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3.8.09

Pastor "essencenário"


Convivi por alguns anos com pastores de outra geração que hoje são octogenários.

Pude aprender algumas coisas muito interessantes. Inclusive algumas delas me habilitam a realizar uma melhor sondagem de meus atos e intenções.

Hoje me sinto mais capaz de avaliar idiossincrasias que podem induzir uma pessoa a realizar uma (con)fusão entre aquilo que de fato é necessário com atribuições desenvolvidas de tal maneira, que culminam em necessárias na função pastoral.

Explico.

O pastor normalmente se percebe impulsionado a ser um suporte para os fracos e combalidos, um terapeuta aos flagelados de alma, um pacificador das guerras existenciais. Para a concretização deste impulso cada um tem seu dom e o canaliza para que se conclua esta vocação. Mas com o passar do tempo ele pode, por causa de suas habilidades e experiências, confundir o que era uma chama vocacional com apenas uma exigência de um cargo que ocupa e acaba por se tornar um penitente funcional.

Gosta do que faz, mas vive em conflito por considerar a concretização de sua paixão uma obrigação quase que penitente. Carrega o peso de um sacrifício suportável por se tratar de questões consideradas espirituais. Aquilo que faz deixa de ser uma realização e torna-se um cenário exigente no qual ele adquire um comportamento correspondente. Ele quer realizar como concretização de sua vocação, mas a maneira como se delinearam os fatos impingem a ele o papel de insubstituível, tornando em um pesado fardo o desenvolvimento de sua vocação.

Sem se perceber ele mesmo acabou criando um ambiente com diversos atributos vinculados somente à sua função, tornando-o útil e indispensável por causa dos seus talentos e habilidades para o bem do todo. Toda a sua bagagem própria constituiu o cenário para que a igreja se desenvolvesse.

Na prática, ao estabelecer uma igreja, ele com a mais bela das intenções, com o intuito de fazer o melhor e por causa de seus talentos, evidentemente encaminhou o progresso dentro da normalidade de qualquer outro projeto que prescinda destes ingredientes. Mas a falta de senso crítico e a sensação messiânica acabam influenciando o pensar para que se entendam tais resultados como fruto exclusivo do pastor essencial e indispensável. A interpretação de que estatísticas casuais sinalizam a providência e ação divina e uma unção especial, inibe avaliar os fatos como normalidade e não se perceber a armadilha criada. A isto atrevidamente denomino como o pastor que cansou a si mesmo. Por considerar-se essencial, montou um cenário para desempenhar sua função, tornou-se um essencenário.

Evidente que cada um tem um papel específico na existência, mas o bem do todo não se prende aos insubstituíveis.

Terrível ter uma vocação e se afligir com sua prática.


Quais os fatores sinalizadores de que a função está em conflito com a vocação?


  • A insatisfação com resultados alheios.

Como os resultados da aplicação de seus talentos garantem aplausos, ele torna-se o padrão de sucesso. Com isto surge o perigo de menosprezar os resultados alheios. A avaliação não se dá pelo pleno uso do potencial de cada um, mas pelo padrão de exigência estabelecido, leia-se: pastor.

A insatisfação com o resultado alheio se manifesta quando o pastor olha ao redor e o resultado daquilo que outros fazem não se adequada às suas expectativas pessoais. Por causa de ter a si mesmo e seus próprios atributos como referencial, exige daqueles que desempenharem tarefas que ele já tenha realizado, que o façam da mesma maneira que ele. Este critério de exigência impõe a seus companheiros de ministério a não agirem por vocação, mas para agradá-lo. Isto fatalmente não gera autonomia. Os resultados sempre serão insatisfatórios. Todos desaprendem a ser críticos, pois critérios são de agradar ao líder.

Se quando as pessoas se dedicam a realizarem um projeto, mas ainda assim são vistas como devedoras, pois o resultado segundo padrões exclusivos não são suficientes, a desmotivação se instaura e o desenvolvimento pessoal e coletivo travam. Diante de tal entrave, a solução mais prática e rápida para alguém que se vê como imprescindível é assumir a realização. Mesmo não alcançando o objetivo desejado, isto não é visto como deficiência, pois o pastor é visto apenas como salvador emergencial. Há a sensação de: “ainda bem temos um pastor assim”, pois a engrenagem continuou o seu funcionamento. Estas coisas comunicam que o cenário de indispensável é verdadeiro. O cansaço está estabelecido como regra.


