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30.12.10

2011 Entre coração, palavras, talentos e ações

Eu poderia falar coisas usuais das datas como esta que estamos vivendo. Usar a “copiatividade” e escrever em outras línguas, usar vocabulário rebuscado ou versátil e assim por diante.

Neste caminho de desejar felicitações, alguns consideram que basta dominar o vocabulário, o que é uma questão de inteligência, que por sinal todos a possuem e podem desenvolvê-la. Deter o vocabulário é uma coisa, mas saber aplicá-lo requer sabedoria. Nisto um ou outro se destaca. Agora, harmonizar coração e palavras é distinguir e destacar o talento e as pessoas e fazer brotar os aplausos e as alegrias.

Alguns sabem harmonizar com tal habilidade que se tornam excelentes oradores, outros poetas. Há ainda os historiadores, os jornalistas, os piadistas... Nesta hora se definem os afetos, a alma e a mágica de expressar-se como se é colaborando com a beleza do mundo.

Interessante que muitos não se conformam com seu próprio jeito de expressar-se e querem ser outro com outro dom. Lastimável. Temos histórias ruins, músicas horrorosas, poesias insossas e...
Bom seria se para este ano aprendêssemos a combinar as palavras. Harmonizá-las com o coração, com o talento e com o amor.
Conheço poetas que ao declamarem suas próprias poesias, destroem suas belas obras como um elefante numa loja de cristal. Tanta sensibilidade em compor, e tão pouca em expor. Vejo oradores hábeis em fazer das palavras um Mikhail Barichnikov e de um texto qualquer um Quebra-Nozes, difamarem sua própria maestria ao tentarem compor, por insistirem-se capazes de transformar suas duras canetas em plumas. Compositores que ao cantarem deformaram as mais belas canções. Virtuoses perdidas na confusa desarmonia entre coração e talento. Entre desejo e realidade.

Consciência, espelho retrovisor, reconhecimento. Esta é minha recomendação para este ano. 
Para mim mesmo. Buscarei aprender a combinar as palavras para que ao expressá-las do meu jeito, construa um mundo mais brilhante.
Revelo que gostaria muito saber tocar piano. Conheço a escala, sei ler música, não há dificuldade em discernir as notas, mas combiná-las... Tirá-las da categoria de matemática e combiná-las com a alma a ponto de formar um som que desperta o coração – acordes – está para além daquilo que meu talento me reservou.

Escrevo tudo isto apenas como metáfora para a vida. Felicidade não acontece pelas palavras somente, mas na concretude delas. Por isso, no fundo não falo de palavras, mas sim de ações. Combinar ações de tal maneira, que desperte o coração, que revele e desenvolva o amor. Nesta área, todos podem, mas cada qual combine de seu jeito, com suas habilidades próprias. Desta forma faremos da vida uma bela composição, o mais belo poema que já existiu.

Procure-se até encontrar-se. Encontre-se e desperte-se para os seus talentos para com eles expressar-se com o perfume que lhe é próprio, concedido pelo Criador.
Com certeza o próximo ano será outro.

Feliz 2011.

Eliel Batista

27.12.10

EU, O ANALISTA E MINHAS LOUCAS ANÁLISES


Direto ao assunto, no encontro, iniciei:
- Doutor, gostaria de saber por que preciso ser ensinado por você, a olhar o meu passado?


- Engano seu meu caro! Não ensino. Apenas auxilio. Respondeu ele.

- Bem, mudarei a pergunta: Por que preciso de sua ajuda para olhar o meu passado?

Como costumeiro, ele não me respondeu, mas perguntou:
- Será que sem ajuda você não olharia sempre com o mesmo olhar, e por ser a parte mais intensamente envolvida, não estaria este olhar comprometido? Será que não existe outra forma de se ver e quem sabe mais saudável?

Chegando ao ponto do meu interesse prossegui:
- Olhar saudável!? Adoecido, meu olhar está comprometido. Pense comigo doutor! Doente ou não, o jeito que vejo é exatamente como vivenciei, experimentei, senti. Ao olhar para meu passado, vejo-o com minhas entranhas e revivo tudo exatamente como foi e esse sou eu. Tentar ver de outra forma, isentando-me de mim mesmo, isto é, dos meus sentimentos como foram, não seria somente diferente, mas eu não deixaria de ser eu mesmo?

Conduzindo com maestria, me perguntou, parecendo mais uma disputa teórica...
- Voce não considera que ao relembrar com outras possibilidades, você cria outros sentimentos, e este continuará sendo você mesmo, mas com outro olhar?

Quase que sem saída, retruquei:
- Concordo com isto, doutor. Mas a questão é que o passado não pode ser refeito e ele foi vivido com as condições que foram experimentadas e não com estas novas condições. Ao tentar criar outro sentimento, para algo que foi bastante real, eu estaria inventando sentimentos que não existiram e enganando a mim mesmo. A realidade não foram estes novos sentimentos, mas exatamente aqueles. E aqueles fui eu e, estes novos um novo eu, mas numa outra etapa. Tentar ter novos sentimentos em relação ao passado é ver com óculos de hoje, algo que foi visto com olhos de ontem. E sinto doutor, não fui cego, apenas enxergava o que me era possível. Ontem não é hoje e o que fui é diferente do que sou e somente a somatória dos dois é que me coloca na etapa do que estou sendo. Mas cada qual com sua realidade.

Pensativo, tocando os lábios com a caneta e ajeitando os óculos, continuou:
- Se fosse possível você passar exatamente pela mesma coisa hoje, você não sentiria e compreenderia diferente?

