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22.10.09

POR QUE SÓ O SENHOR É DEUS?


O meu nome, Eliel uma expressão hebraica, significa Deus é Deus. Numa transliteração quer dizer aquele cujo Deus é o Único Senhor. Após pensar sobre a fé cristã e como melhor significar no cristianismo a expressão Único Senhor, cheguei a algumas idéias.

Para nós os cristãos a leitura inicial do Gênesis deveria se desvencilhar dos detalhes poderosos do ato criador. A maneira como a Bíblia descreve Deus chamando à existência algo sem ter necessidade alguma, não enfatiza este poder do tipo estóico que tanto cultivamos.

Uma divindade com poderes extraordinários que ordena e exigentemente cria é comum a todas as expressões religiosas. Todas as divindades são reconhecidas como poderosas. Nosso esforço em apresentar o Senhor como o Deus dos deuses, ou como o mais poderoso o diminui. Este procedimento apenas classifica-o como mais um entre muitos. Isto não o revela como o Único Senhor, mas como possuidor de maior força.

A consciência da santidade de Deus deve nos levar a enfatizar Deus como plenamente melhor do que qualquer concepção de divindade que se saiba. Por isso, ao lermos os relatos iniciais deveríamos nos lembrar que a expressão Céus e Terra não separam dois ambientes, um espiritual e outro material, mas nos informa que Deus se insere em sua própria obra. Deveríamos ainda nos deter com mais paixão na imagem do Deus que busca a criatura.

Uma divindade que cria um lugar para si e o entrega à própria criação. Mesmo a criatura sendo limitada, afetuosamente a procura. Não desiste e nem a abandona, antes cada vez mais se insere na criação até as últimas conseqüências.

– “Adão, onde estás?”, deveria pulsar no coração da mensagem cristã.

Assim, a revelação cristã anuncia um Deus que para o encontro com o humano se arma de poderes que buscam e salvam independente de sua própria necessidade. O poder capaz de buscar com integridade é o amor. A forma do amor salvar é mediante a graça. E a graça se experimenta na fragilidade.

Para o cristão, Deus ser poderoso o suficiente para criar e reinar não deveria impressioná-lo tanto quanto o fato de ser poderoso o suficiente para conceder graça.

(e Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça- 2 Co 9:8).

Todos sabem que qualquer divindade precisa ser poderosa; disto ninguém duvida. Sendo assim, a questão que melhor distinguiria uma divindade da outra é quanto ao uso do poder próprio.

Como para se aproximar de Deus é pela fé, resta crer se Ele usa o seu poder porque é Deus ou podemos confiar que mesmo sendo Deus Ele não considera isto como algo a se apegar?

(que, embora sendo Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se - Fp 2:6).

Devemos crer que Ele é Único por ser Deus, ou por ser Fiel?

A fé cristã desafia toda forma de poder para que demonstre se é capaz de amar, ser graciosa, permanecer sempre fiel e pasmem, se aperfeiçoar na fraqueza, tal qual demonstrada em Jesus de Nazaré.
(... minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza- 2 Co 12:9)

13.10.09

VIVER ENTRE O BEM E O MAL


Provem, e vejam como o SENHOR é bom. Salmo 34: 8

A vida vem de Deus; um sopro invasivo que nos torna sensíveis. Ele no-la deu com uma consciência para que viver fosse um experimentar-Deus.

A criatura experimentando o Criador, ou o finito experimentando o infinito.

Se isto está correto, viver é antes de tudo uma experiência sensorial e não moral. A dádiva da existência o meio de se experimentar os sabores da vida. Desta maneira viver é uma questão de paladar. Aprende-se viver saboreando a vida e quando o paladar apura entra a morte.

Deus é sentido e não entendido. A verdadeira vida é experimentada e não definida.

Assim podemos afirmar que a experiência de viver neste mundo não é boa ou má, mas doce ou amarga. Uma vida menos conceitual e mais sensorial.

Quando falamos que o mundo é ruim, precisamos adequá-lo em uma referência ao sabor e não à moral.

Na narrativa do Éden em Gênesis, a procura de Deus por Adão sobre sua localização, não é uma busca de definição espacial, mas uma busca existencial. Tanto que a resposta de Adão não foi o óbvio de estar detrás de uma moita, mas ele respondeu que teve medo. A experiência de vida negativa de Adão se deu com o amargo medo e não com o conceito de certo e errado que desconhecia. Enfatizo que teve medo e quando comeu o fruto não foi malévolo, apenas inexperiente.

