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24.6.09

Haja luz e fiquem as trevas.


Estes dias me interessei em reler o Gênesis. Qual não foi minha surpresa encontrar logo nos três primeiros versículos uma verdade chocante e até então imperceptível.

Estava ali todo o tempo, mas tão acostumado com a idéia do pecado original que não enxergava.

Confesso que a disciplina em ler contos judaicos me ajudou.

O texto descreve Deus criando a ordem no contexto do caos. Ele não elimina as trevas para que permaneça a luz, apenas distingue-a.

A luz que Ele chama para se apresentar no caos, emana dEle, mas não é Ele.

Não existe uma ordem que elimina o caos. Mas uma que brota, nasce ou floresce nele.

Tal qual no verso da separação das águas. A porção seca surge num espaço ou ambiente das águas. A água não é eliminada para que surja a porção seca. Assim o caos é o contexto onde se manifesta a ordem.


Que interessante isto!


As trevas não existem como fruto do pecado, mas como um anteparo da Realidade Deus. A criação não pode ser plena diante do Deus pleno, exceto se Ele abrir espaço, se Ele se esconder e nos deixar percebê-lo apenas pelas sombras, isto é, pela fé.


Deus se torna tão discreto na criação que é possível negá-lo.

As ações de Deus são tão humanas que o incrédulo pode dizer que Deus não existe, mas tão reais que o crente as vê.

Se Deus se manifestasse absoluto na criação, nada existiria, pois o Absoluto a tudo enche. Mas caso algo ainda conseguisse existir, estaria obrigado a Ele sem qualquer opção de negá-lo.

Mas Deus para deixar a criação livre, se esconde. A criação por natureza tem sombras, como um véu que nos protege da luz de Deus. E quem quiser se aproximar dEle é preciso crer...


No uso de nossa liberdade sabemos distinguir as trevas da luz e somos chamados para sermos filhos da luz. Chamados a uma existência que denuncia as trevas, que se opõe a ela.

As trevas estão aí. Dói, assustam e causam pavor, mas não nos destroem, porque ainda que andemos por um vale de sombra e morte Ele está conosco.


Deus não elimina o caos.

A cruz revela como Deus age neste mundo. Assume totalmente nossa humanidade, sem eliminar as dores ou na metáfora utilizada, as sombras.


Podemos concluir que a idéia de que Deus tenha feito um mundo sem caos, não corresponde à realidade. O mundo é e sempre foi assim, exceto pela maldade humana que no mal uso da consciência ama mais as trevas do que a luz.

10.6.09

Será que é Bíblico?


Recentemente li um artigo bastante radical contra as novas heresias humanistas da igreja. Neste artigo, reservo-me o direito de não mencionar o articulista, pois meu objetivo aqui é outro, ele afirmava que às pessoas não deveria ser dado o direito de lerem a Bíblia perguntando:
-"o que isto quer dizer para mim?".
Isto porque no argumento dele, o que o texto diz, não é o que o leitor entende. Como se para ler a Bíblia necessitasse de um “leitor oficial”, ou aquilo que os versados dizem ser. Mas por ironia encerrava o artigo aconselhando os crentes que quando quisessem escolher uma igreja para congregar deveriam verificar na Bíblia, se aquela igreja era bíblica.

Com isto apóio meu “reaciocínio”. Fazer a pergunta: “É bíblico?”, é uma fundamentação muito sem fundamento.
Normalmente quando alguém pede um fundamento bíblico para alguma afirmação, ele está querendo um versículo, mesmo que fora de propósito.
Mas existem aqueles que querem um texto, "- mas com contexto", dizem.
Como se contexto fosse os versículos anteriores e posteriores. De maneira geral, ninguém se importa com o tipo de texto, ou literário, mas apenas com o literalismo.

O grande problema é que esta lógica de ser bíblico, tem uma aparência piedosa, mas trata-se apenas de uma falácia que lida com a superfície de pseudo-verdades.
Se todos dizem: -“é bíblico”, mas se contradizem, alguma coisa está errada com a lógica.
O calvinista e o arminiano, o protestante e o pentecostal, o ortodoxo e o neo-ortodoxo, o tradicional e o neo-pentecostal. O pré-milenista e o amilenista, o pré, meso e pós-tribulacionista. Enfim, todos dizem: “Minha verdade é bíblica”.

Como pode?
Como as pessoas ainda exigem que algo seja bíblico, se isto suscita um poço sem fundo de tantas variáveis e correntes, em que nada pode ser afirmado e tudo pode ser defendido?

Esta lógica tem a pretensão de ser racional, mas é altamente irracional.
Por isso quando alguém quer saber se minha afirmação é bíblica, estou quase dizendo:
"- graças a Deus não".
Por que se a questão é ter um versículo, isto nada significa.
Esta pergunta para valer alguma coisa precisaria de um complemento:
- “É bíblico de que seita?
Por que cada uma tem a sua "verdade" que diz com todas as letras ser bíblica.

Podem dizer o que quiserem, mas em se tratando de vida com Deus não existe uma doutrina oficial, o que existe são interpretações investidas de cultura, interesses e pré-conceitos normatizados na academia os quais muitos deles, para não dizer todos, nada dizem à práxis.
Antes de a Bíblia registrar e os teólogos catalogarem as doutrinas, pessoas nos mais diferentes contextos já haviam experimentado que Deus as quer bem e é bom.
Podemos dizer como Judas em sua carta, que o que existe é a fé que foi entregue aos santos, pela qual devemos trabalhar.

Hoje quando alguém questiona minhas aulas com a retórica:
- “Quero saber o que a Bíblia diz”.
Eu simplesmente respondo:
- “Ela diz muitas coisas, mas o mais importante de tudo é para onde ela aponta”.