- Doutor, se voce não fosse especialista eu riria. Se vivesse hoje as mesmas situações, evidentemente interpretaria diferente, mas isto porque eu não sou mais o mesmo. Para mim trata-se do seguinte: Senti, vivenciei, experimentei e sofri ou não, como eu fui. Olhar como sou hoje me coloca em condição de novas interpretações, mas ao tentar me convencer que o que experimentei poderia ter sido diferente, apenas gera em mim um engano, ou quando não a culpa, o que seria pior, pois hoje sou sabedor que poderia ser diferente, mas para isto eu precisaria ter sido ontem quem sou hoje, e isto é impossível. Penso que a melhor maneira é tentar sorver aquela experiência, beber aquele cálice exatamente como foi. Se conseguir engoli-lo, absorvê-lo como sendo eu mesmo daquela época, mas que não conseguira, sem tentar mudar, crescerei e amadurecido sairei mais forte. Criar novos sentimentos para dar outro significado para aquilo que vivi, seria como jogar para debaixo do tapete algo que foi muito real.

O doutor quase que me interrompendo:
- E quem disse que voce precisa de novos sentimentos? É melhor tentar compreender porque teve determinados sentimentos...

- Por que tive medo? Porque eu era assim, tinha medo de coisas que me causavam medo, ódio das que me causavam ódio. Hoje, as mesmas coisas já não me causam mais os mesmos sentimentos e reações. Enfrento outros monstros.

Esboçando um leve nervosismo, o doutor levantando levemente o olhar por cima dos óculos, prosseguiu como se toda minha enfática retórica não o afetasse:
- Percebo pelo que me parece, que você está querendo ser herói. Matador de monstros... E já que você quer ir por este caminho, você não acha que precisa de ajuda para tal empreitada?

- Herói? Ah, doutor! Voce está tentando me convencer de sua utilidade ou de minha fraqueza? Enfrentar o passado é uma atividade solitária... Talvez por isso, depressiva... São corredores de morte e a morte é solitária, ninguém me acompanhará. Ou morro para a história deixando de ser, ou com a história como real e legítima construtora de mim. De qualquer forma, sou eu, eu mesmo que preciso desta investida. Não dá para reinterpretar. O que penso precisar é de enfrentar os monstros que costumamos cobrir com os panos do tempo...

- Meu caro, disse o doutor, nosso tempo se finda, mas o espero numa próxima e interessante conversa. Vejo que nossos encontros serão instigantes...

- Doutor, disse eu, antes de ir preciso dizer que percebi você um tanto quanto nervoso em nossa conversa, e preciso perguntar: Por que você entrou no debate? Ficou confuso ou convencido de que ao reinterpretar o passado corro o risco de deixar de ser eu mesmo como fui? Que em cada tempo sou outro e por isso os diversos eus lidaram como souberam com cada situação e, portanto, o que foi, foi e, na somatória de todos eles, este sou eu.

- Por que você me procurou? Até mais. Abriu a porta fechando a conversa.

E na conversa entreaberta finalizei:
- Doutor estou apenas tentando me aprofundar no que significa: “pela graça de Deus sou o que sou”.

Eliel Batista

22.12.10

Então é Natal, Ano Novo e há algo mais?


Natal é momento de lembrar que a Verdadeira Luz brilhou. Onde havia trevas, Deus trouxe luz.
O primeiro Natal está registrado em Gênesis 1 – Disse Deus: - “Haja luz”.

No segundo, confirmando a vontade eterna em Jesus de Nazaré, a noite escura se iluminou e os anjos se alegraram. Houve festa porque definitivamente Deus demonstrou em carne, que não há razão para se ter medo e encobrir mazelas, afinal, Deus sempre quis e continua nos querendo bem.
Não há porque fugir de si mesmo, nem porque esconder-se nas cavernas existenciais. Deus nos ama e quer Paz na Terra.

O ciclo do tempo é uma realidade que influencia a história. Tudo sob sua tutela: as medidas, as realizações, os planejamentos e também a esperança.
Marcar datas e dividir o tempo é uma convenção.
Há quem diga não ser real, mas isto significa falsidade?
O futuro não existe, mas é uma realidade, aliás, sem ele, o presente por causa de sua rapidez não seria percebido. A última letra que acabei de escrever está no passado. A próxima ainda não existe.

O que seria real, somente o passado? Mas ele já não está mais, teria se perdido?
O futuro não existe ainda, o presente é rápido demais e o inalcançável passado é a única coisa que, apesar de sempre ficar para trás, pode ser encontrado.

O Natal nos convoca a tranquilamente reconhecermos, que aquilo que ilusoriamente para nós está na escuridão, para Deus sempre esteve na luz. Isto deveria nos tirar o medo e nos levar à confiança do fato:
O Deus de Paz nos quer bem.
Imbuídos desta fé, como um herói conquistador achar o passado, escarafunchar os momentos velados e dominar a si mesmo. Já dizia o sábio: “mais valor e força, tem quem controla o seu espírito”.

O passado não se perdeu e dele não adianta fugir. Pior do que não admitir isto, é por ele ser encontrado. Excruciante momento este quando nos tornamos caça das nossas próprias sombras, que há muito deveriam ter sido iluminadas.

Natal como consciência da Luz que brilhou e afugentou completamente as trevas e o medo que elas causavam. Não há porque temer as sombras, nem fugir da única realidade que pode ser encontrada: o passado.
Tome a Luz em suas mãos, singre o mar do passado em direção às sombras e confie no mais escuro vale: Deus te ama e nunca te deixou.
Não tenha medo, Ele segura suas mãos, o acolhe em seus braços e se houver lágrimas, ele as recolhe e lhe leva a experimentar o mais profundo amor.
Já nos sinaliza o batismo, que o mais arguto pecado é banhado pela extraordinária graça.
Desta maneira, o Novo Ano será vivido com integridade e a história escrita com profundos afetos de misericórdia.

Que venha 2011.
Glória a Deus nas Alturas.

Eliel Batista

28.11.10

Pedido de compreensão

Meus amigos que prestigiam meu blog.

Tenho postado com bastante lentidão ultimamente porque estou tentando terminar o meu primeiro livro.

