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14.11.06

DEUS

A encarnação só serviria como prova do amor de Deus, se não existisse outra maneira para Ele perdoar. Só valeria como prova, se as opções fossem entre sim e não. Não existindo outra maneira para salvar, o que dizer sobre o tema Onipotência?

Se...
...
Deus não podia salvar os pecadores senão condenando um justo, onde estaria a sua Onipotência?
... Ele podia salvar por outros meios que não a humilhação, mas não optou por eles, teria sofrido sem necessidade, ou por faltar-lhe de sabedoria?
... Dissermos que Ele sofreu para provar seu amor, restaria a dúvida de seu amor pelos outros seres criados como os anjos, pelos quais não precisou sofrer?

Só posso entender que Deus fez o homem livre. Ao dar esta liberdade, sabia que seu imenso poder deveria se adequar harmoniosamente com as decisões do homem.
Para não revogar esta vocação dada ao homem, se este lançasse mão da liberdade para contrariar sua vontade, Deus sabia que não poderia fazer uso de sua soberania e simplesmente decretar, mas teria que agir, e isto envolveria a submissão.
Sabia que não haveria outra maneira senão esvaziar-se e sofrer humilhações
Criando o homem perfeito e livre, e tendo um propósito perfeito, esta uma ação nobre e não indigna.

Para uma mentalidade de poder estóico, sofrer e morrer por amor pode até demonstrar heroísmo, mas se para isto, Deus tiver que abrir mão de Soberania, Onipotência é inaceitável, principalmente por desteologizar Deus.
A procura de Deus, para esta mentalidade se dá nos suntuosos palácios. Afinal, lá se encontram os nobres e poderosos.
Também rejeita qualquer Deus diferente ao que se idealizou. Contrariar concepções causa a crucificação.
Ao invés de compreender o Amor, determina como Deus deve ser.

Temos na teologia, uma que aprisiona Deus na Soberania e Onipotência. Este esforço teológico reverte o bem intencionado objetivo e leva a cuspir na face da Bondade, e para calar a boca de outras, desafia em zombaria que o fraco servo prove-se “capaz” de ser o Soberano Deus.
A luta empreendida para preserva-lo Rei, acaba impondo-lhe à cabeça uma coroa, mas de espinhos.
Entendo porque não seria preciso o Pai decretar a morte do Filho. Bastaria enviá-lo esvaziado.
No fundo, o poder que se dá a Deus, não é o que Ele possui, mas a projeção da maldade ansiosa por uma justiça forte. Não aceita um Deus que ama e para tal, de fato e em verdade, se identifica com a fraqueza.

Ela não percebe que o maior delegar ao menor, jamais perde a sua grandeza. Maior é aquele que dá, do que quem recebe. O inferior é abençoado pelo superior. Por mais que Deus entregasse todo o seu poder ao homem, este ainda assim não teria mais poder que Deus. Ainda que Deus fizesse outro Deus este seria menor, porque fora criado.
Mesmo que Deus desse, e deu, liberdade a uma criatura, esta não ameaça a sua própria, porque há um só Senhor sobre todos.

Pergunto-me sobre qual a maior riqueza para Deus: Poder e Soberania ou seu Filho?
Se Ele deu o que lhe era mais precioso qual a dificuldade em compreender que abriu mão de seu Poder?
Se não poupou seu próprio Filho por amor, não se deveria estranhar a escolha da forma mais bela de interagir:
“Com Todo o poder nos céus e na terra, sem fazer uso dele, todos os dias conosco, como Consolador” (parakletos).

Se Deus tem o poder sobre a morte, por que Ele não está ressuscitando os que falecem? Se venceu a morte, por que permite que as pessoas continuem a morrer?
Para que a vida fluísse livremente, Ele decidiu soberanamente, pelo menos por enquanto, não ressuscitar os mortos, mas sempre presente consolar os enlutados.
Tendo decidido que desta forma a vida no mundo seguiria seu fluxo, Deus não pode. Não por faltar-lhe Poder, mas para ter um relacionamento verdadeiro e de compaixão com a humanidade, “abriu mão de fazê-lo” e estabeleceu que quando o fizer, encerra-se esta era.
Por enquanto, continuemos a desfrutar da presença de Deus, chorando com os que estão de luto, assim como Cristo fez à porta do sepulcro de Lázaro.

