
UTOPIA
Considero a utopia (Gr.não-lugar) a partir do livro de mesmo título de Thomas More como um tipo de literatura específica que na maioria das vezes constitui-se de uma crítica ao lugar em que o autor vive e cheia de sugestões ideais que anseiam por mudanças radicais na sociedade.
Mesmo não usando a expressão utopia, o texto “A República” de Platão, um discurso dialético socrático escrito no IV séc. a.C. já imaginava um lugar assim.
Se entendermos o ambiente déspota romano vivido pela igreja, amalgamado pelo mundo grego e traçarmos uma ponte entre os cristãos oprimidos que ansiavam pelas mudanças propostas por Cristo, podemos perceber que a solução apresentada é uma nova sociedade. A polis desejada por todos tinha seu defeito de ser excludente, mas se resolvida esta questão se apresentava como uma excelente solução para a sociedade. Não é de se estranhar que para a fé as mudanças fossem simbolizadas por uma cidade, no caso, Jerusalém Celestial.
Interessante observar que a narrativa bíblica do Gênesis descreve Caim como idealizador da primeira cidade numa terra de peregrinos (Node cf Gn 4:16). Ele um condenado a escravo da terra passa a ser proprietário de uma cidade. A vida na cidade se desenvolve numa relação de poder. Poderosos assumem o comando (Gn 4:23-24), escravizam os fracos e utilizam-se de seu trabalho para aumentar o seu poder com um discurso do bem, como vemos na história de Ninrode e sua Babel.(Gn 10:8-9).
Em oposição a isto, temos a narrativa de Betel que não é uma cidade que Jacó construíra, mas um lugar onde Deus se apresentara (Gn 12:8 e 28:12).
Percorre assim toda a narrativa bíblica, entre a Babilônia (Babel), cidade símbolo do mal e Jerusalém símbolo da cidade amada de Deus.
Bem desenhada , com medidas exatas e com suas doze portas sempre abertas para todos os pontos cardeais, Jerusalém é uma cidade perfeita. Projeto de Deus e não de homens. A cidade celestial não escraviza, mas abençoa todos os povos.
Encontramos esta linguagem dialética do Gênesis no Apocalipse. A cidade de Deus se opõe à cidade dos monstros que devoram a terra. O Apocalipse, de forma simplista, pode ser visto como um conjunto interligado de metáforas, que desenham a vitória definitiva dos cidadãos justos da pólis, que honram e guardam as leis, sobre os desobedientes, considerados momentaneamente vitoriosos, mas proscritos do futuro glorioso. Por fim, a fidelidade deve ser privilegiada mesmo que não traga nenhum benefício imediato, porque a cidade de Deus só pode ser construída em cima da pedra “fides”.
Penso que a melhor maneira de se ler o Apocalipse não é apostar na cidade utópica como literal, mas deixá-la como utopia, e tentar destacar as críticas ao sistema e as propostas apresentadas por João.
Estabelecer a utopia de João como um fato a acontecer, em minha opinião empobrece o sentido e gera uma fé pouco prática e muito do mundo dos sonhos. A Utopia se vista dentro de sua proposta utópica, pode mover o humano na luta para um mundo melhor, mas do contrário pode adoecer, como demonstrada pela história. Filosoficamente falando, se for para literalizar uma metáfora, talvez seja melhor fazê-lo com a Tragédia, já que esta enobrece o herói pela coragem de viver pela sua consciência mesmo injustiçado, enquanto que a Utopia literalizada aguarda o destino fatal se cumprir.
É interessante observar que a igreja ansiou pela manifestação imediata da gloriosa cidade descendo dos céus, mas anacronicamente os crentes sempre desejaram que este evento retardasse para construir suas cidades aqui na terra. Quando há este descompasso entre querer uma grande mudança, mas empurrá-la para mais tarde, cria-se uma obsessão.
Para a psquiatria, a obsessão é uma mania, um pensamento fixo recorrente. No dicionário, entre as definições destaco duas: idéia fixa e preocupação contínua. Dependendo da obsessão pode-se perder o senso crítico.
MILÊNIO
Precisamos considerar alguns aspectos da antiguidade.
A compreensão de tempo não se dava como temos hoje, por isso não há ênfase em calendários e relógios como fazemos. (Francesco Maiello – A medida de outros tempos – 1987)
Os etruscos, egípcios e mesopotâmios mediam o tempo em gerações.