Isso mesmo, final de janeiro ou início de fevereiro, sai do forno um livro que espero poder ajudar os cristãos em alguns pontos: teologica, liturgica e pessoalmente e além de contribuir para o culto congregacional.

Algumas coisas como o relacionamento pessoal com Cristo, o lugar de Cristo na adoração, a comprensão do sincretismo teológigo nos cultos, o papel da arte, o sagrado e o profano. Enfim, comprensões que um discípulo de Cristo precisa para cultuar em espírito e em verdade.

Peço a comprensão de voces, mas logo normalizarei o blog.

Com carinho

1.11.10

PREPARANDO A CASA DO PAI


Jesus decide passar suas últimas horas de vida junto com os seus discípulos em uma ceia.
Naquele momento ele se desnuda, abre o seu coração e fala das suas tristezas.
Ele percebe que seus discípulos estão entristecidos com sua fala e então afirma que aquela tristeza é temporária, mas em breve eles explodiriam de alegria.
Desta maneira introduz aquilo que ele considera apaziguador, consolador para os discípulos com as seguintes palavras:

"Não se perturbe o coração de vocês. Creiam em Deus; creiam também em mim. Na casa de meu Pai há muitos aposentos; se não fosse assim, eu lhes teria dito. Vou preparar- lhes lugar. E se eu for e lhes preparar lugar, voltarei e os levarei para mim, para que vocês estejam onde eu estiverJoão 14:1-3.

De todos os lugares e recantos do cosmos onde Deus escolheu fazer sua casa?
Em nós.
Há uma canção de Gerson Borges com o tema “Hoje é dia de Festa”, que relata uma grande festa na casa do Pai, onde há abundante alegria. Ela encerra dizendo: “A casa do Pai é o nosso próprio coração”.
Em nós, morada de Deus, há muitos aposentos e Jesus entra junto com o Pai no mais recôndito do nosso ser e ali monta uma casa com um grande mesa para cear.
“...Meu Pai o amará, nós viremos a ele e faremos morada nele.” João 14:23
Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo”. Apocalipse 3:20.
Ecoa as palavras de Jesus aos discípulos: Jesus enviou Pedro e João, dizendo: "Vão preparar a refeição da Páscoa" Lucas 22:8.

Jesus precisa preparar lugar porque somos egoístas demais.
Em nosso coração cabem poucas pessoas.
Temos muitas coisas despejadas em nosso coração como mágoas, indiferenças, esquemas de proteção contra as feridas de amar, espinhos, invejas que impedem caber mais pessoas. Jesus precisa preparar estes aposentos.
Deus nos fez largos suficientes para que caiba em nós todos os que ele ama, mas nós temos a tendência de expulsar muitos. Às vezes por preconceito, por não aceitarmos quem pensa diferente.

No coração de Deus, na sua morada, cabem todos os amados de Deus.
Compreendendo a metáfora do céu, podemos dizer que se há um lugar pronto seria este. Um lugar completo, sem a necessidade de acabamentos, o lugar perfeito e pronto para receber e acolher a todos.
A única morada de Deus que precisaria preparar é o nosso coração.
Nele temos um irmão mais velho moralista que se recusa em admitir os perdidos.
Tem os vendedores que não deixam os estrangeiros terem um encontro com Deus, pois ao invés de ser um lugar de oração se torna um covil.
Jesus tem muito trabalho para preparar os aposentos.
Deus nos fez com um espaço tremendo, mas nós o entulhamos. Viraram despensas de nossas idiossincrasias.

Jesus iria preparar lugar e os discípulos conheciam o caminho. E eles perguntaram: Que caminho. E Jesus respondeu: “Eu sou o caminho”. Como assim?
O caminho aberto para todos, acolhedor, que ama, não tem preconceitos, o caminho do amor, da comunhão, da solidariedade. O caminho de se dar inteiramente pelo outro. Este é o caminho. Entre nele, pois Jesus deseja que onde ele estiver, estejamos nós também.

Antes que ele volte é o tempo para um encontro com a gente mesmo.

Eliel Batista

24.9.10

Este texto é do Bruno

Confessando que se conhece

Confesso: sou o culpado. Interessante como lemos aquilo que queremos. Sou culpado por ler diferente ou querer algo diferente. Sempre pensei (ou sempre pensamos) que o passo para tornar-se cristão era "Confessar os pecados". Confesso, peco em querer reler esse "passo". Não sei se fui ensinado ou se me ensinei a imaginar assim, mas quando pensava em confessar meus pecados, imaginava em relatar a Deus ou Jesus ou sei lá quem a lista de falhas cometidas desde o último confessionário. Fantasiava Deus esperando para ouvir palavra por palavra todos os erros cometidos, para daí então, graças ao que chamava de "Graça", esquecer de tudo o que tinha feito. Mas claro, antes eu teria de explicar e reconhecer os feitos.

Estava lendo essa semana a Primeira Epístola de João, e me deparei com o seguinte no capítulo 1:

"6 Se afirmarmos que temos comunhão com Ele, mas andamos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. 7 Se, porém, andarmos na luz, como Ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, Seu Filho, nos purifica de todo pecado. 8 Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós. 9 Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para perdoar os nossos pecados e nos purificar de toda injustiça. 10 Se afirmarmos que não temos cometido pecado, fazemos de Deus um mentiroso, e a Sua palavra não está em nós."

"Conhece-te a ti mesmo". Os gregos mandavam muito! Resumiram bem demais esse versículo. Como? O que uma coisa tem a ver com a outra? Este trecho não está falando de uma "causa e efeito", de uma obrigação, de uma prática religiosa e muito menos de uma ação literal. Prestemos atenção ao que me chamou atenção: a condição de estar na luz, caminhar com Deus, não é a ausência de pecado, como diz o versículo 8 ("Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós"). Precisamos confessar os nossos pecados, essa é a condição. Mas o confessar neste caso não é o catalogá-los a Deus ou caminhar com uma culpa angustiante, é na verdade, reconhecer.

Se afirmar que não tenho pecado é enganar-me, significa na verdade que ou sempre estou pecando (e nesse caso o gerundismo não é vício de linguagem e nem erro gramatical) ou sou pecador por natureza (tendo em vista que pecador por natureza não significa que sou geneticamente mal, mas simplesmente que não sou divino, não sou Deus). Logo, o confessar meus pecados é assumir esta minha condição de pecador, de humano, a condição de que peco. E esta condição (como esclareço em outro texto meu deste blog: "Pecar é Humano") não é ruim, má, errada. Apenas não é divina. Esta condição faz parte de nossa liberdade, de nossa vida independente, de nosso amadurecimento. Conheço-me a mim mesmo e compreendo que peco, sou pecador. Agora, começo minha caminhada sem culpa.

A verdade está em reconhecermos quem somos e caminharmos na luz. Agora, o caminho chamado "luz" é a comunhão uns com os outros do versículo 6. Por isso João apresenta essa relação. O que me ensinará a, sendo pecador e conhecedor de quem sou, tomar decisões que me comunguem com Ele, é a comunhão com os outros. Logo, o problema não é a consciencia de ser pecador ou a natureza de pecador, mas, se frente aos outros e sua comunhão eu não opto por manter esta comunhão, afasto-me da luz e caminho para as trevas, logo, não amadureço, não sou purificado deste pecado, não caminho para o amadurecimento.

E tudo isto para dizer: "Conhece-te a ti mesmo". Confesse-se. "Conhece-te a ti mesmo". Depois de confesso, descubra como caminhar na luz. A luz é a comunhão com os outros. A comunhão com os outros é o que nos purifica e nos comunga com o Pai, aquele que, diferente de nós, é livre mas sem pecado.

10.9.10

Dicas Para Quem Vai Se Casar

Não sei quantas celebrações matrimoniais já realizei, mas sei que em todas elas há muita expectativa e esperança da felicidade conjugal.

A vida a dois não é simples e tão fácil quanto namorar. Ela envolve todo o ser, os sonhos e projetos.

  • Primeira coisa siga o conselho de Carlos Drumond de Andrade a não deixar o amor passar.

  • Depois olhe bem para a pessoa. Olhe enxergando tudo o que ela é, o que faz e como as faz. Tente ver como ela se conecta na vida e às pessoas e responda para você mesmo: “Me disponho a partir de agora a me entregar completamente para que essa pessoa seja feliz? Desejo fazê-la feliz e para isto empreender meus esforços, sentimentos e ações?”.
Se sim, esta pessoa é sua amada. Se não, comece de novo.

Veja quais os porquês que o impedem de assim decidir. Se for por causa de seus medos do futuro, esqueça esse medo, ninguém tem controle do futuro. Se o medo tem a ver com alguma coisa desta outra pessoa, converse sobre isto, veja se é uma parte tratável, moldável e negociável e invista nisto. Caso não haja possibilidades de mudanças, há grandes chances de você se decepcionar.

  • Feito isto e obtido a resposta positiva: - “Sim, quero fazê-la feliz”; dê mais um passo. Veja se aquele perfil, aquelas qualidades lhe fazem bem e promovem sua alegria. Veja os defeitos e analise friamente se eles não serão capazes de fazê-lo desistir de fazê-la feliz.
Se sim, você está em bom caminho para um casamento de verdade.

Conheço muitos casamentos vividos em parceiras há décadas em que não houve um casamento de fato. Uma das partes não participa integralmente.
Lembre-se, casamento é feito a dois. Impossível que apenas a entrega total de uma das partes, configure um casamento. Ambos precisam de entrega irrestrita, mesmo que aos poucos, mas completa. Não se faz um casamento em que ambos estão interessados em que o outro promova a “minha” felicidade. Isto não é amor, é egoísmo.

Amar não é algo que se recebe, mas algo que se dá.
Amar não é algo que se cobra do outro, mas algo que se entrega ao outro. Todas as vezes que alguém cobra que não se é ou não se sente amado, ele está enfraquecendo o verdadeiro sentido do amor em função de suas próprias carências.
A carência de ser amado é válida e perfeitamente natural, porém o amor se distingue da carência. Carecer de amor não deve levar a pessoa a padecer de amar. Quando se cobra o suprimento da carência está pensando em si mesmo e naquilo que não tem recebido, e amar é pensar no outro e naquilo que se tem dado como um fim em si mesmo.

Talvez alguém pergunte: - “Mas e se amo, amo e amo e não recebo de volta?” Digo que você não é amado, apenas ama. Quem ama não necessariamente receberá amor de volta, este risco é próprio do amor. Por isso é necessário saber se de fato a outra pessoa também ti ama.

Algumas pistas ajudam nisto.
Busque saber como a outra expressa o amor, pois pode ser que aquilo que você gostaria de receber como expressão de amor, seja diferente daquilo que ela entende e expressa como amor. Pode ser que ela considera estar amando, mas sua expressão não esteja lhe suprindo.
A questão, portanto, não seria falta de amor, mas a diferente compreensão do que é e como se expressa este amor.

  • Outra dica importante tem a ver com a relação com os pais.
Uma coisa simples, mas rica de significado: Filhos tem chave da casa dos pais, mas estes não devem ter daqueles. Filhos abrem a geladeira na casa dos pais, mas estes não devem fazê-lo na casa dos filhos.
Quer dizer, “deixar seu pai e sua mãe e se unir ao cônjuge” é uma ação efetuada pelos filhos e não pelos pais.

Pais sempre se “intrometerão” na vida dos filhos em nome da felicidade deles, mas os filhos devem colocar limites para isto. Mas lembrem-se, os limites são colocados pelos filhos, não pela nora ou genro.
Os pais tendem a criar os filhos para si mesmos e emocionalmente agem como uma espécie de proprietários. Os filhos se sentem protegidos e “aninhados”, mas as noras e os genros podem se sentirem invadidos, incomodados.
Estas circunstâncias tendem a afetar profundamente e de forma negativa o casamento, pois os filhos não cortando o cordão umbilical não se casam integralmente. Pais que gerenciam o casamento dos filhos, tem grandes chances de lidarem com a falência de seus “negócios”.

  • E sobre sexo?
Normalmente este assunto não é conversado, apenas ansiosamente praticado e muitas vezes às vezes. Quando não se conversa sobre ele, não gera intimidade suficiente para que amadureça.
Os ambientes em que se aprende, se é que se aprendeu, nem sempre são a partir da ideia da de um amor duradouro e da construção de um casamento, mas apenas como uma satisfação física. Sendo assim a tendência é que a compreensão da relação sexual não abarca todo o relacionamento conjugal, as satisfações tornam-se precárias e os dois "vão levando a vida". Não abrem o jogo por puro preconceito, ou para não admitir suas ignorâncias.
Não tenha medo de ser ignorante no assunto. Tenho para mim que ninguém no quesito “relação sexual conjugal amorosa” sabe tudo. Um especialista pode saber tudo sobre sexo, mas não sabe absolutamente nada sobre o seu cônjuge e sobre você. Só vocês é que descobrirão as coisas um do outro, como veem a vida e quais coisas lhes são preciosas. Estamos falando de uma relação sexual que envolve duas pessoas com alma, emoções, carências e desejos e com um projeto de vida em comum e não de um amontoado de moléculas fisicamente necessitado.
Entre um casal, cada um vai se descobrindo e desvelando o outro e amadurecendo para uma relação duradoura. Não conversando, ambos guardam mágoas em nome do amor e nunca atingirão uma plenitude amorosa.

A complexidade do casamento não se resolve em um pequeno texto, mas pelo menos algumas dicas podem despertar um caminho a ser percorrido.

Feliz casamento.

Eliel Batista

11.5.10

Angústia...

Quando Jesus estava na cruz deu um brado de dor:
- “Deus meu, Deus meu porque me desamparaste”.
Semelhante suspiro todo crente já gemeu. Temos aqui uma encruzilhada teológica. Dialética entre constatação - é fato que sofremos, e frustração - não deveríamos sofrer.
Parece-me que o caminho percorrido pela teologia nos últimos séculos, tenta de alguma maneira estabelecer uma resposta fixista que apela para o decreto imperial divino, chamado de vontade de Deus e que devemos aceitá-lo em última instância como fator causal do sofrimento, mesmo injusto. Como se fosse possível sermos mais amorosos e bondosos do que Deus, pois vemos o sofrimento humano, nos compadecemos, mas Deus por alguma razão misteriosa não age em favor da vítima.

Dentro desta lógica, não é permitido ao barro questionar o oleiro, pois não entende os desígnios secretos de Deus. Qualifica-se o humano como responsável pelo sofrimento, mas Deus o salvador não é obrigado a salvar ninguém, mas escolhe alguns para proteger ou outros para sofrer a fim de servir de algum exemplo para os demais. Um Deus sigiloso, sem clareza nos desígnios, com intenções excusas e ações que julgamos nada convencionais a quem se diz salvador amoroso e poderoso. Um Deus mesquinho que faz acepção de pessoas, que ajuda mais os que podem alguma coisa neste mundo do que os que não podem Que maquina por detrás da saga humana abusando do fato de ser Deus. Que não deve a ninguém satisfação de seus atos, mesmo aqueles atos que contrariam o mínimo de bondade e justiça.
 O Deus revelado em Cristo Jesus corresponde a esta descrição?

A busca por uma resposta definitiva nos deixa intrigados e instáveis quanto à paz de alma, apesar de paradoxalmente nos parecer o caminho mais plausível para se trilhar.
Nesta trilha, a fé moderna como uma possibilidade de responder, tem se demonstrado incongruente ao falar em um Deus poderoso que ama e mesmo assim nos deixa sofrer, ou incoerente por apresentar um Deus intervencionista, mas que não intervém na hora mais necessária e para os mais necessitados. Mesmo os esquemas que respondem através da perspectiva filosófica de paradoxo, solapam diante da realidade do sofrimento muito mais imponente e verdadeira do que as soluções apresentadas com este esquema de fé.

Atrevo-me numa retórica e me pergunto se ao lidar com o sofrimento, o caminho mais sensato seria o das perguntas. O escritor de Eclesiastes seguindo as pistas das respostas, mesmo que com certo grau de realismo, se deparou mais com um pessimismo, do que com uma esperança viva. Ele não encontrou muito sentido, exceto o de se viver enquanto pode. Seria a fé um caminho realista que leva ao pessimismo ou fatalismo do comamos e bebamos que amanhã morreremos? Ou a fé seria um desafio para se construir outro tipo de realidade?

Sei que tentar esboçar este tema, tentando tirá-lo do escopo filosófico, tem certo teor de contra-senso, mas que caminho me caberia?
Arrisco-me a serviço da fé, para que, de alguma maneira ao lidar com a realidade da vida, me sinta desafiado e não péssimo. Esperançoso e não iludido.

Deus meu, Deus meu, certamente anuncia ausência. Deus não está. Este nó na garganta existencial já encontrou caminhos como o da negação de Deus, da eliminação da religião, e chegou na modernidade à conclusão da morte de Deus e que hoje entre o vácuo deixado pela teologia com péssimas respostas e a dura experiência humana, infiltra no coração humano a indiferença em relação a Deus. A indiferença é mais cruel, porque ela antinomiza o amor. Deus é amor e toda experiência com Deus é uma experiência de amor, mas a indiferença inviabiliza experimentar Deus.

