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10.1.08

OUTRA LITURGIA PARA OUTRA CULTURA


Todas as sociedades primitivas possuíam cerimônias especiais conhecidas como ritos de iniciação ou de passagem. Mais do que uma transição individual, os ritos representavam a sua aceitação e participação na sociedade.

Compreeder os ritos em sua essência, ajuda o ser humano a lidar bem com as mudanças da vida e a assumir novas responsabilidades. Ajuda também, a dar melhor historicidade e firmar valores pessoais.
Os rituais costumavam pontuar desprendimento, fechando um ciclo existencial e dando inicio a outro. O indivíduo deixava para trás coisas velhas para assumir outras novas.

Declarava-se no rito uma mudança de atitude e até mesmo de alteração de um grupo de relacionamento pessoal.

Vez por outra, o indivíduo chegava a trocar de nome o que representava uma radical mudança, uma declaração de ser uma nova pessoa a partir daquele instante.

Apesar do esvaziamento do significado original, alguns ritos ainda subsistem. Hoje em dia, as comemorações de 15 anos representam muito mais um evento social, do que o marco de uma nova fase na vida da mulher.

O batismo cristão serve como exemplo, de como com o passar do tempo, os ritos podem perder a força de seu real sentido. Visto apenas como uma pró-forma da religião, percebe-se por parte de um bom número de indivíduos, uma certa indiferença quanto ao compromisso de realmente cumprir a promessa feita diante da comunidade da fé. De igual forma, o casamento, mesmo diante de diversas testemunhas e documentos assinados, não inibe a facilidade de sua dissolução. Nas sociedades primitivas, a mudança ou promessa de um rito, era além de desejável, inquestionável, sagrada e uma obrigação impossível de se quebrar. Romper colocava em risco a sobrevivência da sociedade.

A prática de um mesmo rito difere de uma cultura para outra. Trote do vestibular, casamento, funeral e enterro, formatura, bodas, noivado, e diversos outros.
Cada um tem seu fundamento e serve para ratificar valores de uma sociedade. Por isso sua prática, a liturgia, precisa comunicar bem o propósito de sua existência. Sua execução precisa adaptar-se ao seu contexto cultural, para não perder o seu mais profundo significado.
Deveríamos como cristãos diante de nossa atual sociedade, nos perguntar se nossos rituais transmitem a mensagem de seu real símbolo?

A Ceia como exemplo:

Para uma cultura festiva em que comer junto significava a celebração da fraternidade, da vida, a abertura do privado para o outro, a ceia transmitia bem a mensagem de “koinonia”. Palavra normalmente traduzida por comunhão, mas cujo significado envolve muito mais, pois ela contém os conceitos de serviço, solidariedade, justiça, igualdade, fraternidade e mutualidade.

Em uma sociedade monárquica, com classes sociais distintamente extremadas entre nobres e plebe, não haveria melhor maneira de demostrar a maravilha do reino de amor e justiça, do que através de um ritual em que o soberano servisse o vassalo.

Que significado teria a mesma ação em uma sociedade que se propõe igualitária?
Se nesta sociedade se valoriza mais o indivíduo do que a vida comunitária, e se sua cultura alimenta o egocentrismo, e o cidadão/consumidor tem seus direitos inalienáveis, o governante tem a obrigação de servir e é direito do governado ser servido.
Em nossa atual cultura o ritual da ceia transmite o significado de koinonia?

O amor para preservar sua essência precisa ser compartilhado ou deixa de ser amor. A ceia é um rito que simboliza o mais profundo amor.
Que tipo de significado tem para nossa sociedade um rito de doação, cuja prática em si transmite uma mensagem de recebimento?

Numa sociedade que luta pelos direitos individuais, como se deveria realizar um rito de caráter comunitário que significa doação e compartilhamento?

De maneira geral no atual ritual da ceia, cada crente permanece sentado em seu próprio lugar. Sem praticamente nenhuma interação com o outro, toma dos elementos das mãos de um único. Fecha seus olhos e numa postura isolada se concentra numa espiritualidade individual. A mensagem oral de comunhão é contraditada pela mensagem transmitida na prática do rito. Cada um é levado a se comportar individualmente como expectador da celebração.
Ela superestima a relação individual com Deus e subestima a relação comunitária com Deus. E uma não existe sem a outra. A ceia como parábola viva, deve revelar em seu ato, a verdade espiritual.
Se retirasse as palavras da ceia o que a liturgia transmitiria?

