Haja luz e fiquem as trevas.


Estes dias me interessei em reler o Gênesis. Qual não foi minha surpresa encontrar logo nos três primeiros versículos uma verdade chocante e até então imperceptível.

Estava ali todo o tempo, mas tão acostumado com a idéia do pecado original que não enxergava.

Confesso que a disciplina em ler contos judaicos me ajudou.

O texto descreve Deus criando a ordem no contexto do caos. Ele não elimina as trevas para que permaneça a luz, apenas distingue-a.

A luz que Ele chama para se apresentar no caos, emana dEle, mas não é Ele.

Não existe uma ordem que elimina o caos. Mas uma que brota, nasce ou floresce nele.

Tal qual no verso da separação das águas. A porção seca surge num espaço ou ambiente das águas. A água não é eliminada para que surja a porção seca. Assim o caos é o contexto onde se manifesta a ordem.


Que interessante isto!


As trevas não existem como fruto do pecado, mas como um anteparo da Realidade Deus. A criação não pode ser plena diante do Deus pleno, exceto se Ele abrir espaço, se Ele se esconder e nos deixar percebê-lo apenas pelas sombras, isto é, pela fé.


Deus se torna tão discreto na criação que é possível negá-lo.

As ações de Deus são tão humanas que o incrédulo pode dizer que Deus não existe, mas tão reais que o crente as vê.

Se Deus se manifestasse absoluto na criação, nada existiria, pois o Absoluto a tudo enche. Mas caso algo ainda conseguisse existir, estaria obrigado a Ele sem qualquer opção de negá-lo.

Mas Deus para deixar a criação livre, se esconde. A criação por natureza tem sombras, como um véu que nos protege da luz de Deus. E quem quiser se aproximar dEle é preciso crer...


No uso de nossa liberdade sabemos distinguir as trevas da luz e somos chamados para sermos filhos da luz. Chamados a uma existência que denuncia as trevas, que se opõe a ela.

As trevas estão aí. Dói, assustam e causam pavor, mas não nos destroem, porque ainda que andemos por um vale de sombra e morte Ele está conosco.


Deus não elimina o caos.

A cruz revela como Deus age neste mundo. Assume totalmente nossa humanidade, sem eliminar as dores ou na metáfora utilizada, as sombras.


Podemos concluir que a idéia de que Deus tenha feito um mundo sem caos, não corresponde à realidade. O mundo é e sempre foi assim, exceto pela maldade humana que no mal uso da consciência ama mais as trevas do que a luz.

Comentários

  1. bom texto,Eliel.
    esclare-nos mais sobre a liberdade dada para crer e a necessidade de crer para conhecer a Deus.
    o texto sugere muitas discussões ainda, como o uso das trevas para q a luz brilhe.. poderíamos, generalizando a conversa, pensar que Deus se utilizaria de coisas ruins, trevas, doenças para poder a aparecer.
    mas também podemos pensar q essas são coisas que exitem (normalmente) e que Deus apenas aparece em meio a elas (mas não foi Deus quem criou o mal? as trevas?).
    Acho que seu pensamento se parece mais com essa ultima idéia, mas ainda não ficou clara para mim!

    um abraço!

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  2. Iago,
    Não creio que diretamente Deus tenha criado o mal, mas ele é fruto de nossa limitação.
    Resumindo simplistamente: Deus nos criou livre como a Ele, porém ele não pode negar a si mesmo, mas nós como somos criaturas e não Deus, podemos.

    Assim o mal surge em função da própria natureza da coisa criada.

    Indico um livro com insghts interessantes: O Deus im-potente de Paulo Roberto Gomes.

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