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2.1.16

Reflexões de um quase avô antes de chegar à velhice


Ainda não sei direito como é essa história de ser avô. Um pouco menos ainda, ser idoso.
Mas se tudo correr bem, dentro em pouco, abraçarei ambos os fatos, lembrando que eles não são diretamente dependentes um do outro.
Saberei mesmo como será conforme ocorrer cada um.

Não são coisas que se saibam por antecipação ou teoria.
Ouso dizer algo pelo que já vivi e pelo privilégio de lidar com aqueles que me antecedem. 

Não trato desse assunto por causa do medo da velhice e menos ainda por achar que seja verdadeiro o status quo imposto pela sociedade, na qual se associa idoso ao inútil, mas, pelo fato em si, de que o tempo desperta a consciência pessoal de que ele é voraz.
Nessa condição reflito algumas coisas, as quais sei que enfrentarei muito em breve.

Isso mesmo! 
Começo a falar sobre velhice.
Só por que me torno avô?
Também; mas não!

Muito mais por admitir que não se torna avô na "flor-da-idade"; sim na maturidade.
A um cinquentão não se diz: "eis aí um jovem", mas inexoravelmente: "eis aí um senhor".
Há quem leia isso e diga: "Cinquenta anos? 
Novo ainda.
Não! Não é uma verdade absoluta.
Tomo meu pai como exemplo. Ele morreu aos 73 anos. Alguns ao saberem disso reagem imediatamente afirmando ele ter morrido novo.
Aqui há uma diferença a se considerar.
Ele não precisaria ter morrido nessa idade, porém, não morreu novo.
Não morreu de velhice. O câncer lhe foi mais cruel que o tempo.

Voltando à minha reflexão.
O que espero caso nenhuma realidade cruenta e sanguinária seja mais ágil e forte que o tempo?

Quando de cabelos brancos e/ou calvície se impuserem, rugas pesadas dominarem meu rosto, a pele manchada for chamativa, a lentidão for o padrão dos movimentos, o olhar profundo embaçando, uma sonolência incomodativa nas horas mais impróprias ocorrer. Quando eu estiver dando trabalho àqueles que consideram a velhice um atrapalho à vida e tornar-me silente para não criar mais incômodos do que dizem incomodar, espero que olhem para mim e não vejam um "velho que quase não vive e não nos deixa viver".

Percebam que ali, diante deles, não está um velho.

Ali reside uma criança extremamente criativa que nasceu pobre, há algumas dezenas de décadas, teve uma infância solitária, mas resiliente  inventou um jeito para ser uma criança feliz.

Há ali também um jovem cheio de vitalidade que descobriu a paixão, enamorou-se como num romance cinematográfico, casou-se e viveu a louca aventura do amor perene.

Por baixo dessa casca que mirra pelo tempo, está um homem feito, que lutou para educar os filhos, não mediu esforços para ensiná-los na trilha do viver, trabalhou incansavelmente para sustentá-los e mais ainda, tentar ser um exemplo de quem tem fé, esperança e gana de viver.

Velho? Sim e não.

Dentro de mais uns dias avô, mais um breve tempo um velho, mas mais do que isso, essa caixa-de-carne pálida, que homens e mulheres que vivem ocupam no tempo, sempre é símbolo e soma de tudo o que se é. Não do que se foi, mas de alguém que continua a aventura de ser. 
Verdade. Justiça seja feita, vive de outro modo.

Para alguns, pode até ser que essa caixa-de-carne lutando contra o tempo, tenha apenas uma pequena fresta pela qual ainda/somente respira, mas para a realidade da vida e na intimidade da consciência, sei que ali haverá, como há em todos os idosos, um complexo mundo existencial de quem viveu com intensidade aquilo que é comum aos mortais e para onde todos caminham.

Quando lá estiver, só gostaria que os jovens aprendessem a lição que eu aprendi antes de chegar lá: não olhem para mim com os olhos impostos por uma sociedade utilitarista de que eu seja um velho.

Façam isto não só por mim, mas por vocês mesmos e pelo bom futuro de nossa sociedade. 
Olhem para mim como de fato serei e não como querem determinar que eu seja.
Não serei, como não são todos de avançada idade: "velhos inúteis".
Sempre serei eu: somatória da Vida de um ser-que-vive.

Eu tenho nome, sou uma história e de uma ou outra forma, entre erros e acertos, dei prosseguimento à vida.

Por isso, desde já me esforço para deixar marcas tais, para que aqueles, após mim, não desejem me empurrar para fora da existência, mas queiram me ouvir, buscando saber de quem viveu o bastante, como é existir no mundo.

Eliel Batista