A vida para os antigos era vista através dos ciclos, tanto das estações em que a natureza morre e ressurge - inverno-primavera - como o tempo que passamos por esta terra. A vida era vista pela perspectiva qualitativa e não quantitativa. Aquele que vivesse melhor era considerado como o que mais vivera. Temos a descrição em Gênesis de Enoque que viveu de tal maneira que nem se considera sua morte, mas sua eternidade. (Gn 5:24)
Hoje quando nos referimos a algo muito distante no tempo, usamos a expressão “há séculos” .
Como podemos entender este tipo de linguagem na Bíblia, se para seus escritores o tempo se referenciava por outros valores?
O tempo na Bíblia descreve a vida e não os anos.
Na Bíblia, alcançar um século de vida é extremamente virtuoso, apesar de ser também enfastio o que restar após os setenta anos.
O indivíduo tem um ciclo de vida e seu clã é a possibilidade de prolongar sua existência. A mesma relação entre o imperador e o império. A dinastia é um imperador criando um ambiente – o império- e sobrevivendo nele.
Assim, o século bíblico não marcava um período cronológico de cem anos, mas um ciclo de existência individual e o milênio - dez séculos – uma expressão de longevidade incontável, pois nele cabem milhões de existências.
Portanto, o milênio não é uma cronologia, mas um ciclo existencial maior que abrange diversos outros ciclos menores, perfazendo o senso qualitativo da vida.
O milênio é uma utopia que não enfatiza um lugar, mas que consagra o tempo. Um tempo de existência infindo.
O tempo na questão bíblica é sagrado como a vida, por isso a medida de tempo é da realidade da vida. Por exemplo: uma memória dolorida do passado, quando contada é descrita como algo extremamente remoto, colocando a dor distante como no caso de Jó, que é colocado como contemporâneo de seres mitológicos ou jurássicos como o Leviatã e Beemote, respectivamente . Por outro lado, o reino vindouro de paz está próximo, colocado ao alcance de todos no agora.
Como a existência tem seus ciclos maiores do que um indivíduo, mesmo alguém conseguindo transpor o tempo com seus anos de vida, ele seria limitado pelo ciclo maior. Assim Matusalém, apesar de nada ter feito para merecer a morte e ter conseguido atravessar o ciclos dos séculos, foi solapado pelo milênio. Antes de completar mil anos sofreu o dilúvio.
O milênio era considerado o ciclo maior, pois equivale a 10 vezes cem. Nada escapa do ciclo maior. Nem mesmo o reino milenar do messias, que apesar de longo é atacado pelos inimigos.
Reinar mil anos é ser comandante do tempo.
“Quem morrer com cem anos morrerá jovem” (Isaías 65:20). A longevidade é contada em cem anos e a vida total em mil anos.
A interpretação do fim era vista pela perspectiva cíclica da natureza, por isso numa cultura em que o ar sustenta a vida, a água é sua origem e o fogo é o seu fim, surge a interpretação do fim nos moldes da interpretação da vida.
Como exemplo, em Jó o fim se apresenta com granizo, e em Pedro com fogo. Mas de qualquer maneira, é uma interpretação a partir da percepção da natureza.
Algumas características que percebo no Apocalipse e que podem auxiliar em sua leitura:
· Toda descrição dos poderosos, por mais que exerça algumas atitudes bondosas, é de uma figura pitoresca e monstruosa.
· Todo o fraco, por mais injustiçado e sofredor é descrito como alguém que será justiçado.
· Os poderosos se apresentam como uma resposta para o mundo com rosto amável, mas são monstros de maldade e Cristo inversamente à eles se apresenta com uma descrição assustadora de poder, mas envolve-se no drama como uma figura frágil que é o único capaz de comandar a história.
· Não há forças ocultas que se movem por trás dos fracos e oprimidos, mas há forças avassaladoras que controlam e movem os poderosos e o mal.
· O Bem deixa as ações livres, o Mal controla cada situação.
· Os poderosos têm exércitos, os fracos somente a palavra.
· Os poderosos tentam manter intacto o passado, os fiéis constroem o futuro.
· O que mantém os poderosos é um sistema perverso, o que mantém os fiéis é Deus.
· Os poderosos são socorridos pelas riquezas, os fiéis pela esperança
