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30.9.09

O FIM DO MUNDO III - O Apocalipse em outra perspectiva


UTOPIA

Considero a utopia (Gr.não-lugar) a partir do livro de mesmo título de Thomas More como um tipo de literatura específica que na maioria das vezes constitui-se de uma crítica ao lugar em que o autor vive e cheia de sugestões ideais que anseiam por mudanças radicais na sociedade.

Mesmo não usando a expressão utopia, o texto “A República” de Platão, um discurso dialético socrático escrito no IV séc. a.C. já imaginava um lugar assim.

Se entendermos o ambiente déspota romano vivido pela igreja, amalgamado pelo mundo grego e traçarmos uma ponte entre os cristãos oprimidos que ansiavam pelas mudanças propostas por Cristo, podemos perceber que a solução apresentada é uma nova sociedade. A polis desejada por todos tinha seu defeito de ser excludente, mas se resolvida esta questão se apresentava como uma excelente solução para a sociedade. Não é de se estranhar que para a fé as mudanças fossem simbolizadas por uma cidade, no caso, Jerusalém Celestial.


Interessante observar que a narrativa bíblica do Gênesis descreve Caim como idealizador da primeira cidade numa terra de peregrinos (Node cf Gn 4:16). Ele um condenado a escravo da terra passa a ser proprietário de uma cidade. A vida na cidade se desenvolve numa relação de poder. Poderosos assumem o comando (Gn 4:23-24), escravizam os fracos e utilizam-se de seu trabalho para aumentar o seu poder com um discurso do bem, como vemos na história de Ninrode e sua Babel.(Gn 10:8-9).

Em oposição a isto, temos a narrativa de Betel que não é uma cidade que Jacó construíra, mas um lugar onde Deus se apresentara (Gn 12:8 e 28:12).


Percorre assim toda a narrativa bíblica, entre a Babilônia (Babel), cidade símbolo do mal e Jerusalém símbolo da cidade amada de Deus.

Bem desenhada , com medidas exatas e com suas doze portas sempre abertas para todos os pontos cardeais, Jerusalém é uma cidade perfeita. Projeto de Deus e não de homens. A cidade celestial não escraviza, mas abençoa todos os povos.

Encontramos esta linguagem dialética do Gênesis no Apocalipse. A cidade de Deus se opõe à cidade dos monstros que devoram a terra. O Apocalipse, de forma simplista, pode ser visto como um conjunto interligado de metáforas, que desenham a vitória definitiva dos cidadãos justos da pólis, que honram e guardam as leis, sobre os desobedientes, considerados momentaneamente vitoriosos, mas proscritos do futuro glorioso. Por fim, a fidelidade deve ser privilegiada mesmo que não traga nenhum benefício imediato, porque a cidade de Deus só pode ser construída em cima da pedra “fides”.


Penso que a melhor maneira de se ler o Apocalipse não é apostar na cidade utópica como literal, mas deixá-la como utopia, e tentar destacar as críticas ao sistema e as propostas apresentadas por João.

Estabelecer a utopia de João como um fato a acontecer, em minha opinião empobrece o sentido e gera uma fé pouco prática e muito do mundo dos sonhos. A Utopia se vista dentro de sua proposta utópica, pode mover o humano na luta para um mundo melhor, mas do contrário pode adoecer, como demonstrada pela história. Filosoficamente falando, se for para literalizar uma metáfora, talvez seja melhor fazê-lo com a Tragédia, já que esta enobrece o herói pela coragem de viver pela sua consciência mesmo injustiçado, enquanto que a Utopia literalizada aguarda o destino fatal se cumprir.


É interessante observar que a igreja ansiou pela manifestação imediata da gloriosa cidade descendo dos céus, mas anacronicamente os crentes sempre desejaram que este evento retardasse para construir suas cidades aqui na terra. Quando há este descompasso entre querer uma grande mudança, mas empurrá-la para mais tarde, cria-se uma obsessão.

Para a psquiatria, a obsessão é uma mania, um pensamento fixo recorrente. No dicionário, entre as definições destaco duas: idéia fixa e preocupação contínua. Dependendo da obsessão pode-se perder o senso crítico.


MILÊNIO

Precisamos considerar alguns aspectos da antiguidade.


A compreensão de tempo não se dava como temos hoje, por isso não há ênfase em calendários e relógios como fazemos. (Francesco Maiello – A medida de outros tempos – 1987)

Os etruscos, egípcios e mesopotâmios mediam o tempo em gerações.

