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15.3.14

PUGNA THEOLOGICA 1

Fazer um curso de Teologia pode ser desconcertante. Há ofertas cujo valor teológico é tanto quanto o de um livro de receitas. É evidente que existem instituições sérias, comprometidas com o ensino e aprendizado e com a fidelidade e/ou conteúdo acadêmico idôneo ao oferecer um Bacharel em Teologia.

Porém, é público e notório que, basta entrar na web pagando algumas dezenas de reais para receber em casa um certificado de Teólogo e até mesmo de Doutor em Divindade.

Existem instituições que oferecem um curso reconhecido, válido, porém em termos de Teologia se dedicam a formarem replicadores de uma confissão doutrinária. Quer dizer, ensinam a doutrina de seu próprio arraial. Tanto que não permitem professores de outras confissões, pois a prioridade é perpetuar sua própria denominação. Não que isso por si só invalide a seriedade de tal Instituição ou mesmo da Teologia que defendem, porém, a meu ver deixam a desejar em termos acadêmicos.

Há aquelas instituições que laboram teologicamente com esmero, enfrentam os debates e as contradições teológicas sem receio algum. Que de fato dedicam-se às reflexões teológicas.

Porém, independente do tipo de Instituição, há que se considerar também a qualidade dos alunos. Avaliar conhecimento, todos os pedagogos e profissionais da área de educação sabem que não é fácil. Sendo assim, alguém esboçar um diploma de qualquer coisa não significa que ele domine aquilo no qual se diplomou.

E aqui talvez surja o nó do problema.

Uma das dificuldades em ensinar Teologia para protestantes evangélicos vem do fato de receberem uma boa educação cristã, evidentemente doutrinária confessional. Ao cursarem Teologia esperam que o curso lhes aprofundem em seus dogmas e doutrinas. Diferente de qualquer outra graduação em que o estudante se gradua no aprendizado, na Teologia entram para “aprofundar”. Inscrevem-se para estudarem algo que julgam saber.

Assim estudantes formados em instituições ruins, péssimos estudantes, replicadores de doutrinas criam ondas quase que normativas doutrinárias com o selo de teologia, que acaba dando o direito a qualquer pensamento ou opinião bíblica como se fosse a Verdade Divina. Tal qual, temos em nosso país mais de 200 milhões de técnicos de futebol e críticos políticos, temos toda a parcela protestante evangélica como teólogos e apologistas.

Blogs defendendo a sã doutrina, elegendo hereges, acusando os falsos pregadores a partir do senso comum doutrinário. Textos que caçam as bruxas cibernéticas e os anticristos que estão roubando as ovelhas.

Todo esse emaranhado de questões apontam para uma origem comum que chamam de didaquê, mas para mim, no meio evangélico está mais para katecheo.
Um excelente trabalho, porém sem a preocupação com a liberdade do pensamento.

Os adeptos de uma denominação não são ensinados através do questionamento e análise livre do pensamento elaborarem premissas e conclusões, antes são doutrinados a repetirem dogmas e a decorarem respostas prontas com algum versículo bíblico que as validem. Infelizmente é pecado pensar.

Aqueles que não se comportarem são ameaçados com ideias bíblicas do tipo, “Deus resiste aos soberbos e a incredulidade desperta a ira de Deus” e se persistirem serão cassados.
Metaforicamente eu diria que são doutrinados a se prepararem para abrir a porta quando uma TJ bater e enquanto não estiverem com tudo decorado a não abrirem a porta e pior, fazem disso uma verdade absoluta e pensam se tratar de Teologia.

Podemos constatar isso ao perceber que qualquer crente ao falar sobre a Onisciência de Deus cita o Salmo 139, ao falar sobre a preordenação do Cristo, cita Gênesis 3:15 “a semente da mulher”. Pensar sobre a teodicéia traz à lume a queda radical causada pela “desobediência adâmica”.

Interessante como entra década e sai década e é recorrente encontrar prosélitos perguntando sobre o casamento de Caim.
Herdaram junto com o dogma sobre as Escrituras a crença de que uma verdade bíblica se faz com literalidade textual.
Isso ocorre dentro da imposição de que um “verdadeiro cristão” obrigatoriamente tem que acreditar no princípio da não contradição e montar toda sua fé sobre essa pedra. Caso ele constate que existe uma contradição, deve negar sua capacidade intelectual, considerar-se um incapaz de compreender verdades espirituais. Não deve questionar, pois isso demonstraria fraqueza de fé (eu diria ou de inteligência?), mas um dia lhe será esclarecido, pois afinal, “as coisas ocultas pertencem a Deus” e não a um “vaso de barro roto” qualquer. Tudo isso com um lembrete: “de Deus não se zomba”.

Alguém pode perguntar: - mas de onde se tiraria a teologia cristã se não da Bíblia?

Minha resposta: da Bíblia, mas não com parâmetros unívocos.

A questão não é a Bíblia, mas como se faz teologia. Enfileirar versículos Bíblicos para se ter uma verdade, não se tem a verdade. A Bíblia seria um livro de revelações divinas como alectoromancia? Ou trata-se da história religiosa de Israel?

Não podemos recortar a Bíblia e dizer que temos uma verdade sobre Deus. Versículos sobrepostos não fazem uma verdade.

Tenho para mim, a partir da própria Bíblia que ela não se propõe a dar definições de Deus, mas a apontar caminhos que revelem Deus. Encontramos a Revelação de Deus na Vida e essa, para o cristão, se manifestou plenamente em Cristo.
Não temos em nenhum lugar na Bíblia o exercício para provar que Deus existe, logo ela não propõe revelar a existência de Deus. Ela instrui àqueles que creem em Deus a encontrarem Deus em suas próprias vidas e história.

O encontro com um Deus Vivo e Real tem que ser em uma experiência viva com o Espírito de Cristo e não em um texto. Afinal, a letra mata.
Sistematizar um texto pode até resultar em um conjunto de ideias sobre a verdade, mas não resulta na Verdade.
Para quê a Bíblia? Para refletirmos sobre nossa real possibilidade de um encontro verdadeiro com Deus. Aqueles homens com todas as suas fraquezas tiveram seu encontro com Deus. Cada um de nós também pode.