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27.8.09

O FIM DO MUNDO - PARTE II


A lógica do fim do mundo pelas lentes do Apocalipse apresenta na história um banho de sangue, inúmeras pessoas loucas e diversas condenadas ao manicômio, prisão ou fogueira. Foi a causa de divisões na igreja, de guerras políticas e de intolerância religiosa.

David Herbert Lawrence, escritor inglês, considerava que o Apocalipse era o menos cristão dos livros do Novo Testamento, mas que teve mais influência na história do que os evangelhos.
Em 1920 escreveu em seu livro Apocalipse e as cartas da revelação, o seguinte:
"É muito agradável se você é pobre e não é humilde levar seus inimigos à total destruição e frustração, enquanto você se eleva à grandeza” e disse ainda que
o Apocalipse teve e talvez ainda tenha mais influência, na verdade, do que os evangelhos”.

Para um mundo analfabeto as letras e os números continham algo de mágico. A natureza com suas forças era um mistério assustador e pertencente à ira dos deuses.
Uma cosmovisão fantasiosa do mundo, o desconhecimento da funcionalidade da vida e a presença de crises, pestes e guerras produziu o ambiente mais propício para a manifestação de pregadores do fim do mundo, conhecidos como apocalípticos.

Arrependam-se porque este desastre é prenúncio do fim”, dizem sempre.

O problema é que esta lógica faz todo sentido para um mundo teologicamente sob a ira de Deus e cientificamente desconhecido.

Quando olhamos a história na retrospectiva dos apocalipsistas com suas profecias e interpretações proféticas, podemos afirmar que todos eles viveram crendo piamente no fim trágico para os seus dias.
Dentro deste raciocínio, o fato de não ter ocorrido conforme as indagações proféticas, nos permite nominar como sendo um atraso do fim. Em função deste atraso, questão manifestada pelo próprio Pedro, os seguidores da fé cristã não discerniram bem o que deveriam fazer. Alguns mudaram o discurso para uma adaptação à vida temporal e outros insistiram que o fim era iminente.

No início do século III Hipólito, teólogo romano, escreveu um longo comentário sobre o livro de Daniel, destituindo toda idéia de uma leitura literal, pois nos seus dias muitas pessoas se desfizeram de seus bens para aguardar o terrível Juíz. Contemporâneo a ele foi Orígenes que defendeu com veemência que pessoas sensatas eram aquelas que evitavam a literalidade da Bíblia.

Talvez a gente não valorize que o mundo até o século XVIII orbitava com outra lógica. Refiro-me a orbitar no sentido mais atual conhecido como paradigma.
As pessoas além de acreditarem em fadas, duendes e ogros, não duvidavam de árvores falantes, cavalos voadores e outras fábulas, antes as tinham como verdadeiras. Na história da França algumas famílias nobres alegavam descenderem de fadas. Existiam por todo lugar fontes encantadas habitadas e consagradas a determinadas fadas. Interessante lembrar que Joana D’Arc teve sua primeira visão perto da fonte de uma fada.
É assim que o Apocalipse se apresenta para seus dias.

O Apocalipse de João está envolvido pela cultura de sua época, que a meu ver mistura o reino encantado com o mundo real. Não se assuste, continue lendo para que faça sentido o raciocínio.
Para nós que vivemos após o mundo mecânico de Newton, estes textos só trarão significado se discernimos as figuras de linguagem que poderiam até serem vistas como descrições de fatos, mas são símbolos.

Para mim o Apocalipse apresenta dois tipos de linguagem: Cifrada e Fabulosa.
A mensagem cifrada trata de comunicar algo para ser entendido apenas pelos cristãos que viviam foragidos da perseguição. A mensagem fabulosa trata da crença comum e popular nos contos da época.
Uma coisa importante para se ter em mente, é que para João que conviveu com Jesus e viu os sinais do Reino e ouviu do próprio Senhor a mensagem de que o Reino chegara, ao comparar com a dura e oposta realidade que vivia, a dos césares, chegou a uma conclusão teológica:
  • Jesus se retirou e o mundo ficou do jeito que o diabo gosta (João 14:30).
  • Todas as desgraças presenciadas não tinham absolutamente nada a ver com Cristo, mas eram fruto do anticristo que já estava no mundo (1 João 4:3).
Por isso, usando símbolos da crença de seu tempo denunciou em uma mensagem cifrada que só poderia ser anticristo pessoas e situações como as que envolviam o império romano.
Calígula e Diocleciano que queriam ser venerados como Deus. Nero, o pior de todos apresentava características de um inumano, por isso era considerado no superlativo numérico imperfeito: 666. Número que passou a nominar a Besta. Segundo o historiador Eugen Weber, em armênio o anticristo é chamado de Neren. A moeda romana trazia a marca da Besta sem a qual ninguém podia comprar ou vender.

