irmãos brasileiros me perdoem.

Cresci, me tornei adulto. Estudei, revisitei a história, investiguei os fatos, conheci verdadeiras vítimas, compreendi Cristo e seu Evangelho com mais beleza e por isso me tornei avesso a toda e qualquer ditadura, quer religiosa, trabalhista, social ou familiar. 
Espero conseguir viver sempre com uma prática democrática, deixando um legado mais bonito na construção do nosso futuro.

Eliel Batista

2.1.16

Reflexões de um quase avô antes de chegar à velhice


Ainda não sei direito como é essa história de ser avô. Um pouco menos ainda, ser idoso.
Mas se tudo correr bem, dentro em pouco, abraçarei ambos os fatos, lembrando que eles não são diretamente dependentes um do outro.
Saberei mesmo como será conforme ocorrer cada um.

Não são coisas que se saibam por antecipação ou teoria.
Ouso dizer algo pelo que já vivi e pelo privilégio de lidar com aqueles que me antecedem. 

Não trato desse assunto por causa do medo da velhice e menos ainda por achar que seja verdadeiro o status quo imposto pela sociedade, na qual se associa idoso ao inútil, mas, pelo fato em si, de que o tempo desperta a consciência pessoal de que ele é voraz.
Nessa condição reflito algumas coisas, as quais sei que enfrentarei muito em breve.

Isso mesmo! 
Começo a falar sobre velhice.
Só por que me torno avô?
Também; mas não!

Muito mais por admitir que não se torna avô na "flor-da-idade"; sim na maturidade.
A um cinquentão não se diz: "eis aí um jovem", mas inexoravelmente: "eis aí um senhor".
Há quem leia isso e diga: "Cinquenta anos? 
Novo ainda.
Não! Não é uma verdade absoluta.
Tomo meu pai como exemplo. Ele morreu aos 73 anos. Alguns ao saberem disso reagem imediatamente afirmando ele ter morrido novo.
Aqui há uma diferença a se considerar.
Ele não precisaria ter morrido nessa idade, porém, não morreu novo.
Não morreu de velhice. O câncer lhe foi mais cruel que o tempo.

Voltando à minha reflexão.
O que espero caso nenhuma realidade cruenta e sanguinária seja mais ágil e forte que o tempo?

Quando de cabelos brancos e/ou calvície se impuserem, rugas pesadas dominarem meu rosto, a pele manchada for chamativa, a lentidão for o padrão dos movimentos, o olhar profundo embaçando, uma sonolência incomodativa nas horas mais impróprias ocorrer. Quando eu estiver dando trabalho àqueles que consideram a velhice um atrapalho à vida e tornar-me silente para não criar mais incômodos do que dizem incomodar, espero que olhem para mim e não vejam um "velho que quase não vive e não nos deixa viver".

Percebam que ali, diante deles, não está um velho.

Ali reside uma criança extremamente criativa que nasceu pobre, há algumas dezenas de décadas, teve uma infância solitária, mas resiliente  inventou um jeito para ser uma criança feliz.

Há ali também um jovem cheio de vitalidade que descobriu a paixão, enamorou-se como num romance cinematográfico, casou-se e viveu a louca aventura do amor perene.

Por baixo dessa casca que mirra pelo tempo, está um homem feito, que lutou para educar os filhos, não mediu esforços para ensiná-los na trilha do viver, trabalhou incansavelmente para sustentá-los e mais ainda, tentar ser um exemplo de quem tem fé, esperança e gana de viver.

Velho? Sim e não.

Dentro de mais uns dias avô, mais um breve tempo um velho, mas mais do que isso, essa caixa-de-carne pálida, que homens e mulheres que vivem ocupam no tempo, sempre é símbolo e soma de tudo o que se é. Não do que se foi, mas de alguém que continua a aventura de ser. 
Verdade. Justiça seja feita, vive de outro modo.

Para alguns, pode até ser que essa caixa-de-carne lutando contra o tempo, tenha apenas uma pequena fresta pela qual ainda/somente respira, mas para a realidade da vida e na intimidade da consciência, sei que ali haverá, como há em todos os idosos, um complexo mundo existencial de quem viveu com intensidade aquilo que é comum aos mortais e para onde todos caminham.

Quando lá estiver, só gostaria que os jovens aprendessem a lição que eu aprendi antes de chegar lá: não olhem para mim com os olhos impostos por uma sociedade utilitarista de que eu seja um velho.

Façam isto não só por mim, mas por vocês mesmos e pelo bom futuro de nossa sociedade. 
Olhem para mim como de fato serei e não como querem determinar que eu seja.
Não serei, como não são todos de avançada idade: "velhos inúteis".
Sempre serei eu: somatória da Vida de um ser-que-vive.

Eu tenho nome, sou uma história e de uma ou outra forma, entre erros e acertos, dei prosseguimento à vida.

Por isso, desde já me esforço para deixar marcas tais, para que aqueles, após mim, não desejem me empurrar para fora da existência, mas queiram me ouvir, buscando saber de quem viveu o bastante, como é existir no mundo.

Eliel Batista