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15.10.12

O MOVIMENTO EVANGÉLICO, QUE É ISSO?


Nestes últimos dias, os acontecimentos envolvendo o pastor Silas Malafaia nas eleições de São Paulo, me levaram a relembrar alguns aspectos do movimento evangélico e expor algumas coisas que marcam uma "banda" muito específica deste movimento.

As cren
ças, conforme temos visto, não obedecem fronteiras e, neste hiato, há quem se prevaleça da prerrogativa de líder religioso e se intrometa em todas as áreas, evidentemente que em nome da fé e do zelo por esta fé. Esta é, senão a razão, pelo menos uma das possíveis explicações do porque um pastor, o Malafaia, se sinta à vontade para ultrapassar sua fronteira municipal e se veja imbuído da missão de decidir pelos evangélicos a eleição em São Paulo. (
Declaração Malafaia)

Não é preciso muito para ver que isto expõe uma inconsistência do movimento. A medida ideológica utilizada para ser cabo eleitoral de A e não de B, não pode ser aplicada nas eleições de sua própria cidade, o Rio de Janeiro, e não se aplica nem ao seu candidato escolhido em São Paulo que, conforme o site da folha, também distribuiu em 2009 um kit similar a este que ele usa como álibi para seus posicionamentos. (kit similar)


Para deixar mais aparente ainda a ideia de que existem mais coisas embaixo do sol do que os olhos podem ver, ele apesar de ter feito afirmações em nome dos evangélicos tentou amenizar as coisas, sem reconhecer a gafe, ao chamar mais tarde sua articulação e declaração de representatividade, apenas de "uma opinião pessoal de um cidadão".

Valho-me da oportunidade para expor os pontos de contato com o movimento evangélico que este acontecimento me fez lembrar, a partir daquilo que vivenciei durante anos. Fique claro que não se trata de um artigo científico e nem de uma análise teórica, e nem engloba tudo ou todos, mas é uma opinião extraída da vivência.
Pra começar é bom pontuar que a expressão evangélico não define todas as pessoas cristãs não-católicas romanas. Assim, como pensar que todos os habitantes do Oriente Médio sejam árabes, que todos os islâmicos são pessoas-bomba, e por ai afora.

Entre os evangélicos não existe unidade doutrinária, litúrgica, de crenças e sequer teológica, exceto uma cultura diversificada e adaptada aos muitos gostos.
A meu ver não existe unidade nestes temas porque é um movimento personalista. O culto à personalidade faz com que existam tantas expressões evangélicas quantos forem os seus ícones. Isto talvez seja fruto da lógica messiânica sempre a espera de um salvador que proteja aqueles que estiverem do lado destes messias e arrebente com os que estiverem contra. 
Eis aí a premissa do arrebentar.

Dando um passo a mais para se compreender esta cultura evangélica pode-se fazer uma comparação com a área artística onde o sucesso não garante uma idônea representação. Por exemplo; o Michel Teló está para a MPB o que os tele evangelistas estão para o evangelho. E mais, para se entender esta cultura ou sub, precisa-se aprender a linguagem, os costumes e a lógica conveniente. Isto mesmo, o que existe é uma conveniência protecionista.

Este protecionismo na prática, diferente da teoria, funciona mais ou menos assim: 

- REGRAS PRÁTICAS APLICADAS AOS EVANGÉLICOS

Os evangélicos possuem duas classes: líderes e liderados.

  • a) se a pessoa se declara evangélica e comete uma falta, desde que não envolva a sexualidade, ela não deve ser julgada, mas aconselhada e deve-se entregar tal pessoa a Deus que a julgará e cabe aos crentes apenas orarem.
  • b) se a pessoa declaradamente evangélica cometeu alguma falta na área da sexualidade e tratar-se de um líder influente, o caso pode ser abafado para não gerar escândalo, ou parte-se para a punição direta. Se exercia muita influência convém ser destituída, abandonada, expulsa e execrada publicamente. (equivale ao apedrejamento nos dias de Jesus).
  • c) A única coisa mais grave ou equivalente aos pecados sexuais é a chamada heresia. Se uma doutrina ou um costume estiver sob ameaça, não existe nem a oportunidade de arrependimento, vai-se direto para a execração pública. A insanidade disto é que apesar de não existir unidade doutrinária, existe o consenso na execução da pena. Evidentemente que a pena é diretamente proporcional à ameaça que o poder instituído sofrer, isto é, quanto maior a ameaça ao poder, maior a necessidade de se eliminar o perturbador, logo, maiores serão as perseguições.
  • d) Caso a falta seja de ordem ética e o evangélico que a cometeu seja submetido aos tribunais do poder judiciário, os irmãos devem se unir e tentar de todas as formas livrarem o mesmo, seja por meio da oração, de dispositivos legais ou de pressão contra o sistema que nestes casos não é considerado como executor das funções judiciais, mas um inimigo contra os seguidores de Jesus; um anticristo. Vide os casos como do Edir Macedo e dos Hernandes quando foram presos.
  • e) Se o líder evangélico estiver em evidência, mas causar muitos problemas na relação igreja-sociedade, tornando esta relação pouco pacificada, caso ele se envolva em algum escândalo principalmente na área sexual, não lhe será dado nenhuma chance, é a oportunidade de se livrar daquele que produz uma péssima imagem dos evangélicos na sociedade. Juízo sem misericórdia.