Hoje a matemática não é mais um mistério, bichos falantes fazem parte do mundo encantado das fábulas e não precisamos mais de códigos para descrever a realidade.

Não precisamos mais olhar para a manifestação do Reino de Deus com as lentes do livro do Apocalipse. Podemos fazê-lo pelas lentes do Sermão do Monte.
Muito mais verdade para nós é crermos nas palavras de Jesus sobre o Reino, do que a interpretação de João que esperava um banho de sangue do Vingador.

Desejamos sempre ver o Leão de Judá lidando com a história, mas conseguiremos apenas contemplar um cordeiro como que tendo sido morto.

Continua...

14.8.09

FIM DO MUNDO E A LÓGICA RELIGIOSA. – Parte I


Hesitei!
Depois de muito pensar resolvi me atrever e escrever sobre o fim do mundo. Sei que há uma ânsia generalizada pelo futuro.

O que dizer sobre o fim?

Já dei muitos estudos e defendi diferentes linhas teológicas. Corado de vergonha, confesso que acreditei naquilo que convinha aos meus pré-conceitos de salvação e eternidade. Mas a princípio apenas repeti o que ouvi, sem nada questionar.
Hoje depois de alguns questionamentos, tornei-me mais cauteloso.
Escolhi deixar o fim para o fim, e quando pensar nele, colocá-lo dentro de uma perspectiva específica.

Ao se colocar a Eternidade em perspectiva, há necessidade de dar ao Tempo-criacional uma razão existencial. Portanto, a eternidade numa relação com o temporal, coloca este numa condição de finitude que possibilita concatenar o seguinte:

Toda a Bíblia é escatológica. Jesus Cristo é escatológico. O "Haja Luz" inicial é o começo do fim. O Paraíso não é o começo do mundo, mas a utopia de como o mundo deve ser.

A partir daqui tentarei organizar um pouco minhas crenças, e você leitor, não precisa crer da mesma forma, exceto se fizer sentido e corresponder ao que você entende como Palavra de Deus. Caso sua pergunta se restrinja em saber se o que digo é bíblico, leia um texto anterior no qual discorro esta questão.

As verdades escatológicas que nos foram apresentadas, tiveram sua gênese em pressupostos de decretos e maldições divinas. O medo e a culpa foram utilizados para manipular os fiéis e o Apocalipse como comprovação desta falácia.

Se olharmos a história perceberemos que a ideia de lutar contra as injustiças neste mundo, tem pouco a ver com atitudes religiosas. A igreja herdeira do imperialismo, refletindo uma sociedade etnocentrista e escravagista, deu ênfase na pregação de que os infelizes poderiam em outra vida encontrar justiça e felicidade. Evidentemente desde que mediado por suas verdades.

A LÓGICA RELIGIOSA CRISTÃ.

Existem vários textos que outrora eu considerava um discurso sobre o céu, e hoje vejo como vida. Algo muito interessante é o julgamento descrito por Jesus em Mateus 25, quando ele trata da separação entre ovelhas e bodes. Sempre que ouvia pregadores utilizando este texto me sentia um bode, mas quando o lia me dava outra sensação.

Ao reler a história e contemplar a diferença entre o discurso religioso e o laico. Ao lidar com as diferentes sensações vindas dos pregadores usando os textos e eu mesmo os lendo, pude perceber que existia algo contraditório.

  • Se os últimos serão os primeiros e o mundo vindouro pertence aos que sofrem e este mundo é maldito, o que motivaria um crente a lutar contra as injustiças?
Afinal de contas nesta lógica, quanto mais injustiçado, mais chance se tem no reino.