A vida para os antigos era vista através dos ciclos, tanto das estações em que a natureza morre e ressurge - inverno-primavera - como o tempo que passamos por esta terra. A vida era vista pela perspectiva qualitativa e não quantitativa. Aquele que vivesse melhor era considerado como o que mais vivera. Temos a descrição em Gênesis de Enoque que viveu de tal maneira que nem se considera sua morte, mas sua eternidade. (Gn 5:24)


Hoje quando nos referimos a algo muito distante no tempo, usamos a expressão “há séculos” .


Como podemos entender este tipo de linguagem na Bíblia, se para seus escritores o tempo se referenciava por outros valores?


O tempo na Bíblia descreve a vida e não os anos.

Na Bíblia, alcançar um século de vida é extremamente virtuoso, apesar de ser também enfastio o que restar após os setenta anos.

O indivíduo tem um ciclo de vida e seu clã é a possibilidade de prolongar sua existência. A mesma relação entre o imperador e o império. A dinastia é um imperador criando um ambiente – o império- e sobrevivendo nele.

Assim, o século bíblico não marcava um período cronológico de cem anos, mas um ciclo de existência individual e o milênio - dez séculos – uma expressão de longevidade incontável, pois nele cabem milhões de existências.

Portanto, o milênio não é uma cronologia, mas um ciclo existencial maior que abrange diversos outros ciclos menores, perfazendo o senso qualitativo da vida.

O milênio é uma utopia que não enfatiza um lugar, mas que consagra o tempo. Um tempo de existência infindo.


O tempo na questão bíblica é sagrado como a vida, por isso a medida de tempo é da realidade da vida. Por exemplo: uma memória dolorida do passado, quando contada é descrita como algo extremamente remoto, colocando a dor distante como no caso de Jó, que é colocado como contemporâneo de seres mitológicos ou jurássicos como o Leviatã e Beemote, respectivamente . Por outro lado, o reino vindouro de paz está próximo, colocado ao alcance de todos no agora.


Como a existência tem seus ciclos maiores do que um indivíduo, mesmo alguém conseguindo transpor o tempo com seus anos de vida, ele seria limitado pelo ciclo maior. Assim Matusalém, apesar de nada ter feito para merecer a morte e ter conseguido atravessar o ciclos dos séculos, foi solapado pelo milênio. Antes de completar mil anos sofreu o dilúvio.

O milênio era considerado o ciclo maior, pois equivale a 10 vezes cem. Nada escapa do ciclo maior. Nem mesmo o reino milenar do messias, que apesar de longo é atacado pelos inimigos.

Reinar mil anos é ser comandante do tempo.

“Quem morrer com cem anos morrerá jovem” (Isaías 65:20). A longevidade é contada em cem anos e a vida total em mil anos.


A interpretação do fim era vista pela perspectiva cíclica da natureza, por isso numa cultura em que o ar sustenta a vida, a água é sua origem e o fogo é o seu fim, surge a interpretação do fim nos moldes da interpretação da vida.

Como exemplo, em Jó o fim se apresenta com granizo, e em Pedro com fogo. Mas de qualquer maneira, é uma interpretação a partir da percepção da natureza.


Algumas características que percebo no Apocalipse e que podem auxiliar em sua leitura:


· Toda descrição dos poderosos, por mais que exerça algumas atitudes bondosas, é de uma figura pitoresca e monstruosa.

· Todo o fraco, por mais injustiçado e sofredor é descrito como alguém que será justiçado.

· Os poderosos se apresentam como uma resposta para o mundo com rosto amável, mas são monstros de maldade e Cristo inversamente à eles se apresenta com uma descrição assustadora de poder, mas envolve-se no drama como uma figura frágil que é o único capaz de comandar a história.

· Não há forças ocultas que se movem por trás dos fracos e oprimidos, mas há forças avassaladoras que controlam e movem os poderosos e o mal.

· O Bem deixa as ações livres, o Mal controla cada situação.

· Os poderosos têm exércitos, os fracos somente a palavra.

· Os poderosos tentam manter intacto o passado, os fiéis constroem o futuro.

· O que mantém os poderosos é um sistema perverso, o que mantém os fiéis é Deus.

· Os poderosos são socorridos pelas riquezas, os fiéis pela esperança

17.9.09

ENXERGANDO O AMOROSO PAI DE JESUS NOS RELATOS DO ANTIGO TESTAMENTO.


Para o cristão, Jesus é a imagem do Deus invisível e nele habita toda a plenitude divina.

Isto por si só, já nos posiciona a contrastar tudo o que se pensa ou pensava sobre Deus à luz de Cristo.

Se Jesus não veio mudar a lei, mas de fato cumpri-la, então, nas ações de Jesus vemos como os filhos de Deus devem viver segundo a Lei. Podemos nisto saber o que de fato Deus intentou durante todo o tempo com seu povo.

