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27.8.11

De Pai para Filho

Este mês meu filho completou mais um ano de idade. Não é mais um aninho. São vinte e dois.
Lembro-me da mãe, a Gi, olhando pela janela da maternidade como se tentasse encontrar o horizonte. Parecia querer descobrir como seria o amanhã, daquele bebê de olhos escuros e cabelos quase negros, que docemente dormia.

Hoje, a maneira como ele cresceu foi a de um herói.
Filhos são assim! Se esforçam, desdobram, lutam, vencem e nós os pais nos sentimos os tais, como se o mérito fosse nosso. Por outro lado, se fracassam a gente se sente culpado.

E eles? Tem mérito próprio?

Com o Bruno aprendi o básico da vida. Cada ser é o que é, por si, na relação com o outro. Que a grande “sacada” paternal é abrir espaço para crescimento.

Aprendi que, apesar de Pai, eu não estava ensinando, mas aprendendo. Que minha responsabilidade era de nutrir e não de moldar.
Tentei ser um bom pai e entreguei-me totalmente, não o quanto deveria, mas o quanto pude. Apesar do esforço, não sei afinal se consegui, penso que jamais saberei, pois isto não está sob controle e nem na possibilidade de ser mensurado pela lei da causa e efeito. Uma coisa eu sei, ELE conseguiu. É uma pessoa nobre, dedicada, interessada na dignidade humana e disposto a cooperar com um mundo melhor.

O Bruno é um dos três presentes mais divinos que recebi na vida. Com presentes deste tipo quero viver muito, se possível pra sempre, pois faz a vida valer a pena.

Não sou bom em prosas, mas atrevo-me a dedicar o que brota de mim.

Bruno:

Se eu tivesse a capacidade,
de olhar por detrás da cortina da eternidade,
estou certo de que veria,
Deus se movendo em alegria.

Doando vida, abrindo espaço
para que cad’a-gosto fosse um passo.
Passo a mais, fértil, profundo,
transformador do mundo!
Se não todo, pelo menos o meu,
que depois de você,
sempre amadureceu.

Você leva de mim a vida
e isto não me é pesado,
É gratidão,  É alegria,
Amor, razão também!
Mais ainda, é percepção
de que lá no ontem,
em um agosto qualquer,
nas dores de uma mulher
 Os amores, se encheram de amor!

11.8.11

PENSAMENTOS SOBRE O DEPOIS DA MORTE.



São tantas teorias pós-morte!

Apesar da expressão antessala da eternidade não ser dita e nem tampouco reconhecida pelo meio evangélico, cresci com esta ideia, pois, ela está lá, imiscuída na escatologia. Penso que para preservar certa unidade com o ‘gran finale’, da doutrina escatológica do Juízo Final, e da execução sumária da condenação dos injustos, chega-se a afirmar algumas coisas um tanto quanto complicadas.

Acredito que a doutrina da ressurreição como apresentada na maioria do pensamento evangélico-brasileiro, com sua preocupação em unir estas duas questões, a morte e o juízo final, estabeleceu uma maneira conciliatória, porém, a meu ver, deficiente. Se a morte sela a eternidade, porém o juízo final global com uma data única é uma necessidade, pressupõe-se o seguinte:

  • Aquele que morre com Cristo vai para a antessala do céu, conhecido como “seio de Abraão”, ou Paraíso.
  • Aquele que morre sem Cristo vai para a antessala do inferno chamada de Hades, a prisão-inferno. (Distinto da morte eterna no lago de fogo).

Nos dois casos, descreve-se um estado intermediário antes do Eternamente Amém e a necessidade da ressuscitação globalizada de todos para o julgamento divino. No Tribunal de Cristo os justos para a vida e diante do Grande Trono branco os ímpios para a morte, chamada de segunda morte ou morte eterna.

Este pensamento parece ser o do senso-comum, admitido e pregado pela maioria dos crentes.
Confesso minhas dúvidas carentes de respostas mais plausíveis:
  • Ir para um lugar aguardar a definição eterna, de algo que a morte física já definiu?
  • Se a morte é o martelo do juízo, qual a razão em aguardar um julgamento pré-definido pela morte?
  • No caso da morte do justo, que segundo a tradição vai para o Paraíso, ir e depois voltar para ressurgir não colocaria a ressurreição na categoria de “revivificar o cadáver” ou um corpo que não herda a eternidade?.
  • Como se enquadraria que em Cristo o fiel não morre? Não seria um castigo desfrutar da presença de Deus e ter que voltar?
  • O tempo de espera e a necessidade de voltar não apresentam a ressurreição num contexto do homem como um ser dividido?
  • Como um ser integral torna-se uma alma sem corpo até a ressurreição? Ou ele assumiria um outro corpo com a morte?
  • Seria a ressurreição uma espécie de desencarnação temporária para depois reencarnar?

A partir destes questionamentos podemos reler a Bíblia e perceber pelo menos duas questões interessantes:
- O conceito de morte no Antigo Testamento é de uma trágica interrupção da vida. Um símbolo do mal reinante neste mundo. Um inimigo a ser vencido. A sepultura é a descrição para o pós-morte. Sheol no hebraico ou Hades no grego, conhecido como inferno é uma denominação comum ao lugar dos mortos. Em nosso vocabulário trata-se do cemitério ou a sepultura. Sobre o homem pesa a inexorável ordem da vida de morrer e ser colocado na sepultura.
Davi exprime sobre seu filho natimorto, que ele partirá ao encontro da criança, mas a criança não voltará à ele.