  • Quando a eternidade é tão boa, por que lutar contra a morte?
  • Se for assim por que tentar ser feliz aqui neste mundo?

Quando observamos os avanços das ciências, percebemos que a causa da mobilização da humanidade em prol da vida, é justamente aquilo que a religião afirma ser maldição divina imprecada sobre um mundo perdido. Os homens criam ideais utópicos de um mundo-paraíso, justamente porque lutam contra um mundo-inferno.

Mas na lógica religiosa de um mundo amaldiçoado por Deus, torna-se difícil encontrar algo nobre e de valor que seja causa mobilizadora para o bem. Lembrando que no cristianismo fazer o bem esperando algo em troca, não tem valor algum. Portanto, se o bem for motivado pelas recompensas divinas, não há virtude alguma e muito menos cristã. Sem falar que aliviar o sofrimento de alguém poderia tirá-lo do início da fila e colocá-lo no final.

Se Deus amaldiçoou o mundo, lutar para fazê-lo melhor não poderia ser considerado como uma guerra contra a vontade do criador? Lutaria uma pessoa contra os decretos divinos e conseguiria contrariá-lo?
Se cumprir com a vontade de Deus neste mundo depende de entender e executar seus decretos e estes sendo de maldição, quanto mais desgraças um devoto assistir, mais glória a Deus deve dar, e quanto mais evitar que o mundo melhore, mais estará a serviço do divino e apressando o final.

  • Seria esta a lógica aplicada pela religião para sistematicamente se opor aos desenvolvimentos "mundanos" que trazem o bem?

Vemos na história, a religião se opondo à energia elétrica, ao parto sem dor, à nossa galáxia heliocêntrica, às técnicas de cura através de ervas medicinais, e ao controle de natalidade. Alguns religiosos em nome de Deus se opõem à globalização, à Internet, cartão de crédito e ao código de barras.

Mas esta oposição religiosa à vida não é nova. Até mesmo nos mitos gregos, símbolos como Prometeu, Ícaro e Ulisses que tentaram descobertas que iam além do dogmatismo e trariam desenvolvimentos para a vida, foram castigados pelos deuses.
E o clímax deste procedimento religioso oposicionista se levantou em nome de Deus contra Jesus; a Vida encarnada. Enfim, tudo o que promove a vida, a justiça e se posiciona contra malefícios e maldições neste mundo, parece encontrar oposição dos piedosos e aceitação mundana. Bom exemplo disto é o famoso apelido dado a Jesus pelos religiosos - amigo de pecadores.

Com isto em mente, dá para entender porque no julgamento das nações, aquele da separação entre as ovelhas e os bodes citado por Jesus, não há descrição de aspectos religiosos. A narrativa está protegida contra qualquer ideia que expresse um sentido religioso. Os benditos do Pai não têm qualificativos de piedosas devoções, mas de pura humanidade num encontro de nações.

E O OUTRO LADO?
Se a eternidade não rompesse com esta dimensão, mas desse certo tipo de continuidade. Se na eternidade a prioridade fosse levar os preteridos a experimentarem um profundo amor, mas ainda assim marcados por esta existência, a lógica de lutar contra as injustiças faria mais sentido. Não mais nos posicionaríamos contra os sofrimentos apenas por obediência a Deus, ou para recebermos recompensas, mas por ser imprescindível, necessário, nobre e de fato dar significado, sentido e desejo pelo Reino de Deus, além de revelar o verdadeiro amor que faz o bem e salva vidas.
Não quereríamos jamais que alguém atravessasse os portais eternos carregando em si marcas de injustiça desta vida. lutaríamos com todas as forças para que jamais uma pessoa carregasse para a eternidade marcas negativas de terem convivido conosco.

Se entendermos alguns textos como afirmações sobre a eternidade encontraremos algumas coisas interessantes.

Certa vez Jesus fez referência à possibilidade de uma pessoa na luta contra o mal, entrar na vida marcada para sempre (Mateus 18:8). Apesar de estranho se pensar numa eternidade com problemas, eu cito ainda o Apocalipse (6:10), que quando registra a abertura do quinto selo aponta para uma multidão de pessoas, que prejudicadas aqui neste mundo, clamavam por vingança na presença de Deus. Mesmo em se tratando de linguagem simbólica, é estranho pensar em alguém participando de um ambiente divino gemendo de dor e clamando por vingança.

