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11.1.10

A Bíblia, a Verdade e a Existência de Deus


Perguntou Pilatos: - O que é a verdade?

Interessante como muitos de nós lemos a Bíblia como um livro de comprovações da existência de Deus.
Neste critério de leitura, quando se quer provar tal coisa, apresentam-se os textos passíveis de confirmação pelo saber humano, tais como o peso do ar no livro de Jó ou a redondeza da Terra em Isaías, além de outros.

Por outro lado, nada se fala sobre os outros inúmeros textos que além de não se poder comprová-los, ainda nos fazem corar de vergonha, pois chegam a ser contraditórios ao saber humano.
Nesta situação é comum tentar desqualificar a ciência, quando não os cientistas, enfatizando suas contradições.

Mas algumas vezes, se esboça a tentativa de um mínimo diálogo entre ciência e religião torcendo o texto bíblico. A partir de uma falácia de que os erros são “aparentes contradições”, se dá ao texto impossível de comprovação o crédito de linguagem simbólica, ou o status de mistério. Quer dizer, em função dos poucos comprovados, exige-se acreditar que os não comprovados também sejam factuais.
Os que assim defendem a Bíblia, não permitem que a ciência faça uso desta mesma regra.

Uma fé que para prevalecer precisa demonizar os opositores, algo muito comum no fanatismo religioso.
Partindo do pressuposto de que os textos bíblicos não podem ter erros, uma das maneiras utilizadas para solucionar o problema é usar o percentual comprovável para validar o todo.
Isto é, temos uma leitura de fé conveniente, não necessariamente lúcida.

Passemos ao texto bíblico:

Logo nas primeiras páginas da Bíblia encontramos uma cobra falante.
Se este texto não estivesse em um Livro Sagrado, seria tomado por fábula pelo simples fato de animais não falarem, nunca se viu tal coisa, não é possível se verificar e trata-se de algo improvável para não dizer impossível.
Mas ao reivindicar o livro como verdadeiro pelo critério do cientificismo empírico, torna-se necessário afirmar em nome deste tipo de fé, que em idos tempos o mundo já foi assim: cobras falavam e possuíam pés sobre os quais andavam.
Isto é tomado por história verídica em função desta lógica e ainda se usa detalhes factíveis como os rios Tigres e Eufrates para afirmar a veracidade.
Aos que assim lêem, restam duas alternativas: credulidade infantil ou fanatismo.

Cobras precisam falar para que a Bíblia seja verdadeira?

Os profetas bíblicos por diversas vezes foram incumbidos de transmitirem a mensagem de Deus, através de histórias inexistentes ou fábulas. Jotão filho de Gideão, profetizando contra Abimeleque conta a fábula de uma reunião das árvores para eleger quem governaria a floresta, e desta forma transmite sua mensagem.
Há outros exemplos como o Leão de Judá ou o Cordeiro que foi morto. Nenhum lugar registra que se trata de uma figura de linguagem, mas não questionamos isto.
Os querubins relatados por Ezequiel com corpo de gente e cabeça de animal, fora do texto bíblico são figuras mitológicas.
Têm-se medo de fazer tal afirmação, mas como para a interpretação do texto não se toma estes seres como literais, são seres mitológicos, servem apenas como símbolos da fé.

A Bíblia é um documento histórico legítimo, independente de seus registros serem factuais e isto por si só já a torna verdadeira.

Façamos um paralelo com a Ilíada de Homero.
A referência a situações específicas não torna o relato factual, mas por outro lado, a criatividade e inventividade sobre as sagas dos deuses, não invalidam o relato como um documento histórico, ou verdadeiro - legítimo.
Isto ajuda a demonstrar que algo pode ser legítimo, sem ser um fato verídico.
Quer dizer que um texto não pode ser validado ou invalidado, pelo critério de seu relato ser ou não verificável. Pode se tratar de uma ilustração, metáfora, epopéia, lenda, fábula ou parábola cujo principal objetivo é transmitir uma mensagem verdadeira e não registrar fatos verdadeiros.

Outra questão: É possível falar a um intelectual de nosso mundo científico que a Bíblia é verdadeira, afirmando-se categoricamente que cobras falavam, ou que pelo menos uma falou porque Deus quis?
Lógico que não! Uma das coisas importantes na fé cristã é não roubar a razão. Servir a Deus é racional.

Mas se admitirmos que cobras não falam e que o objetivo principal do texto não é provar este tipo de coisa, mas transmitir uma verdade de fé - a mensagem de Deus - a verdade transmitida pelo texto será comunicada com muito mais valor e credibilidade.
Aliás, o Apocalipse admite que a serpente do Gênesis, não era uma serpente, mas símbolo de Satanás que João simboliza como o Grande Dragão (Ap 12:9). Vale lembrar que dragão é um animal lendário.