Ao olharmos a vida, em certo sentido temos que reconhecer a ausência de Deus. Se não do mundo, pelo menos em diversas experiências humanas, pois praticamente todos já experienciaram este nó: “Deus meu porque me desamparaste?”.

Se levarmos até a última instância as respostas fundamentalistas e letristas sobre o sofrimento humano, ou ausência de Deus, acabamos por ter que admitir que de fato ou Deus morreu ou não existe!
Mas que tal, pensarmos na possibilidade de que Ele nunca esteve presente da maneira como o descrevemos? Um intervencionista.
Antes, conforme revelado na cruz, se apresenta também como um Deus que experimenta a vida humana com tudo o que ela possui, inclusive sofrendo, porque a vida é assim. Não é vontade permissiva, nem vontade objetiva, são as limitações de uma criação livre.

Que tal considerarmos que Deus fez um mundo com o potencial da vida, para que existisse autonomamente? Desta maneira, para que assim se suceda, Ele precisa sim, de certa forma, ausentar-se, ou a vida jamais se desenrolaria com autonomia, mas sob cabresto.
Sendo assim, o sofrimento não vem de Deus e Ele é contra, mas também não é uma questão de indiferença, impotência ou desprezível abandono por parte dEle, mas licença para a liberdade. Se onde está o Espírito do Senhor há liberdade e é impossível conseguir fugir da presença do Espírito, toda a criação gestada e sustentada pelo Espírito existe e se desenvolve nesta liberdade, e assim como a criação geme, o Espírito de igual forma tem gemidos inexprimíveis, aguardando a manifestação do Deus ausente.

Crer num Deus ausente?
A angústia na dor que leva ao grito que reclama da ausência de Deus está anos-luz de ser de alguém que não se importa ou não tem fé em Deus, pelo contrário é um grito de quem ama. Reclama da ausência quem experimentou e sente falta da presença. Por isso reclamar da ausência é crer para além de tudo.
Como a experiência com Deus se dá pela fé, justamente a sua ausência é um desafio de fé para a mais profunda experiência com Deus. Com isto, sua ausência além de provar a sua existência, demonstra que Ele se encontra “mais vivo do que nunca”!

Não estranhe a ausência de Deus, antes absorva-a para sair do outro lado mais enraizado, envolvido e acolhido por aquele que ama. Ele bebeu o cálice e nos convoca de tal maneira a sorvê-lo com integridade e na força do Espírito.

Nossa geração vive em busca de eliminar a angústia e muitos crentes acreditam na possibilidade de uma resposta bíblica que a elimine. Mas esta não é a maneira como a Bíblia descreve a angústia. Antes a admite como parte da natureza humana e Deus aquele que participa desta limitação. Portanto, o grito de Jesus descreve um Deus que não realiza nenhuma obra para eliminá-la, antes também a absorve.
Viver com Cristo é a experiência da cruz. Experimentar a cruz é ir fundo na ausência de Deus.
Quem experimenta a cruz, experimenta a ressurreição. Pois se com ele morremos, com ele viveremos.

Eliel Batista

8.4.10

Quem intercede por nós?


Atrevo-me mais uma vez a tentar pensar sobre oração. Aliás, para não correr risco de tentar racionalizar o mistério, prefiro iniciar meu pensamento naquilo que antecede a oração.

Se entendermos a oração como uma comunicação entre Criador e criatura, a imagem que fazemos ou temos de Deus influencia diretamente na maneira como oramos.
Se para o fiel Deus é um severo juiz, estar na presença dEle causa medo e deixa-o inseguro. E assim por diante.

Para uma fé trinitariana, acredito que dentre todas as imagens, a da Trindade é a que mais precisa ser resgatada nas nossas orações, principalmente porque nos dedicamos mais a orar petições e intercessões e nisto está implícito a relação existente entre Pai, Filho e Espírito Santo e como nos comportamos neste meio, pois orar consiste em participar desta comunhão.

Jesus nos diz que sua unidade com o Pai é indissolúvel. Ele não veio por si mesmo,(Jo 5:44; 8:42) não falou suas próprias palavras (Jo 7:16) e não agiu de sua própria cabeça (Jo 8:28), mas tudo é do Pai (Jo 13:3).

O Espírito Santo não fala, não revela e não age por si mesmo, mas sim em função do Filho (Jo 16).

O Pai exalta, glorifica e revela o Filho.

Assim, há um só pensamento e um só Deus. Entre eles não há discórdia, desajustes, desencontros e resistência. Tudo de um é do outro. Se há um só Deus e Senhor sobre todos, há um só pensar, uma só intenção para com todos (Jo 12:50).

Isto muda completamente, muito daquela imagem que comumente se tem ao orar. Entendemos que pedir ao Pai em nome do Filho com a ajuda do Espírito Santo é resolver um problema de distância ou de resistência do Pai em relação a nós. Jesus se uniria ao Espírito Santo para formar um pára-raios ou pára-choques na relação de Deus para com os homens.

Um texto bastante conhecido é aquele que Paulo escreveu aos Romanos que encontra-se registrado em 8:26-27Da mesma forma o Espírito nos ajuda em nossa fraqueza, pois não sabemos como orar, mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis. E aquele que sonda os corações conhece a intenção do Espírito, porque o Espírito intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus”.

Neste texto é muito comum imaginarmos os fiéis tentando comunicar alguma coisa para Deus e Ele sem entender do que se trata ou pior ainda com resistências para atender porque trata-se de ralés criaturas, só cede se o Espírito Santo e o filho entrarem na conversa.

Quando ouço Jesus falando algumas coisas fico pensando sobre esta lógica, se faz sentido...
Mt 6:8 o seu Pai sabe do que vocês precisam, antes mesmo de o pedirem.
Mt 6:3-32 Portanto, não se preocupem, dizendo: 'Que vamos comer?' ou 'Que vamos beber?' ou 'Que vamos vestir?' Pois os pagãos é que correm atrás dessas coisas; mas o Pai celestial sabe que vocês precisam delas.