Será que mesmo em se tratando de vida com Deus, uma vez que alguém tenha sido marcado, na eternidade ainda teria que lidar com estas marcas?
De fato é melhor deixar o fim para o fim, pois antecipa-lo é uma tarefa quase insana.

Com isto, cabe lembrar que nossa existência se deve a toda nossa história de vida. Coisas boas e ruins constituem nossa identidade. Ir para outro lugar sem memória é deixar de existir.
O conceito de reencarnação preconiza um retorno à vida, mas sem se saber o quem nem de que uma pessoa precisa se redimir. Se formos para outra vida sem sabermos de nada, de que serve esta vida?

No próximo texto darei continuidade ao tema para não ficar somente com perguntas. Deixo com você algumas de minhas (in)definições:


1 - Eternidade.
Uma realidade não possível de se dimensionar percebida apenas por analogias. Por isso prefiro pensar por outra categoria. Poética, abstrata e não definível. Esta dimensão ocorre em paralelo com a que vivemos, porém sempre conectada. Nela não se fala em tempo como conhecemos, mas em amor. A medida do tempo é o amor, pois Deus é Eterno; é Amor.

Temos em nossa realidade temporal algumas luzes que nos dão ideia da eternidade. São com janelas que nos abrem a oportunidade de contemplar esta dimensão eterna de Deus. Quem já amou profundamente sabe que nestes momentos é como se o tempo entrasse em supressão. Não faz diferença se o tempo passa ou não, aliás o tempo não passa, nós é quem passamos. Aquele que ama consegue viver segundos como uma eternidade e horas com a sensação de segundos.

2- Pós- morte
Assunto escondido e proibido de nós seres destinados à vida. Foi-nos dado a vida para ser vivida aqui neste mundo da melhor maneira possível e com os valores mais excelentes conhecidos pela humanidade.
Por isso ninguém pode afirmar absolutamente nada sobre o que vem a seguir da morte. Como tudo o que conhecemos é derivado do mundo sensível, falar de outra existência resulta apenas em especulações.
Creio que quando a Bíblia fala sobre este assunto, não intenciona descrever uma realidade, mas visa nos dar esperança. O cristão é convidado a viver plenamente a vida aqui e confiar em Deus independente de como seja a sequência da morte, Deus é.

3- Ressurreição
O corpo - carne e sangue - jamais ressuscitará.
Ressurreição não é vivificação de cadáver. As moléculas da qual se compõe o corpo físico voltam ao pó. Cada ser possui um identidade corporal espiritual para além do corpo físico e é este corpo que vive a vida eterna.
A vida ressurreta é a dimensão em que o ser humano é capaz de viver plenamente aquilo pelo qual lhe foi dado a vida. A ressurreição é a possibilidade de se viver sem as restrições como as que experimentamos no corpo físico.
Quando o ser humano morre, morre todo. Não há separação entre corpo e alma, mas sim o falecimento total. A ressurreição chama de volta à vida o ser, mas o corpo-pó permanece dissolvido. O corpo como conhecemos é pequeno demais para conter a vida em sua plenitude. Por isso nele apenas experimentamos o que poderá ser. Nele conseguimos inibir ou ocultar quem somos de fato. Diante de Deus não há possibilidade de ocultar nada. Seremos plenamente conhecidos.
A ressurreição é totalmente pela fé, pois certos de que morreremos na totalidade, confiamos nossa vida àquele em quem temos crido - a ressurreição e a vida - Jesus Cristo, que pode nos livrar da morte.

Eliel Batista

7.8.09

OS ENFERMOS SÃO AMADOS


Um texto bastante intrigante na Bíblia é o de Tiago 5:13-16.

Diz o seguinte, conforme a NVI

Entre vocês há alguém que está sofrendo? Que ele ore. Há alguém que se sente feliz? Que ele cante louvores.

Entre vocês há alguém que está doente? Que ele mande chamar os presbíteros da igreja, para que estes orem sobre ele e o unjam com óleo, em nome do Senhor.