Há um exemplo em Gênesis que pode nos ajudar a enxergar melhor, que ler a Bíblia como factual, ou de forma literalista é complicado até mesmo para aquilo que entendemos na fé cristã sobre Deus.

DEUS DISSE para Abraão que OUVIU DIZER que os pecados de Sodoma e Gomorra eram tão graves que ele ESTAVA DUVIDANDO que fosse possível, por isso FARIA UMA CHECAGEM para AVERIGUAR A VERACIDADE daquilo que ouvira.
(Disse-lhe, pois, o SENHOR: "As acusações contra Sodoma e Gomorra são tantas e o seu pecado é tão grave que descerei para ver se o que eles têm feito corresponde ao que tenho ouvido. Se não, eu saberei" Gn 18:20-21).

Uma leitura direta e objetiva que olha o texto como factual, terá que realizar uma manobra considerável para compreender Deus.
  • - Deus não sabia?
  • - Alguém precisou lhe contar?
  • - Ele não acreditou no que disseram a ele?
Se fizermos prevalecer que Deus sabia, ninguém precisou lhe contar e ele não duvidou, podemos fazer outras perguntas:
  • - Deus mentiu?
  • - Deus blefou para testar Abraão?
  • - Deus fingiu algo para alcançar seus intentos?
Só ficaremos presos a estas questões, se insistirmos em ler o texto, com a lógica da necessidade de que os textos bíblicos sejam factuais.
Mas se para este texto dermos o crédito de linguagem antropomórfica, então levantaremos a questão sobre qual o critério para estabelecer, quais textos são e quais não são figuras de linguagem.

Talvez o maior problema seja, fazer as perguntas erradas para os textos bíblicos.
Podemos por outro lado, entender que os registros bíblicos não foram realizados para provar os fatos, mas para transmitir uma mensagem, desta forma, melhor captaremos a Bíblia como a Palavra de Deus em palavras humanas. Isto é, todas as palavras e expressões humanas sempre serão figuras de linguagem para falar sobre Deus.

Outro exemplo para avaliar é o de Jonas engolido pelo grande peixe.
Alguns protestantes fundamentalistas por lerem com a lógica de que a Bíblia só é verdadeira se for factual, vasculham a terra e os oceanos em busca de uma espécie de peixe ou pelo menos um fóssil capaz de engolir um homem inteiro sem esmagá-lo.

Por que este tipo de busca se torna importante?
Para satisfazer a idéia de que a Bíblia só será verdadeira se provada com eventos verificáveis, e que somente assim pode-se requerer que se creia nela.
O interessante é que Jesus quando se refere a Jonas, não reivindica ao relato ser um fato verossímil, mas apenas um símbolo. Quer dizer, para Jesus indifere se ocorreu ou não, o mais importante é que se trata de um sinal.
O relato aponta para uma verdade. No critério de Jesus o relato de Jonas aponta para algo muito maior, mais importante. O que vale no relato é o seu propósito e não a possibilidade de se verificar.

A partir deste exemplo, podemos afirmar que aquilo que a Bíblia diz sobre Deus, não está registrado para dar provas de verdades empíricas, mas para desafiar a fé em Deus. Afinal, a fé vem pelo ouvir da Palavra e não pelo comprovar os fatos.
Quer dizer, a Bíblia não busca provar nada, nem mesmo que Deus existe, ela desafia as pessoas a crerem. Aquele que quer se aproximar de Deus não busca provas, apenas crê.

Provar que Deus existe, além de perda de tempo é filosoficamente impossível, isto porque algumas coisas seriam necessárias:

Para que pudéssemos provar que Deus existe requereria sua materialização. Se Deus é Espírito e a tudo enche, em sua materialização não haveria espaço para as demais coisas - as coisas criadas - isto é, deixaríamos de existir.
Por outro lado, sua materialização o colocaria limitado - dentro de uma finitude- o que por natureza o faria deixar de ser Deus. Quer dizer que, mesmo que isto ocorresse, não poderíamos provar que aquele finito que testemunhamos seria de fato o Deus Infinito.
Por isso, mesmo a kenosis – esvaziamento – de Deus na encarnação, requer fé. Este para mim é o maior milagre: “sendo Deus esvaziou a si mesmo”.

De outra forma, se Deus quisesse se auto-provar às coisas existentes que Ele mesmo existe, teria que tirar toda e qualquer liberdade da criação, pois não há possibilidade da permanência livre da criatura se o in-criado prevalecer.