Quando Deus criou tudo, colocou sobre nós a responsabilidade de escolher entre o bem ou o mal e assim vivermos. Neste mundo Deus não é responsável pelo bom, isto cabe a nós. Somos e sempre seremos cobrados de um mundo bom ou mal.

Caim no uso de seu livre arbítrio pôde fazer o mal ao matar seu irmão Abel. Mas a experiência de Abel em morrer e dos pais em lidar com a morte de um filho não foi um mal ou a falta do bem, foi amarga. A amarga experiência da finitude humana.

Nas atribuições de responsabilidade se encontram o bem ou o mal.

Se deixarmos de olhar o viver por um conceito moral e o referenciarmos pela experiência do paladar, perceberemos que as experiências negativas intra-mundanas não são relativas à bondade e maldade, mas sim ao amargo e doce.

Para uma melhor experiência de vida e nossa própria humanização, precisamos compreender que aquilo que contraria nossas expectativas neste mundo, não é um inimigo. Não é um mal obstinado e destinado a atormentar a saga humana, mas trata-se de uma experiência com o amargo. Assim como o inverso, a concretização dos sonhos, não é uma promoção do bem, mas uma experiência com o doce da vida.

Existir portanto, não é participar de um campo de batalha entre o bem e o mal em que de vez quando sobram respingos, ora das entidades espirituais benignas, ora das malignas. Nem tampouco ficar na expectativa de que Deus nos proteja e afugente o mal.

Existir consiste em experimentarmos de tudo, desde o amargo ao doce que a própria natureza finita da vida proporciona. Assumirmos a responsabilidade do bem e do mal neste mundo e experimentarmos Deus e saboreando-o comprovarmos que Ele é bom.

8.10.09

NÓ TEOLÓGICO



Interessante observar que os escritores dos evangelhos se propõem a demonstrar que Jesus de Nazaré é o Cristo de Deus. João ousado em sua proposta, afirma ser propositadamente seletivo na narração para demonstrar que Jesus é o Filho de Deus (João 20:31).

Paradoxalmente ao propósito, quando lemos os evangelhos percebemos uma ênfase na humanidade de Jesus e não em seu poder divino.

Marcos chega à ousadia de destacar a referência que Jesus fazia a si mesmo não como Filho de Deus, mas como Filho do homem.

Nesta perspectiva percebo a diferença entre a fé dos primeiros cristãos e a nossa. Qualquer um de nós tivesse o objetivo de provar que um carpinteiro é Deus, não se esforçaria em demonstrar suas fragilidades, mas sim sua força divina. Esforçamo-nos em provar que Jesus de Nazaré tem qualificativos divinos. Queremos de todas as maneiras demonstrar a divindade do carpinteiro. Por outro lado, os evangelistas se mostram minuciosos ao descreverem Deus humano, que chora, se compadece, se angustia, sente fome e cansaço. Estas coisas não correspondem a uma divindade. Talvez para alguns signifique a mesma coisa, mas não para a experiência da fé.

Aquele que crê não tem necessidade de provar que Deus é, pois parte desta premissa. O exercício de querer provar que Deus é não é da fé, mas da desconfiança. O fiel simplesmente confia e direciona sua vida a partir desta confiança. Aquele que sente necessidade de provar que serve a um Deus que é, na verdade tem problemas a resolver com a sua fé.

A questão que os evangelistas buscam responder nos evangelhos não é: - “Deus pode?”, mas - “como pode?”.

Que Deus pode é fato. Mas como pode Deus sendo quem é se apresentar tão “humanamente carpinteiro”? Deus se rebaixaria a tal situação?

O nó teológico dos crentes primitivos não aperta na questão do poder de Deus, mas em seu esvaziamento. Porque um Deus esvaziado é incoerente com sua natureza de Deus. Portanto, a disputa teológica não se prende ao tema de Deus poder curar ou ressuscitar mortos, mas se em Jesus de Nazaré pode se concentrar Deus.

A recusa na relação homem-Deus não parte de Deus; Ele se humaniza. O homem tem dificuldades em aceitar um Deus humanizado. Vale ressaltar que o nazareno não se desumaniza para provar que é Deus. Só podemos perceber a plena divindade de Jesus em sua plena humanidade.

Os evangelhos se esforçam em provar que Deus ama e não que Ele é. Deus em Jesus não por causa de seu poder, mas por causa de seu amor. Que Deus é todos sabem. Resta saber se esse Deus que é nos ama e até onde vai este amor. Encontramos a resposta com os evangelistas: vai até onde Jesus foi. As últimas conseqüências. A última gota de sangue e o último suor.