A oração feita com fé curará o doente; o Senhor o levantará. E se houver cometido pecados, ele será perdoado. Portanto, confessem os seus pecados uns aos outros e orem uns pelos outros para serem curados. A oração de um justo é poderosa e eficaz”.

A este texto normalmente se atribui a maneira como o crente é curado, porém como muitas vezes não se alcança o resultado, adota-se como uma possibilidade. Isto porque a palavra fé concede ao intérprete a possibilidade da oração não ter alcançado seu objetivo por falta da mesma. Como fé não é algo capaz de ser medido, fica o critério ao “Deus dará”, salvando a pele do que ora.

Como não acredito que os textos bíblicos devam ser lidos como receitas de sucesso, penso que devemos adequar o mesmo ao tempo em que foi escrito.

A medicina como conhecemos é recente, fruto da modernidade.

Antes estava estritamente ligada à religião, cheia de misticismos e muito interpretada pelo viés do divino. O desconhecido que ameaçava a vida só poderia ter sua origem numa causa divina do bem ou do mal. Por isso cada grupo religioso diante de um quadro de enfermidade chamava seus curandeiros para realizarem seus trabalhos. Prescrevia-se algum medicamento como chás, emplastos, banhos ou técnicas conhecidas e junto realizavam-se rituais religiosos, como orações, unções, sacrifícios etc...

O cristianismo tinha diante de si o desafio de desvincular-se da Lei, ou do judaísmo, cujo responsável pelas curas eram os sacerdotes. Jesus por diversas vezes foi indagado sobre a possibilidade de realizar curas sem ter sido investido da autoridade sacerdotal.

Um enfermo deveria se apresentar ao sacerdote para receber as instruções de como proceder com aquela enfermidade.

Assim, Tiago o líder da recente igreja, determina que os crentes não se vinculem mais ao sacerdócio judaico. Existe uma nova comunidade, com outros critérios. Uma comunidade que crê, mas age.

Antes somente o sacerdote podia ungir. Símbolo de autoridade e de saúde. Mas agora, na igreja também existem pessoas, que mesmo desprovidas de qualquer linhagem sacerdotal podem falar com Deus. Agora a comunidade é terapêutica, não se encontra no poder sacerdotal, mas na relação com Deus – pode-se livremente orar.

O óleo como ungüento servia para aliviar feridas, mas como unção era para declarar que uma pessoa estava investida de algo especial da parte de Deus.

Portanto, se a enfermidade não fosse purulenta, para quê o óleo?

Para que ficasse claro, que com Jesus não existem pessoas mais especiais do que outras diante de Deus. O desprezado é querido. Deus ama o enfermo. Enfermidade não é castigo.

Assim como um rei pode ser ungido para uma missão especial, qualquer pessoa, mesmo enferma ou doente terminal, também tem sobre si a benção de Deus. Ela não é lançada fora do arraial para sofrer seus dias em abandono.

Podemos ler o texto desconsiderando uma época em que não havia recursos na medicina, e tentar encaixar a figura do presbítero-curandeiro hoje. Ou podemos compreender que há a busca por um rompimento com o judaísmo e o estabelecimento de uma comunidade sem diferenças étnicas, raciais, culturais, sociais e de gênero. Todos são amados por Deus. Todos podem e devem agir em prol do outro.

Esta nova comunidade não deve medir esforços para que cada pessoa e principalmente os desprezados tenham certeza do amor.

Há alguém que está sofrendo? Que ele ore.

Entre vocês há alguém que está doente?

Cuidem dele. Amem-no. Que ele se veja perdoado, sem maldição, mas abençoado – ungido – por Deus. Porque este é o tipo de atitude poderosa e eficaz que deve ter justo.


Eliel Batistta

3.8.09

Pastor "essencenário"


Convivi por alguns anos com pastores de outra geração que hoje são octogenários.

Pude aprender algumas coisas muito interessantes. Inclusive algumas delas me habilitam a realizar uma melhor sondagem de meus atos e intenções.

Hoje me sinto mais capaz de avaliar idiossincrasias que podem induzir uma pessoa a realizar uma (con)fusão entre aquilo que de fato é necessário com atribuições desenvolvidas de tal maneira, que culminam em necessárias na função pastoral.

