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3.7.07

FÉ E REALIDADE


O avanço do conhecimento humano, leva a mudanças radicais nos paradigmas que ajudam a humanidade a lidar com a vida. Desta maneira até mesmo a compreensão de como e porque Deus age se alteram.
Não se refere isto a uma mudança no caráter de Deus, mas na interpretação que se dá ao tipo de relacionamento que Deus tem com o mundo.
O exemplo mais conhecido desta mudança nasce com Copérnico, que desvendando os céus alterou um paradigma e impôs uma re-interpretação das Escrituras.
Galileu foi condenado pela Igreja por sua declaração “teologicamente errada” que confirmava o Sistema Copérnico.
A realidade impôs alterações na maneira de se ler as Escrituras e de interpretar as ações de Deus.

À luz desta percepção, uma pergunta bastante pertinente, vem de encontro com algumas afirmações da fé evangélica:
Será que aquilo que popularmente se chama de milagre, de fato é milagre? Existe outra explicação? Se não houver, não há o quê discutir.
Nos dias de Jesus quando um cego de nascença foi curado, por mais que se investigasse não se encontrou outra resposta a não ser Deus.

Uma fé coerente e expressiva precisa deixar que a vida com todas as suas contingências imponha sua realidade.
O conhecimento humano e as contingências norteiam a explicação daquilo que se crê, afetando a teologia.
Isto necessariamente não significa que o mundo limita a fé. Mas que fé madura e responsável se expressa sem negar a vida e dialoga com as fontes do saber.

Um tipo de Fé.
Para alguns a fé evangélica, garante protecionismo divino e atesta a sua veracidade por obter vantagens extras em relação aos demais na luta pela sobrevivência.
Estas proteções como escapar de um acidente, ou as vantagens como conseguir um emprego, tão alardeados pelos evangélicos como intervenções sobrenaturais, ocorrem indistintamente até mesmo com uma certa aleatoriedade por todo o planeta.
O que me deixa mais intrigado nos testemunhos evangélicos são as interpretações que ferem a própria crença.
Escapar ileso de um acidente é milagre, não escapar é um propósito e sair com graves lesões é plano de Deus, e não ter argumentos significa que Deus sabe o que faz.

Sem falar nas manobras teológicas para se ganhar o discurso de quem serve ao Deus verdadeiro. Estabelece-se um verdadeiro ringue de deuses. O mesmo milagre que se usa para autenticar a fé evangélica como única e verdadeira é tido pelos evangélicos como mentiroso quando ocorre em outro credo.
O Deus verdadeiro depende da demonstração de mais poder e do maior número de justificativas para suas atuações. Devemos confessar que muitas delas constrangedoras.
O deus que remover mais dissabores individuais ganha o trono de Senhor.
Bem semelhante às descrições mitológicas do panteão grego.

Confundindo performance de palco com unção, e compreendendo a fé como fator de conquista, se tem hoje uma avalanche de eventos, descaradamente chamados de cultos, com promessas de realizações de milagres de todos os tipos. E interessante, sempre mediante um ato de fé simbolizado por Mamom (dinheiro).
Neste ringue, temos também um grupo até mais convincente que os propagandistas evangélicos de milagres. São os videntes de búzios, tarô e similares. Estes garantem o milagre, sem o ato de fé financeiro, mas com um pagamento somente após a concretização dos resultados prometidos.

Esta disputa de fé, tem diminuído Deus abaixo da criatura.

A fé não possível de responder à vida não é fé, mas ilusão.
Uma fé que se vangloria por conquistas, mas na prática apresenta resultados em doses homeopáticas deveria gerar desconfiança e pode levar à incredulidade
.

Dois pontos essências para se responder sobre a fé e o milagre com tudo aquilo que se sabe sobre a vida e a realidade da existência:

1) Crer na revelação de Deus.

Este âmbito busca responder quem é Deus através de seu caráter explicitado em Cristo Jesus.
Na revelação de Deus, não há o que pôr nem tirar. Deus simplesmente ou complexamente é.
Sem Cristo, Deus permanece desconhecido. Ninguém jamais viu a Deus e seu nome não se pronuncia.
O único que é imortal e habita em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver. A ele sejam honra e poder para sempre. Amém”. 1 Tm 6:16.

Não tomarás em vão o nome do SENHOR, o teu Deus, pois o SENHOR não deixará impune quem tomar o seu nome em vão”. Ex 20:7.

Ele respondeu: "Por que pergunta o meu nome? Meu nome está além do entendimento"Juízes 13:17.

2) Crer como prática diária.

É o desenvolvimento de uma espiritualidade que abranja as contingências da vida.
Este âmbito responde através da vida e da história a questão de como o Deus revelado interage com e no mundo. Aqui se fala sobre como é a natureza. Suas ações e reações.
Muito daquilo que se interpretou como uma manipulação divina, hoje se sabe que nada mais é que são fatos inerentes à natureza.

Toda a compreensão que se tem de Deus é uma interpretação da criatura e isto substancia a prática de fé.

Mudança de paradigma.

Com a encarnação, tudo o que se interpretou de Deus até então muda.
Ao lerem isso vocês poderão entender a minha compreensão do mistério de Cristo. Esse mistério não foi dado a conhecer aos homens doutras gerações”. Efésios 3:4-5

Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo”. Hebreus 1:1-2.