- REGRAS PRÁTICAS APLICADAS AOS NÃO EVANGÉLICOS:

Os não-evangélicos se dividem em dois grupos, os que ameaçam e os indiferentes.

a.     Caso a pessoa não seja evangélica e faça algo que desagrade aos evangélicos ela deve ser perseguida com arrazoamentos bíblicos e  exposta em seus erros, exceto se se converter.
b.     Se a pessoa for de outra religião considerada inimiga, mesmo que ela seja indiferente para com aquilo que os evangélicos façam, ela nunca será bem vista. (religiões inimigas são as afro-brasileiras e espíritas. Existem as religiões concorrentes que são as de cunho cristão, mas dividem o público-alvo).
c.      Se a pessoa for de outra religião, mas sempre elogiar e esboçar certa admiração pelos evangélicos, as normas serão relativizadas e a pessoa será bem vinda. Ela é considerada como alguém que não está "longe do caminho. Se for uma pessoa que mobiliza ou esteja em evidência nas mídias, ela será até mesma convidada a participar de eventos do círculo evangélico.
Este breve resumo da lógica, tem por detrás de si além da conveniência, um pressuposto, também conveniente, que denomino "síndrome de perseguição engendrada pelo anticristo" que pode se manifestar e estar em tudo e em todos. 
Vive-se um clima da Teoria da Conspiração articulada por forças do mal que se manifestam de diversas formas: em refrigerantes, redes fast-food e de televisão, produtoras de filmes, editoras de livros, imprensa, governo e pasmem, no próprio púlpito das igrejas e que ameaçam o status quo evangélico de serem vistos como os mais importantes seres de toda a criação, os preferidos de Deus.
Isto cria um clima belicoso, cuja guerra invisível exige dos fiéis que vigiem constantemente levando a turba a agir com um procedimento padrão: se houver a mínima sombra do inimigo, primeiro ataque até neutralizá-lo, depois queira saber.

O pastor Malafaia com sua beligerância cria mais dúvidas que esclarecimentos. 
Ele é pastor, fala em nome de Jesus, usa a Bíblia com se soubesse do que está falando e desafia qualquer um a enfrentá-lo numa espécie de vindicação de autoridade imbatível. 
Até aqui ganha muitos pontos como se um profeta de coragem, mas com seus métodos pouco cristãos perde os pontos e divide o meio evangélico, até porque cristão de verdade é pacificador e quem tem um mínimo de bom senso não vai se expor ao ridículo.

Seus opositores se dividem em: os que querem deixá-lo por conta de Deus, os que o ignoram e aqueles que querem acabar com ele.
Ressalto conforme a história tem revelado, que no meio evangélico quem se torna controverso, cria opositores silentes que convivem com isto como se esperassem a hora de um deslize, para então trazerem à tona coisas que calem definitivamente o sujeito da controvérsia. Poderia citar inúmeros exemplos, mas abstenho-me.

Fiz uma experiência.

Postei-me abertamente contra a sua posição de representante eleitoral dos evangélicos em São Paulo. Não necessariamente contra o candidato que ele escolheu, mas contra ele se arvorar de ser o títere dos evangélicos e contra seus argumentos espúrios e convenientes e discurso de baixo calão, como lhe é próprio. (Vale dizer que ser contra o posicionamento do Malafaia, não me coloca a favor e nem contra nenhum candidato. Meus critérios para votar são outros, se coincidir bem, se não, fazer o que se sou livre).

Após minha manifestação recebi diferentes tipos de recados:
1.      Para não dividir o povo de Deus e deixar que Deus o julgue.
Estes, os muristas, consideram que se resolve um problema não fazendo absolutamente nada.
2.     Que eu deveria falar diretamente com ele para não escandalizar.
Estes, os uniformistas, acham que todos devem usar o mesmo uniforme e confundem isto com unidade.
3.     E outros ainda que me apoiaram com gritos e urras, mas infelizmente querendo arrebentar com ele.
Beligerantes dualistas acham que a maneira de se resolver é sempre escolher o lado do bem e fazer o mal contra o lado do mal. Continuam debaixo da mesma lógica.
Não podemos jamais esquecer, conforme disse, que um rótulo não representa o todo. 
Existem aqueles que se consideram evangélicos, mas não se enquadram neste molde que descrevi acima, mas não podem discordar que ele existe e engloba a muitos.

Tenhamos em mente, aqueles cristãos que simplesmente fazem seu caminho seguindo a Jesus, longe deste samba-doido todo e não coadunam com absolutamente nada disto. Fazem o seu trabalho de coração e afinco com ética e decência. Que não concordam com absolutamente nada do que os malafaias, "edires" e "santiagos" da vida fazem, e inclusive devem achar que eu nem deveria ter escrito isto, mas que me dedicasse em cuidar dos que sofrem. 
Estes só querem viver aquilo que crêem e buscam proporcionar um mundo melhor com melhores pessoas. Talvez eu os tenha desrespeitado. 
A estes minha honra e pedido de desculpas. 

Discordo dos  posicionamentos e de como o pastor Silas Malafaia expressa a fé cristã e utilizei-me do ocorrido como exemplo. 

Escrevi este texto movido a esclarecer que seguir a Jesus não se resume naquilo que  o pastor A ou B afirma e que o rótulo evangélico não cabe em todos e não define um grupo coeso. E também porque estou convencido de que o pastor Silas não representa Os Evangélicos, apesar de ter muitos seguidores e me fazer lembrar das entranhas do movimento evangélico brasileiro.

Não quero colocar ninguém contra ninguém, mas esclarecer que a fé cristã é bonita, ética, de bom senso e comunica o amor de Deus ao mundo de tal maneira a ponto de entregar-se por inteiro até a última gota de sangue à causa humana. 
Se você faz parte dos que assim crêem, não se ofenda com minha exposição, continue a servir a Jesus, a carapuça não é sua.

Enfim, ser evangélico pode ser difícil de explicar e de entender, mas no fundo no fundo, as pessoas só querem mesmo é o Paraíso e alguns se aproveitam deste desejo e convencem outros que a serpente tem razão.

Eliel Batista