Explico.

O pastor normalmente se percebe impulsionado a ser um suporte para os fracos e combalidos, um terapeuta aos flagelados de alma, um pacificador das guerras existenciais. Para a concretização deste impulso cada um tem seu dom e o canaliza para que se conclua esta vocação. Mas com o passar do tempo ele pode, por causa de suas habilidades e experiências, confundir o que era uma chama vocacional com apenas uma exigência de um cargo que ocupa e acaba por se tornar um penitente funcional.

Gosta do que faz, mas vive em conflito por considerar a concretização de sua paixão uma obrigação quase que penitente. Carrega o peso de um sacrifício suportável por se tratar de questões consideradas espirituais. Aquilo que faz deixa de ser uma realização e torna-se um cenário exigente no qual ele adquire um comportamento correspondente. Ele quer realizar como concretização de sua vocação, mas a maneira como se delinearam os fatos impingem a ele o papel de insubstituível, tornando em um pesado fardo o desenvolvimento de sua vocação.

Sem se perceber ele mesmo acabou criando um ambiente com diversos atributos vinculados somente à sua função, tornando-o útil e indispensável por causa dos seus talentos e habilidades para o bem do todo. Toda a sua bagagem própria constituiu o cenário para que a igreja se desenvolvesse.

Na prática, ao estabelecer uma igreja, ele com a mais bela das intenções, com o intuito de fazer o melhor e por causa de seus talentos, evidentemente encaminhou o progresso dentro da normalidade de qualquer outro projeto que prescinda destes ingredientes. Mas a falta de senso crítico e a sensação messiânica acabam influenciando o pensar para que se entendam tais resultados como fruto exclusivo do pastor essencial e indispensável. A interpretação de que estatísticas casuais sinalizam a providência e ação divina e uma unção especial, inibe avaliar os fatos como normalidade e não se perceber a armadilha criada. A isto atrevidamente denomino como o pastor que cansou a si mesmo. Por considerar-se essencial, montou um cenário para desempenhar sua função, tornou-se um essencenário.

Evidente que cada um tem um papel específico na existência, mas o bem do todo não se prende aos insubstituíveis.

Terrível ter uma vocação e se afligir com sua prática.


Quais os fatores sinalizadores de que a função está em conflito com a vocação?


  • A insatisfação com resultados alheios.

Como os resultados da aplicação de seus talentos garantem aplausos, ele torna-se o padrão de sucesso. Com isto surge o perigo de menosprezar os resultados alheios. A avaliação não se dá pelo pleno uso do potencial de cada um, mas pelo padrão de exigência estabelecido, leia-se: pastor.

A insatisfação com o resultado alheio se manifesta quando o pastor olha ao redor e o resultado daquilo que outros fazem não se adequada às suas expectativas pessoais. Por causa de ter a si mesmo e seus próprios atributos como referencial, exige daqueles que desempenharem tarefas que ele já tenha realizado, que o façam da mesma maneira que ele. Este critério de exigência impõe a seus companheiros de ministério a não agirem por vocação, mas para agradá-lo. Isto fatalmente não gera autonomia. Os resultados sempre serão insatisfatórios. Todos desaprendem a ser críticos, pois critérios são de agradar ao líder.

Se quando as pessoas se dedicam a realizarem um projeto, mas ainda assim são vistas como devedoras, pois o resultado segundo padrões exclusivos não são suficientes, a desmotivação se instaura e o desenvolvimento pessoal e coletivo travam. Diante de tal entrave, a solução mais prática e rápida para alguém que se vê como imprescindível é assumir a realização. Mesmo não alcançando o objetivo desejado, isto não é visto como deficiência, pois o pastor é visto apenas como salvador emergencial. Há a sensação de: “ainda bem temos um pastor assim”, pois a engrenagem continuou o seu funcionamento. Estas coisas comunicam que o cenário de indispensável é verdadeiro. O cansaço está estabelecido como regra.


  • O desrespeito pelas ovelhas íntimas.

