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12.5.09

Symbolos e Transcendência


O ser humano é religioso por natureza. Ele busca.
Aliás, todo ser vivo está biologicamente constituído para buscar a transcendência.
Neste processo um átomo passa a molécula, que por sua vez origina uma célula, um tecido e um órgão e assim vai.
O ser humano dotado de consciência transforma a transcendência física em espiritual. Nisto temos a religião, como uma busca.
Não há problema algum em ser religioso, mas a história demonstra as terríveis conseqüências que podem ocorrer, como fruto de uma religiosidade adoecida, ou do mau uso da consciência.
A transcendência espiritual depende da soma de todos os elementos que constituem o ser humano. Os afetos, emoções, corpo, sentidos e razão.
A razão sozinha não possibilita ao indivíduo se lançar ao infinito. Neste quadro, a religiosidade pode desempenhar um papel extremamente salutar.
Jesus em seus ensinos, sempre utilizava de imagens visuais ou lingüísticas que representassem o conteúdo do ensino, mas acima de tudo para levar seus discípulos a transcenderem-se a si mesmos em direção ao outro, à sociedade e a Deus.
É mais do que sabido que a fé cristã é concretizada com a vida e não com eventos religiosos. Mas não podemos abandonar as experiências da devoção religiosa - os símbolos, as parábolas vivas.
Todos os que estudam a psique humana, são unânimes em afirmarem a importância dos símbolos para o desenvolvimento e amadurecimento sadio do ser.
Nesta perspectiva, a fé é prioritariamente simbólica, pois não se fala de Deus de forma não simbólica.
Por isso, a maneira como organizamos nossos cultos, como procedemos as atividades religiosas e a elaboração litúrgica devem simbolizar os conteúdos da fé.
Somente a razão não basta para a experiência de fé.
A organização dos cultos tornam visíveis em símbolos, aquilo que a razão não consegue experienciar somente com as palavras.
Todos os componentes de um culto, oração, coordenação e ordem musical,disposição litúrgica, tudo deve ser elaborado criteriosamente para “tornar visível” a experiência da fé diante do ser comunitário.
Nos reunimos e alimentamos a razão com sermões, mas precisamos dos recursos simbólicos, para que a transcendência se torne palatável.
O culto para mim é uma poesia comunitária, ou ainda uma sinfonia.
Os interesses do Céu se unem ao desejo da Terra e se fundem num Tempo Sagrado.
O divino amante satisfeito com a criatura amada. Ambos extasiados. O ser humano transcendendo-se a si mesmo e penetrando no divino num enlace santo, enchendo o ambiente da Glória de Deus.
Tudo isto só é possível através da soma de todo o ser e com a riqueza dos símbolos que nos leva a criatividade imaginativa.
Abandonarmo-nos inseguros com confiança ao mistérium infinitum requer muito mais plenitude do que os raciocínios lógicos podem oferecer. Talvez as experiências pentecostais transformadas num mergulho espiritual no secreto divino, pudessem ajudar neste caminho.
O silêncio, a música suave instrumental, a poesia declamada, o abraço afetuoso, a ceia, a oração silenciosa, a leitura responsiva, a cruz, o pão, o teatro, a mímica, a contação de histórias e outras coisas mais, pudessem pertencer à liturgia instigando a imaginação e convidando à transcendência.

11.5.09

Entre o Mythos e o Logos




Quase sempre vivemos a vida sem prestarmos atenção de onde saímos – como coletividade – e a razão de onde estamos, isto falando sobre a totalidade do ser – ações, pensamentos, posturas e compreensões.

Pensando sobre isto, me sobrevém a maneira como interpretamos ou compreendemos a Bíblia.


É muito comum no nosso Brasil evangélico, falarmos sobre arrebatamento, catástrofes apocalípticas, a responsabilidade de Adão que ocasionou a queda e na qual somos culpados quase que por genética.

Será que a comunidade da fé tanto hebraica como cristã, sempre entendeu a vida ou o mundo assim?