Como exemplo, vemos na Lei a ordenança de Moisés de olho por olho, mas com Jesus observamos que isto não tem a ver com Deus, mas com o homem.

Levítico 24: 19-20 Se alguém ferir seu próximo, deixando-o defeituoso, assim como fez lhe será feito: fratura por fratura, olho por olho, dente por dente. Assim como feriu o outro, deixando-o defeituoso, assim também será ferido.

Mateus 5: 38-39 "Vocês ouviram o que foi dito: 'Olho por olho e dente por dente'.

Mas eu lhes digo: Não resistam ao perverso. Se alguém o ferir na face direita, ofereça-lhe também a outra.

Alguém poderia argumentar que em Levítico está escrito “disse o Senhor a Moisés”, e Deus não muda.

Quanto a isto, encontramos Jesus interpretando a Lei de uma maneira completamente diferente. Mesmo escrito a frase “disse o Senhor”, Jesus considera um escrito humano. Nossa fé nos dá a convicção de que Jesus não contrariou o Pai e nem mudou Deus.

Como Cristo vê as Escrituras:

Quando Jesus faz referência ao Antigo Testamento ele cita com as seguintes expressões: “Na lei de vocês está escrito”, ou “na Lei que Moisés lhes deu está escrito”.

Quando faz referência usando a expressão “Escritura”, ele valida o sentido do texto e não o texto em si.

Por isso ele diz: “Está escrito, eu porém vos digo”. Isto significa que Jesus a exata expressão de Deus, que revela toda a vontade do Pai e não faz nada de si mesmo, dá a verdadeira intenção das escrituras.

Observamos no Antigo Testamento um conflito entre dois ministérios. O sacerdotal e o profético. Os sacerdotes são os codificadores da Lei. Mantém-na, interpretam-na e exigem seu cumprimento. Os profetas questionam isto e trazem uma aplicação diferente. Sempre acusando os sacerdotes de desviarem-se de Deus e convocando-os a retornarem de seus maus caminhos.

Por isso Jeremias diz algo contrário à Lei sacerdotal:

Jeremias 7: 22-23 Quando tirei do Egito os seus antepassados, nada lhes falei nem lhes ordenei quanto a holocaustos e sacrifícios. Dei-lhes, entretanto, esta ordem: Obedeçam-me, e eu serei o seu Deus e vocês serão o meu povo. Vocês andarão em todo o caminho que eu lhes ordenar, para que tudo lhes vá bem.

Assim temos diversos textos que denunciam o culto sacerdotal como sendo contrários a Deus. Veja que Isaías diz que Deus não faz questão, não deseja e é até mesmo contra sacrifícios.

Isaías 1: 11 "Para que me oferecem tantos sacrifícios?", pergunta o SENHOR. "Para mim, chega de holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos gordos. Não tenho nenhum prazer no sangue de novilhos, de cordeiros e de bodes!

Diante da experiência do pecado, o salmista percebe que todo o culto sacerdotal, por mais piedoso que seja e carrega o nome de Deus, não responde à vida:

Salmo 51: 16 Não te deleitas em sacrifícios nem te agradas em holocaustos, se não eu os traria.

A imagem sanguinolenta de Deus não corresponde ao grito do profeta que diz que Ele não se agrada na morte, nem mesmo do ímpio.

Ezequiel 18: 23 Teria eu algum prazer na morte do ímpio? Palavra do Soberano, o SENHOR. Ao contrário, acaso não me agrada vê-lo desviar-se dos seus caminhos e viver?

Ezequiel 33: 11 Diga-lhes: Juro pela minha vida, palavra do Soberano, o SENHOR, que não tenho prazer na morte dos ímpios, antes tenho prazer em que eles se desviem dos seus caminhos e vivam. Voltem! Voltem-se dos seus maus caminhos! Por que o seu povo haveria de morrer, ó nação de Israel?

Dado ao fato de que Israel foi chamado para se converter dos falsos deuses para o Deus verdadeiro, toda sua expressão e compreensão religiosa precisa ser interpretada à luz de sua própria época. O fato de Israel ser escolhido por Deus como povo, não o isenta de ter uma religiosidade que interpreta Deus, segundo sua cultura, segundo o meio em que vive.

De um lado o cânon das escrituras resultado de um estudo minucioso, e de outro o Cristo a expressão do Pai. Se o relato do texto conflita com a pessoa de Cristo, mesmo o texto dizendo ser Deus, o que de fato revela Deus é a pessoa de Jesus, por isso a fé cristã escolhe Jesus e não o texto.

Conforme ele mesmo nos ensinou:

João 5:39 Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito;

O cristão não tem uma experiência com Deus por causa da Bíblia, mas por causa de Cristo. Vamos as escrituras por causa da razão maior, a pessoa, a mensagem encarnada.