Deus sabe tudo a nosso respeito, conhece nossas necessidades, nossas palavras antes de proferirmos e até mesmo as intenções com que as dizemos. Ele também nos ama, cuida de nós e exerce sua graça estendendo suas renovadas misericórdias sem fim a cada dia.

Disto surgem muitas perguntas:

Cada componente da trindade tem um pensamento diferente a nosso respeito?
Qual o papel do Espírito Santo?
Deus não nos entende?
Ele não sabe o que precisamos?
Deus precisa ser convencido? Deus tem intenções a nosso respeito diferente do Espírito Santo?
O Espírito Santo teria o jeitinho brasileiro para convencer Deus?

Se Deus nos entende, sabe o que precisamos e não precisa ser convencido. Se Deus pensa a mesma coisa que o Espírito Santo e este têm a mente de Deus, percebo que a intercessão do Espírito não serve para convencer Deus ao nosso querer, mas nos convencer ao querer de Deus. Nós é quem precisamos ser convertidos aos interesses de Deus, mas parece que usamos a intercessão e a ajuda do Espírito Santo para converter Deus aos nossos interesses.

Nosso coração que precisa ser quebrado, pois o de Deus já se enterneceu por nós de tal maneira, que quando éramos seus inimigos nos deu o seu único Filho. Servimos a um Deus rico em compaixão e que nos ama com profundo amor.

Por isso leio o texto sob esta outra lógica: 

Temos o desafio de manifestar nosso caráter de filhos de Deus, mas isto não é fácil. Desanimamos e vivemos errando, e isso se torna um constante gemido. Mas temos algo que nos dá esperança: Não estamos gemendo sozinhos! Deus o Espírito geme. Ele que conhece perfeitamente a mente de Deus quer que assumamos a vontade do Pai como filhos amados. Ele percebe nossa dificuldade para realizarmos esta tarefa, e tão amante como o Pai não nos abandona, mas nos assiste nesta fraqueza, porque nossas orações seriam inadequadas, apenas gemidos constrangidos. Mas o Espírito que comunica o Filho a nós, também sabe o que é ser humano, o que é padecer e sendo o outro consolador se une a nós com gemidos inexprimíveis nos comunicando sempre a vontade do Pai e nos desafiando a não desistirmos de manifestarmos a glória de filhos de Deus num mundo que aguarda esta revelação.

Portanto, quem tem ouvidos ouça o que o Espírito diz e se hoje ouvirmos a sua voz não endureçamos o coração, pois Ele intercede pelos santos de acordo com a vontade de Deus.

A oração deve nos levar a um quebrantamento tal, que saímos dela dispostos a cumprir com o desejo de Deus: sermos filhos amados que brilham na escuridão.

Eliel Batista

18.2.10

O Tribunal Da Graça - Aliança de Amor


Paulo em sua carta aos Romanos usa uma linguagem forense. Ele elabora os pressupostos do significado da morte de Jesus a partir dos aspectos legais romanos.

Para ele Jesus é o Filho de Deus por direito e os crentes por nomeação, que ele denomina de chamado. Para os romanos estas questões de cidadania e adoção só se resolviam por aspectos legais, razão do uso deste tipo de linguagem, principalmente para um ministro cujo lema “faz de tudo para com todos”.

O drama a ser resolvido consistia em dirimir a impossibilidade de um escravo receber a cidadania, pois sua condição existencial jamais lhe permitiria. Para eles somente o imperador era filho de Deus, portanto, todos os demais jamais poderiam receber tal qualificação.

Evidente que para se montar a cena de um tribunal não pode faltar a linguagem da punição, pois qualquer execução da lei trata-se exatamente de punir os erros. Mas ao mesmo tempo Paulo precisa demonstrar a sabedoria de Deus em revelar Cristo como o seu amor. Um exercício hermenêutico nada fácil para se elaborar.

No início de sua carta ele proclama este chamado de Deus aos homens para filiação, mas apresenta aspectos legais que impossibilitam a concretização disto. Mesma razão usada para justificar porque ninguém pode julgar seu próximo.

Mas é interessante como ele recheia o aspecto forense com amor:

  • “Deus derrama seu amor por nós”.
  • “Deus demonstra seu amor por nós”.
  • “Nada pode nos separar do amor de Deus”.
  • “O amor é o cumprimento da Lei”.

Expressões usadas abundantemente em sua carta.

Lendo alguns comentários sobre Romanos, fui levado a refazer a leitura tentando compreender alguns aspectos importantes na teologia. Um destes comentários foi do filósofo russo Nikolai A.Berdyaev que disse: “as crenças religiosas passaram a refletir o estado decaído do homem, e o modo como eram concebidas as relações entre Deus e o homem logo assumiram a forma de um processo criminal [...] amor lícito ou legal é um amor que morreu[1].

Podemos perceber a inversão completa da lógica da Lei quando Paulo diz que por um pecado veio o julgamento que trouxe condenação – Lei –, mas que a dádiva é incomparável, pois dos muitos pecados se manifestou a justificação – Graça (Rm 5:16-17).

A Lei nunca apresenta o perdão, mas apenas a punição e somente depois do cumprimento do castigo pode-se falar em justiça. No caso da Nova Aliança, não se entra com o castigo, mas com o perdão para a justificação.

Podemos afirmar que o que salva da ira de Deus, é o fato de Deus mesmo tendo direito, não tratar do pecado com castigo, mas com amor.

Ser salvo da ira de Deus, não precisa ser um conceito pensado somente dentro da idéia de se ter Jesus como alguém que aplaca a ira de Deus, até porque sendo assim colocaríamos uma divisão na Trindade. O pai contra os homens e o Filho a favor dos homens. Se Jesus só falou as palavras do Pai, fez suas obras e obedeceu em tudo ao Pai, quando nos salva não tenta segurar o Pai para não nos destruir, mas encarna o que o Pai sempre desejou.

