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27.11.09

CRER EM DEUS QUE TEM O PÉ NO CHÃO


A relação do ser humano com qualquer divindade sempre estabelece uma distância a ser superada.
Razão porque toda e qualquer religião propõe alguma maneira de se aproximar da divindade.

A superação perpassa por vários caminhos. Da perfeição, do poder, da grandeza, da majestade, da santidade, da justiça ou da imaterialidade. Deus passa a ser conhecido pela negação: não é e não pertence a nada do que se possa imaginar na existência humana.
Neste contexto, a questão salvífica anuncia caminhos que eliminem a distância entre o ser humano e a divindade.

O cristianismo nega esta negação: Não há uma distância entre criatura e o Criador.

A teologia cristã fala de um Deus inserido, ativo e integrado na realidade humana. Por mais que a divindade cristã se descreva também pela negação, o relacionamento é a partir da realidade ou de toda existência humana. E vivemos esta realidade e não a divina.

A teologia cristã não é uma teologia de livros que não se aplicam à existência como ela se dá.
De que vale uma Teologia profunda, mas em tese?
A tese no cristianismo perde o valor diante daquilo que é chamado de vida cristã, por isso o desafio cristão desde sua gênese é perceber Deus e sua graça e não defini-lo.
Dificuldade encontrada por muitos, que ao olharem para Jesus o viam apenas como um pobre filho de carpinteiro megalomaníaco. “
Não é este o carpinteiro, filho de Maria e irmão de Tiago, José, Judas e Simão? Não estão aqui conosco as suas irmãs?" E ficavam escandalizados por causa dele”. - Mc 6:3.

Para o cristianismo descrever Deus como Santo, Perfeito, Poderoso, mas inacessível é a negação da própria fé.
Proponho então, que dediquemos menos tempo em uma Teologia em tese, ou como uma negação da existência como a experimentamos e comecemos a experimentar Deus onde estamos e onde ele está: inserido na história, participante da existência.
Alguns chamarão isto de humanismo, outros de antropocentrismo e muitos outros nomes utilizados negativamente para desmerecer a opinião alheia, mas não me importo.

Quando a Bíblia diz: “
Criou o Senhor os céus e a terra”, está declarando que não existe nenhuma distância a ser superada, pelo contrário está dizendo que Deus se inseriu na criação. Segundo a Bíblia Hebraica se ele criou os céus e nele estendeu sua morada, logo, Deus se insere naquilo que criou e se sujeita a esta realidade.
Se alguém não aceita isto, nega a Jesus de Nazaré como o Deus encarnado.
Quando a Bíblia ainda diz que todos os dias
- algo criado- ele passa pelo jardim - também criado -, anuncia que Deus estava ali, e tão próximo que podia se esconder dele atrás de uns arbustos.

Quando um dos mais antigos cânticos do cristianismo diz que “
Sendo Deus (...) esvaziou-se a si mesmo e assumiu a forma de servo”, está anunciando que Deus é percebido na criação e não em sua grandeza.
(...)
Ele próprio está sujeito à fraqueza. Hb 5:2

Salvação no cristianismo não é uma distância entre Deus e os homens a ser superada, mas sim um compromisso a ser assumido.
Compromisso com a vida. Compromisso de amor.
Aqueles que diante da vida não se acham, não se encontram e não se vêem, pois tragicamente feridos desistiram de si mesmos ou foram empurrados para a não existência. Aqueles que se encontram dilacerados, são salvos – curados - para que vivam com integridade e disposição de vida.

No cristianismo TODOS os pecados foram perdoados, portanto não são apenas os pecados que uma pessoa comete, mas também aqueles que cometeram contra ela.
Pecado não é fazer algo errado ou simplesmente desobedecer a uma lei impossível de ser praticada ou ainda, a pior de todas as descrições - nascer e ainda ter uma dívida que outros contraíram.

Pecado é a fraqueza de se ser humano que nos manieta e impossibilita que avancemos. É querer viver com profundidade e não conseguir, querer amar e ser sufocado. A fraqueza de quando frustrado desistir da vida e acabar pagando o mal com o mal. Quando injustiçado desejar-se uma divindade que julga, condena e executa o juízo. Disto precisamos a cada dia sermos libertos, e para isto Cristo se manifestou.

A graça de Deus nos salva porque nos ensina a viver como Cristo.
Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. Ela nos ensina a renunciar à impiedade e às paixões mundanas e a viver de maneira sensata, justa e piedosa nesta era presente, enquanto aguardamos a bendita esperança: a gloriosa manifestação de nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo”. - Tito 2:11-13.

Em Jesus não há pecado, porque absolutamente nada cometido contra ele, nenhuma frustração, injustiça, desamor ou violência, o fizeram desistir de viver e dedicar sua vida à vida, nem de amar até o último suspiro.
Ele não deixou de ser quem era por nada, nem mesmo por causa dos pecados, das fraquezas humanas.
Vocês sabem que ele se manifestou para tirar os nossos pecados, e nele não há pecado. Todo aquele que nele permanece não está no pecado. Todo aquele que está no pecado não o viu nem o conheceu”. - 1 Jo 3:5-6.

Ser humano para ele não é uma questão de falência, mas de dignidade divina.
Nossas fraquezas podem explicar porque pecamos, mas não justificam.
Jesus nos ensina que é possível, mesmo em fraqueza viver com grandezas divinas, até porque nossas limitações atraíram a compaixão divina.
Na verdade, foi crucificado em fraqueza, mas vive pelo poder de Deus. Da mesma forma, somos fracos nele, mas, pelo poder de Deus, viveremos com ele para servir vocês”.- 2 Co 13:4

Mas ele me disse: "Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza".- 2 Co 12:9.

