A Ditadura e Eu



Eu não fui vítima direta do golpe de 64. 
Ninguém da minha família e nem mesmo conhecido, que eu saiba, foi torturado.
Minha igreja, minha escola, meus professores, minha cidade, minha família, concordava com os posicionamentos oficiais do governo.
O Marechal de Messejana, fazendo uma “esterilização política” era um organizador nacional que estava colocando a casa em ordem.

Comunista era terrorista, violento e contra o bem-estar da sociedade. 
Um anticristão ferrenho, ateu, opositor dos bons costumes, por isso deveria ser resistido, mesmo que pertencente à família deveria ser entregue ao Estado para que tomasse as devidas providências.
Eles, os comunistas, eram orientados diretamente pelo demo. Não demo que significa povo, mas demo abreviatura de demônio.

Mas não parava por aí: nordestino, vítima da seca e mais grave ainda, oprimido pela indústria da seca gerenciada por políticos inescrupulosos, tiranizados pelo coronelismo, passava fome porque não queria trabalhar, afinal, quem quer faz. Em vez de fazer alguma coisa, ficava esperando esmolas. 
Ser pobre era possível, passar fome era preguiça. 
Negro poderia até ser boa gente, mas sempre seria limitado intelectualmente.

Comunista - esse vagabundo, pobre faminto – esse preguiçoso, precisavam de surra para aprenderem a boa educação. Nada melhor do que a polícia para educá-los, afinal, a polícia foi feita para os maus, e esses deveriam ter medo. Nós não. Estávamos do lado do bem. Da Ordem e do Progresso.

A formação política na escola era através de duas matérias: a Educação Moral e Cívica e a Organização Social, Política Brasileira. Antes de entrar para as aulas, todos perfilados, cantando hino da escola, da pátria, da bandeira, da independência. Dia 07 de setembro, com parada militar, era o grande evento e nós desfilávamos também com as bandas marciais das escolas públicas.
Tenho fotos disso.

Precisava decorar a tabuada, que eu achava que se chamava assim, porque se não soubesse levava uma “tabuada” – uma régua de madeira gigante, que na aula como régua, servia somente para alcançar à distância o aluno. Quer dizer, o aprendizado não significava criar, mas apenas repetir os conteúdos impostos. Nada novo a se aprender; só doutrinação.

Com esse descritivo, dá para perceber que, por outro lado, fui sim um tipo de vítima da ditadura militar. 
Não há como se comparar com quem perdeu seus bens, seus entes queridos e sua vida. Nem tampouco, que agora, as verdadeiras vítimas, oprimidas pelo Estado, teriam que olhar para mim como se eu fosse um oprimido e violentado e sentirem dó de mim; jamais. 
Faço essa referência, com muito cuidado, apenas para demonstrar que num sistema assim, todos os cidadãos são cartas de um jogo em que todos são tolhidos. 
Coibidos a concordar com o sistema e no meu caso, considerar opressão como algo útil e para o bem.

Fui doutrinado a pensar horrores de meus irmãos, de meus compatriotas, de meus pares humanos. Apesar de não impingir, fui levado a considerar “correto” querer o sofrimento de opositores. Também, como num regime tribal primitivo selvagem, considerar como inimigo aquele que pensa e fala diferente. 
Olho ao redor e imagino se para muitos ainda não continua essa estrutura mental.

Sinto horror de tudo isso
Não! Não fui culpado direto pelas torturas, pelas prisões arbitrárias, pelo desaparecimento de gente que também queria o bem dos cidadãos. Eu não tinha maturidade para pensar outra coisa, que dirá, ser responsável. Mas sim, por outro lado mesmo sem saber, engrossei o caldo para que isso se fortalecesse.

Tenho vergonha de um dia ter pensado assim
Mais horroroso ainda é lembrar que um dia tive esses sentimentos funestos. 
Medo de pensar que determinados sentimentos tão fortes, podem ser semeados no coração de alguém e se tornam tão reais que parecem legítimos, possuidores de verdades absolutas e são capazes de levar uma pessoa de boa vontade a pensar e até mesmo a cometer atrocidades. 
Mesmo não tendo praticado nenhuma atrocidade, mas somente o fato de não considerar insano, desumano, anticristão, inumano que tais coisas sejam executadas, me assusto porque percebo a vileza que pode habitar o obscuro do coração.
Hoje compreendo que isso acende dentro de si mesmo uma fogueira infernal em honra àquilo que é maligno; diabólico.

Não tenho como corrigir o passado
Tenho como não permitir a continuidade da opressão e lutar para jamais tornar a acontecer. 
Tenho como olhar para meu próximo como irmão, percebê-lo como meu semelhante e acolher as diferenças, minhas e dele e enriquecer essa nossa “igualdade” para que habite em nós um Novo Humano. Posso pedir que meus irmãos brasileiros me perdoem.

Cresci, me tornei adulto. Estudei, revisitei a história, investiguei os fatos, conheci verdadeiras vítimas, compreendi Cristo e seu Evangelho com mais beleza e por isso me tornei avesso a toda e qualquer ditadura, quer religiosa, trabalhista, social ou familiar. 
Espero conseguir viver sempre com uma prática democrática, deixando um legado mais bonito na construção do nosso futuro.

Eliel Batista

Comentários

  1. Em um tempo em que a Igreja Evangélica cada vez mais se comporta como os escribas e fariseus e não como Jesus, que era manso e humilde de coração, compassivo, amoroso e disse "buscai juntar tesouros nos céus onde a traça não come, a ferrugem não corrói, nem os ladrões minam ou roubam", saúdo teu texto como um farol de lucidez, sabedoria, honestidade intelectual que só pode ser alcançada com reflexão, com senso crítico.
    Parabéns!
    E obrigado!
    Paz irmão!
    Alencar de Oliveira

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