Assim, para que as coisas existam e haja liberdade, Deus precisa ser discreto. Tão discreto que se torna possível negá-lo. Por isso, sem fé a relação com Deus é impossível. A fé se torna o desafio que Deus lança ao ser humano para existir e ser livre. “Aquele que mesmo não tendo visto amamos”(1Pe 1:8).

Só existe possibilidade de se negar Deus porque ele não é impositivo e porque todas as suas ações são divinamente humanas. Deus age de maneira tão discreta, que aquele que não tem fé conseguirá explicar tudo sem Deus, mas aquele que crê, não conseguirá respirar sem desfrutar de sua presença.

O desafio maior do cristão não é provar que Deus existe, mas é existir em Deus, isto é, viver pela fé.
Não é provar que tudo o que contém na Bíblia pode ser verificado cientificamente, mas crer na sua mensagem que nos desvela o Deus em Cristo.

Disse Jesus: “E são as Escrituras que testemunham a meu respeito; contudo, vocês não querem vir a mim para terem vida”. (João 5).

1.1.10

Entre desejos e realizações para o Ano Novo


A passagem de ano nos dá a sensação de posse.
Aquela que nos informa que temos a oportunidade de recomeçar. Refazer o que não foi efetivado, o que deixamos de fazer ou os planos frustrados. Nesta época abrimos na consciência a possibilidade de que tudo pode ser revisto na perspectiva de se tentar novamente.

Ainda bem que temos esta experiência de passagem de ano.
Penso ser este um ritual mítico. O mito de que o tempo passa.
Começa e termina em fases possibilitando de alguma maneira misteriosa recompor e também o da existência de pausas que possibilitam brecar o tempo e assim contarmos sua passagem.

Também gera a sensação de certo controle. Numa espécie de “bricolagem do tempo” podemos juntar os pedaços e fazer algo mais especial que antes, nos sentimos senhores. Na verdade podemos fazer isto a qualquer hora, em qualquer ponto ou fase de nossas vidas, mas preferimos a passagem de ano.

Infelizmente divididos entre o ser e o fazer corremos o risco de nos iludirmos nesta passagem. Relativizando o poder das ações e superestimando o poder dos desejos e sonhos, desejamos a todos e a nós mesmos sorte e pensamentos positivos apostando que isto influencie o futuro. Mas tudo o que fica apenas nos desejos, morre asfixiado no peito das realizações.

Para este ano quero a consciência da minha fragilidade diante do tempo:

  • O tempo não passa e é por isso que não o paramos. Nós passamos. Nesta passagem somos aprendizes.
  • É inexorável que como aprendizes estamos sujeitos a erros. O mais importante não é tentar evitá-los, mas sim saber como desenvolvemos a história e que tipo de discípulo cada um foi.
  • Vale a pena lutar pelos desejos. Eles dão significado e sentido ao próprio viver e requerem o investimento da própria vida, apesar das incertezas do futuro.
  • A qualquer momento é possível recomeçar.
  • Não precisamos viver inseguros por existir alguém que deseja a nossa queda ou nosso lugar. Sempre existirá alguém mais hábil pronto a assumir. O mais importante é que tipo de marca deixamos enquanto permanecemos.
Mas para este ano também quero a consciência que minha humanidade requer certa dose de inconsciência diante do tempo:
  • Quero saber discernir as saudades que não devem ser matadas.
  • Me iludir com os sonhos que devem permanecer como tal.
  • Me pegar desejando coisas que não serão realizadas, mas servem como molas propulsoras da perseverança.
Enfim, espero ao viver este próximo ano, aprender que ser uma pessoa integrada é mesclar consciência e inconsciência, certezas e dúvidas e que a realidade mistura verdade e ilusão.
Por isso quero ter uma fé madura que é convicta em qualquer situação sobre o amor de Deus, mas quero também a fé infantil que cheia de “porquês” sente medo e por isso vez por outra inocentemente deseja o inusitado.

Se conseguir isto, quem sabe deixarei a vida fluir e conseguirei desfrutar de seu melhor e poderei encerrar o ano dizendo que vivi o melhor de minha vida. É um risco, mas não quero deixar de viver porque insisti em ter o controle sobre o tempo.

Numa metáfora, não quero deixar de tentar segurar água entre os dedos nos lagos existenciais, só por saber que isto não é possível ou por considerar inútil ou infantil. É divertido, deslumbrante e poético. Faz parte da criatividade que inventiva transforma o óbvio em maravilhas. É a vida.

Que Feliz Ano Novo, de fato, seja fato.
Eliel Batista.