- Ó Bendito Jesus, Palavra Viva, cujas Escrituras testemunham a seu respeito.

Quando tentamos mostrar para um animal algum objeto apontando com o dedo, ele permanece olhando para o nosso dedo. Não consegue ver que estamos mostrando outra coisa.
Hoje perguntar se é bíblico é como o animal que olha para o dedo. Procura um texto, mais nada.

Olhar para a bíblia e ver a Palavra é de fato agir como disse Jesus ser um mestre instruído na lei e versado no Reino dos céus: "este sabe diferenciar seu tesouro novo e velho".

2.6.09

Ensaio sobre dogmas.


Parece que temos dificuldade em olhar para a vida que nos cerca e com ela aprender sobre Deus.
Soa esquisito para alguns, que a maneira de conhecê-lo se dá através de coisas e eventos naturais, pois as celestiais por se tratarem de outra dimensão não nos comunicam adequadamente. Esquecemo-nos do que disse Jesus a Nicodemos. O Deus presente e perceptível ao nosso redor, não se manifesta nos ares celestiais, mas nos eventos e ambiência terrena.

Porque dogmas ganham status de verdade inquestionável?
Existe sim, a necessidade de se estabelecer o que se crê, mas isto é estanque? Quanto mais velho um conceito mais verdadeiro?

Evoluímos é certo. Verdades absolutas do passado ruíram e ao mesmo tempo lidamos com o conceito de que a “Palavra de Deus jamais passará”.
Mas o que seria a Palavra de Deus imutável e permanente, a vida que ela transmite ou a interpretação que lhe damos?

Cristo a Palavra de Deus. Aquilo que os homens entenderam a respeito de Deus foi revisitado por Cristo, e este é o único Deus que conhecemos de fato.
Podemos elaborar sobre a grandiosidade de Deus e até tentar contê-lo em doutrinas, mas ainda assim o que conhecemos do Deus invisível é Cristo.

Não me canso em dizer: “A Palavra de Deus é boa-notícia, porém só boa, se comunicar com a geração que a ouve”.
Hoje não é uma boa-notícia a verdade absoluta e inquestionável. Defender a verdade com ares imperialistas, não dialógicos deixa de ser uma visitação de Deus e passa a ser um demônio desejoso de roubar a vida em nome da verdade. Já ensinava o apóstolo Paulo que sem o amor, a verdade é uma bitola demoníaca.

O evangelho hoje precisa ser mais que uma verdade, precisa ser uma realidade.
Uma verdade absoluta que não responde à realidade da vida perde o sentido de verdade.
• É verdade que Deus tem poder para cura, mas é a realidade que curas são exceções.
• É verdade que Deus pode livrar da fornalha, mas comparando com a realidade podemos ver a ênfase de que isto não é para se esperar. (Dúvidas? Releia o relato Dn 3:18)
• É verdade que Cristo é a ressurreição e a vida, mas é uma realidade que milhões de “convertidos” morrem.
• É verdade que Jesus é o único caminho, mas é uma realidade que não é propriedade evangélica.
Enfim, é verdade que Deus tem todo o poder, mas é uma realidade que ele não faz uso disto para se relacionar com a criatura.

Antes eu afirmava que para ser verdade precisaria estar contido nas escrituras, hoje me pergunto em como as Escrituras produzem vida e alimentam a realidade que me rodeia?

Falamos da cegueira espiritual produzida pelo inimigo e não percebemos que ela pode vir através da verdade. Uma verdade não relacional, sem amor, é instrumento de cegueira espiritual.
Basta lembrar dos fariseus condenados por Jesus. Tão rigorosos na verdade, porém distantes da realidade. Não eram capazes de associar a verdade que conheciam com a vida das pessoas. Razão pela qual foram chamados de raça de víboras, pois tal qual a antiga serpente, se utiliza da verdade para anular o ser.

Como diferenciar verdade de realidade?
Nossa dificuldade vem da maneira como aprendemos, de que só pode ser considerada realidade, aquilo que se prove como verdade.
De fato, existem leis mecânicas no universo que regem diversos fatores do macrocosmo, mas é realidade que esta é a menor parte da existência.
Por isso, não podemos reduzir a realidade a uma verdade apenas.

A cosmovisão passou por diferentes percepções metafóricas:
O mundo como um mistério dos deuses, depois como um relógio e Deus o relojoeiro. Tivemos recentemente o mundo como uma máquina parando, entregue por decretos divinos aos projetos do diabo por causa do pecado humano.

Chegamos a um novo limiar, pois o desenvolvimento dos diversos saberes dá ao mundo uma nova metáfora: o mundo é evolutivo. Hoje a percepção de uma história aberta, não determinista nos leva a ver o mundo dinâmico, se descobrindo, se desenvolvendo. Na contramão dos decretos determinísticos newtonianos.

Cristo ao entrar na história anuncia que Deus ama, sempre amou. O amor só decreta amar, não amarra na obrigação e nem no dever, apenas ama.
Então olho para tudo o que significa Jesus, contemplo a realidade tão diversa, inovadora, inconsistente, frágil e dinâmica e leio a narrativa do Éden que passa a transmitir a constatação de que Adão traduz o ser humano que se lança à grande aventura de viver fora do Jardim. A realidade humana é fora do Paraíso onde se pode viver a humanidade com intensidade. O Paraíso por sua vez é a realidade do Reino: Viver no deserto construindo Jardins de Deus.
Gosto da percepção do salmista quando diz que: “os peregrinos que encontram força no Senhor, ao passarem pelo vale seco, fazem dele um manancial”. (Sl 84:6).
Portanto, podemos dizer que Deus não está cobrando uma dívida de Adão na humanidade.
Paro por aqui com os fios que deixo para serem puxados, a fim de que cada um faça sua a teia teológica.

Eliel Batista