Enfim, Deus é Santo, Perfeito, Imutável, mas eu só consigo conhecê-lo a partir das minhas fracas e inadequadas interpretações. Meu jeito desajeitado de descrever é insuficiente.
Palavras são construções humanas, portanto formam no máximo uma descrição tola e definições insossas.
Ser objetivo em relação a Deus é torná-lo um objeto, sendo assim, só me resta amá-lo na proporção revelada em Cristo, que é tudo o que preciso saber sobre Deus e sobre o viver. Deus estava em Cristo anunciando a paz, revelando o amor e demonstrando-se plenamente na criação.

Eliel Batista

10.11.09

LUTAR E PERDER? - A FORÇA DE UM HERÓI


Quem luta com Deus e ganha, sempre perde. Assim é como eu interpreto algumas histórias de homens que lutaram com Deus.

A saga mais conhecida quando se fala neste assunto é a de Jacó que lutou com Deus como um príncipe e venceu, tanto que seu nome de enganador (Jacó), passou a ser Israel.
Mas o que escapa da atenção de alguns pregadores, principalmente os da prosperidade, é que esta luta de Jacó se dá numa categoria bem diferente do usual. Nem quero aqui citar as linhas de interpretações judaicas que divergem sobre quem era o “homem” com quem ele lutou. Vou direto para o profeta Oséias que informa que Jacó “No ventre da mãe segurou o calcanhar de seu irmão; como homem lutou com Deus. Ele lutou com o anjo e saiu vencedor; chorou e implorou o seu favor” (12:3-4). Jacó em prantos, arrebentado implora o favor - busca a charis divina - palavra que indica o favor e a beleza de Deus para com o mundo. Uma ousadia bem diferente.

Mas temos ainda outros personagens que me parece, estabelecerem o paradigma da luta com Deus.

O primeiro que destaco na ordem cronológica é Abraão. Lutou com Deus em favor de Sodoma e Gomorra. Ele não queria ver uma cidade destruída e não acreditava ser possível não haver gente “boa” o suficiente para manter a cidade em pé e Deus não agir com justiça.

Outra pessoa foi Moisés. Ele lutou em favor do povo que saiu do Egito e não iria conseguir chegar em Canaã pela dureza de coração. Ele não poderia permitir que o grande projeto falhasse. Mesmo diante da infidelidade do povo, ele lutou insistentemente com Deus, chegando a uma ousadia sem precedentes ao dizer para Deus arrepender-se do mal (Ex 32:12).

A história destes homens Abraão, Moisés e Jacó revela algumas coisas intrigantes.

Jacó saiu vencedor?
Sim em questão de fé. Não em questão de sucesso e realização de desejos. Jacó passou a maioria dos seus anos depois desta luta em tristezas de morte. Perdera o seu filho amado José, passou fome e morreu em terra estranha.

Abraão intercedeu por Sodoma, mas ela foi destruída. Uma maneira que se usa para tentar provar que foi vencedor é dizer que sua intenção era apenas com sua família. É a mesma coisa que dizer que Abraão, um pai da fé egoísta, estava pensando em si mesmo. Ele não conseguiu poupar a cidade e morreu em terra estranha e sem herdar um espaço do tamanho do pé. (At 7:5)

Resta-nos Moisés, cuja principal luta na qual gastou sua vida, foi para o povo chegar à Canaã. Exceto Josué e Calebe nem mesmo ele entrou na terra prometida, todos morreram. Mas no caso dele é mais grave ainda, porque lhe é mostrado o lugar que depois de todo o esforço e grande luta com Deus, não conquistou.

Diríamos que suas lutas foram em vão por não terem sido bem sucedidos?
Não! Diria que eles foram heróis da fé porque foram fiéis.

Todos estes viveram pela fé, e morreram sem receber o que tinha sido prometido; viram-no de longe e de longe o saudaram”. – Hb 11:13
Todos estes receberam bom testemunho por meio da fé; no entanto, nenhum deles recebeu o que havia sido prometido”. – Hb 11:39

Um herói da fé não é aquele que consegue resultados, ou que Deus como um gênio da lâmpada satisfaça seus desejos. Não é aquele que consegue tudo o que intenta. Herói na fé é aquele que tudo falhando e lutando com Deus, ainda assim faz a mesma coisa que o Deus que ele crê faria: dá sua vida para que outros, mesmo indignos vivam.

Quando aquilo que está acontecendo na história parece ser da vontade de Deus, mas é um atentado contra a vida, é um grande mal contra o ser humano, o herói da fé é contra, mesmo que todos digam e todas as pistas apontem, ser aquilo da vontade de Deus.

Portanto, o herói da fé não mata em nome de Deus, prefere morrer. O herói da fé revê seus ideais catastróficos do fim dos tempos que imagina que quanto pior melhor. Que se o mundo estiver se acabando, pessoas estiverem morrendo aos milhões de pragas, pestes e catástrofes, que quanto mais desastres e mortandade acontecerem mais provas de que Deus está próximo (?).

Para o herói na fé a morte presente é sinal de que Deus está distante, porque o Deus cristão é a ressurreição e a vida e não se manifesta entre os homens para roubar, matar e destruir, mas seu espírito é de salvação (o Filho do homem não veio para destruir a vida dos homens, mas para salvá-los - Lc 9:54).
Porque quanto mais próximo de Deus, mais vida e não morte.

Mesmo que esteja escrito no Apocalipse, o herói da fé cristão, que tem os mesmos desejos e projetos de Jesus diz:
- Não concordo! Sou contra guerra, destruição e morte, pois represento um reino que é de Cristo, a Vida.