- A denominação Paraíso designa simbolicamente um lugar agradável. Uma referência em parábola, significando a presença de Deus. Paulo diz: “Morrer é estar com o Senhor”. Para a concepção judaica clássica o Paraíso do passado, do presente ou do futuro é o mesmo. Bem similar ao conceito no Novo Testamento para Reino de Deus, sempre presente, porém escondido.

A imortalidade da alma, doutrina de origem grega, que se liberta do corpo-prisão, difere do pensamento judaico sobre o ser. Para o grego platônico o homem não morre totalmente, sua alma é imortal, apenas o corpo se desfaz.
Para o judeu, o homem inteiro morre ou assume uma forma imperfeita na sepultura. O homem é um ser integral, e a morte mata o homem todo.

Se conforme o conceito judaico do ser a morte afeta-o integralmente, a ressurreição de igual forma afeta o ser humano por completo. De outra maneira, teria que se admitir que somente o corpo morre e só ele deve passar pela experiência da ressurreição.
O Novo Testamento afirma que o futuro do homem aguarda a ressurreição completa do ser após a morte e não a imortalidade da alma.
Se observarmos o modelo de ressurreição que é Cristo, ele não apareceu apenas com um corpo que tornou a viver, mas glorioso e transfigurado.

Existe algo que impediria compreender a ressurreição ocorrendo imediatamente após a morte?

Devemos remover a ideia de que a ressurreição seria a revivificação das células e sua reorganização. Dentro desta perspectiva o corpo que se decompõe deve se recompor para que a alma reassuma, portanto a alma seria imortal.

A matéria que compõe o corpo natural esta fadada à falência. Do pó veio e para o pó voltará. Este é um decreto irrevogável do corpo corruptível.
Paulo intui que nosso corpo físico é como uma semente. Semeia-se corpo-natural e ressuscita corpo-espiritual. Corpo-espiritual seria o corpo que transcende à matéria e é capaz de relacionar-se com Deus sem as limitações físicas. Um novo corpo para uma nova criação.

Desta forma, a morte revela o corpo-espiritual à semelhança de Cristo.
Não é preciso esperar um juízo final para que se sele o juízo de uma pessoa. A morte cumpre este papel.

Quanto ao que Jesus diz que os que estiverem no sepulcro ouvirão a sua voz e se levantarão, porém segundo Paulo, que morrer é estar com o Senhor, nada impede de que aqueles que já descem ao sepulcro ouçam o chamado e revistam-se do novo corpo.

Importante para este pensamento é compreender o que Jesus queria dizer quando disse que prepararia um lugar na casa do Pai.

Se Deus não ocupa um lugar no espaço, justamente porque nenhum espaço pode contê-lo, compreender a habitação que Cristo foi preparar como um lugar físico, do tipo casa de ouro, é interpretar mal a presença de Deus. Estar diante de Deus possui outro valor; muito mais profundo.

Onde Deus mora?
Deus não habita em construções humanas, mas ele mesmo escolheu onde tabernacularia.
Deus preparou um corpo (casa) para morar (tabernacular).
Conhecemos a expressão: “somos habitação de Deus” ou como diz o escritor aos Hebreus que “esta casa de Deus somos nós”.
Se a casa do Pai somos nós, as moradas que ele foi preparar, chamada de habitação celestial é o corpo de ressurreição. Conforme nos diz Paulo que gememos porque não queremos ser despidos de nossa casa (corpo), mas revestidos da habitação celestial.
Cristo foi preparar um corpo, para que nele habitássemos. Este corpo é o corpo ressurreto de Cristo em que Deus-Homem está definitivamente unido.
A ressurreição concretiza a casa preparada pelo Pai, para manifestar toda sua plenitude e glória.

Onde devemos habitar? Há um hino antigo na Harpa Cristã que diz: “Eu desejo oh Deus em Jesus habitar, pois minh’alma suspira por ti”.
O chamado cristão revelado por Jesus em sua oração conhecida como sacerdotal, é para sermos um nele. O lugar onde devemos eternamente estar é nele assim como Ele está em nós. O homem foi feito para Ele, o alvo e prêmio da soberana vocação. Fomos convidados a participar da dança eterna de amor. Deus não está em um lugar, mas a tudo preenche. Diria que fomos feitos para estar “dentro” do Deus Trino.

Não acredito que morte física seja separação entre espírito e corpo, mas sim o selo de uma aspiração espiritual. Não somos despidos, mas revestidos. Morte física é a possibilidade da transcendência do espírito, antes limitado pelo que é perecível. Aqui temos que ter cuidado para não pensarmos numa dicotomia, em que o corpo nada vale e o espírito é que tem valor.
Não existem almas sem corpos, pois estas seriam a negação do ser humano que é integral. Por isso, acredito que morrer é ser revestido de imediato do corpo celestial. Nas palavras de Paulo, assim como trouxemos a imagem do terreno, teremos a imagem do celestial. Em Adão somos alma vivente, em Cristo espírito vivificante.
Quando a pessoa morre, o corpo natural, tal qual o grão de trigo, se decompõe porque a glória do corpo espiritual ao revesti-lo o torna em pó. Por isso Jesus disse que aquele que está nele não morre, porque é revestido da eternidade. Ressurreição não é vivificação de cadáver, mas uma transcendência, ou aquilo que era em potencial se concretizando.

Quando Jesus diz ao ladrão na cruz: “hoje mesmo estarás comigo”, tenho para mim que é a ressurreição.
 Assim como Paulo põe o ponto final da fé: “estaremos para sempre com o Senhor”.

Eliel Batista