7.11.06

Pastor ReLevante

As escrituras revelam a dádiva de Deus à Igreja: os “homens-dons”.
Entre estes, o pastor-mestre concedido como um daqueles que pode capacitar os crentes para a diaconia
[1] no mundo.

Mais especificamente a partir da idade média, a institucionalização da fé cristã não buscou servir ao mundo, mas assumiu a missão de trazer o mundo para debaixo de sua estrutura.
Mudou-se até a linguagem. A evangelização, de levar a Palavra passou à conquista dos povos.

Em virtude da falta de conhecimento, os poderes espirituais recebiam o crédito de serem a causa dos eventos naturais
[2] da física, química e biologia.
A fé institucional considerada a única capaz de codificar as ações espirituais, adquiriu o status de infalível resposta. Demonstrando-se fiel depositária de Deus e fonte exclusiva da verdade limitou-se a ser mestre de si mesma e descartou qualquer outra fonte de conhecimento.

Por outro lado, a sociedade secularizada buscou romper com as fronteiras do conhecimento.
Esta aventura científica desmascarou a maioria dos tais poderes espirituais. Minou o domínio e desacreditou a confiança depositada na fé cristã.
Enquanto a igreja se ensimesmou no conhecimento e lutou para manter o controle da verdade, a ciência se fortaleceu além-fronteira e aos poucos vem desestruturando a fé.

O pastor iludido e deslumbrado por uma fé-institucionalizada torna-se vítima daquilo que defende.
A insistência em ter:
- Uma autoridade dependente de performance, normalmente confundida com unção.
- Um discurso metodologicamente inadequado,
[3]
- Conteúdos sem pertinência à realidade da vida que não satisfazem a saciedade humana
[4].
Em defender:
- Uma estrutura de poder, ou fé-institucionalizada incoerente com o mundo atual.
- A dogmática institucional divinizada
[5]
- A ameaça contra o discordante através das forças espirituais invocadas sobre si
[6],
- A necessidade de títulos ou poderes especiais que lhe configure importância.

Relegará o pastor a uma peça obsoleta e irrelevante para o mundo e a igreja a uma espécie de OVNI dogmático à beira do ostracismo. Porque neste quadro, não dialoga nem debate a respeito dos legítimos conteúdos cristãos, apenas impõe. Não desafia o fiel à reflexão e nem o instrui a lidar com a vida e sua humanidade, apenas aliena-o. Ora oferecendo milagres espasmódicos e emocionalismos confundidos com o poder de Deus, ora enrijecendo a “sã” doutrina.

O cristianismo deve urgentemente dialogar com outras fontes do saber. Resgatar a maravilhosa revelação da fé-serviço. Enfatizar a humanidade do pastor à frente da Igreja, como um simples capacitador dos crentes para exercer a diaconia no mundo. Aquele que abre mão de toda estrutura dogmática e de dominação medievais, que mais conferem status que ministério.
Talvez assim, consigamos demonstrar a esta geração um pouco do amor de Deus.

Os pastores por favor, se “re-levantem”.


[1] Palavra de origem grega definida como serviço.
[2] Uma tempestade, por exemplo, era considerada uma ação de poderes espirituais.
[3] A pedagogia hoje busca a formação do indivíduo, através da transmissão de conhecimento por um processo dialógico (Paulo Freire).
[4] Discursos de soluções instantâneas e pragmáticas para todos os dramas da vida.
[5] Referência à tentativa de estabelecer um padrão para as ações de Deus e tornar a interpretação como verdade absoluta.
[6] O uso indevido do texto: “não toqueis nos ungidos”.