Dados historiográficos e a própria leitura do Antigo Testamento, nos revelam que não.

A leitura literal da Bíblia entrou em cena no período oitocentista. Destaco dois grandes personagens deste período: John Nelson Darby (1800-1882) dando ao livro do Apocalipse o status de verdade literal. E C.I. Scofield, que popularizou esta idéia no meio cristão protestante com sua Bíblia de referência, que se tornou um best-seller.


Com estes poucos dados dá para argumentarmos que até a Idade Moderna, a Bíblia – hebraica e cristã – era entendida como mythos. Toda a sua leitura partia da impossibilidade das razões humanas falarem sobre Deus, e que este poderia ser descrito apenas de maneira simbólica.

Mas como no final do século XIX ciência e racionalismo ditavam o conhecimento, a religião precisava ser racional para ser levada a sério. A fé a partir de então passou a demonstrar-se lógica, cientificamente válida, objetiva e literal.

A interpretação bíblica deixou de lidar com o texto como mythos e passou a considerá-lo como logos.

Isto levou os protestantes a lerem valorizando a letra dando à Bíblia o status de verdade factual e para que se validasse este raciocínio, usou-se a lógica circular. Única maneira de sustentar a Bíblia como verdade racionalista, ou a idéia comum de inerrância.


O evangelista João pode ajudar a nós cristãos a refazermos a leitura bíblica.

Em seu evangelho ele abre da seguinte maneira:

No princípio era aquele que é a Palavra (logos). Ele estava com Deus, e era Deus”.


O logos para o cristão não é o texto, mas uma pessoa divina – Cristo. O texto deve continuar sendo lido como o mythos que nos faz compreender com mais amplitude o logos sem confiná-lo à matéria. O logos é um ser biológico, mas não está confinado ao mundo material, por isso precisa da linguagem do mythos.

Quando João diz “era aquele que é” e “estava com”, remete qualquer leitor à linguagem do tetragrama YHWH, que expressa-se absurdamente com mythos e não com o logos. Este é um Nome constantemente se revelando.


ADENDO - (Esta expressão YHWH, possui o radical do verbo ser e como no hebraico não se declina o verbo, parece ser uma mistura verbal entre será, foi e é e ainda associado ao gerúndio do mesmo verbo. Como para a língua hebraica o verbo ser e o estar são o mesmo, João nos ajuda a compreender o Logos como uma Existência-ambiente divina que se instaura no Tempo. Loucura? Pois é, o racionalismo não é suficiente.

O gerúndio nos dá a idéia de existindo continuamente. E como estamos falando não apenas de um tempo que se estica, mas de um ambiente que permanece, tudo o que pensarmos sobre Deus, em função de nossa deficiência lingüística, precisa da linguagem que sempre foi usada pelos hebreus e cristãos até a Idade Moderna: o mythos).


Se admitirmos isto, abandonamos a leitura literal de Adão, tornando irrelevante sua existência factual como alguém de carne e osso que ocasionou a destruição do planeta perfeito de Deus pecando. Não existe pecado original e nem a queda, pois o texto não é logos, mas mythos. Pecado original é o meu e aquilo que se chama de queda é a descrição de nossa humanidade: somos assim; limitados e aventureiros. Nos foi dado a vida, num contexto em que certamente se morre. Poder-se-ia até dizer que viver pela fé é saber morrer.


Se quisermos dar à Bíblia o valor de científica teremos que incoerentemente definir Deus, valorizar a letra matando o espírito, ignorar os conhecimentos humanos, defender uma lógica circular e não dialogar com absolutamente nada que esteja fora do contexto religioso. Penso que se assim fizermos, contrariamos o sentido missiológico e negamos a fé em Cristo, pois colocamos em seu lugar a Bíblia, qualificando-a como o Logos.


Com isto resta uma pergunta:

Seríamos cristãos se qualificarmos outra coisa qualquer como Logos que não o Cristo?