  • O desrespeito pelas ovelhas íntimas.

Quando o pastor exige que as ovelhas íntimas, normalmente o cônjuge, os filhos, amigos mais próximos, saibam aquilo que ele sabe, mas nunca se dispõe a ensinar. Ele esquece que quem o rodeia também é uma ovelha. Normalmente o pastor se aprofunda teologicamente, se desenvolve espiritualmente e não se dispõe a caminhar na velocidade dos passos dos mais lentos. Fecha-se o espaço para o erro, os mais próximos não conseguem ajudá-lo e ele se vê sozinho e indispensável para realizar sua vocação. Neste compasso seus ouvidos se tornam muito seletivos e ele mais fala do que ouve, cria assim um ambiente de muitas palavras e pouco aprendizado. Instaura-se um cansaço auditivo dos que o rodeiam por ouvirem sempre e seu mesmo por não estar acostumado a ouvir outra voz que não a sua ou de sua seletividade. O sábio Salomão já dizia que a sabedoria está na praça, quem quiser a ouça.

Quais podem ser sinais agudizados?


  • Quando lidar com problemas se torna um problemão.

Todas as funções, toda liderança, todas as relações e todos os projetos demandam lidar com problemas. Mas no caso de um conflito entre função e vocação, os problemas não são vistos como desafios, mas como um atraso. Ao surgir um problema, junto vem aquela sensação de que novamente só o pastor pode resolver. O ambiente criado age como um bumerangue. Toda vez que surgir um impasse a solução encontrada será dentro do paradigma estabelecido de que somente os dons e a unção do pastor podem solucionar. Ao pensar em um problema ele se apresenta com mais intensidade porque mais uma vez ele terá que colocar em prática seus indispensáveis talentos e habilidades.


  • Quando ouvir conflitos alheios soa como cobrança.

Em igrejas principalmente, pessoas se encontram em conflitos e descompasso entre a proposta e a ação. Entre a teoria e a prática sempre existirá uma distância a ser percorrida, e a mensagem do evangelho é nobre e existem aqueles que são exigentes, perfeccionistas, com a auto-estima baixa que manifestam crises e conflitos. Para o pastor em conflito entre vocação e função um desabafo ou reclamação de uma pessoa, é percebido negativamente porque dentro do cenário montado, só faz sentido se soar como cobrança de seus indispensáveis talentos. Tendo a si mesmo como referencial, ele corre o perigo de se esquecer que aquilo que para ele não é ou nunca foi um problema, é para o outro.


O sintoma de gravíssimo:


  • Quando hesita em atender o telefone.

Se o toque causar certo pavor, a situação é calamitosa. Se o pavor vier quando souber quem está ao telefone, é um estágio avançando velozmente para o gravíssimo. Chamado para acolher pessoas e ajudá-las em lidar com a vida, mas com dores na alma de ter que atendê-las e resolver seus dilemas.

Bem, enfim o sintoma final de um pastor essencenário se dá no fim de sua vida. Estes com os quais convivi, homens bons, altruístas e visionários, sem más intenções e nem planos maquiavélicos acabaram construindo um cenário em que a igreja não sabe o que e nem como fazer em suas ausências. Igrejas se esfacelando, os mais velhos saudosistas e os mais novos sem nenhuma percepção da história. Ainda ouço frases nestes ambientes vindo da liderança: -“Isto o pastor não faria, não gostaria ou não quereria...”.

Olho para estes pastores e já passaram. Outros estão em seu lugar e desempenhando suas funções comprovando que não foram indispensáveis. O que mais me deixa pensativo é que apesar disto, o cenário não se desmontou, apenas trocaram-se os atores.


O que fazer?


Não sei, apenas fico com a recomendação de “Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração”.

Quando a vocação se torna pesada ou uma cobrança aflitiva, acredito que é hora de parar para uma revisão. Observar a maturidade emocional de seus companheiros e a aptidão da igreja em desempenhar-se.

Uma coisa é certa, as denominações continuam, mas a grande questão é se os sonhos e visões continuam. Se aqueles que rodeiam sabem desempenhar seu papel, se estão apaixonados pelo que fazem ou apenas cumprem tabela. A paixão vem e vai, mas há necessidade de se ter sempre renovada a vocação.


É bom para o pastor que tenha o senso crítico sensível e perceber:

Seus companheiros sonham ou apenas dormem?