Tudo o que se sabe plenamente de Deus encontra-se em Cristo.
Jesus respondeu: "Você não me conhece, Filipe, mesmo depois de eu ter estado com vocês durante tanto tempo? Quem me vê, vê o Pai “. João 14:9.
O Filho é o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do seu ser, sustentando todas as coisas por sua palavra poderosa”. Hebreus 1:3;

O paganismo pode perfeitamente atribuir os males à ira dos deuses, pois estes são projeções humanas.
O povo de Israel não conhecendo Cristo, mas somente a Lei, e limitado em seu conhecimento do mundo, também interpretava as reações físicas e químicas do planeta como ações de Deus.
Cristo, revelação do Pai não permite que se interprete Deus como irado e atirador de raios e trovões sobre os homens..
Aquilo que despertaria a ira da santidade de Deus, suscitou com intensidade o seu amor. O que deveria gerar ira, gerou no coração do Pai compaixão.
A mensagem mais maravilhosa e diferente de todas as religiões do mundo vem da encarnação: Deus é amor. Amou de tal maneira que se reduziu à criatura dando-se por ela.
Cristo a expressão exata do ser de Deus, revela o cuidado amoroso do Pai Celeste com cada pessoa. Demonstra que Deus chora com os que choram e compadece-se dos que sofrem..
A revelação da graça e do amor de Deus em Cristo somado a tudo o que se conhece da vida neste planeta, não permite mais que compreenda o sofrimento neste mundo como sinal de ira, antes conduz a uma revisão da fé. Eventos atribuídos à fé ou a Deus podem simplesmente ser a vida tal como ela é. A constituição própria da natureza.

A realidade.
O presente dado à criação é a vida. Uma vida para ser desfrutada em um planeta de arranjos e desarranjos. Chama-se isto de contingência.
Esta graça da vida traz consigo a certeza de seu contrário, a morte.. Ninguém sabe quando, com quem e como se sucederá a fatídica experiência.
Alguns morrem por doenças, outros por acidentes e ainda outros por desgaste do tempo e de maneira surpreendente há aqueles que morrem sem nexo algum. Por outro lado, alguns escapam de doenças e acidentes que deveriam ser fatais e mesmo assim, depois morrem.

Todo ser humano está sujeito àquilo que submete toda a criação.
A natureza criada aguarda, com grande expectativa, que os filhos de Deus sejam revelados. Pois ela foi submetida à inutilidade, não pela sua própria escolha, mas por causa da vontade daquele que a sujeitou”. Romanos 8:19-20.

A vida é assim. Uns vivem mais outros menos. Uns adoecem e outros são curados.
Todos partilham um destino comum: o justo e o ímpio, o bom e o mau, o puro e o impuro, o que oferece sacrifícios e o que não os oferece. O que acontece com o homem bom, acontece com o pecador; o que acontece com quem faz juramentos, acontece com quem teme fazê-los. Este é o mal que há em tudo o que acontece debaixo do sol: o destino de todos é o mesmo”.Eclesiastes 9:2-3

A natureza viva tem como propriedade reagir contra a destruição.
A ciência já comprovou que existem pessoas, cujo organismo promove naturalmente a cura, por reagir contra determinadas enfermidades. Auxiliado pela esperança revertem o processo, contrariando diagnósticos de morte.
Sem nenhuma associação com algum tipo de credo religioso, sabe-se que aleatoriamente após adotarem filhos, mulheres impossibilitadas da gravidez, colocam em funcionamento processos químicos e físicos que as tornam férteis e engravidam.

Entendemos que diante da certeza da morte, a vida além de graça é um milagre, pois ela subsiste. Uma semente mesmo morrendo, ressurge.
Será que aquilo que se atribui a um milagre divino, não poderia ser o milagre próprio da vida em se autopreservar? Não teria Deus constituído a vida com esta propriedade?
Isto não explicaria a razão do porquê independente da fé, diferentes pessoas experimentam aquilo que se denomina de milagre?

Re-interpretando a fé.
O exercício da fé cristã, não consiste em eliminar as contingências da vida, mas em entregar-se a ela mesmo morrendo. Ninguém tem garantias celestiais de escapar da vida com suas contingências. Os covardes não desfrutam da vida.
Uma pessoa pode querer utilizar a fé para tentar se proteger, mas isto é morte.
A fé cristã diante das dificuldades não foge, mas fortalece-se no Senhor para permanecer fime. Alguém que conta com Deus para se proteger, tem uma fé dedicada a si mesmo. E os tempos seriam terríveis porque os homens seriam mais amantes dos prazeres que amigos de Deus.

Aquele que põe sua esperança em Deus se abre perseverante para a vida com todas as suas contingências. Este vive por fé, crê que a vida não se limita aos eventos presente.
Independente das aflições ou alegrias que naturalmente atingem toda criação, o homem deve ter como propósito existencial cumprir sua jornada eterna com Deus.
A ressurreição é a resposta de Deus para a dor neste mundo. A vida que Deus deu é muito mais valiosa do que os milagres que Ele pode realizar.
A fé cristã precisa de confiança em Deus para viver ou nos milagres para sobreviver?

Disse-lhe Jesus: "Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá; e quem vive e crê em mim, não morrerá eternamente. Você crê nisso“?
João 11:25-26.

Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado”. João 3:18

Eliel Batista