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18.3.08

Re- Leitura. A Bíblia Para Hoje.


A REALIDADE DE DEUS EM CRISTO.

Precisamos aprender a ler a Palavra de Deus, indo além das palavras.
Linguagem mítica no conceito popular é um devaneio do imaginário; não real.
Temos hoje o conceito de estabelecer como verdade, somente o conhecimento empírico – observação e repetição.
Se para nós existe somente o que nos é concreto, dentro do critério observável e reproduzível, podemos afirmar que Deus não existe, pois ninguém jamais o viu, e por definição, o Deus incriado não é reproduzível.
Nas palavras de Andrés Queiruga: "a ciência não consegue provar a existência de Deus, e nem convencer alguém de sua não-existência".

A boa nova cristã anuncia em Cristo um Deus existente e perceptível que se pode tocar (1 João 1:1-3).
Quando Cristo assumiu a nossa realidade existencial, pudemos constatar a plenitude de Deus e termos uma clara percepção de quem Ele é: o “Eu Sou”.

O antes de tudo, visto como o "Ser" que antecede o "Existir".
A realidade de Deus é extremamente superior e anterior à nossa, isto leva à razão a percepção de que os pensamentos humanos a seu respeito, não são suficientemente capazes de exprimi-lo. Deus é muito mais do que podemos imaginar e não cabe na linguagem humana. Conclui-se aquilo que dizia Tomás de Aquino: “Deus só pode ser conhecido por semelhança”.

AS LIMITAÇÕES DA LINGUAGEM.

Somente uma linguagem que instigue os mais profundos raciocínios, pode ajudar a descrever a grandeza de Deus, coisa impossível por meio das realidades comuns, como por exemplo, o vocabulário humano.

Aquilo que a linguagem humana não é capaz de descrever ou definir, só pode ser conhecido por símbolos. O próprio Senhor Jesus quando fala sobre o Reino de Deus, o faz por semelhança através de parábolas, e quando se refere ao Pai, usa figuras terrenas do conhecimento humano.

Deveríamos nos sentir constrangidos em querermos que a simplicidade da escrita, mesmo em um livro inspirado, seja o retrato de Deus. O verbo encarnado é a exata expressão do Deus invisível. A Bíblia, palavra escrita, apenas deixa pistas de Deus através da história, preparando a sua plena revelação em Cristo (Gálatas 3:24-25).
A linguagem mítica, as parábolas, metáforas, fábulas, poesias, são instrumentos ricos para despertar as inspirações da alma, o sopro de Deus.

AS POSSIBILIDADES DA LINGUAGEM.

Quando lemos uma fábula não questionamos a veracidade de animais falando, mas buscamos apenas os seus significados.
Por que o relato da serpente falando precisa ser verídico?
Deus pode muito bem, através desta linguagem tão expressiva, comunicar sua realidade suprema.

Se Deus não tem boca como Ele fala?

Se não tem mãos como as estende?

Se não tem ouvidos como ouve?

Não seriam estas descrições de Deus, uma espécie de fábula divina?
Não seriam figuras de linguagem para comunicar o fato de que Deus nos ama, nos entende e nos acolhe e não para descrever como Deus fala, ouve e toca?

Não digo com isto que Deus seja uma fábula, mas que pela natureza limitadora das palavras, Ele se utiliza destas ricas formas e símbolos, para de alguma maneira se comunicar inteligivelmente, despertar o mais íntimo do nosso ser e nos levar a maravilhosos encontros com sua realidade divina.

Dada as limitações da linguagem humana, tudo o que se escrever sobre Deus não o define, até por uma questão de natureza – dê-fina o infinito (?). A história bíblica registra valores divinos “conformados” à realidade terrena.

Toda teologia só pode existir antropológicamente. Na linguagem humana recebemos os "insights" sobre Deus. Ele entra na nossa dimensão para podermos alcançá-lo.

A IDENTIFICAÇÃO DA LINGUAGEM.

Por outro lado, aquilo que conhecemos de Deus, mesmo numa linguagem simbólica não contraria aquilo que temos sobre Deus, ou não se poderia crer nele. Mais profundo e denso, mas jamais inferior ou contrário.
Se Deus é amor, o que conhecemos de mais amoroso e bom, por mais profundo que seja, ainda estaria aquém da realidade de Deus, mas jamais contrariando o que entendemos como amor.
Portanto, Deus não mataria um filho para ensinar uma lição para um pai. Jamais colocaria um marido numa sobrevida vegetativa, para ensinar alguma coisa para a esposa. Estas coisas se opõem ao que compreendemos de graça, bondade, benignidade e misericórdia.
A veracidade de um sistema de fé encontra-se na capacidade de descrever a realidade da vida.

