
A lógica do fim do mundo pelas lentes do Apocalipse apresenta na história um banho de sangue, inúmeras pessoas loucas e diversas condenadas ao manicômio, prisão ou fogueira. Foi a causa de divisões na igreja, de guerras políticas e de intolerância religiosa.
David Herbert Lawrence, escritor inglês, considerava que o Apocalipse era o menos cristão dos livros do Novo Testamento, mas que teve mais influência na história do que os evangelhos.
Em 1920 escreveu em seu livro Apocalipse e as cartas da revelação, o seguinte:
"É muito agradável se você é pobre e não é humilde levar seus inimigos à total destruição e frustração, enquanto você se eleva à grandeza” e disse ainda que
“o Apocalipse teve e talvez ainda tenha mais influência, na verdade, do que os evangelhos”.
Para um mundo analfabeto as letras e os números continham algo de mágico. A natureza com suas forças era um mistério assustador e pertencente à ira dos deuses.
Uma cosmovisão fantasiosa do mundo, o desconhecimento da funcionalidade da vida e a presença de crises, pestes e guerras produziu o ambiente mais propício para a manifestação de pregadores do fim do mundo, conhecidos como apocalípticos.
“Arrependam-se porque este desastre é prenúncio do fim”, dizem sempre.
O problema é que esta lógica faz todo sentido para um mundo teologicamente sob a ira de Deus e cientificamente desconhecido.
Quando olhamos a história na retrospectiva dos apocalipsistas com suas profecias e interpretações proféticas, podemos afirmar que todos eles viveram crendo piamente no fim trágico para os seus dias.
Dentro deste raciocínio, o fato de não ter ocorrido conforme as indagações proféticas, nos permite nominar como sendo um atraso do fim. Em função deste atraso, questão manifestada pelo próprio Pedro, os seguidores da fé cristã não discerniram bem o que deveriam fazer. Alguns mudaram o discurso para uma adaptação à vida temporal e outros insistiram que o fim era iminente.
No início do século III Hipólito, teólogo romano, escreveu um longo comentário sobre o livro de Daniel, destituindo toda idéia de uma leitura literal, pois nos seus dias muitas pessoas se desfizeram de seus bens para aguardar o terrível Juíz. Contemporâneo a ele foi Orígenes que defendeu com veemência que pessoas sensatas eram aquelas que evitavam a literalidade da Bíblia.
Talvez a gente não valorize que o mundo até o século XVIII orbitava com outra lógica. Refiro-me a orbitar no sentido mais atual conhecido como paradigma.
As pessoas além de acreditarem em fadas, duendes e ogros, não duvidavam de árvores falantes, cavalos voadores e outras fábulas, antes as tinham como verdadeiras. Na história da França algumas famílias nobres alegavam descenderem de fadas. Existiam por todo lugar fontes encantadas habitadas e consagradas a determinadas fadas. Interessante lembrar que Joana D’Arc teve sua primeira visão perto da fonte de uma fada.
É assim que o Apocalipse se apresenta para seus dias.
O Apocalipse de João está envolvido pela cultura de sua época, que a meu ver mistura o reino encantado com o mundo real. Não se assuste, continue lendo para que faça sentido o raciocínio.
Para nós que vivemos após o mundo mecânico de Newton, estes textos só trarão significado se discernimos as figuras de linguagem que poderiam até serem vistas como descrições de fatos, mas são símbolos.
Para mim o Apocalipse apresenta dois tipos de linguagem: Cifrada e Fabulosa.
A mensagem cifrada trata de comunicar algo para ser entendido apenas pelos cristãos que viviam foragidos da perseguição. A mensagem fabulosa trata da crença comum e popular nos contos da época.
Uma coisa importante para se ter em mente, é que para João que conviveu com Jesus e viu os sinais do Reino e ouviu do próprio Senhor a mensagem de que o Reino chegara, ao comparar com a dura e oposta realidade que vivia, a dos césares, chegou a uma conclusão teológica:
- Jesus se retirou e o mundo ficou do jeito que o diabo gosta (João 14:30).
- Todas as desgraças presenciadas não tinham absolutamente nada a ver com Cristo, mas eram fruto do anticristo que já estava no mundo (1 João 4:3).
Calígula e Diocleciano que queriam ser venerados como Deus. Nero, o pior de todos apresentava características de um inumano, por isso era considerado no superlativo numérico imperfeito: 666. Número que passou a nominar a Besta. Segundo o historiador Eugen Weber, em armênio o anticristo é chamado de Neren. A moeda romana trazia a marca da Besta sem a qual ninguém podia comprar ou vender.
Hoje a matemática não é mais um mistério, bichos falantes fazem parte do mundo encantado das fábulas e não precisamos mais de códigos para descrever a realidade.
Não precisamos mais olhar para a manifestação do Reino de Deus com as lentes do livro do Apocalipse. Podemos fazê-lo pelas lentes do Sermão do Monte.
Muito mais verdade para nós é crermos nas palavras de Jesus sobre o Reino, do que a interpretação de João que esperava um banho de sangue do Vingador.
Desejamos sempre ver o Leão de Judá lidando com a história, mas conseguiremos apenas contemplar um cordeiro como que tendo sido morto.
Continua...
Olá Eliel!
ResponderExcluirMeu nome é Paulo Cesar Amaral.
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As duas águias e os três ramos
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