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11.5.09

Entre o Mythos e o Logos




Quase sempre vivemos a vida sem prestarmos atenção de onde saímos – como coletividade – e a razão de onde estamos, isto falando sobre a totalidade do ser – ações, pensamentos, posturas e compreensões.

Pensando sobre isto, me sobrevém a maneira como interpretamos ou compreendemos a Bíblia.


É muito comum no nosso Brasil evangélico, falarmos sobre arrebatamento, catástrofes apocalípticas, a responsabilidade de Adão que ocasionou a queda e na qual somos culpados quase que por genética.

Será que a comunidade da fé tanto hebraica como cristã, sempre entendeu a vida ou o mundo assim?

Dados historiográficos e a própria leitura do Antigo Testamento, nos revelam que não.

A leitura literal da Bíblia entrou em cena no período oitocentista. Destaco dois grandes personagens deste período: John Nelson Darby (1800-1882) dando ao livro do Apocalipse o status de verdade literal. E C.I. Scofield, que popularizou esta idéia no meio cristão protestante com sua Bíblia de referência, que se tornou um best-seller.


Com estes poucos dados dá para argumentarmos que até a Idade Moderna, a Bíblia – hebraica e cristã – era entendida como mythos. Toda a sua leitura partia da impossibilidade das razões humanas falarem sobre Deus, e que este poderia ser descrito apenas de maneira simbólica.

Mas como no final do século XIX ciência e racionalismo ditavam o conhecimento, a religião precisava ser racional para ser levada a sério. A fé a partir de então passou a demonstrar-se lógica, cientificamente válida, objetiva e literal.

A interpretação bíblica deixou de lidar com o texto como mythos e passou a considerá-lo como logos.

Isto levou os protestantes a lerem valorizando a letra dando à Bíblia o status de verdade factual e para que se validasse este raciocínio, usou-se a lógica circular. Única maneira de sustentar a Bíblia como verdade racionalista, ou a idéia comum de inerrância.


O evangelista João pode ajudar a nós cristãos a refazermos a leitura bíblica.

Em seu evangelho ele abre da seguinte maneira:

No princípio era aquele que é a Palavra (logos). Ele estava com Deus, e era Deus”.


O logos para o cristão não é o texto, mas uma pessoa divina – Cristo. O texto deve continuar sendo lido como o mythos que nos faz compreender com mais amplitude o logos sem confiná-lo à matéria. O logos é um ser biológico, mas não está confinado ao mundo material, por isso precisa da linguagem do mythos.

Quando João diz “era aquele que é” e “estava com”, remete qualquer leitor à linguagem do tetragrama YHWH, que expressa-se absurdamente com mythos e não com o logos. Este é um Nome constantemente se revelando.


ADENDO - (Esta expressão YHWH, possui o radical do verbo ser e como no hebraico não se declina o verbo, parece ser uma mistura verbal entre será, foi e é e ainda associado ao gerúndio do mesmo verbo. Como para a língua hebraica o verbo ser e o estar são o mesmo, João nos ajuda a compreender o Logos como uma Existência-ambiente divina que se instaura no Tempo. Loucura? Pois é, o racionalismo não é suficiente.

O gerúndio nos dá a idéia de existindo continuamente. E como estamos falando não apenas de um tempo que se estica, mas de um ambiente que permanece, tudo o que pensarmos sobre Deus, em função de nossa deficiência lingüística, precisa da linguagem que sempre foi usada pelos hebreus e cristãos até a Idade Moderna: o mythos).


Se admitirmos isto, abandonamos a leitura literal de Adão, tornando irrelevante sua existência factual como alguém de carne e osso que ocasionou a destruição do planeta perfeito de Deus pecando. Não existe pecado original e nem a queda, pois o texto não é logos, mas mythos. Pecado original é o meu e aquilo que se chama de queda é a descrição de nossa humanidade: somos assim; limitados e aventureiros. Nos foi dado a vida, num contexto em que certamente se morre. Poder-se-ia até dizer que viver pela fé é saber morrer.


Se quisermos dar à Bíblia o valor de científica teremos que incoerentemente definir Deus, valorizar a letra matando o espírito, ignorar os conhecimentos humanos, defender uma lógica circular e não dialogar com absolutamente nada que esteja fora do contexto religioso. Penso que se assim fizermos, contrariamos o sentido missiológico e negamos a fé em Cristo, pois colocamos em seu lugar a Bíblia, qualificando-a como o Logos.


Com isto resta uma pergunta:

Seríamos cristãos se qualificarmos outra coisa qualquer como Logos que não o Cristo?

3 comentários:

Fagulhas de Deus disse...

Cara, muito bom !!!!!!!
Sergio Paschoal

Josué Oliveira Gomes disse...

Sucinto e de boa assimilação esse seu texto, Eliel.
Muito bom.
Gostaria que vc me indicasse alguma outra fonte sobre essa temática mythos e logos!
Valeu...

marcioruno disse...

OI Eliel, ótimo texto cara. Evangélicos seriam os primeiros anti-cristãos, respondendo a sua última pergunta. Abraços.

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