IGREJA PARA HOJE



Abraham Lincoln há cerca de 150 anos disse que "a maior habilidade de um líder é desenvolver habilidades extraordinárias em pessoas comuns".
Isso tem se tornado cada vez mais uma necessidade a ser suprida.

A sobrevivência institucional da igreja hoje está dependendo muito dessa habilidade de seus líderes, principalmente em um país como o nosso em que a população se sente massacrada e saqueada por suas instituições.

A igreja precisa se adequar para que sua essência floresça: ser um corpo dinâmico e ativo na história, a partir de membros engajados com sua causa.

COMO A IGREJA, ENQUANTO INSTITUIÇÃO, PODE FORTALECER-SE?

 - A igreja precisa de constantes reformas.

Aqueles paradigmas que se arrastam pelo tempo, aos quais se exige que as pessoas os aceitem, para que se configure uma igreja, precisam ser abandonados e hoje, ela precisa provocar mudanças nas estruturas teológicas e de paradigmas. Ela não pode considerar-se detentora da verdade e de um projeto perfeito, no qual todos se sujeitem. A verdade não pode ser uma ditadura e a igreja não pode achar que sabe o suficiente para a vida das pessoas e tem todas as respostas. Deve sempre estar em busca, nunca chegar a um patamar de conclusão de si mesmo.

Em função disto, ela se mobiliza nos seguintes fatores:

- Mudar sua compreensão pedagógica.

A igreja não detém todo o saber, por isso não pode arrogar-se o direito de ser uma instituição que ensina, mas humildemente colocar-se como uma instituição discípula, quer dizer, sempre aprendendo.
Uma instituição que ensina, pressupõe possuir todos os conteúdos pelos quais seus membros devem viver e trilhar, o problema é que normalmente os conteúdos são fixistas e a vida não. Em um dado momento, aqueles conteúdos para nada mais servirão, a não ser compor uma estante empoeirada de gabinetes pastorais.
A vida é a matéria-prima de uma igreja. As pessoas são os livros teológicos, por isso aquilo que acontece com a vida de seus membros ensina-la-á quanto ao que deve colocar em seu ensino. Jesus disse que poderíamos aprender com os filhos das trevas, com o mordomo infiel, e o sábio da antiguidade nos alerta que podemos aprender até com as formigas, abelhas e aranhas.
Não deve mais ser um projeto pronto e conduzir as pessoas a aderi-lo, mas deve a partir das próprias pessoas construir um projeto. Se a igreja não for construída coletivamente, ela produz a alienação de seus membros e dependência infantil

- A igreja precisa focar seu objetivo na busca pela autonomia das pessoas.

A nova aliança nos informa que as pessoas teriam a verdade de Deus em seus corações. Cada um saberia o que precisaria fazer e ser. A igreja deve então, se somar ao Espírito Santo confiando de que Ele de fato escreveu a Lei Áurea nos corações das pessoas e portanto elas podem amadurecerem e serem autônomas.
Não temos problema em conhecer o que é certo e errado, bom e ruim, todas as pessoas sabem. O problema está na autonomia, isto é, colocarmos em prática aquilo que sabemos.

- A igreja deve reconhecer as diversidades e diferenças.

Existem diferenças conceituais e modelos mentais, que originam as diferentes interpretações da vida e fazem da vida o que ela é. A vida é diversa e complexa. Ela não se resume em escolher a alternativa correta entre duas opções.
A igreja não pode se colocar como dona da verdade e única opção entre tantas coisas no mundo.

- Ser transparente quanto às suas realizações.

Ela precisa saber deixar claro o que está fazendo, pensando e objetivando como igreja.
Deixar claro o objetivo da igreja, e os valores que a norteiam, desenvolvendo e estimulando cada vez mais a comunhão, e as realizações conjuntas. Esta é a principal ferramenta do evangelho.

- Ser crítica de si mesma a partir do todo.

A autocrítica é muito volúvel ao grau de autoestima, por isso ser crítica é aprender a ouvir a partir de onde a vida acontece.
Ser motivo de piadas e chacotas por pessoas de fora é um fator norteador para uma crítica de si mesmo. Se numa sociedade, as pessoas ao lidarem com a vida, veem a necessidade da igreja como irrelevante, ou a última opção dentre muitas alternativas, este é um fator a ser considerado para criticar a si mesma a partir do todo.

- Verificar sua dinâmica de relacionamentos

As relações que mobilizam a igreja devem ser por influência (relações de amor) e não por hierarquia quer de cargo, função ou de saber. Para isso se requer transparência, honestidade, abertura de mente, confiança, bom senso e principalmente humildade. No máximo a hierarquia deve ser utilizada para distribuir responsabilidades e não separar ou discriminar pessoas. O uso do poder para conduzir processos, sempre implica a anulação do outro. A hierarquia desequilibra as relações.

- Pronta para ouvir e tardia para falar.

Precisa ouvir seus membros para saber se, como igreja, está fazendo diferença na vida das pessoas. Esta é a retroalimentação da igreja. Sem isto, ela não justifica sua própria existência.
A igreja do século XXI se dispõe a aproveitar a inteligência, o conhecimento de seus membros para a construção de uma identidade pertinente ao lugar onde está inserida. Ela respeita a vida e concilia-a com os anseios e necessidades existenciais de cada um. Deve ser conciliadora entre o bem comum e os interesses individuais. Ela não decreta a verdade, produz. Não exige submissão aos conteúdos, ela dialoga, convence.

A igreja para hoje, deve penetrar na realidade humana viva e a partir dali ver como o evangelho se aplica.

Uma igreja que ouve os anelos de seus membros, pode melhor atender seus anseios e ajudá-los a superar seus problemas e com isto elevar o grau de satisfação com a própria igreja.
Quando falo em ouvir seus membros, alguns logo pensam em assembleias, votos e coisas semelhantes. Ouvir, não é um método ou uma técnica, mas um acolhimento da realidade. Ouvir os dilemas, as lutas, as alegrias. Ouvir quais são os enfrentamentos cotidianos e quais as ferramentas disponíveis para lidar com eles.

Enfim, estas questões fazem muito sentido, para a minha visão de mundo. Se são possíveis, praticáveis ou devaneios, saberemos um dia.

Eliel Batista.

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