Quando o pastor exige que as ovelhas íntimas, normalmente o cônjuge, os filhos, amigos mais próximos, saibam aquilo que ele sabe, mas nunca se dispõe a ensinar. Ele esquece que quem o rodeia também é uma ovelha. Normalmente o pastor se aprofunda teologicamente, se desenvolve espiritualmente e não se dispõe a caminhar na velocidade dos passos dos mais lentos. Fecha-se o espaço para o erro, os mais próximos não conseguem ajudá-lo e ele se vê sozinho e indispensável para realizar sua vocação. Neste compasso seus ouvidos se tornam muito seletivos e ele mais fala do que ouve, cria assim um ambiente de muitas palavras e pouco aprendizado. Instaura-se um cansaço auditivo dos que o rodeiam por ouvirem sempre e seu mesmo por não estar acostumado a ouvir outra voz que não a sua ou de sua seletividade. O sábio Salomão já dizia que a sabedoria está na praça, quem quiser a ouça.

Quais podem ser sinais agudizados?


  • Quando lidar com problemas se torna um problemão.

Todas as funções, toda liderança, todas as relações e todos os projetos demandam lidar com problemas. Mas no caso de um conflito entre função e vocação, os problemas não são vistos como desafios, mas como um atraso. Ao surgir um problema, junto vem aquela sensação de que novamente só o pastor pode resolver. O ambiente criado age como um bumerangue. Toda vez que surgir um impasse a solução encontrada será dentro do paradigma estabelecido de que somente os dons e a unção do pastor podem solucionar. Ao pensar em um problema ele se apresenta com mais intensidade porque mais uma vez ele terá que colocar em prática seus indispensáveis talentos e habilidades.


  • Quando ouvir conflitos alheios soa como cobrança.

Em igrejas principalmente, pessoas se encontram em conflitos e descompasso entre a proposta e a ação. Entre a teoria e a prática sempre existirá uma distância a ser percorrida, e a mensagem do evangelho é nobre e existem aqueles que são exigentes, perfeccionistas, com a auto-estima baixa que manifestam crises e conflitos. Para o pastor em conflito entre vocação e função um desabafo ou reclamação de uma pessoa, é percebido negativamente porque dentro do cenário montado, só faz sentido se soar como cobrança de seus indispensáveis talentos. Tendo a si mesmo como referencial, ele corre o perigo de se esquecer que aquilo que para ele não é ou nunca foi um problema, é para o outro.


O sintoma de gravíssimo:


  • Quando hesita em atender o telefone.

Se o toque causar certo pavor, a situação é calamitosa. Se o pavor vier quando souber quem está ao telefone, é um estágio avançando velozmente para o gravíssimo. Chamado para acolher pessoas e ajudá-las em lidar com a vida, mas com dores na alma de ter que atendê-las e resolver seus dilemas.

Bem, enfim o sintoma final de um pastor essencenário se dá no fim de sua vida. Estes com os quais convivi, homens bons, altruístas e visionários, sem más intenções e nem planos maquiavélicos acabaram construindo um cenário em que a igreja não sabe o que e nem como fazer em suas ausências. Igrejas se esfacelando, os mais velhos saudosistas e os mais novos sem nenhuma percepção da história. Ainda ouço frases nestes ambientes vindo da liderança: -“Isto o pastor não faria, não gostaria ou não quereria...”.

Olho para estes pastores e já passaram. Outros estão em seu lugar e desempenhando suas funções comprovando que não foram indispensáveis. O que mais me deixa pensativo é que apesar disto, o cenário não se desmontou, apenas trocaram-se os atores.


O que fazer?


Não sei, apenas fico com a recomendação de “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração”.

Quando a vocação se torna pesada ou uma cobrança aflitiva, acredito que é hora de parar para uma revisão. Observar a maturidade emocional de seus companheiros e a aptidão da igreja em desempenhar-se.

Uma coisa é certa, as denominações continuam, mas a grande questão é se os sonhos e visões continuam. Se aqueles que rodeiam sabem desempenhar seu papel, se estão apaixonados pelo que fazem ou apenas cumprem tabela. A paixão vem e vai, mas há necessidade de se ter sempre renovada a vocação.


É bom para o pastor que tenha o senso crítico sensível e perceber:

Seus companheiros sonham ou apenas dormem?