Penso a mensagem mais significativa da ceia como Corpo e Aliança.
Assim como Cristo se deu por nós devemos nos dar pelo outro, por isso a ceia transmite uma mensagem de um para com o outro: “este é o meu corpo dado a você” e de igual maneira “esta é a aliança que tenho com você”. Minha vida é sua e a sua é minha. Mensagem de pertencimento, pois há somente um pão e os que dele participam formam um só corpo. (1 Jo 3:16; 1 Cor 10:17)

Se toda nossa liturgia levar as pessoas a um comportamento de platéia, público, auditório e expectadores e somado a isto, se os figurais como púlpito, pregação, ministro de louvor, a disposição das cadeiras e o programa transmitirem uma mensagem de que alguns servem (ministram) e outros assistem, o tipo de envolvimento conseguido dos membros desta comunidade será apenas de expectadores.
Porque o rito e o ambiente promovendo mais o programa do que a vida comunitária e do que as relações interpessoais, num contexto que não compreende o programa como um serviço ou obrigação a Deus, pode-se acabar ressaltando no desenvolvimento social desta comunidade, um individualismo e descompromissado para com o outro.

A igreja precisa de um ambiente possível para que cada pessoa perceba que ela é única, mas não exclusiva.
Que cada crente ao sair de sua igreja, após aquele tempo maravilhoso de culto, esteja consciente de que pertence a um corpo, tem co-responsabilidades.
Penso que a mensagem oral e litúrgica da igreja deva desafiar as pessoas para que se abram para a vida e para o outro. Torne-as gente que crê apesar de suas fragilidades, limitações, e da volúpia do mundo injusto.
A graça é garantia suficiente do amor de Deus e se revela indiscutivelmente nas relações de fraternidade; de carinho.

Como penso a igreja do futuro (?).
- Um espaço de oportunidades para todos se compartilharem.

- O mestre aquele que desperta a vida de Cristo no discípulo e menos preocupado em passar conhecimento.

- O apologeta aquele que defende prioritariamente a vida e o amor, e com habilidade em colocar a doutrina a serviço dos homens. Que considere heresia o desprezo pela vida.

- Crente ou salvo aquele que torne em seu viver a realidade de Cristo e não aquele confessa um credo.

- O culto uma celebração da vida e contemplação de Cristo no outro.

- A confissão pública uma declaração de amor e comprometimento com Cristo e não um assentimento intelectual de uma declaração de fé.

- O pastor hábil na arte de acolher, menos orador e mais ouvinte.

- Ministro de louvor alguém com mais alma de poeta do que profissional da música.

Enfim, enquanto não desfrutamos do novo céu e nova terra onde habita justiça, vivamos cada dia com graça e esperança, produzindo paz e gerando vida.


Eliel Batista

7 comentários:

  1. Maravilhoso texto.
    Precisamos de proficia e não de profetismos barato.
    Seu texto é de fato uma profecia.
    Obrigado,
    Pr. Paulo Carvalho

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  2. Obrigado. Quee stejamos todos desfrutando da mesma graça que nos faz melhores.

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  3. Olá Eliel,

    gostei muito do artigo, posso postá-lo no site do Café Teológico?


    Valdinei Gandra
    www.cafeteologico.com.br

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  4. Olá Valdinei,
    fique à vontade, pode publicar sim.
    abçs

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  5. Gostei do texto Eliel...
    Gosto dessa palavra "comunidade", pois me faz lembrar o coletivo. Infelizmente somos por tradição individualistas na igreja...
    E vê se devolve meu céu hein...hahahaa
    Abraços

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  6. Belo texto!
    Coerência é o que precisamos.
    Diante de tudo o que li, o que falar? Faço citação de um trecho do livro "Outra Espiritualidade" de Ed René Kivitz
    (...)"Em síntese, morreu o deus que fazia de mim uma criança mimada
    que chorava a cada desencontro da vida. Recebi de Deus o convite para
    crescer a fim de que ele possa me receber como seu cooperador, seu
    amigo, uma pessoa para quem não tem segredos e que encontra a felicidade
    não na vida confortável, mas na vida digna. Com a morte de um
    deus, morreu também uma espiritualidade. E nasceu outra, marcada
    pela graça, pela fé e pela resistência." Fé e resistência...é isso! Obrigada Eliel, por me ajudar nessa caminhada de descobertas!

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  7. Muito obrigado pelo seu comentário e incentivo

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