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17.5.07

DEUS SOBERANAMENTE GRACIOSO


Porque a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens. (Tito 2: 11).

Haveria possibilidade da graça se manifestar de outra maneira que não salvadora?

CRIADOS NA GRAÇA.

Deus concedeu ao homem na criação a essência em ser. Entender a salvação a partir do pecado macula o homem de sua dignidade dada por Deus como sua Imagem e Semelhança. Deturpa o propósito eterno de Deus revelado em Cristo. Antes do pecado Deus É.
A salvação precisa ser considerada a partir de Deus em Cristo na Criação.
Feitos nEle, por Ele e para Ele, desde, e para sempre.

Preparado antes da fundação do mundo, o Cordeiro proclama a criação no ambiente da graça e o homem co-participante da natureza divina. Neste propósito eterno Cristo entra no mundo. A encarnação é o propósito eterno de Deus.
Desde sempre a vida de Cristo é salvação. O pecado entrou depois da vida. A priori não somos salvos do pecado, mas salvos por e para Deus. A morte de Cristo não nos salva, nos reconcilia para a salvação. A vida de Cristo nos salva.
Se quando éramos inimigos de Deus fomos reconciliados com ele mediante a morte de seu Filho, quanto mais agora, tendo sido reconciliados, seremos salvos por sua vida”! (Romanos 5: 10).

A salvação compreendida desta forma leva a perceber o pecado como recusa da graça criadora de Deus. Recusa de ter sido criado alma vivente destinado a tornar-se espírito vivificante. O pecado não destruiu o propósito divino. Evidente que o resultado desta rebelião causou morte.
A reconciliação restabelece o homem no propósito inicial de estar diante de Deus; isto é, para ser em Cristo. Cristo o Salvador antes da criação e o mesmo depois do pecado. O alfa e o ômega. Nele somos salvos.
Porque Deus nos escolheu nele antes da criação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis em sua presença”. (Efésios 1:4).

Satanás aproveitando-se da liberdade do homem usou o pecado para dissuadi-lo do propósito de Deus, a saber, a salvação eterna. Mas em Deus a maquinação destrutiva de Satanás, serviu de prova da liberdade humana, demonstração da graça e a comprovação do amor de Deus.

Entretanto, não há comparação entre a dádiva e a transgressão...” (Romanos 5:15a).
A destruição que a serpente intentou com o pecado, requereu uma manifestação mais abundante da graça. A perda tornou-se lucro. “Mas onde aumentou o pecado, transbordou a graça” (Romanos 5:20b).
A fidelidade de Deus, sua natureza que não nega a si mesmo, garantiu que Ele não traísse seu próprio coração e o amor se transformasse em ódio. Pelo contrário; o amor expresso na criação se transformou em amor imensurável na redenção. Deu a sua própria vida.

Ó profundidade da riqueza da sabedoria e do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos e inescrutáveis os seus caminhos! "Quem conheceu a mente do Senhor? Ou quem foi seu conselheiro?" "Quem primeiro lhe deu, para que ele o recompense?" Pois dele, por ele e para ele são todas as coisas. A ele seja a glória para sempre! Amém”. (Romanos 11: 33-35).

A PREMISSA CLÁSSICA DA SOBERANIA DIVINA.

Desde o século IV com Pelágio se propõe a incompatibilidade entre a graça de Deus e a liberdade do homem.
A imposição exigente em se escolher um ou outro adota neste primeiro momento, a liberdade como auto-suficiente.
Esta ênfase excessiva à liberdade humana coloca o homem em condição de salvar-se por si mesmo. Uma salvação sem Cristo.
Agostinho, ferrenho opositor de Pelágio, considerava isto como um retorno à pretensão farisaica de alcançar a salvação pela confiança nas obras. Agostinho se posiciona totalmente contra a necessidade de escolha entre a liberdade humana ou graça divina:
Deus não age sobre nos como se fôssemos pedras insensíveis, mas como seres dotados de razão e vontade”.
Se a justiça se alcança somente com os esforços da natureza, Cristo morreu em vão”.
Para Agostinho a salvação é a liberdade com graça. Ainda assim, muitas questões permaneceram em aberto.
Mais tarde o monge agostiniano Lutero, traz a questão de Pelágio de volta. Ele também interpreta a soberania divina incompatível com a liberdade humana, porém desta vez elimina-se qualquer pensamento que contrarie a Soberania Determinista de Deus. Sua opção pelo lado oposto a Pelágio deriva de sua concepção de que o pecado atingiu de tal maneira o homem, que transformou o livre-arbítrio em "escravo-arbítrio" e este só merece o castigo.

Na concepção protestante clássica de soberania, o Deus soberano suprime o homem. Para se compreender a salvação, submete-se o homem a um ser maldito e inutilizado em sua vontade e Deus distante, imóvel e irado.

O ateísmo fundamentado nesta premissa nega Deus para que o homem se liberte.
Feuerbach considerava indispensável a morte de Deus anunciada pelo louco apresentado por Nietzsche para que o homem vivesse.
Marx consolida a tese de Feuerbach: “um ser não é subsistente... mas deve sua existência unicamente a si mesmo”.
Um pensador, R. Garaudy, define como definitiva a morte “daquela gélida divindade” com bastante distinção dos ateísmos políticos e científicos dos séculos XVIII e XIX. A motivação do atual ateísmo não é pela negação, mas pela afirmação do homem.

PERCEPÇÕES
Percebemos no relato bíblico, que todo o homem independente de pecado, é um sujeito responsável diante de Deus. Criado como Ser, Deus o trata assim e sempre respeitará a condição humana de sua criação. Mesmo depois do pecado Deus nunca considerou o homem como menos ou uma coisa. Sempre lhe dispensou especial atenção. Para Deus o homem não é maldição somente o seu pecado. A encarnação vem demonstrar a dignidade humana e o seu valor para Deus.

Para se pensar sobre a graça alguns fundamentos são preciosos.

Dois valores rejeitáveis:
1- O pecado dotado de um poder destrutivo capaz de anular a criação divina.
2- A soberania de Deus na regência da criação que aniquila o ser humano.
Nem o pecado e nem a soberania divina anulam a pessoa. Esta boa dádiva de Deus concedida na criação é irrevogável. É o propósito eterno estabelecido em Cristo.

Dois valores consideráveis:
1 - A salvação não contraria a natureza da criação, ratifica-a.
2- A graça não anula o ser, afirma-o.

A MAJESTADE FULMINANTE DE DEUS

"Então disse Moisés: "Peço-te que me mostres a tua glória". E Deus respondeu: "Diante de você farei passar toda a minha bondade, e diante de você proclamarei o meu nome: o SENHOR. Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia, e terei compaixão de quem eu quiser ter compaixão". E acrescentou: "Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo" . (Êxodo 33: 18-20).

A natureza humana em sua pequenez e limitação, não subsiste quando confrontada com o único Deus, Santo, infinito e glorioso. Deus é um fogo consumidor.
Esta exposição levaria a corruptível carne à destruição automática.
Tamanha glória não cabe na finitude humana. Ela não concebe possível receber de alguma maneira bendita dádiva e pediria a própria condenação, ou morte.
A primeira tentativa seria a fuga. Na impossibilidade de se esconder da face do Altíssimo, a morte se apresentaria como única solução viável.

"Então os reis da terra, os príncipes, os generais, os ricos, os poderosos - todos, escravos e livres, esconderam-se em cavernas e entre as rochas das montanhas. Eles gritavam às montanhas e às rochas: “Caiam sobre nós e escondam-nos da face daquele que está assentado no trono”. (Apocalipse 6:15-16).

Adão tentou se esconder por não considerar possível permanecer na presença do Santo.
Isaías em um lampejo da glória de Deus gritou: - “Ai de mim que vou morrendo”.
Diversos outros como Manoá e Gideão visitados por uma teofania, desesperaram pela própria vida.
Impossível ver Deus e continuar vivo.


A MAJESTADE ATRAENTE DE DEUS.

Nossa prova de fé, é que "não o tendo visto amamos", (1 Pedro 1:8) porque quando o virmos será para sempre inibida a decisão de voltar atrás.
Caso alguém pudesse contemplar Deus em sua glória, o Amor emanante o restringiria a um único desejo. A perplexidade de tal maravilhamento criaria uma estática inibidora para qualquer outro bem além de Deus.
O imensurável Amor coagiria o homem de tal maneira, que inviabilizaria o amor humano como resposta espontânea, estabelecendo forçosamente uma relação.

Satanás levantou a suspeita sobre Deus ter uma natureza coercitiva, quando acusou que Ele inviabilizava as decisões livres de Jó com boas dádivas e proteção, “obrigando-o” a amá-lo.
O caráter de Deus não pode ser maculado por suas decisões e o Santo decidiu chamar o corruptível para dentro de si. “como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também estejam em nós”( João 17:21.).
Que eles também estejam em nós...” (João 17:21b).