Isto corrobora por exemplo com a mensagem de Isaías 54: 8-10:

“Num impulso de indignação escondi de você por um instante o meu rosto, mas com bondade eterna terei compaixão de você", diz o SENHOR, o seu Redentor. "Para mim isso é como os dias de Noé, quando jurei que as águas de Noé nunca mais tornariam a cobrir a terra. De modo que agora jurei não ficar irado contra você, nem tornar a repreendê-la. Embora os montes sejam sacudidos e as colinas sejam removidas, ainda assim a minha fidelidade para com você não será abalada, nem será removida a minha aliança de paz", diz o SENHOR, que tem compaixão de você”.

Podemos compreender porque Paulo apesar de introduzir sua carta falando da ira de Deus, apela para o fato de não ignorarmos que a bondade de Deus é que leva ao arrependimento (Rm 2:4).

Ele nos amou sendo nós pecadores e este amor nos constrange. De fato, Deus tem misericórdia de quem ele quer (Rm 9:18), e isto é confortante, porque ele tem misericórdia de todos os pecadores (Rm 11:32), portanto de todos nós. Aqui vemos a antiga lógica de pecador recebendo o castigo para se arrepender, mudando para a nova lógica do pecador sendo amado e se arrependendo.

Parakletos é uma expressão que identifica um amigo chamado para estar ao lado e ajudar. Jesus quando faz menção do outro consolador – parakletos – faz distinção e unidade entre ele e o Espírito Santo, referindo-se à missão continuada de Deus na terra. Quer dizer, Jesus se revela e se apresenta como alguém que está ao nosso lado para nos ajudar e não contra Deus. Esta expressão faz parte da linguagem forense, mas não é de promotoria, mas sim de defensoria. Conforme o pensamento de Berdyaev , nós enfatizamos esta figura de amigo no seu aspecto simplesmente jurídico e para validá-lo, fizemos do pecado um crime. O pecado não é um crime, mas sim um afastamento, um distanciamento ou quebra da relação de amor com Deus. E Deus demonstra que nos ama, enviou seu Filho para isto, não para nos defender de si mesmo, mas para nos ajudar a nos aproximarmos dele sem medos e receios, pois ele não quer castigar. Ele ama.


[1] O destino do homem -1937- Ed. Charles Scribner's Sons Nova York pg, 348, citado pelos irmãos Linn

1.1.10

Entre desejos e realizações para o Ano Novo


A passagem de ano nos dá a sensação de posse.
Aquela que nos informa que temos a oportunidade de recomeçar. Refazer o que não foi efetivado, o que deixamos de fazer ou os planos frustrados. Nesta época abrimos na consciência a possibilidade de que tudo pode ser revisto na perspectiva de se tentar novamente.

Ainda bem que temos esta experiência de passagem de ano.
Penso ser este um ritual mítico. O mito de que o tempo passa.
Começa e termina em fases possibilitando de alguma maneira misteriosa recompor e também o da existência de pausas que possibilitam brecar o tempo e assim contarmos sua passagem.

Também gera a sensação de certo controle. Numa espécie de “bricolagem do tempo” podemos juntar os pedaços e fazer algo mais especial que antes, nos sentimos senhores. Na verdade podemos fazer isto a qualquer hora, em qualquer ponto ou fase de nossas vidas, mas preferimos a passagem de ano.

Infelizmente divididos entre o ser e o fazer corremos o risco de nos iludirmos nesta passagem. Relativizando o poder das ações e superestimando o poder dos desejos e sonhos, desejamos a todos e a nós mesmos sorte e pensamentos positivos apostando que isto influencie o futuro. Mas tudo o que fica apenas nos desejos, morre asfixiado no peito das realizações.

Para este ano quero a consciência da minha fragilidade diante do tempo:

  • O tempo não passa e é por isso que não o paramos. Nós passamos. Nesta passagem somos aprendizes.
  • É inexorável que como aprendizes estamos sujeitos a erros. O mais importante não é tentar evitá-los, mas sim saber como desenvolvemos a história e que tipo de discípulo cada um foi.
  • Vale a pena lutar pelos desejos. Eles dão significado e sentido ao próprio viver e requerem o investimento da própria vida, apesar das incertezas do futuro.
  • A qualquer momento é possível recomeçar.
  • Não precisamos viver inseguros por existir alguém que deseja a nossa queda ou nosso lugar. Sempre existirá alguém mais hábil pronto a assumir. O mais importante é que tipo de marca deixamos enquanto permanecemos.
Mas para este ano também quero a consciência que minha humanidade requer certa dose de inconsciência diante do tempo:
  • Quero saber discernir as saudades que não devem ser matadas.
  • Me iludir com os sonhos que devem permanecer como tal.
  • Me pegar desejando coisas que não serão realizadas, mas servem como molas propulsoras da perseverança.
Enfim, espero ao viver este próximo ano, aprender que ser uma pessoa integrada é mesclar consciência e inconsciência, certezas e dúvidas e que a realidade mistura verdade e ilusão.
Por isso quero ter uma fé madura que é convicta em qualquer situação sobre o amor de Deus, mas quero também a fé infantil que cheia de “porquês” sente medo e por isso vez por outra inocentemente deseja o inusitado.

Se conseguir isto, quem sabe deixarei a vida fluir e conseguirei desfrutar de seu melhor e poderei encerrar o ano dizendo que vivi o melhor de minha vida. É um risco, mas não quero deixar de viver porque insisti em ter o controle sobre o tempo.

Numa metáfora, não quero deixar de tentar segurar água entre os dedos nos lagos existenciais, só por saber que isto não é possível ou por considerar inútil ou infantil. É divertido, deslumbrante e poético. Faz parte da criatividade que inventiva transforma o óbvio em maravilhas. É a vida.

Que Feliz Ano Novo, de fato, seja fato.
Eliel Batista.