A RE-LEITURA DA BÍBLIA: CRIAÇÃO, PECADO E SALVAÇÃO.

Ao ler a Bíblia dentro deste conceito, eliminamos a idéia de um texto atemporal, como se tratasse de um código moral eterno e também como uma descrição de fatos ou um ditado supra humano. Percebemos muito mais um descritivo de profundas realidades, através da história, da cultura e dos símbolos humanos.

Por exemplo: O relato da gênese humana descreve um modelo e ideal e não necessariamente um evento histórico. Assim, a narrativa adâmica do paraíso e pecado torna-se um símbolo representativo de toda a realidade humana na relação com Deus, independente do estilo literário. Comunica o ideal do Criador e a fragilidade ou fraqueza da criatura diante da proposta de Deus para criação. A história de Adão não necessariamente precisa ser verídica, pois isto não interfere naquilo que Deus quer comunicar e nem na inspiração divina.

Visto desta maneira, o relato bíblico da criação, não busca provar como todas as coisas existem, mas comunicar o Criador que criou tudo para si e, portanto não necessita conflitar com a ciência, pois se trata de outro assunto.
Pode se entender o relato do pecado como uma constatação da realidade. A existência se opondo ao propósito eterno e não uma queda. Um erro de alvo. A recusa em desenvolver-se em direção a Deus, por meio de Cristo. (João 16:9).

Porque Adão pecou e todos pecaram, não necessariamente significa que todos somos culpados pelo pecado de Adão, mas que tal qual Adão, limitados por natureza e em processo de construção rumo ao alvo.

Para viver a vida de Cristo é necessário a cada dia tomar a decisão rumo ao alvo. Para longe dele em direção contrária, configuraria o pecado.
O homem não nasce debaixo da condenação, mas da graça em Cristo Jesus (Romanos 5:17-18; 2 Coríntios 3:9-10).

Ler o relato do Paraíso é perceber que tal qual Adão, cada ser nasce no mundo com as mesmas condições de desfrutar do bem.
A cruz de Cristo garante a graça de Deus em nos deixar livres para alcançarmos o alvo.

Somente Deus é, e nós haveremos de ser (1 João 3:2).

Como criaturas, mesmo que não existisse a realidade do pecado, ainda assim a encarnação seria necessária, pois o homem foi feito “para Ele”. Isto significa que o menos – a criatura – se dirige para o mais – o criador.

Feitos para Ele”, requer que a criatura seja preparada a fim de participar da glória divina (João 17:21-23), ou jamais se uniria o finito ao infinito. Para isto, somente se o Criador se humilhar no encontro com a criatura.


Para o humano seria impossível participar do divino, mas o divino pode se tornar humano. Assim Jesus respondeu à pergunta dos discípulos: “Se é assim quem pode ser salvo?, Jesus respondeu: "O que é impossível para os homens é possível para Deus".”. (Lucas 18:26-27).


Eliel Batista

3 comentários:

Laercio Amorim disse...

A veracidade de um sistema de fé encontra-se na capacidade de descrever a realidade da vida.
Baseado nessa sua afirmação, diria que precisamos de uma investigação mais antropologica do que teologica do Cristo.
A mesma linguagem que limita e define, produz imagens (deuses) do Divino. Parece-me que a linguagem historica de Deus é o Cristo, nessa linguagem, a historia tem sentido na face daqueles que sofrem. Neles irrompe o misterio da realidade.

Marcio disse...

Lindo texto Eliel...Quantas vezes queremos ler a Bíblia com um olhar pos-moderno e científico? Erramos por limitar e achar que temos controle da Palavra de Deus...

murats disse...

Interessante como a linguagem, apesar de necessária, nos prende em gaiolas e nos impedem de voar... sobretudo a linguagem religiosa. Lembro-me de um teólogo muito criticado em seu tempo com a seguinte afirmção: "teologia” é “antropologia”, ou seja, falar de Deus é como falar do homem, e o homem só pode falar de Deus aquilo que lhe é dado em sua própria experiência.
Claro que para engolir isso tive que beber belas doses de digestivos para o estomago, pelo fato de não estar acostumado com uma comida tão pesada, retorci como que sofrendo dores de parto...hoje consigo falar com mais liberdade...mas confesso que doeu..rss
Valeu por tornar publica as suas reflexões...

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