Podemos analisar a questão da mortandade que Israel causou em nome de Deus. O fato de um Pai (Deus) amar o seu filho (Israel), não significa que ele seja conivente com seus erros. Deus é desde o princípio contra o assassinato. Vemos isto quando Caim matou Abel e quis implicar Deus no assassinato, pois se Deus é responsável pelo bem de todos, por que não guardou Abel? E Jesus denuncia isto como grave.

Os detalhes dos textos nos mostram conflitos de interesses. Às vezes, encontramos a ordem para todos serem assassinados e outras vezes somente os guerreiros. Afinal, quando deve ocorrer uma ou outra coisa na guerra? Veja a diferença, do que deveria acontecer e o que de fato aconteceu a Jericó:

Deuteronômio 20:10-14 "Quando vocês avançarem para atacar uma cidade, enviem-lhe primeiro uma proposta de paz. Se os seus habitantes aceitarem e abrirem suas portas, serão seus escravos e se sujeitarão a trabalhos forçados. Mas se eles recusarem a paz e entrarem em guerra contra vocês, sitiem a cidade. Quando o SENHOR, o seu Deus, entregá-la em suas mãos, matem ao fio da espada todos os homens que nela houver. Mas as mulheres, as crianças, os rebanhos e tudo o que acharem na cidade, será de vocês; vocês poderão ficar com os despojos dos seus inimigos dados pelo SENHOR, o seu Deus.

Afinal a expulsão das nações era através do assassinato? Ou isto tudo tem a ver com as conflitantes interpretações religiosas da época?

Êxodo 23: 27-30 "Mandarei adiante de vocês o meu terror, que porá em confusão todas as nações que vocês encontrarem. Farei que todos os seus inimigos virem as costas e fujam. Causarei pânico entre os heveus, os cananeus e os hititas para expulsá-los de diante de vocês. Não os expulsarei num só ano, pois a terra se tornaria desolada e os animais selvagens se multiplicariam, ameaçando vocês. 30 Eu os expulsarei aos poucos, até que vocês sejam numerosos o suficiente para tomarem posse da terra.

Quando olho para Jesus, até mesmo na razão que Ele diz da existência do Templo, percebo que o desejo de Deus era estabelecer Israel como uma nação para todas as nações, ser benção para todos, e não destruir ou matar.

Uma coisa é Deus entregar uma questão, uma responsabilidade nas mãos dos homens, outra é considerar o que os homens pensam disto, ou como agem diante disto.

Ao mesmo tempo em que se matava no Antigo Testamento, temos uma lei ordenando tratar bem os prisioneiros de guerra e respeitar os estrangeiros.

O objetivo de dizer olho por olho, não era estabelecer um assassinato legalizado, mas uma maneira cultural de conter a violência.

Gn 9:5-6 A todo aquele que derramar sangue, tanto homem como animal, pedirei contas; a cada um pedirei contas da vida do seu próximo. "Quem derramar sangue do homem, pelo homem seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus foi o homem criado.

Quando Josué vai invadir a palestina, ele ordena que matem todos. Os profetas se levantam e atestam que o povo de Deus é ávido para derramar sangue, e portanto são pecadores.

Inclusive esta foi uma das razões porque Davi não pode construir o templo, pois o nome de Deus não poderia estar envolvido com pessoas sanguinárias.

1 Crônicas 22: 8 Mas veio a mim esta palavra do SENHOR: 'Você matou muita gente e empreendeu muitas guerras. Por isso não construirá um templo em honra ao meu nome, pois derramou muito sangue na terra, diante de mim.

Sabendo que Israel conhecia a vontade de Deus por Urim e Tumim, e convivendo em um tempo que guerra era uma questão de sobrevivência, concluímos que a religião judaica sempre interpretou Deus como um guerreiro, o Deus dos deuses que guerreava por seu povo e por isso imbatível, por ser o mais forte e que apoiava as batalhas.

Jesus revela que este tipo de compreensão não subsiste à realidade da vida.

Deus que é doador da vida, contra a morte, o Deus que é a ressurreição e a vida, que ordenou não matarás, cujo propósito desde a fundação do mundo é salvar, não participa dos absurdos humanos por mais que usem o nome dEle.

Lucas 9:54-55...os discípulos Tiago e João perguntaram: "Senhor, queres que façamos cair fogo do céu para destruí-los?" Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu, dizendo: "Vocês não sabem de que espécie de espírito vocês são.

Pessoas divididas, confusas e que não entenderam que Deus é salvador desde sempre e salva dando vida e não oferecendo morte.

Romanos 5:10 Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida!