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18.2.10

O Tribunal Da Graça - Aliança de Amor


Paulo em sua carta aos Romanos usa uma linguagem forense. Ele elabora os pressupostos do significado da morte de Jesus a partir dos aspectos legais romanos.

Para ele Jesus é o Filho de Deus por direito e os crentes por nomeação, que ele denomina de chamado. Para os romanos estas questões de cidadania e adoção só se resolviam por aspectos legais, razão do uso deste tipo de linguagem, principalmente para um ministro cujo lema “faz de tudo para com todos”.

O drama a ser resolvido consistia em dirimir a impossibilidade de um escravo receber a cidadania, pois sua condição existencial jamais lhe permitiria. Para eles somente o imperador era filho de Deus, portanto, todos os demais jamais poderiam receber tal qualificação.

Evidente que para se montar a cena de um tribunal não pode faltar a linguagem da punição, pois qualquer execução da lei trata-se exatamente de punir os erros. Mas ao mesmo tempo Paulo precisa demonstrar a sabedoria de Deus em revelar Cristo como o seu amor. Um exercício hermenêutico nada fácil para se elaborar.

No início de sua carta ele proclama este chamado de Deus aos homens para filiação, mas apresenta aspectos legais que impossibilitam a concretização disto. Mesma razão usada para justificar porque ninguém pode julgar seu próximo.

Mas é interessante como ele recheia o aspecto forense com amor:

  • “Deus derrama seu amor por nós”.
  • “Deus demonstra seu amor por nós”.
  • “Nada pode nos separar do amor de Deus”.
  • “O amor é o cumprimento da Lei”.

Expressões usadas abundantemente em sua carta.

Lendo alguns comentários sobre Romanos, fui levado a refazer a leitura tentando compreender alguns aspectos importantes na teologia. Um destes comentários foi do filósofo russo Nikolai A.Berdyaev que disse: “as crenças religiosas passaram a refletir o estado decaído do homem, e o modo como eram concebidas as relações entre Deus e o homem logo assumiram a forma de um processo criminal [...] amor lícito ou legal é um amor que morreu[1].

Podemos perceber a inversão completa da lógica da Lei quando Paulo diz que por um pecado veio o julgamento que trouxe condenação – Lei –, mas que a dádiva é incomparável, pois dos muitos pecados se manifestou a justificação – Graça (Rm 5:16-17).

A Lei nunca apresenta o perdão, mas apenas a punição e somente depois do cumprimento do castigo pode-se falar em justiça. No caso da Nova Aliança, não se entra com o castigo, mas com o perdão para a justificação.

Podemos afirmar que o que salva da ira de Deus, é o fato de Deus mesmo tendo direito, não tratar do pecado com castigo, mas com amor.

Ser salvo da ira de Deus, não precisa ser um conceito pensado somente dentro da idéia de se ter Jesus como alguém que aplaca a ira de Deus, até porque sendo assim colocaríamos uma divisão na Trindade. O pai contra os homens e o Filho a favor dos homens. Se Jesus só falou as palavras do Pai, fez suas obras e obedeceu em tudo ao Pai, quando nos salva não tenta segurar o Pai para não nos destruir, mas encarna o que o Pai sempre desejou.

Isto corrobora por exemplo com a mensagem de Isaías 54: 8-10:

“Num impulso de indignação escondi de você por um instante o meu rosto, mas com bondade eterna terei compaixão de você", diz o SENHOR, o seu Redentor. "Para mim isso é como os dias de Noé, quando jurei que as águas de Noé nunca mais tornariam a cobrir a terra. De modo que agora jurei não ficar irado contra você, nem tornar a repreendê-la. Embora os montes sejam sacudidos e as colinas sejam removidas, ainda assim a minha fidelidade para com você não será abalada, nem será removida a minha aliança de paz", diz o SENHOR, que tem compaixão de você”.

Podemos compreender porque Paulo apesar de introduzir sua carta falando da ira de Deus, apela para o fato de não ignorarmos que a bondade de Deus é que leva ao arrependimento (Rm 2:4).

Ele nos amou sendo nós pecadores e este amor nos constrange. De fato, Deus tem misericórdia de quem ele quer (Rm 9:18), e isto é confortante, porque ele tem misericórdia de todos os pecadores (Rm 11:32), portanto de todos nós. Aqui vemos a antiga lógica de pecador recebendo o castigo para se arrepender, mudando para a nova lógica do pecador sendo amado e se arrependendo.

Parakletos é uma expressão que identifica um amigo chamado para estar ao lado e ajudar. Jesus quando faz menção do outro consolador – parakletos – faz distinção e unidade entre ele e o Espírito Santo, referindo-se à missão continuada de Deus na terra. Quer dizer, Jesus se revela e se apresenta como alguém que está ao nosso lado para nos ajudar e não contra Deus. Esta expressão faz parte da linguagem forense, mas não é de promotoria, mas sim de defensoria. Conforme o pensamento de Berdyaev , nós enfatizamos esta figura de amigo no seu aspecto simplesmente jurídico e para validá-lo, fizemos do pecado um crime. O pecado não é um crime, mas sim um afastamento, um distanciamento ou quebra da relação de amor com Deus. E Deus demonstra que nos ama, enviou seu Filho para isto, não para nos defender de si mesmo, mas para nos ajudar a nos aproximarmos dele sem medos e receios, pois ele não quer castigar. Ele ama.


[1] O destino do homem -1937- Ed. Charles Scribner's Sons Nova York pg, 348, citado pelos irmãos Linn