Decidimos hoje o que desejamos para sempre.
Na antiguidade, os escravos alforriados, furavam suas orelhas como prova de que abriram mão de suas próprias vidas, para continuarem para sempre com os seus senhores.
A relação construída com seus senhores gerava o desejo de servi-los para sempre.

No mundo por vir não haverá mais pecado, porque quando o virmos, jamais o trocaremos por qualquer outra coisa. Ele é a concretização de todos os nossos desejos. Não haverá mais anseios passíveis de frustrações.
Em tese, contemplar Deus em sua Glória criaria uma atração irresistível. Anulariam-se todos os desejos, para somente Deus. Porém, de fato contemplá-lo resulta em morte.

A GRAÇA DEMONSTRADA.

"Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam. Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus". (João 1: 10-12).

O Ato criador é uma expressão do amor de Deus e não uma exibição de seu poder. Sem Ele que é amor, nada existiria. Tendo feito para si mesmo todas as coisas, demonstra a riqueza de sua graça e não o poder de sua força.
O Todo-Poderoso é gracioso.

Deus usa seu poder para que recebamos a sua graça.
E Deus é poderoso para fazer que lhes seja acrescentada toda a graça” (2 Coríntios 9:8).

A graça revela que o poder é perfeito na fraqueza e não na força.
Mas ele me disse: "Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza" (2 Coríntios 12: 9).

A riqueza da graça é demonstrada na bondade e não no poder.
para mostrar, nas eras que hão de vir, a incomparável riqueza de sua graça, demonstrada em sua bondade para conosco em Cristo Jesus”. (Efésios 2: 7).

Deus demonstra a graça em pobreza.
Pois vocês conhecem a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, se fez pobre por amor de vocês..” (2 Coríntios 8:9).

Para que o homem subsista em sua presença, Deus revela de si a bondade:
“"Diante de você farei passar toda a minha bondade...”; “"Você não poderá ver a minha face, porque ninguém poderá ver-me e continuar vivo" (Êxodo 33:20).

MEDIANTE A GRAÇA.

Há que se pensar sobre a graça resistível ou irresistível.

A magnitude da Glória incorruptível de Deus não salva o corruptível, ao contrário aniquila.
Por isso Deus ao revelar sua Glória o fez por meio da graça, que é a glória na medida abundantemente ideal. "O Deus de toda a graça, que os chamou para a sua glória eterna em Cristo Jesus". (1 Pedro 5: 10).
Desta maneira, Deus em seu amor puro e bom pode ser contemplado afetuosamente, atrair e não aniquilar. Porque se uma glória consumidora atrai e não destrói, pode ser resistida e de fato, deixa livre. Pode-se negá-la. Deus tornou isto possível.

Ninguém pode resistir a Deus.
" Desde os dias mais antigos eu o sou. Não há quem possa livrar alguém de minha mão. Agindo eu, quem o pode desfazer?" (Isaías 43:13)
Um vaso de barro para comportar o poder que a tudo excede precisa resistir.
Mas temos esse tesouro em vasos de barro, para mostrar que este poder que a tudo excede provém de Deus, e não de nós” (2 Coríntios 4:7).
Por meio da graça expressou todo o seu ser e "revelou sua justiça mediante a fé em Jesus Cristo para todos os que crêem, sem distinção" (Romanos 3:22). Assim o homem tornou-se indesculpável. Não há salvação para aquele que rejeita o bem.

Graça irresistível seria um oxímoro. A salvação só é possível por meio dela e ela é o amparo da existência e anteparo da destruição. Por definição não obriga o homem. Para Deus o homem tem valor, por isso deseja-os como filhos fiéis e maduros e não escravos involuntários.

Escreveu Juan De La Pena: “Graça quer dizer que Deus desceu, condescendeu com o homem; que o homem se transcendeu para Deus; que, portanto, a fronteira entre o divino e o humano não é impenetrável, mas permeável; e que, enfim, tudo isso acontece gratuitamente: Deus não tem a menor obrigação de tratar assim o homem, nem o homem têm direito algum de ser tratado assim por Deus”.

2 comentários:

  1. Eliel, sempre que visito você me sinto mais rico e cheio de graça. Declaro minha admiração pelo que tenho lido ou ouvido de você.

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